Cartas Para Uma Flor
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Yuri Plisetsky caminhava pelo enorme salão do castelo, onde ficaria pelo resto de sua vida – ou quase isso. A cada dia que se passava naquele templo, o garoto pensava em quando poderia voltar para sua casa e ser ele mesmo. Sem forçar sua voz ou sem agir como uma dama. Apenas sendo Yuri Plisetsky, um garoto jovem de apenas dezesseis anos de idade barulhento. Porém, as coisas não estavam funcionando como ele esperava.
Sabia que ficaria por no mínimo trinta ou quarenta anos no mesmo templo, servindo uma família desconhecida apenas para recuperar a honra de seus ancestrais e também, os que estavam por vir de sua família. Céus, por que o trabalho pesado ficava para um jovem? Seus pais estavam ocupados com o que, exatamente? O pior de toda a história era que a família Plisetsky estava apenas preocupada com os negócios de parte comercial e não com as pragas jogadas em sua família, maldições e coisas assim. Afinal, os Plisetsky não acreditavam em maldições. Apenas queriam que todos os vissem como ótimos parceiros comerciais.
Exceto Yuri, que acreditava em pragas e tinha total motivo para isso. O loiro tinha absolutamente má sorte. Mas não era aquela má sorte de três segundos que logo ia embora com o vento a levando, e sim má sorte de verdade. O que a família não tinha de maldição, Yuri Plisetsky tinha em dobro. Desde o dia em que nasceu, fora reconhecido como um alvo de tragédia.
Fora o escolhido para servir a uma família nobre que não era a sua, em outro país que não fosse o seu de nascença. Fora ele o escolhido para recuperar uma honra, e para isso, teria que abandonar todas as suas opiniões pessoais e seus gostos. Sua infância fora perdida e logo, sua vida também. Yuri era praticamente um escravo, mas um escravo bem vestido. Para o loiro, esse tal de “papel importante” dito no começo de tudo, desde que disseram que ele fora o escolhido, não existia. Em que lugar do mundo um escravo seria útil para alguém? Ele não sabia. Ninguém nunca dizia nada para ele.
Além de tudo, tinha que se vestir como uma garota. Todos o tratavam no feminino. Contudo, não podia sequer abrir a boca para reclamar. Era obrigado a suportar isso. Era obrigado a se fingir de garota e ainda sorrir de forma doce, como uma dama. Apesar de tudo, tinha um ponto positivo em tudo isso: Yuri Plisetsky era apaixonado pela dança tradicional japonesa. Ele a estava dominando quase que por completo. Por isso, o apelidaram de “Fada Russa”, pois parecia uma fada com seus leves movimentos da dança. Seus movimentos calmos transmitiam paz. Era algo prazeroso de se ver.
O templo onde Yuri habitava era o da família Katsuki, um dos maiores parceiros comerciais do Japão e que tinham total respeito de qualquer pessoa em qualquer lugar. Pessoas que não os conheciam eram praticamente inexistentes. Porém, Yuri detestava um dos integrantes da família: Yuri Katsuki, um jovem de vinte e poucos anos. Mas não era por causa do nome repetido, e sim pela sorte do garoto. Oh, céus. Daria de tudo para estar no lugar do filho mais jovem da família Katsuki. O garoto não precisava fingir que era uma pessoa que não era. O russo detestava admitir que sentia inveja do japonês.
A vida do russo não era assim tão ruim. Ele só não podia se comunicar com praticamente ninguém que não fizesse parte do templo da família Katsuki... Certo, era realmente algo horrível. Desta forma, Yuri não tinha amigos além das garotas do templo que achavam que ele era realmente uma garota. E não era muito difícil pensar que o russo era uma garota. Seu cabelo era comprido, seus traços eram finos, seu corpo era pequeno. Realmente parecia com uma garota jovem.
Ele não se sentia solitário. Talvez um pouco. Mas a dança preenchia este vazio. Ficava cerca de metade do seu dia praticando, embora não tivesse todo esse tempo. O loiro também tinha que fazer suas tarefas diárias. Levava cestas de alimentos pesados de lá para cá, regava as plantas – que no caso, eram todas do jardim -, fazia vários trabalhos domésticos, fazia compras na cidade, tinha aulas de etiqueta, de caligrafia, aulas de japonês e ainda tinha que praticar a sua dança – que era o ponto alto de seu dia. Tudo isso, com uma aparência impecável.
