Cartas Para Jack

2 Primeiras Cartas


Dei um grande abraço outra vez na minha antiga professora, ela não conversou por muito tempo, talvez pelo fato dela ter notado que eu estava morrendo de vontade de entrar para ler aquela carta. Ela se despediu em seguida, eu entrei o mais rápido possível e fui direto a meu quarto, me sentei na beira da cama e olhei mais uma vez para aquele envelope, respirei fundo e o abri.

'' 15 FEVEREIRO DE 2007

EI JACK, NÃO SEI COMO COMEÇAR ESSA CARTA, VOCÊ MAIS DO QUE NINGUÉM SABE QUE EU NUNCA LEVEI JEITO PARA ESCREVER UM TEXTO OU UMA CARTA. NÃO SEI SE VOCÊ VAI RECEBER ESSA CARTA, JÁ FAZEM TRÊS ANOS QUE VOCÊ FOI EMBORA E ESSA CIDADE PARECE UM INVERNO SEM FIM SEM VOCÊ AQUI, POIS TODOS OS DIAS DE VERÃO EU ESTAVA COM VOCÊ, LEMBRA DO NOSSO ESCONDERIJO SECRETO NA ÁRVORE? FOI LÁ QUE EU CONFESSEI QUE ESTAVA APAIXONADO POR VOCÊ, NA ÉPOCA VOCÊ FICOU ASSUSTADO, E TINHA RAZÃO NÓS ÉRAMOS APENAS DUAS CRIANÇAS INOCENTES. EU ME SURPREENDI NAQUELA MANHÃ QUANDO VOCÊ ME DEU AQUELA BARRA DE CHOCOLATE E DISSE QUE ERA UM PRESENTE PELO DIA DOS NAMORADOS, AQUELE FOI O DIA EM QUE DEMOS NOSSO PRIMEIRO BEIJO, AINDA DESAJEITADOS E SEM SABER DIREITO O QUE ESTÁVAMOS FAZENDO, MAS MESMO ASSIM NAQUELE DIA EU SOUBE QUE NOSSA AMIZADE ERA ALGO MAIS FORTE DO QUE UMA SIMPLES AMIZADE, NÓS TÍNHAMOS UMA LIGAÇÃO MUITO FORTE. MUITAS VEZES NOS ENCONTRAMOS NA FLORESTA PARA NOS BEIJAR E FICAR DE MÃOS DADAS, ATÉ O DIA EM QUE NOSSOS PAIS NOS SEGUIRAM E NOS PEGARAM. AINDA ME LEMBRO DAQUELE DIA POIS FOI A ÚLTIMA VEZ QUE SENTI SEUS LÁBIOS NOS MEUS. AGORA ESTOU AQUI, TRÊS ANOS DEPOIS PROCURANDO VOCÊ, A LIA NOSSA PROFESSORA PROMETEU ME AJUDAR MAS ELA TAMBÉM NÃO SABE O ENDEREÇO DOS SEUS PAIS NA GRANDE SÃO PAULO. MEUS PAIS ME LEVARAM PARA O PSICOLOGO VÁRIAS VEZES, TENTARAM TIRAR VOCÊ DA MINHA CABEÇA DE VÁRIAS FORMAS, MAS É IMPOSSÍVEL DEIXAR DE PENSAR EM VOCÊ, AINDA SEI QUE VOU TE ENCONTRAR, EU ESPERO QUE VOCÊ NÃO TENHA SE ESQUECIDO DE MIM, PORQUE EU NÃO ME ESQUECI DE VOCÊ...

MIKE''

Deixei a carta cair em cima da cama, eu estava com os olhos marejados. Ler aquela carta foi como ouvir as palavras de Mike no meu ouvido, claro que eu ainda me lembrava dele, todos esses anos que passei longe nunca o esqueci. Eu sempre confessei a meus melhores amigos que eu tive um amor na minha vida que foi inesquecível. Nunca contei a ninguém que esse amor era um garoto, ainda mais depois que comecei a namorar uma garota. Mas todos os dias eu me lembrava de Mike.

Eu me levantei e fui em direção a porta de casa decidido a ir até a casa de Mike, eu sabia onde era e mesmo com medo do que poderia acontecer eu estava decidido a ir até lá. Assim que sai na calçada notei que alguém estava ao lado me olhando enquanto eu fechava o portão.

— Vai passear pela cidade — Perguntou a garota, eu olhei para o lado e ela estava em pé do meu lado. Era a vizinha, ela estava com as mesmas roupas e com o cabelo jogado de lado

— Preciso ir visitar um antigo amigo — Falei me virando de frente para a garota

— Quer uma companhia?

