Cartas Para Julieta
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Boa noite. –ouvi uma voz atrás de mim, e me virei em seguida. –Pessoal, essa é a minha noiva, Brittany.
Talvez tenha sido apenas algo da minha cabeça.
Uma imagem que eu tenho projetado há tanto tempo em minha mente, que agora ela se materializou em minha frente.
Seus cabelos loiros, seus penetrantes olhos azuis, sua fina boca e, principalmente, seu cheiro. Minha imaginação está trabalhando, aparentemente, muito bem hoje.
Talvez eu esteja louca. Talvez nada disso seja real. Talvez eu deva começar a respirar novamente, ou vou morrer. Mas como se respira mesmo? Talvez meus pulmões nem ao menos se lembrem de seu propósito.
Talvez eu deva me acalmar. Talvez eu deva parar de usar a palavra talvez, e simplesmente agir.
–Santana, você está bem? –ouvi Sam perguntar. –Está pálida.
–Eu... Eu estou bem. –respondi mais para eu mesma do que para Sam, e olhei para o casal de mulheres a minha frente. Infelizmente constatei que elas faziam um belo casal. –Boa noite. Oi, Britt-any. –gaguejei.
–Olá, Santana. –respondeu ela friamente.
–Vocês se conhecem? –perguntou Patrícia.
–Um pouco. Santana foi a jornalista que ajudou minha avó Claire a reencontrar Lorenzo. –respondeu Brittany, com seu olhar voltado totalmente para mim, porém, nunca olhando em meus olhos.
–Acho que deveríamos entrar. Eu estou começando a ficar com frio. –disse, esfregando minhas mãos em meus próprios braços.
–Claro. –falou Sam abrindo a porta para que passássemos.
Patrícia foi a primeira, sorrindo em agradecimento à Sam, que ainda segurava a porta. Logo depois, Brittany. Ela passou por mim como se eu nem mesmo estivesse ali. Como se eu fosse um ninguém. Um nada para ela.
–A tensão tá grande. –disse Rachel, manifestando-se pela primeira vez. –Ela parece magoada.
–Ela tem suas razões... –respondi entrando no restaurante, com Rachel me seguindo. –Mas eu também tenho as minhas.
Sam nos levou até a, segundo ele, melhor mesa do local, e pediu vinho, acompanhado de alguns canapés.
–Bem, se vocês me dão licença, eu preciso ir até a cozinha. Os rapazes estão precisando da minha ajuda. –disse Sam sorrindo fracamente, depositando um selinho em meus lábios e saindo em seguida.
–Vejo que está muito feliz. –soltou Brittany quebrando o silêncio que havia se formado.
–Defina felicidade. –rebati.
–Você tem tudo o quer. Tudo o que sempre sonhou. –disse ela.
–Nem tudo. –respondi olhando em seus olhos.
–Então porque não foi atrás do que queria? –insistiu.
–Eu fui! Mas parece que a minha felicidade estava muito ocupada sendo egoísta e se escondendo do mundo! –exclamei. –Eu não tinha uma vida para perder em busca de algo que eu nem mesmo sabia se duraria.
–Duraria se você tivesse tentado. –sibilou ela, com a cabeça baixa, e seus punhos fechados.
–Eu tentei. Eu fiz tudo o que podia. –respondi calmamente. –Mas às vezes tudo não é o suficiente.
–É. Talvez você esteja certa. –disse ela recompondo-se. –Talvez não era para dar certo.
Ficamos em silêncio por, pelo o que parecia, intermináveis minutos.
–Só eu que não estou entendendo nada aqui? –perguntou Patrícia olhando para Brittany.
–Aham. –se intrometeu Rachel.
–As nossas entradas já estão vindo. –chegou Sam, sentando-se novamente ao meu lado. –Espero que gostem de Crepe de Salmão.
–Isso depende. Se ele for pequeno como naqueles restaurantes chiques, então não. –disse Rachel. –Detesto quando vem 10 gramas de comida no prato, e ainda tem uma folhinha em cima. Não dá ao menos para sentir o sabor.
–Isso porque você não tem o menor senso de classe. –sorriu Sam.
–Pois é. A única classe que eu tenho, é a que eu estou prestes a jogar na sua cara, seu aleijado! –sorriu Rachel cinicamente.
–Aleijado? –perguntou Sam.
–Sim, porque uma boca dessas não pode ser normal em um ser humano. Parece uma bunda de macaco. –disse a morena calmamente.
–Escuta aqui sua...
–Sam, já chega. –falei.
–Mas essa garota petulante fica me atormentando! –choramingou ele.
