Cartas Para Antônio Ferreira
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Por Edgar
Eu estava Feliz, feliz como a muito tempo não me sentia, a mulher da minha vida não só havia voltado para mim como também estava morando comigo novamente, aceitava a minha filha morando conosco e lhe dispensava carinho e atenção que eu não via a minha pequena receber nem da própria mãe, as vezes até chegava a ter certo ciúmes tão grande era a cumplicidade das duas.
O projeto de abertura da escola no morro da Providencia havia saído melhor do que esperávamos, vários moradores se empenhavam em ajudar com as mudanças que se faziam necessárias e logo a escola foi inaugurada enchendo de alegria o rosto da Laura e o da Melissa e é claro por consequência o meu também que ficava cheio de orgulho das mulheres da minha vida.
A Catarina não deu mais o ar da graça, nem mesmo por telefone ou por intermédio de um mensageiro o que eu achei estranho, ela nunca foi do tipo atenciosa com a filha mas já havia semanas que elas não se viam, meu primeiro pensamento foi de que ela estaria armando alguma coisa e decidi investigar e ir até a casa dala, a Laura não aprovou muito a ideia mas concordou comigo que a Catarina estava quieta de mais. Chegando a sua casa foi recebido pela empregada que pareceu surpresa e aliviada com a minha chegada.
– Bom dia Odete, queira dizer a sua patroa que eu quero falar com ela por favor.
– Dr a dona Catarina não esta.
– Você sabe me dizer se ela demora a voltar?
– Do jeito que ela saiu daqui, acho que ela não volta é nunca.
– Eu não entendo... ela foi embora e sequer pensou em me avisar, ela por acaso se lembrou de que tem uma filha?
– Não sei Dr. achei que o senhor já tinha tomado conhecimento do fato pelo seu irmão.
– E o que o Fernando tem a ver com essa história?
– É complicado...
– Então descomplique... o que tem o Fernando a ver com o sumiço da Catarina?
– Ele e a dona Catarina brigaram, acho que esse foi um dos motivos para ela ter ido embora as pressas.
– Eu continuo sem entender.
– Desculpe a indiscrição mas para que o senhor entenda eu terei de falar as claras... o senhor Fernando descobriu que não era o único a esquentar a cama da dona Catarina e...
– Como é que é? A Catarina e o Fernando...
– Sim, mas aparentemente ele não era o único e não gostou nadinha de não ter exclusividade.
– Então ela foi embora por medo de enfrentar o meu irmão?
– Não senhor esse ela enfrentou com o maior descaramento, o caso foi que a esposa do outro descobriu a infidelidade do marido e jurou mata-la, o homem com medo do escândalo, acho que se tratava de alguma figura da politica, não saberia dizer ao certo... ele deu passagem só de ida para ela zarpar para Portugal e ameaçou que se ela colocasse os pés aqui no Brasil de novo ele não iria deixa-la a mercê da esposa mas ele mesmo iria por fim ao problema com as próprias mãos.
– Em pensar que eu deixei a minha filha passar tanto tempo exposta as sandices dessa mulher.
– Eu tenho certeza que a pequena não presenciou nenhum deles, alias a coitada mais passava no quarto brincando sozinha do que em qualquer outro canto da casa.
– E Você, se a Catarina não esta mais aqui não tem quem lhe pague o salario, porque continua nesta casa?
– Pra falar a verdade eu não recebo salario desde quando o senhor levou a pequena desta casa e suspendeu a pensão que dava a dona Catarina.
– E porque continua aqui?
– Eu não sou uma pessoa muito econômica, não penso muito no futuro e nunca me importei em fazer economias, aqui eu tinha teto e comida, desde quando a dona Catarina foi embora eu venho pegando alguns bicos como lavadeira mas ainda não juntei a quantia para sair daqui.
– Entendo e não se preocupe eu vou lhe parar esses meses que você ficou sem receber assim você consegue ir para alguma pensão e se mantem até encontrar um novo emprego.
– Eu nem sei como agradecer seu Edgar.
– Não precisa Odete, eu é que agradeço pelo tempo que você cuidou da minha filha.
Depois de tudo o que ouvi não tive estomago para ir trabalhar e resolvi voltar para casa, achei que a encontraria vazia, mas para a minha surpresa me deparo com a Melissa na sala distraída com uma de suas bonecas, porém com o semblante triste.
– Minha abelhinha linda o que aconteceu, porque você voltou da escola tão cedo?
– A tia Laura passou mal papai por isso nós voltamos.
– A Laura passou mal?
– Passou sim papai mas desta vez ela achou melhor voltar para casa.
– Isso já aconteceu outras vezes meu amor?
– Já papai e a tia Laura falou que não era nada mas eu acho que ela se enganou.
– Porque você acha isso minha filha?