— Ah não quero incomodar você e eu acho que me lembro onde fica a casa dele

— Mesmo assim vou te fazer companhia, eu preciso ir até o supermercado, vamos juntos pelo caminho pode ser?

— Bom.. então tudo bem — Respondi suspirando, ela estava decidida a me seguir

— Você é uma pessoa tão misteriosa — Falou a garota caminhando do meu lado, ela chutava algumas pedras enquanto soltava um sorriso leve de canto

— Eu?? misterioso? acho que não — eu ri

— Você nem mesmo disse seu nome

— Ah me desculpa, eu sou o Jack Laurent muito prazer — Falei estendendo minha mão para a garota

— Hum... prazer Jack, eu sou Lara Parker — Ela respondeu aceitando o cumprimento

— Então, o que você faz Lara? Estuda? Trabalha?

— Bom, eu sou dona de uma loja de roupas na cidade, bom na verdade a dona era minha mãe mas quando ela foi embora ela me deixou tomando conta da loja e da casa.

— Entendi

— E você senhor Jack? Estuda?

— Não, terminei minha faculdade de administração a alguns anos atrás, estava trabalhando na empresa em que meus pais são sócios, mas quando voltei pra cá com minha mãe tive de abandonar meu emprego.

— Bom, mas acho que você não precisa tanto assim dele, se realmente é sócio de uma empresa, não sei porque trabalha

— Não é assim tão simples, eu aprendi a batalhar por tudo na vida, acho que tenho o dever de trabalhar na empresa, meu pai sempre disse que lutou muito para conseguir essa sociedade, eu quero que de onde ele estiver tenha orgulho de mim, quero trabalhar muito e manter essa sociedade que ele conquistou com tanto esforço

— Você é um bom filho.. Bom Jack, o supermercado fica ali na esquina, boa sorte lá com seu amigo — Ela disse se despedindo

Eu balancei a mão sorrindo de canto para ela. em seguida continuei caminhando, não demorei muito para chegar em frente a casa de Mike. Eu lembrei daquele portão coberto de folhas de uma planta trepadeira, ali parecia estar tudo como antes, toquei a campainha duas vezes, na terceira saiu uma velha com uma vassoura na mão, ela andava bem devagar, andava um pouco curvada, seus cabelos brancos chamavam muito a atenção, também suas roupas compridas.

— Olá — Disse a velha abrindo o portão, eu olhei bem para seu rosto, estava todo enrugado mas sua expressão era de uma pessoa simpática

— Oi, Mike está em casa? — Perguntei com a voz um pouco alta

— Desculpa meu filho, não mora ninguém aqui com esse nome, eu sou a única pessoa que mora aqui — Falou a velha

— E a senhora sabe me informar pra onde foram os antigos moradores dessa casa?

— Não sei meu filho, já fazem quase sete anos que eu me mudei pra cá, quando cheguei a casa já estava vazia. Foi meu filho que fez as negociações com os donos da casa, mas sinto informar que meu filho também não mora aqui, ele é de joão Pessoa e só vem me visitar aos finais de semana.

— Poxa, a senhora não tem nem o número do seu filho para que eu possa entrar em contato com ele?

— Bom, você parece querer muito encontras os antigos proprietários dessa casa, eu vou te passar o número do meu filho. Entra querido, venha comigo

Eu acompanhei a senhora até a sala, a casa estava diferente por dentro com outros móveis, não se parecia nada do lugar onde eu ficava correndo quando era criança ao lado de Mike. A senhora trouxe um papel com o número do filho dela, seria essa a oportunidade de saber onde Mike e sua família estava morando. Além do número a senhora me entregou uma caixa, era uma caixa de madeira, ela tinha alguns desenhos e detalhes bem lindos, estava toda envernizada e conservada.

— O que é isso? — Perguntei assim que a senhora me deu aquela caixa

— Bom, já que você está procurando os antigos donos dessa casa, se caso os encontrar entregue essa caixa, tem um livro de receitas antigo ai dentro e uma carta, essa caixa estava escondida aqui quando me mudei, deve ser dos antigos donos. Espero que você os encontre e devolva a eles.

— Obrigado.. muito obrigado — Falei dando um abraço na senhora que parecia feliz por receber aquele abraço

— Imagina meu filho, não foi nada

Eu sai dali o mais rápido possível, voltei pra casa tão rápido que parecia estar correndo pelas ruas. Algumas pessoas ficavam me olhando enquanto eu corria de volta, quando cheguei em casa notei que minha mãe já estava lá, eu entrei mas assim que passei pela sala ouvi o seu grito.

