Cartas Para Julieta
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Brittany POV on
Sabe aquele momento em que você se sente a pessoa mais feliz do mundo? Aquele momento que você quer que dure para sempre, mas infelizmente sabe que ele vai ter um fim? Pois é. Eu me sinto assim neste momento.
Eu devo estar acordada há horas, mas realmente não importa. Ficar olhando Santana dormir em meus braços não é nada tedioso.
Ela é tão perfeita. Fiquei tanto tempo apenas a observando dormir que posso até dizer que decorei todos os seus traços. Eu tentei decorá-los pelo menos.
A noite passada foi tão intensa... Eu nunca senti nada parecido antes. A coisa mais próxima que já senti foi pela Patrícia, e nem se compara a isso. Nada se compara a isso.
Eu sei o que eu sinto, mas mesmo assim ainda estou tão confusa... Santana mexe comigo de um jeito que eu não consigo ao menos explicar.
Isso é paixão? Amor? Eu ainda não sei... E nem sei se terei tempo de descobrir.
Brittany POV off
Eu estava acordada já tinha um tempo, mas não tive coragem de me mexer, ou ao menos abrir os olhos. Tinha medo de que tudo não passasse de mais um sonho...
Mas eu sabia que era real. O calor que o corpo de Brittany emanava assim tão perto do meu. Seu perfume tão inebriante quanto qualquer vinho que já provei. O carinho que ela fazia em meus cabelos... Tudo era muito real. Tudo é muito real.
E aí está o problema. Eu fui para a cama com Brittany.
Eu não deveria, mas fiz. Fui cegada por um desejo descomunal, um sentimento que nem consigo entender, e agora não tenho ideia do que fazer. Eu sei o que sinto por ela, mas e se for apenas mais alguma atração da parte dela? Afinal, ela que é lésbica, não eu. Talvez ela não sinta o mesmo, ou na mesma intensidade que eu. Além de que ela teve seu coração partido uma vez. Ela pode muito bem estar apenas me usando... Não. Ela não é assim.
Abri os olhos lentamente, e fitei a imensidão azul me encarando. Seus olhos pareciam mais azuis que o normal, e ela tinha um sorriso preguiçoso no rosto, enquanto sua mão direita acariciava minha bochecha.
Retribui o sorriso, e fechei novamente os olhos, a fim de aproveitar mais o ato de carinho proporcionado por ela.
Senti a ponta de seu nariz encostar-se ao meu, e seus lábios tocarem o meu quase que superficialmente, apenas em um demorado selinho.
Abrimos os olhos lentamente, e eu pude ouvi-la suspirar, antes de enterrar seu rosto em meu pescoço, e apertar-me mais contra seu corpo claro.
–Oi. –disse ela simplesmente.
–Oi. –respondi.
Brittany olhou para cima, a fim de me encarar, e suspirou novamente. Ficamos nos olhando por um longo tempo, até que eu sussurrei:
–Que horas são?
–Ainda é 7:10. Não se preocupe, está cedo. –respondeu ela no mesmo tom.
–Sabe, nós precisamos conversar. –falei, passando a mão em seus cabelos loiros.
–Eu sei... Mas... Eu realmente gostaria de não ter que fazer isso. –Brittany respondeu de olhos fechados. –Gostaria de ficar assim.
–Eu também. Mas eu tenho que ser sincera... Eu não sei o que fazer. –disse, observando-a abrir os olhos lentamente. –Eu vou me casar.
Brittany ficou em silêncio e desviou seu olhar do meu, fixando-o a algum ponto do teto.
–Acho que devemos esquecer o que aconteceu aqui. –disse com um aperto no coração. Mas eu devia fazer a escolha certa. E Sam é a escolha certa.
–Eu não quero esquecer... Porém é você quem decide. –respondeu Brittany, agora me olhando. –O que acha de deixarmos o tempo decidir? Não escolha nada agora, nem precisa ser mais tarde. Apenas espere, e escolha o que seu coração mandar.
Fiquei em silêncio, e brinquei:
–Não sabia que era tão profunda.
