Cartas Para Antônio Ferreira
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Por Laura
Como previa demorei um bocado de tempo para deixar o quarto, primeiro dando atenção ao meu exigente marido depois ao nosso pequeno que acordou com fome.
– Viu como foi bom eu ignorar a sua pressa em sair de casa senhora Vieira, o que eu iria fazer pra me virar sozinho com o Antônio?
– Como se eu fosse deixar o meu pequeno aos seus cuidados, eu o teria comigo.
– Duvidando das minhas habilidades paternas senhora Vieira? Acha que não daria conta de cuidar do nosso pequeno?
– Não sei, prefiro não arriscar.
Ele faz cara de ofendido e se deixa deitar novamente ignorando o meu olhar de divertimento com a mais feia das suas caretas de zangado que não tem como não resistir. Ajeito a minha blusa, aninho o Antônio no meu colo e contorno a cama para me sentar ao lado do meu zangado marido.
– Vais ficar zangado com uma bobagem dessas? — Ele se vira de lado me dando as costas e eu dou risada me perguntando qual dos dois homens ali do quarto é o bebe.
Ergo-me sobre os joelhos e me inclinando sobre ele coloco o Antônio ao seu lado e me deito novamente me aninhando nas costas do Edgar e o abraçando.
– Não estou dizendo que não confio nas suas habilidades paternas, só que você não tem algo fundamental para ele nesse momento...
– Esta tentando se desculpar?
Ele diz despreocupado levando uma das mãos até a cabecinha do nosso filho para lhe fazer um afago, tomando cuidado para não acorda-lo.
– Não me lembro de ter feito nada de errado para me desculpar.
Respondo contrariada puxando a minha mão que o envolvia, mas ele é mais rápido e a segura contra o seu abdome.
– Estou brincando minha esposa linda e sentimental... Como você esta sensível hoje me lembra os seus primeiros meses de gravidez...
Ele vira o rosto e me olha com um jeito curioso, com a sombra de um sorriso pairando em seus lábios.
– Será que você não esta...
Ele para a frase ao meio e eu arregalo os olhos ao perceber o que ele esta sugerindo.
– Não.
– Porque não?
– Sei lá Edgar.
– A ideia não é absurda... Me diz, as suas regras já vieram?
– Que pergunta mais indiscreta Edgar.
– Eu sou o seu marido você não precisa ficar com vergonha de falar certos assuntos comigo.
– Não é porque é o meu marido que eu tenho que te falar tudo... E chega desse assunto, vai me deixar na casa do meu pai ou tomo um bonde?
– Não vou deixar a minha esposa andar sozinha com meu filho por ai, muito menos tomando um bonde, eu te acompanho até a casa dos seus pais se não for pedir muito.
– Mas eu queria estar a sós com o meu pai para tentar descobrir o que o esta incomodando, penso que se estiver junto meu pai não vai se abrir.
– E como eu saberei a hora de te buscar?
– Apenas me leve e depois eu peço para o meu pai me trazer de volta para casa
– Esta bem, vou aproveitar esse tempo para organizar as coisas para a nossa viagem, quero estar com tudo pronto para irmos amanhã.
...
– Quanta pressa senhor advogado... Então anda vai se arrumar que ainda estas de pijama deste jeito eu vou acabar tomando um bonde.
Eu digo me levantando e parando para ajeitar a saia não dou pela aproximação do Edgar me abraçando por trás.
– Mais não vai mesmo, já disse que a levo.
– E o que o senhor ainda faz aqui que não esta se arrumando para sairmos.
– Estou beijando a minha esposa, acha que não devo?
– Estou pensando... Acho que vou decretar greve de beijos, quem sabe assim o meu marido não se apressa.
Ele da risada com a sua boca ainda sobre o meu pescoço e me vira em seguida para ficar de frente para mim e me dar mais um beijo, beijo que eu faço questão de interromper, me afasto dele e vou até a cama para pegar o Antônio.
– Esta decidido só vou deixar o senhor voltar a me beijar quando estivermos na fazenda.
Me afasto dele e me aproximo da cama para pegar o nosso filho para logo em seguida sair do quarto deixando pra trás um Edgar boquiaberto, não tinha certeza se iria conseguir cumprir minha ameaça, mas estava me divertindo com a expressão de incredulidade do meu marido. Apesar de estar tensa com as suspeitas propostas por ele minutos antes, pelo visto teria mais um assunto a tratar com o meu pai.
...
Estava acomodada no banco de trás do automóvel com o Antônio no colo, era impressionante como mesmo com o chacoalhar do carro ele continuava no mais profundo sono. Eu me dividia entre olhar o meu pequeno dormindo e observar o movimentar das ruas, fingindo não perceber os olhares que o Edgar me lançava pelo retrovisor do automóvel, ele estava quieto desde que saímos de casa, quando me ajudou a subir no automóvel senti que ia me dizer alguma coisa, mas ele se refreou no ultimo minuto e se manteve calado.
– Edgar?
– Sim?
– Voce esta querendo me dizer alguma coisa? Diz de uma vez.
Ele me encara com aqueles olhos verdes inquisidores, pensa mais um pouco se deve ou não falar o que esta pensando e assim que estaciona em frente a casa do meu pai ele se vira para mim decidido.
– Você estava falando serio a respeito daquela greve?
Não consigo resistir e abro um sorriso sem acreditar que era com aquilo que ele estava preocupado.
– É isso que vem deixando o senhor meu marido inquieto?
– Laura não brinca comigo, eu posso muito bem ignorar essa história de greve e roubar quantos beijos eu quiser.
– O senhor ira me ameaçar ás portas da casa do meu pai.
– Laura!
– Não sei pra que tanto drama Edgar não iremos viajar amanhã.
– Sim mas...
Ele faz cara de desanimo enquanto me ajuda a descer do carro e dá um beijo na cabecinha do Antônio para se despedir. Eu o abraço com uma das mãos livres e aproximo a minha boca de seu ouvido.
– Me pergunto o que vou fazer se os nossos filhos se mostrarem tão mimados quanto o pai.
– Mimado eu? Eu não sou...
O interrompo com um beijo que o pega de surpresa, e quanto me afasto ele esta com a testa franzida, mas com um sorriso bobo nos lábios.
– Sei, nem um pouquinho.
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