— Onde você estava? — Ela gritou da cozinha, vindo em direção a sala

— Fui dar uma volta — Respondi

— Não poderia ter me ligado? Deixado um recado?

— Desculpa mãe, eu pensei que você fosse demorar um pouco mais

— Olha, você pode sair ok, só me avisa antes tudo bem?

— Tá bem mãe, vou pro meu quarto agora

— Mas desce logo, a janta está quase pronta

Eu corri em seguida pela escada e fui direto a meu quarto, eu fui tirando o tênis e jogando pra qualquer lugar, joguei a caixa de madeira na cama e a abri, o livro de receitas realmente era antigo, as folhas estavam até amarelas. Joguei o libro de lado e peguei a carta, era outra com meu nome escrito no envelope. Rasguei o envelope e abri o papel com aquelas letras lindas e pequenas

'' 20 DE JULHO DE 2007

NÃO SEI PORQUE ESTOU ESCREVENDO ESSA CARTA, A MINHA PROFESSORA DISSE QUE NÃO CONSEGUIU TE ENCONTRAR JACK. RESOLVI ESCREVER ESSA CARTA E DEIXA-LA NA SUA CAIXA DE CORREIO DA SUA CASA AQUI, TALVEZ UM DIA SE VOCÊ VOLTAR QUEM SABE A CARTA AINDA ESTEJA LÁ. EU QUERIA QUE VOCÊ SOUBESSE QUE VAMOS EMBORA, VAMOS NOS MUDAR PARA A CIDADE VIZINHA, MINHA MÃE ESTÁ DEIXANDO MEU PAI, ELE COMEÇOU A BEBER E A BATER NELA. ESPERO QUE VOCÊ LEIA ESSA CARTA, ESTOU PRECISANDO MUITO DE VOCÊ, AS PESSOAS TIRAM SARRO DE MIM POR EU GOSTAR DE MENINOS, MINHA MÃE TENTA ME DEFENDER MAS VOCÊ CONHECE AS PESSOAS, QUANDO ELAS QUEREM SER MÁS ELAS SÃO. SINTO FALTA DE FALAR COM VOCÊ JACK, SINTO FALTA DOS SEU CONSELHOS BOBOS, SEU JEITO TÍMIDO DE ME FAZER CARINHO. NÃO IMPORTA QUANTO TEMPO PASSE, EU VOU CONTINUAR AMANDO VOCÊ MEU MELHOR AMIGO.

MIKE''

Agora eu já sabia onde ele estava, depois dessa carta eu tinha a certeza de que eu precisava encontrá-lo, não sei o que aconteceria depois, faz muitos anos que ficamos sem nos ver e sem contato nenhum, mas eu precisava encontrá-lo. Eu desci para jantar com minha mãe, não conversei muito com ela, eu estava muito pensativo, apenas pedi permissão para pegar o carro, eu iria até a cidade vizinha procurar Mike, estava decidido.

A noite sai na varanda, eu vi que Lara estava sentada também olhando as estrelas na varanda de sua casa. Eu me aproximei do muro com as mãos no bolso da calça. Ela viu quando me aproximei, e também veio em minha direção.

— Boa noite — Ela falou simpática

— Boa... então, você também gosta de olhar as estrelas a noite? — Perguntei encostado no muro

— Sempre amei ficar olhando para o céu a noite, ele é tão misterioso — Ela disse sorrindo do outro lado do muro

— Você ama mistérios mesmo

— Sim... falando nisso e como foi hoje com seu amigo?

— Ele não mora mais aqui, mas já descobri onde ele está, amanhã mesmo vou atrás dele.

— Nossa, você gosta mesmo dele em

— Sim... bom eu não deveria mas vou te contar

Eu sei que eu tinha acabado de conhecer aquela garota, mas eu não tinha motivo nenhum para esconder essa história, então contei des de o começo. Lara ficou impressionada com tudo o que ouviu, ela pensou várias vezes que eu estava inventando, isso realmente parecia algo de ficção, novela ou um filme, mas era a mais pura verdade, era o drama que eu vivi na minha vida.

— Bom, então está decidido, vou com você nessa aventura — Falou Lara

— Como assim? — Perguntei

— Vou ajudar você a encontrar seu amigo, bom já não sei se ele é só um amigo mas, enfim. Vou com você, eu adoro mistérios

— Está bem... então amanhã vamos juntos, espero realmente encontrá-lo

Eu estava decidido a deixar Lara me acompanhar, seria bom alguém pra conversar e também pra me ajudar. Eu sabia a cidade onde ele estava mas ainda não sabia o endereço, isso seria mais difícil de conseguir, mas eu não desistiria. amanhã eu começo a minha busca por Mike...

vou encontrá-lo