Cartas Para um Suicídio
1 Parte UM - Gabriel Martins
EPÍLOGO
“Há várias maneiras de se sentir sozinho”. Era o que eu dizia a mim mesmo tentando esconder o fato de que eu não tinha alguém do meu lado, pelo menos não alguém que entendia como eu realmente me sentia. Todos os dias eu me dizia isso e percebia o quão era díficil mentir para si mesmo, pois eu sempre sabia a verdade. Eu não me sentia vivo, mas também não estava morto, bom pelo menos não ainda.
É difícil estar ao lado de uma multidão que tão pouco sabe o que você passa e tão pouco se importa se você está passando por algo e ao mesmo tempo uma multidão que faz você querer morrer todos os dias. É confuso eu sei, mas é assim que eu me sinto, confuso, sobre quem eu sou, sobre o que eu quero e sobre como viver, na verdade sobre se quero viver.
“Eu vou sorrir e será um sorriso convincente”. Eu dizia a mim mesmo que ia recomeçar e ser uma nova pessoa e que assim tudo mudaria. Era o único jeito de eu conseguir seguir em frente, mas eu estava enganado. Como é possível sorrir quando já se sente morto por dentro e tudo que faltava era apenas me entregar à morte de bom grado?.
Muitos dizem que é tão fácil desistir de tudo, desistir de viver, mas fazer essa escolha foi a decisão mais difícil que já fiz em minha vida. Algumas pessoas, talvez muitas irão julgar a escolha que estou prestes a fazer, mas antes de me encher de julgamentos se pergunte se você não é um dos motivos pelos quais eu fiz essa escolha.
“E se o único jeito de não se sentir mal é parar de sentir qualquer coisa para sempre”. Talvez, só talvez, seja melhor desistir de tudo. Desistir da faculdade, dos amigos, aqueles que eu acreditava que eram meus amigos, da família e principalmente de minha mãe. Por isso essa é uma decisão difícil, porque conseguir se desligar de tudo isso não foi uma tarefa fácil, então não me julgue, por que você pode ser uma das razões pelas quais eu me entreguei a morte.
Talvez eu não seja bom o suficiente para alguém com minha idade. Tenho vinte e três anos e não tenho emprego, estou desempregado há mais de um ano, tentei várias vezes ir em entrevistas, mas nunca me chamavam e uma hora desisti de tentar. Parei de tomar os remédios da minha doença, depois eu te conto sobre ela na hora certa, mas o que você precisa saber é que por causa dela eu comecei a ir muito mal na faculdade e na minha vida no geral. Juntando alguns outros problemas somados ao fato de não suportar mais essa doença eu resolvi começar a me automutilar, não que alguém tenha notado, mas de alguma forma servia para aliviar o que eu estava sentindo.
Na maioria das vezes não me sinto bonito, não que eu seja feio, mas simplesmente não consigo me sentir bem comigo mesmo. As vezes eu sinto que preciso da aprovação de outras pessoas para poder gostar de mim mesmo, o problema é que há algum tempo eu não tenho essa aprovação e se outras pessoas não enxergam minha beleza eu também não consigo enxergar. Não sei se o problema está em mim ou nas pessoas que me relacionei, mas ninguém fica muito tempo ao meu lado, talvez eu não seja interessante o suficiente, bonito o suficiente ou eu apenas seja descartável, não sei. Não tenho muitos amigos, nunca fui o tipo de pessoa muito sociável e que se da bem com todo mundo e também nunca fui de sair, mas também ultimamente não faço mais questão de ter, eu estou cansado de ter que tentar fazer novas amizades e no fim sempre levar uma “facada nas costas”.
O fato que eu mais odeio sobre mim, além de todo o resto é que sempre fui de família humilde, em outras palavras pobre. Sempre foi muito ruim para mim não conseguir ter as coisas que outras pessoas tinham sem se esforçar nada. Eu precisaria me esforçar milhões de vezes mais para ter qualquer coisa, mas de um tempo para cá qualquer esforço mental ou físico me consome demais. A pior parte de não ter dinheiro é na faculdade, porque eu estudo em uma faculdade particular e faço direito, eu financiei a faculdade e mesmo assim as vezes é díficil pagar, principalmente agora que não estou trabalhando e para me ajudar ainda peguei algumas dependências.
Sei que ás vezes sou negativo, estou avisando caso não tenha notado. Eu tenho a conciência de que sou pessimista, mas eu acho muito melhor olhar a vida como ela realmente é: uma bosta. As coisas ruins pelas quais eu passei me tornaram negativo, percebi que era muito mais prático estar sempre para baixo do que sempre se frustrar com expectativas.
“Com a morte vem a paz”. Pode parecer um pouco trágico, um pouco dramático e um pouco melancólico e talvez seja mesmo, mas é assim que sou. Aliás meu nome é Gabriel, Gabriel Martins, você pode até achar que meus motivos são fúteis, mas não os julgue, ouça o que tenho para te falar, vou te contar minha história ou melhor a história de como minha vida chegou ao fim.
