Cartas Para Julieta
26 Capítulo 26
Notas iniciais
–Jesus, eu to com tanta fome. –ela comentou. –Não tem nem uns sanduichinhos de “boas vindas” não? Que pobreza... Mas enfim... O que acha de irmos à um café ma-ra-vi-lho-so que eu vi ali na esquina? Temos muito o que conversar! Afinal, temos uns bons 12 anos de assuntos para contarmos uma à outra. –disse sorrindo.
Esse seria um longo dia.
Chegamos ao tal café, nos sentamos e começamos a conversar. Até aí tudo bem... Tudo parecia normal, e Rachel se comportava como uma pessoa civilizada. Porém a cena que viria a seguir conseguia ser pior que aqueles filmes baratos de terror.
–Então, as senhoritas já sabem o que pedir? –perguntou o garçom.
–Não sei... Teria você no cardápio? –perguntou Rachel na maior cara de pau.
Essa cantada é mais velha que a minha avó.
–Um cappuccino, por favor. –eu disse rapidamente, vendo o desconforto do rapaz a nossa frente.
–Ai, era brincadeira. –disse Rachel. –Porque eu não poderia te comer literalmente... Só se fosse por trás.
Alguém. Me. Tire. Daqui.
–Então, eu vou querer um prato de panquecas com muita calda de chocolate, dois brownies, porque eles parecem muito pequenos nesta foto do cardápio, um misto-quente, duas porções de bolinhos, um prato de bacon com ovos fritos, e para beber uma Coca diet, porque eu estou de dieta. –disse ela me um fôlego só. –Ah! E para sobremesa eu quero uma taça grande de banana-split e um copo de Milk shake de morango, e outro de chocolate. E é claro que a minha amiga Santana vai me acompanhar, então traga um desses bolinhos de chocolate para ela.
O garçom anotou tudo, e olhou para nós.
–Só isso?
–Sim, acho que não esqueci de nada. –disse Rachel pensativa. –E capriche na minha porção de bacon! Eu amo bacon.
–Sim, senhora. –disse o rapaz parecendo espantado. Mas não o culpo, afinal, quem não estaria? –Com licença.
–Rach... Você não pode sair por aí cantando garçons... –falei massageando minha têmpora.
–Que nada, é claro que eu posso. –disse ela dando de ombros. –Sou solteira, lembra?! Aquele bicha do Finn terminou comigo...
–Sinto muito... –falei abrindo um sorriso triste.
–Não tem problema. Não é como se nós estivéssemos prestes a nos casar, e eu o pegasse na nossa cama, na nossa casa, com uma mulher 40 anos mais velha que eu. –disse ela com os olhos serrados. –E depois disso, ele ainda teve a cara de pau de dizer que sentia “tesão por mulheres mais experientes”. Mas ainda bem que não foi isso que aconteceu... –suspirou.
–Ah... –disse, desviando o olhar.
Parece que eu não sou a única fodida no amor.
–Então... Há quanto tempo você não transa?
–O quê?! –se eu estivesse com alguma coisa na boca, com certeza já estaria na cara da Rachel. –Eu sou casada, Rachel...
–E daí? Quem disse que quem é casada transa? Por favor, Santana... Sejamos honestas uma com a outra. Agora somos melhores amigas, não lembra? –disse ela fazendo-me revirar os olhos. –Você anda muito estressada. Não deve transar a séculos! E tá na cara que você não ama seu marido.
–Como assim? –perguntei depois de um tempo em silêncio.
–San, eu sou muito boa em “ler” as pessoas. Se você realmente fosse apaixonada por seu marido, já o teria mencionado ao menos uma vez nesta conversa.
–Eu amo minha filha, e não a mencionei também. Isso não quer dizer nada, Rachel.
–Não misture as coisas, San. Sei que ama sua filha, afinal, ela é sua filha e acredito que ela seja tudo para você. –suspirou ela. –Eu vi muitas fotos dela na sua sala, mas nenhuma de seu marido. Na verdade nem uma única foto continha sequer a presença dele. Por que não me conta o que acontece entre vocês? Eu sou muito boa em guardar segredos.