–Muitas aulas de filosofia, minha querida. –disse Brittany rindo junto a mim.
–Então você me entende? Não ficou com raiva? –perguntei.
–De maneira alguma. Eu só... –suspirou. –Eu quero que seja feliz, acima de tudo.
Então ela sorriu, e beijou minha testa de forma delicada.
–Vamos levantar, porque daqui um pouco vovó está nos procurando. –disse a loirinha levantando da cama.
–Certo. –concordei, levantando junto.
Trocamos de roupa, e fomos até o salão do café da manhã em meio a risadas, e uma enorme descontração. Nem parecia que havíamos passado por um momento, digamos que, tenso, anteriormente.
Claire não havia descido para comer, então deduzimos que ela havia pedido algo no quarto.
Então nos separamos. Cada uma foi para seu quarto arrumar as malas. Cada uma presa em seus próprios pensamentos.
Peguei minha mala, e a arrastei com dificuldade até o elevador. Chegando ao lado de fora do hotel, encontrei Claire conversando com Brittany, e a loira mais nova veio em minha direção.
–Bom dia. –disse ela.
–Bom dia...? –respondi confusa, afinal, ela usou drogas e esqueceu que já tínhamos nos visto?
–Deixe-me ajudá-la com isso. –falou Brittany pegando minha mala e a colocando no carro.
–Obrigada. –respondi.
–Como você dormiu? –perguntou ela me fazendo corar. Claro, um “joguinho”. Muito espertinha.
–Dormi muito bem, e você? –respondi, entrando na brincadeira.
–Maravilhosamente bem, obrigada. –disse sorrindo brilhantemente.
–Bom dia, Claire! –me virei para a senhora.
–Bom dia, querida! –respondeu ela beijando minha bochecha. –Que lindo dia! Aliás, querida, se importaria de ir na frente? Porque eu adoraria esticar um pouco as pernas.
–Tudo bem. –respondi relutante, e me encaminhando ao lugar ao lado de Brittany.
–Ótimo! –exclamou ela sentando no banco de trás, sem antes sorrir e dar um tapinha no ombro de Brittany. Claire está tramando alguma coisa, eu posso sentir...
A loira logo sentou no banco do motorista, e ligou o carro. Viajávamos em um completo silêncio, a não ser por Claire que acompanhava as melodias no banco de trás.
Eu sei que ela está tramando alguma coisa. Sinto seus olhos perfurarem minha pele! Ela não para de alternar olhares entre Brittany e eu. Será que ela sabe de alguma coisa? Não, não... É impossível! Brittany não contaria. E não tem como ela ter descoberto.
–As estrelas estavam espetaculares vistas da minha janela. –comentou Claire, quebrando o silêncio.
“Droga. Ela sabe do beijo. Ok, sem pânico, Santana! Apenas sorria e acene...”.
Olhei pela a janela, e suspirei, admirando a linda paisagem. Flashes da noite anterior voltavam à minha cabeça e eu já estava ficando louca com isso.
Eu quase podia sentir a língua quente da Brittany na minha boca... Passeando pelo meu corpo... Me chupando bem gostoso e... OK! Parou... Foco Santana, foco!
–Olhem! Aquele vinhedo... –exclamou Claire quando passamos por uma placa, que dizia “Caparzo”, na estrada. –É o nosso vinho favorito. Vamos entrar ali, e fazer... Um brinde de despedida. Chega de procuras.
Encarei-a pelo espelho, e ela me enviou um sorriso triste, porém decidido.
Brittany virou em uma estradinha a esquerda, e continuou o caminho para dentro da gigante fazenda de vinhedos.
Estávamos em silêncio, passando pelos parreirais, quando de repente Claire deu um grito, fazendo Brittany frear bruscamente o carro.
–Brittany, pare! Pare o carro!
Brittany olhou assustada para o banco de trás, e Claire apenas abriu a porta, saindo do carro a seguir.
–Vovó, o que foi? –perguntou Brittany preocupada, parando ao lado de Claire, já fora do carro junto comigo.
–É ele. É o Lorenzo.
Fale com o autor