– Porque o papai dela veio pra ver ela... o pai da tia Laura é medico não é papai? e medico só vem ver a gente se estamos doente de verdade.
– Não há de ser nada meu amor, eu vou lá em cima ver como ela esta.
Do um beijo na testa da minha filha e subo apressado, estava tentando agir naturalmente para não assustar a Melissa mas assim que alcancei o corredor do andar de cima deixei a minha calma de lado e corri para o nosso quarto, a Laura não era de passar mal e para tê-la afastado da aula e ainda receber a visita do meu sogro supunha ser algo grave. Abro a porta com um movimento rápido e em poucos passos estou ao seu lado na cama, ela parecia ter adormecido e a palidez do seu rosto mostrava um abatimento que não estava ali quando nos despedimos depois do desjejum. Meus olhos se enchem d’água ao lembrar-me da noite em que a vi desse jeito frágil, quando aquele crápula a atacou... balanço a cabeça tentando afastar esses pensamentos e faço um afago em seu face, ela abre os olhos ao sentir o meu toque e os seus olhos encontram os meus.
– Edgar?
– Oh meu amor o que aconteceu?
– Ai Edgar que bom que você chegou – Ela diz deixando algumas lagrimas furtivas lhe escaparem na face.
– Eu estou aqui meu amor, eu sempre estarei aqui pra você.
– Então me abraça meu amor, me abraça bem forte.
Ela se joga nos meus braços e eu a abraço forte mantendo uma das minhas mãos em seus cabelos.
– Você esta me assustando meu amor, a Melissa me disse que o seu pai esteve aqui... o que houve você esta doente?
Ela soluça ainda mais em meu peito e eu a aperto mais forte em meu abraço.
– Laura?
– Não meu amor eu não estou doente.
– Mas você passou mal e não me diga que foi só por causa do calor porque a Melissa falou que não foi a primeira vez que isso aconteceu.
– Realmente não foi a primeira vez.
– E porque você não me disse nada?
– Eu achei que era um mal estar atoa.
– Mas não era, Laura não me torture, diga logo o que há de errado.
– Não tem nada de errado Edgar, pelo contrario esta tudo perfeito.
Eu franzo o cenho para ela e ela ri em meio as lagrimas, aquele sorriso lindo foi o suficiente para acabar com a minha apreensão e eu sinto meu corpo relaxar, ela enxuga o rosto e me da um beijo nos lábios.
– Não se preocupe meu amor, meu mal estar é totalmente normal no meu estado.
– Laura você...
– Sim Edgar, eu não acreditei quando o meu pai me disse eu realmente achei que estava sofrendo de alguma moléstia, nunca imaginei que pudesse estar...
– Gravida.
– Edgar nós sonhamos tanto com esse dia mas te confesso que já estava ficando com medo de que nunca pudesse te dar o filho que você sempre sonhou.
– Meu amor uma hora ou outra ele iria acabar vindo.
– Eu não sei Edgar, já tinha ouvido tanto de mulheres que depois de ter perdido um filho assim como eu perdi e nunca mais conseguiram engravidar... eu tinha tanto medo.
– O meu amor eu não sabia que você se sentia desta forma eu nunca a culparia se uma coisa dessas acontecesse com a gente.
– Mas você ainda iria querer uma mulher que não pudesse lhe dar filhos?
– E você ainda tem alguma duvida? – Eu levo uma mecha solta de seus cabelos para trás da sua orelha e contemplo os seu rosto, seus olhos ainda estavam marejados e mesmo com aquela aparência frágil ela estava encantadora de uma forma que fazia o meu coração saltitar, como não amar loucamente essa mulher...
– É claro que a noticia de ter um filho me tirou o chão de tanta felicidade, eu sonho com esse filho desde o dia que me vi completamente apaixonado por você, era tudo o que eu queria, mas ter você ao meu lado é o que me da animo para levantar todos os dias e tentar ser um homem melhor, você faz isso comigo Laura.
Ela me da aquele sorriso lindo que eu amo e coloca as suas mãos sobre o meu rosto onde começa a acariciar a minha barba, eu deito minha cabeça de lado sobre uma de suas mão e a beijo para depois voltar a encara-la.
– Você existe mesmo Edgar? Porque eu acho que não te mereço!
– Merece, merece sim isso e muito mais, agora deixa eu cuidar um pouco de você que a estou achando muito abatida.
– Ah é senhor meu marido... e o que pretende fazer a respeito? – Ela diz de um jeito insinuante enquanto passeia com as suas mãos em meu peito, eu acho graça e entro na brincadeira me inclinando sobre ela enquanto deixava uma serie de beijos na curva de seu pescoço e falava de forma pausada.
– Primeiro eu vou descer lá em baixo... vou pegar algumas coisa para te alimentar... depois de ter certeza que você já esta devidamente alimentada eu...
– Você o que?
– Eu irei matar a minha fome...
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