–Eu não perguntei. –respondi. –Vá procurar um vinho decente, por gentileza. Porque esse aqui é tão fraco que parece um suco de uva.
Ele suspirou, e disse logo em seguida:
–Tudo bem, eu volto logo.
–Não se apresse. –sorriu Rachel.
Ele apenas rosnou algo inaudível e nos deixou a sós novamente.
–Então... Por que não nos conta como você e Brittany se conheceram? –disse Rachel, dirigindo-se à Patrícia.
Eu apenas lhe lancei um olhar mortal, que logo a fez perceber a merda que havia dito.
–Quer dizer... Não precisa. Não é algo no qual eu tenha um extremo interesse e tal... –suspirou ela.
–Imagina, é claro que eu conto! Você não precisa ter vergonha de perguntar algo, Rach. –respondeu Patrícia toda sorridente. –Vocês estão prestes a ouvir a história de amor mais linda. –suspirou apaixonadamente olhando nos olhos de Brittany (que parecia um pouco desconfortável) e juntou a mão da loira na sua.
Rachel e eu apenas demos um sorriso amarelo, e Patrícia começou sua “linda história de amor” com a minha Brittany.
–Então, foi no verão, há onze anos. Eu estava ensaiando para um concerto que acontece todos os anos em Londres. Eu estava sozinha no estúdio, e usava fones de ouvido e, como de costume, eu dançava de olhos fechados, porque eu gosto de sentir a música, e assim deixar meu corpo fluir. –garota metida a Beyoncé. –Então, de repente, eu esbarro em alguma coisa, e o choque faz com que eu caia de mal jeito no chão. Eu finalmente abro os olhos, e vejo dois orbes completamente azuis, me olhando de uma maneira assustada e, ao mesmo tempo, preocupada. Eu tirei meus fones e escutei sua voz pela primeira vez. Ela murmurava coisas desconexas como “Ai meu Deus, me desculpe!”, e “Você veio girando na minha direção, eu não consegui desviar a tempo! Você tá bem? Ai caramba, você se machucou?”. Eu tentei levantar, mas não consegui. Brittany me ajudou, me levou ao hospital. No caminho inteiro ela não parava de pedir desculpas. Disse que estava tentando abrir a sala ao lado, para pegar algo que ela havia esquecido, mas a chave havia emperrado. Então ela tinha ido pedir ajuda, mas acabou quebrando meu tornozelo. E quando eu soube desse diagnóstico, eu a odiei. Aquele seria meu primeiro concerto solo, e eu não poderia comparecer por causa de uma garota atrapalhada que acabou me derrubando. –ela suspirou novamente e sorriu. –Acontece que, depois disso, eu recebia flores dessa garota todos os dias, assim como várias visitas. Até que um dia nos beijamos pela primeira vez. –ela sorriu abertamente, e Brittany abriu um fraco sorriso. –Foi muito difícil no começo, porque eu nunca havia me atraído por garotas antes, mas eu acabei me aceitando, e acabamos ficando juntas. Depois de um ano juntas, nos afastamos porque eu voltei para Nova York. Nós começamos a brigar muito, eu acredito que por causa da distância, e terminamos. Ficamos separadas por mais de cinco anos. Então, em uma viagem que eu fiz com a minha Academia há quatro anos, nós nos reencontramos e saímos para jantar, e enfim... Estamos noivas há dois anos, e nos casaremos no final deste ano.
Ao terminar de falar, constatei que Patrícia e Brittany possuíam algo que eu e a loira não tínhamos. Uma história de longa duração. Tiveram mais momentos, encontros, beijos... E eu detesto admitir, mas invejo a Patrícia.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, nossos pedidos chegaram, junto a um Sam ofegante com uma garrafa de vinho em mãos.
–Eu fui até nossa adega no porão. Esse é o vinho mais caro do restaurante, custa em torno de 12 mil dólares. Um autêntico Inglenook Cabernet Sauvignon Napa Valley de 1941. –disse, sentando-se. –Espero que o apreciem bem, será por conta da casa.
–Sam, qualquer vinho está ótimo. –insistiu Patrícia.
–Não. Deixe o Bocudo pagar. –intrometeu-se Rachel.
–Certo, nossas entradas chegaram, o vinho está aqui... Já podemos comer. –cortei.
O resto do jantar foi muito bom. Mantemos algumas conversas amenas e amistosas, rimos algumas vezes, e eu juro que pude ver Brittany rindo discretamente de uma piada idiota de Rachel. Mas ela nunca me olhava. Seus olhos pairavam em qualquer lugar que não fosse em mim.