Yuri acordava cedo até demais. Porém, para alguém que praticamente nasceu acordando a esta hora, não era mais um problema. Já estava acostumado, não reclamava mais ao ser acordado ás quatro e meia da manhã. Tinha que levantar disposto para o longo dia que teria pela frente. Levantou-se rapidamente, precisava colocar seu traje. O mesmo kimono de sempre. O azul claro com detalhes na cor rosa e lilás. Yuri detestava kimonos, pois eram desconfortáveis. Mas realmente era um traje apropriado para a dança tradicional japonesa, então ele sequer pensava em abrir a boca para falar mal de alguém ou alguma coisa.
— Mais um dia. – Murmurou Yuri, para si mesmo. Já que se encontrava sozinho em seu quarto. – Saco.
Yuri se ajoelhou de frente para a Shoji – porta de correr de madeira e papel – de seu quarto, e quando levantou as mãos para abri-la, alguém a abriu antes. Antes que Yuri pudesse dizer qualquer coisa, o rosto de Mari Katsuki, a filha mais velha da família, que estava ajoelhada no chão da mesma forma que Yuri, logo apareceu. Ela se iluminou assim que vira o russo. Logo, se levantou.
— Bom Dia, Plisetsky. — Disse Mari, sorrindo.
— Bom Dia. – Respondeu Yuri, com um sorriso gentil no rosto. O russo detestava seu sorriso e não gostava de mostrá-lo para as pessoas. Mas não era opção quando se tratava da família Katsuki, era uma obrigação mostrar seu sorriso como forma de gentileza.
— Pode me acompanhar? Estou certa de que agora é o horário do café da manhã, mas há uma notícia urgente. – A mulher disse, encarando Yuri enquanto arrumava o kimono dele gentilmente. – Pode vir comigo até o salão principal?
Yuri fez que sim com a cabeça, esperando que ela o levasse logo.
Estava bravo logo de manhã. Deuses, não poderiam esperar até o fim do café da manhã? O garoto estava faminto. Mas não podia reclamar. Era uma regra a ser seguida. Tinha que sorrir e concordar mesmo que não concordasse com nada que fosse dito. Quando fizera seis anos, foi isso que seus pais lhe disseram. Yuri não gostava de se lembrar disso, pois fora a última vez que vira sua família.
Porém, Mari Katsuki sempre fora gentil com Yuri, como uma irmã que Yuri nunca teve. Quando o loiro era menor, os dois brincavam juntos. Embora Mari fosse uma menina muito ocupada desde pequena. Yuri gosta de pensar que só pode agir como uma garota com a ajuda de Mari, pois ela que esteve sempre perto dele e o ajudando com tudo que precisasse, sem nada em troca. Fizera tudo apenas por boa vontade. Sabia que ela não tinha culpa do mau humor de Yuri.
Foram andando calmamente até o salão enorme e escuro com enormes paredes vermelhas. Tinham grandes painéis e pinturas na parede com letras japonesas – que Yuri não sabia ler por serem muito avançadas para ele — com mulheres vestidas com kimonos, outros com samurais – pelo menos Yuri achava que eram samurais – valentes erguendo suas espadas para um enorme dragão. Yuri não entendia muito bem de coisas assim, então logo desviou o foco para o gongo no centro da sala. Ficava ao lado de um trono todo enfeitado dourado.
Yuri ficava tão impressionado com a decoração que sempre que ia lá, ficava viajando enquanto pensava nas histórias sobre aquelas pinturas bonitas nas paredes que se esquecia de completamente das coisas ao seu redor. No caso, esqueceu-se de que havia mais gente no salão. Hiroko Katsuki, Toshiya Katsuki e Yuri Katsuki já se encontravam no centro do salão conversando entre si. Havia mais alguém no meio deles, o qual Yuri não fazia ideia de quem era e de seu paradeiro, mas tinha certeza de que não era da família, pois ele tinha pequenos olhos negros, era alto e seu cabelo era curioso, era todo para trás e era totalmente preto. Usava uma roupa que aparentava ser um traje de algum nobre. Yuri nunca vira nada parecido. Queria saber quem era o homem e o que fazia ali.
— Oh, Yuri. Já está aqui? – Indagou Hiroko, uma das principais integrantes da família Katsuki. Era a mãe do Yuri Japonês.