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–CARALHO, TU É LÉSBICA? –gritou Rachel.
Grande ideia, Santana. Conte tudo à Rachel.
–Shiiii, quer calar a boca? –sussurrei ao ver algumas pessoas olharem para nossa mesa. –E eu não sei, até hoje eu só senti atração pela Brittany.
–Desculpa... Mas e aí... Essa Britney é gata? –perguntou com a boca cheia.
Sim, nossos pedidos haviam chegado há algum tempo, e eu estou realmente impressionada com a habilidade de Rachel em comer. Até porque esse é seu terceiro prato de bacon frito...
E não podemos esquecer de que ela havia pedido outras coisas também.
–É Brittany. E sim, ela é maravilhosa... É simplesmente a mulher mais linda que eu já vi na vida.
–Assim você me deixa triste. –disse Rachel fazendo bico e terminando seu último brownie.
–Por quê? –perguntei confusa.
–Porque eu achei que eu fosse a mais linda. Mas enfim... Você vai comer esse seu bolo aí? –perguntou apontando para o prato a minha frente.
–É todo seu. –disse, apenas em tempo de vê-la se debruçar sobre a mesa e pegar o bolinho.
–Isso tá muito bom, você deveria experimentar. –falou Rachel, lambendo os dedos logo em seguida. –E o sexo é bom? Digo, sexo com mulheres?
Bem... –suspirei sentindo minhas bochechas queimarem.
–É ótimo, não é? Tá estampado na sua cara, San. –riu Rachel. –Preciso experimentar também... E você foi passiva ou ativa?
–Ah, pelo amor, Rachel! –explodi. –Isso é pergunta que se faça?
–E daí? Somos amigas, contamos tudo uma à outra! Mesmo não tendo nos visto nos últimos anos... –disse ela calmamente. –Você foi passiva.
–Ah, cala a boca, Rachel. –peguei minha bolsa, e de dentro tirei uma quantia em dinheiro, depositando em cima da mesa logo em seguida. –Eu vou embora. Fique aí comendo seu bacon!
–Ah, Santana, não leve as coisas tão a sério! –disse ela levantando-se da cadeira, assim como eu.
–Então pare com essas bobagens, alguém pode ouvir! –ralhei. –Tudo isso é passado, Rachel. Brittany é meu passado, e está enterrada com ele, ouviu? Eu não quero mais me lembrar de algo que me fez feliz e que eu sei que nunca vai acontecer novamente. –suspirei, tentando me acalmar. –Eu já estou cansada de sofrer por essas lembranças.
Rachel olhou para mim, e em seguida deu a volta na mesa, pegando-me de surpresa com um abraço.
–Me desculpe. –disse ela baixinho em meu ouvido, separando-se de mim. –Mas sabe, uma das coisas que eu aprendi lendo seu livro, foi que o que é verdadeiro não tem uma data de validade. Talvez, e apenas talvez, você tenha desistido daquela garota. Entretanto, sabe que no fundo ela ainda está aí dentro, e seu coração ainda bate por ela. –disse apontando para o meu peito. –Você acredita em destino, Santana?
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Destino.
Essa é a palavra que eu mais faço ligação à Brittany. Talvez por causa daquela nossa conversa sobre este mesmo assunto, e por nosso beijo que veio mais tarde... Talvez porque nos conhecemos em circunstâncias extremamente estranhas, e eu acabei me apaixonando por ela. Ou talvez por ela ser minha alma gêmea.
Eu realmente não sei.
E desde aquele dia na lanchonete, onde eu tive a conversa com Rachel, essa palavra vem me atormentando.
Eu não consigo parar de pensar na carta que escrevi à Claire.
“E se”... “E se”... “E se”... E se eu tivesse ficado com a Brittany? Eu seria feliz agora?
Claro, por um lado, ficar com ela sempre fora meu maior desejo. Mas eu não me arrependo do que fiz. Eu tenho minha filha agora. E é nela que eu devo focar, não em algo de um passado tão distante.
Entretanto, Rachel tem um ponto. Se é amor verdadeiro, ele realmente vai acabar?