–Sabe, eu tenho essa grande competição esta semana, e a minha Britt veio me ver dançar. –dizia Patrícia. –Eu não poderia estar mais feliz!
–Eu vou ao banheiro por um minuto, volto logo. –disse Brittany de repente.
–Está tudo bem, meu amor? –perguntou Patrícia.
–Sim, está sim. –respondeu a loira já saindo.
–Acho melhor eu ir atrás dela. –comentou Patrícia prestes a levantar, mas então Rachel pegou em seu pulso.
–Capaz, Brittany afirmou que estava bem. Por que ela mentiria? –indagou Rachel. –Me conte sobre essa sua apresentação, sabe como eu sou curiosa! Deixe que a San vá ver se a Brittany está bem. Certo, San?
Então Rachel me enviou um olhar de “O que você está esperando?! Sai logo daqui!”, e foi o que eu fiz. Pedi licença e, calmamente, me dirigi até o banheiro feminino.
Abri a porta devagar, suspirei e fechei os olhos. Estaríamos apenas nós duas ali. Na verdade é o que eu espero. Abri os olhos novamente, retomando minha coragem, e entrei. Tranquei a porta atrás de mim e, quando virei, deparei com uma figura debruçada na pia do banheiro. Ela me olhava através do espelho, e seu olhar transmitia uma mágoa gigantesca.
–O que você quer? –ela quebrou o silêncio e o contato visual, porém logo virando-se para mim.
–Eu quero conversar com você. –disse.
–Não temos nada para conversar. –respondeu ela.
–Você sabe que temos! –argumentei. –Brittany, você sumiu. E eu fui atrás. Eu juro que fiz tudo o que eu pude, mas você se afastava cada vez mais. Você não me queria mais. –enfatizei. –Pra que lutar por um amor quando se chega à conclusão de que você está amando sozinho?
–Eu? –sussurrou. –Foi você que me deixou, Santana. Você me deixou para voltar aos braços do seu maridinho ideal. Você me quebrou em pedaços...
–Mas que merda, acha que foi só você?! –me aproximei dela. –Acha que foi só você que sofreu? Eu sempre pensei que amava o Samuel, até você aparecer. Você transformou tudo em mim. Tudo o que eu acreditava, tudo o que um dia eu já senti. Eu passei quase 10 anos da minha vida ao lado de alguém que eu não amo porque meu verdadeiro amor foi egoísta demais para enxergar o que eu realmente sentia.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, senti as mãos de Brittany em cada lado do meu rosto, e seus lábios sobre os meus. Eu a puxei pela cintura, fazendo com que nossos corpos se chocassem, e eu sentisse aquela corrente elétrica transpassando por todo meu ser. Ela passou sua mão direita para minha nuca, aprofundando algo que antes não passava de um selinho, e virava o rosto para se encaixar melhor no beijo. Eu podia sentir sua língua passear por toda a extensão da minha boca, como se estivéssemos nos conhecendo outra vez. Fechei meus olhos a fim de aproveitar aquela maravilhosa sensação que eu não sentia há anos. Puxei-a para mais perto, como se fosse possível fundir nossos corpos para que assim nunca nos separássemos novamente. Sem me controlar, ou ao menos pensar nas consequências, subi minha mão pela lateral do corpo de Brittany, sentindo-a se arrepiar em meus braços, mas antes que eu pudesse fazer mais alguma coisa, o celular da Brittany começou a tocar.
Ela abriu os olhos, e se afastou de mim.
Antes de atender, ela arrumou seus cabelos e respirou fundo.
B: -Alô?
P: Brittany, está tudo bem? Rachel e eu estamos prestes a ir ao banheiro ver o que está acontecendo. A Santana está aí?
B: Eu estou bem. Apenas com um pouco de dor de cabeça, devido à longa viagem que tive. Mas já volto para a mesa, querida. Na verdade Santana está entrando agora no banheiro.
P: Tome um analgésico que logo passa. Estamos esperando por vocês.
Brittany desligou o celular e, antes que pudesse colocá-lo de volta na bolsa, ele tocou novamente.
Ela segurou o aparelho, e ficou de costas para mim. Não consegui ouvir a conversa, já que Brittany quase não falava nada, mas pude entender de que se tratava de Lorenzo ligando.
Ao desligar, Brittany estava pálida e suas mãos tremiam.
–Brittany, o que aconteceu? –perguntei, mas ela não conseguia responder. –O que houve?
–Minha avó... –sussurrou com a voz trêmula. –Claire teve uma parada cardíaca e está no hospital.
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