BULLYING
Há não tantos anos atrás quanto parece, quando eu estava no ensino fundamental era um pouco complicado conviver com as outras crianças, crianças podem ser muito más quando querem, ás vezes eu até sentia que não pertencesse a mesma espécie. Recebia muitos olhares de canto de olho, mesmo sem nunca entender o porquê, mas eu sentia que sempre havia algo em mim que não agradava as pessoas à minha volta, como se eu fosse diferente, de uma outra espécie.
Primeiramente havia minha altura. Eu sempre fui mais alto que as outras crianças da minha idade, eu estava acima da média de altura de que a maioria possuía, e por isso me achava estranho. “Girafa”, era como me chamavam, caçoando sobre minha altura, mas eu não queria ser ou parecer uma girafa, queria parecer eu mesmo.
Em segundo lugar havia meu corpo. Eu não era magro como as outras crianças, eu estava cima do meu peso, e por isso me achava feio e não gostava de tirar fotos. Muitas delas riam de mim e me chamavam de gordo, ou de baleia e eu não se queria ser uma baleia e nem que meu peso fosse motivo de chacota, eu só queria ser eu.
Em terceiro lugar havia meu cabelo, eu tinha cachos e eu os achava lindos, bom pelo menos por um tempo, até entrar em contato com as outras crianças. Em casa eu amava meu cabelo, mas quando eu saia para fora de casa eu o odiava, era mais fácil ter o mesmo sentimento de ódio das outras pessoas, do que me amar, então eu comecei a olhar no espelho e não gostava do que eu via, não porque eu, Gabriel, não me amava, mas não conseguia aceitar o que eu via no reflexo, eu só queria parar de ser eu mesmo.
Um bom tempo se passou e eu entrei adolescencia, mas as coisas continuavam as mesmas. As vezes eu ainda era a baleia e a girafa. E para minha surpresa mais nomes começaram a ser utilizados. Começaram a me chamar de “viadinho”, só por que eu tinha alguns trejeitos um tanto quanto femininos. Zombavam de mim por eu ser “nerd” e atacavam bolinhas de papel toda vez que eu acertava as respostas na aula, então eu simplesmente comecei a parar de responder as bolinhas de papel pararam.
Eu não era considerado o tipo de pessoa que tinha muitos amigos, porque na verdade eu não tinha nenhum, então eu precisava dar um jeito de fazer alguns e eu fiz. Fiz grandes amigos pelo computador, os jogos, não eram pessoas, eu sei, mas ao menos eu podia passar o tempo me divertindo e eles não me julgavam, claro que eu tinha que multar os chats no começo, porque jogadores são muito tóxicos, mas pelo menos o jogo em si não me xingava e bem, não falava.
ARMÁRIO
Mais ou menos nessa mesma época eu comecei a estudar sobre o corpo humano nas aulas de ciências e como os meninos começavam a ter sentimentos e atrações pelas meninas nessa idade, mas tinha algo errado comigo, na hora pensei que tinha alguma falha em mim. Cheguei até me perguntar se eu era uma aberração. Todos os meninos que eu conhecia tinham atração por meninas e ficavam falando sobre elas, mas tudo que eu conseguia fazer era olhar para eles e me atrair por eles, enquanto eles falavam os meninos olhavam para as meninas e faziam cantadas, eu só tinha olhos para eles.
Era tão esquisito ser “diferente” e não saber bem o porquê. Quando eu era criança e na minha fase de transição para a puberdade, eu não tive um pai para me apresentar as mudanças do meu corpo de menino para homem, ele havia morrido quando eu tinha sete anos, mas não sei se mudaria alguma coisa, pois quando ele estava vivo nunca foi um pai presente. De qualquer forma acho que eu teria de aprender sozinho.
Eu comecei a desenvolver cada vez mais essa atração por meninos, eu tentei me atrair por meninas, mas não funcionou. Todos os meninos já haviam beijado a esta altura, menos eu, porque eu não queria beijar uma menina. No fim das contas acabei beijando uma, minha turma meio que me obrigou a beijar uma menina no final de uma aula, foi horrível, porque eu não queria, mas tinha medo de dizer não e continuarem me chamando de “viadinho”, então eu a beijei para provar que eles estavam errados.
Quando eu ingressei no ensino médio eu descobri o que era ser homossexual e que estava tudo bem gostar de meninos e também que havia muitas pessoas como eu, mas ao mesmo tempo eu tinha medo de “sair do armário”. Eu queria poder me assumir para minha mãe, mas tinha medo do que ela falaria e se ela me aceitaria, e se ela me expulsasse de casa? E se ele começasse a me odiar? Eu só tinha à ela, e se ela me abandonasse eu não teria mais ninguém. Bem, para minha surpresa eu não precisei me assumir, porque ela fez isso por mim.
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