–Suspirei baixo, e fixei meus olhos nos papéis jogados em minha mesa.
Tenho apenas 3 dias para entregar alguma matéria, notícia, história... Qualquer coisa que eu queira escrever, mas nada me vêm à mente.
Talvez eu só precise deixar isso para mais tarde, e tentar me divertir. Eu não consigo me lembrar da ultima vez que fiz algo por diversão...
–Posso entrar? –perguntou Rachel já entrando na minha sala, ignorando minha resposta, e me tirando de minha “sessão depressão”.
–Claro, Rachel. Fique a vontade! –respondi sarcasticamente.
–Então, o que a gente vai fazer hoje? Por favor, assistir “Um Amor Para Recordar”, de novo, não... –disse ela jogando-se no pequeno sofá no canto da sala. –Por que não saímos hoje? Será divertido! Vamos, San?!
–Eu não sei, Rachel... Eu tenho a Manu. E o Sam ficaria irritado. –respondi desanimada.
–Leva o caçapa junto. –disse ela olhando para suas unhas. –E quanto a Manu, a gente deixa ela com uma babá. Simples!
–Ok, eu vou pensar. –respondi.
–Ótimo! –comemorou Rachel feliz. –Agora, o que acha de irmos ao Central Park procurar o João?
–Quem diabos é João? –perguntei.
–O vendedor de maçã do amor, sua anta. –disse, me olhando incredulamente. –Achou que fosse quem? O vendedor de pipoca é o Luís.
Só... Nossa.
Olhei para o relógio, e vi que estava quase na hora da Manu sair da aula de balé.
–Que tal irmos pegar a Manu na aula de dança? Aí no caminho nós compramos sua maçã, Rach. –sugeri.
–Para tudo. –disse ela. –Você me chamou de “Rach”, e disse que vai pegar comida para mim, na mesma frase? Preciso registrar esse momento.
–Cala a boca e vamos. –falei, pegando em seu braço e puxando-a para fora da sala.
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–Nossa, como isso é grande. –disse Rachel olhando para todos os lugares da academia de dança. –Imagina como um restaurante de frutos do mar ficaria ótimo nesse lugar?! Ou talvez uma pastelaria! Pastéis... Preciso dar essa ideia para o João.
Revirei os olhos, e apenas segui em frente com o gnomo atrás.
–Santana? –ouvi uma voz atrás de mim.
–Olá, Patrícia! Como está? –perguntei me aproximando da mulher.
–Ótima, na verdade. Minha noiva chega hoje de viagem! –respondeu ela sorridente. –E você é?
–Rachel Barbra Berry, futura “José Lins do Rego”, só que mulher. –disse Rachel.
–Quem? –perguntou Patrícia.
–Um escritor... Mas eu apenas o citei por seu sobrenome ser muito legal. Na realidade eu sou jornalista, colega da Santana. –falou Rach. –Vocês têm café aqui?
–Infelizmente não, só na sala principal. –disse Patrícia.
–Ah, que pena... Onde fica? –indagou Rachel esperançosa.
–Sinto muito por essa daqui... Rachel fala demais. –interrompi, e vi Rachel fazer uma cara emburrada. –E a Manu?
–Ela está com as coleguinhas. Estão combinando algo relacionado com “festa do pijama”. –disse Patrícia, fazendo aspas com os dedos.
–Oi, mamãe! –senti alguém tocar minha perna. –Oi, tia Rach!
–Olá, minha linda! –segurei Manu em meus braços e depositei um beijo em sua bochecha. –Vamos?
–Mamãe, a Sophie vai dar uma festa do pijama essa noite, eu posso ir? –perguntou Manu, fazendo sua melhor cara de pidona.
–E vocês já conversaram para ver se a mamãe da Sophie vai deixar? –perguntei.
–Sim! A mamãe da Soph está lá no estúdio, mãe. –disse ela.
–Está bem. Vá lá com as meninas que eu já vou falar com a mãe da Soph. –respondi, e assim Manu desceu do meu colo e correu pelo corredor.