— Oh, perdoe-me pela grosseria. – Disse Yuri, curvando levemente sua cabeça. – Bom dia a todos.
Yuri estava tão nervoso que poderia rir de si mesmo e depois surtar. Céus. Esquecera-se de cumprimentar cada um da sala. Yuri Katsuki pareceu achar graça do que o russo disse. Sua pronúncia de japonês não era lá muito boa. Segurou-se para não fazer nada inadequado perto de Hiroko Katsuki e de Toshiya Katsuki – pai do Yuri Japonês. Teria que agir como uma jovem dama educada. O que era difícil, porque não era assim que se sentia por dentro. Mari Katsuki estava quieta ao lado de Yuri. Aguardou a resposta da mulher, que parecia estar processando sua fala.
— Yuri, precisamos de sua dança no festival desse ano. – Disse Hiroko, sem mais nem menos.
Yuri sabia que aquilo não era pedido, e sim uma ordem. Ele sorriu, concordando com a cabeça. Porém, não era aquilo que gostaria de ter feito. Queria negar com todas as forças possíveis. Dançar para si mesmo era algo, agora dançar para várias pessoas era algo completamente diferente. Não queria. O festival era algo muito famoso pela cidade, era conhecido por todos. Yuri já sabia como era, pois já fora diversas vezes, mas nunca chegara a apresentar sua dança tradicional. Não se achava digno para isso. Ele nem mesmo era japonês, que direito tinha de sair por aí apresentando uma dança que nem mesmo tinha relação com a pessoa que era?
— Vai ficar tudo bem. – Disse Mari, calmamente. – Todos sabem do que você é capaz.
— Obrigada. – Respondeu Yuri, levemente incomodado.
Yuri olhou de relance para o garoto desconhecido, que curiosamente estava o encarando. Na hora, o loiro desviou o olhar para o chão. Queria mesmo saber quem era ele. O que fazia com os Katsuki? Sabia que não poderia abrir a boca para falar com ele, já que provavelmente não era da família.
Toshiya se dirigiu a Yuri.
— Irei suspender todas as suas atividades, foque apenas na dança. Você irá representar a nossa família. – Disse Toshiya Katsuki, com a voz amarga. – Comece assim que se alimentar. Minako estará te esperando.
O pior do festival era que apenas uma família ganhava. Ou seja, um representante vale como praticamente a família inteira. E obviamente, e ganhasse, teria o respeito de todos. É por isso que a família Katsuki era tão conhecida. Sempre ganhavam das outras famílias. Porém, o mesmo representante não pode concorrer. Apenas um por ano. Agora, Yuri iria representar a família Katsuki, deuses.
“Minako Okukawa”. Aquela mulher era sem dúvida a pessoa que Yuri Plisetsky mais admirava desde que conheceu a dança no estilo japonês. Ela dançava de forma bonita e com graça. O russo se baseava completamente nela. Afinal, aprendera a dança por culpa de Minako. Ela ensinou ao loiro tudo que sabe. Não pode deixar de sorrir assim que fora dito o nome dela.
— Certamente. – Concordou Yuri.
— Está terminado. Vocês podem ir. – Disse Toshiya. Agora, se dirigindo ao garoto alto de antes. – Altin, podemos conversar agora? Desculpe a interrupção, digamos que você chegou um pouco cedo demais.
— Sem Problemas. – O homem respondeu.
Yuri teve que sair do salão, já que o assunto já havia acabado. Mas gostaria de ter permanecido onde estava. Queria saber mais daquele tal de “Altin”. O que fazia lá?
Certo, seu foco não era esse. Tinha que se concentrar em sua apresentação para o festival. Por mais que detestasse a ideia, era uma ordem. Não poderia decepcionar a família Katsuki. Claro, sua ordem não era ganhar, e sim representar a família – que nem mesmo é a família dele – mas tinha que se esforçar para isso. Os concorrentes sempre foram fortes. Yuri sempre os observou, mesmo que de longe. Isto também contribuiu para que o russo ficasse totalmente apaixonado pela dança. Por isso, ganharia a qualquer custo. Mesmo que seus pés ficassem doloridos por conta dos tamancos que seriam de uso obrigatório, ou mesmo que o traje incomodasse e machucasse. Afinal, só havia um vencedor, e teria que ser Yuri.
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