–Olha que ótimo, San! Tudo está a nosso favor para sairmos hoje! –disse Rachel. –E porque você não vai junto? –disse Rachel para Patrícia. –Vai ser legal! Leve a sua noiva.
–Eu? –perguntou Patrícia parecendo surpresa. –Nem sei se ela vai querer. Ela chega hoje de viagem, deve estar muito cansada.
–Que nada! Vai ser divertido. –insistiu Rachel. –Às 20 horas, na casa de espetinho do Zé. Marcado?
–Que porra é essa? Não! –exclamei indignada. “Casa de espetinho do Zé”... Eu mereço.
–Porque não vamos ao restaurante do Truta? Aí finalmente veremos o quão bosta é a sua comida. –disse Rachel.
–Não fale assim, Rach... –sorri. –Tudo bem por você?
–Por mim tá ótimo! –respondeu Patrícia. –Agora eu tenho que ir, tenho outra turma para atender. Nos vemos mais tarde!
–Até mais! Gostosa... –sussurrou Rachel. –Acha que a noiva dela tem um traseiro tão lindo quanto o dela?
–Credo, Rachel! Não seja indecente... –sussurrei. –Mas ela tem uma bunda linda mesmo...
–É...
–Bem... –disse, percebendo minhas bochechas esquentarem. –Vamos comigo falar com a mãe da Sophie.
–Será que a mãe da Sophie é gostosa?
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Olhei-me mais uma vez no espelho a procura de alguma imperfeição. Nada. Eu sou perfeita. Assim como Narciso um dia já foi... Pobre coitado.
–San, vamos? –olhei para trás e vi Sam entrando no quarto, terminando de abotoar sua camisa. –Nossa... Você está deslumbrante.
–Obrigada. –respondi.
–E eu não ganho nem um beijinho? –perguntou ele, aproximando-se de mim e pousando suas mãos nojentas em minha cintura.
–Não. –respondi secamente saindo de seus braços e caminhando para fora do quarto. –Você vai borrar meu batom.
Desci as escadas do apartamento até a sala, e ouvi a campainha tocando.
–E aí, delícia. –disse Rachel entrando.
–Oi, Rachel. –respondi.
–Nossa, San, você tá linda! Tão linda quanto um cachorro-quente na minha mão. –disse sorrindo.
–Obrigada. –respondi. –Eu acho...
–Olá, Rachel! –disse Sam descendo as escadas.
–Fala bocudo. –respondeu ela.
Ele apenas suspirou e se aproximou de mim, colocando sua mão na base da minha coluna.
–Estão prontas? Podemos ir?
–Sim. –suspirei e abri a porta.
Entramos no elevador, logo depois no carro, em absoluto silêncio. Na verdade em quase absoluto silêncio.
–Que merda você está fazendo? –perguntei olhando para o banco de trás.
–Tentando abrir esse saco de balas, mas está muito difícil. –respondeu Rachel puxando o pacote com os dentes.
–Você tem vermes ou algo assim? –perguntei.
–Não, minha mãe já me levou em todos os médicos possíveis. Aparentemente eu sou normal. –respondeu ela tirando uma tesoura de sua bolsa.
–Não querendo interromper, mas chegamos. –disse Sam estacionando o carro.
–Ah, ótimo. Eu estou morta de fome! –exclamou Rachel saltando para fora do veículo.
Fechei os olhos e suspirei.
–Você não vem? Suas amigas chegaram agora também, estão estacionando o carro. –disse Sam.
–Claro. –sorri.
Abri a porta e Sam deu a volta no carro, acompanhando-me até a calçada.
Olhei para o outro lado da rua, onde Patrícia estacionava sua Land Rover LRX branca, e me virei novamente, de modo que ficasse de frente para a fachada do restaurante de Sam. Tudo estava muito iluminado, e era possível ver que o lugar estava cheio, apesar de ser um dia de semana.
A noite estava perfeita. Uma leve brisa batia em meus cabelos, e o cheiro delicioso que emanava do restaurante se fazia presente.
–Boa noite. –ouvi uma voz atrás de mim, e me virei em seguida. –Pessoal, essa é a minha noiva, Brittany.
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