Notas iniciais
Queremos agradecer o carinho de todas, e dizer que adoramos os comentários... e Karen agradecemos imensamente a recomendação!
bjsss pra todas!

Por Edgar

Na quarta-feira de cinzas a tarde resolvo ir até o jornal para entregar a matéria sobre os cordões carnavalescos. Mesmo não tendo ainda respondido a última carta de Laura passo nos Correios e Telégrafos para ter certeza que não tinha nenhuma correspondência para Antônio Ferreira.

Entro na Agencia e procuro a caixa postal do jornalista ficando surpreso ao encontrar uma nova carta confiro o remetente como se houvesse a possibilidade de outra pessoa usar essa caixa postal.

Tomo o caminho de casa, onde entro rapidamente assustando Lurdes e Melissa que brincavam na sala, beijo minha filha de quem tinha me despedido há pouco cumprimento a Lurdes, tranco-me no escritório e abro a carta.

Rio de Janeiro de 1910

Meu Caro Antônio Ferreira

Venho por meio de esta, dizer que preciso me desculpar por ter passado dos limites com a troca de correspondência e que me deixei envolver mais do que gostaria, que minha admiração atingiu uma nova forma e essas trocas de cartas se tornou muito delicado, portanto gostaria que parássemos de nos corresponder.

Senhor Ferreira espero que não me entenda mal por lhe fazer confidências, mas um outro motivo para o rompimento do contato trata-se de um amor da juventude que reapareceu na minha vida e que pensei que havia acabado mas ele ainda existe e vou lutar por ele com todas as minhas armas para reviver essa paixão, inclusive já marquei o encontro para hoje a noite... peço que não me tenhas por mal, guardarei lembranças boas do senhor e espero que não guardes ressentimentos quanto a minha pessoa.

Atenciosamente

Laura Vieira

Releio aquela carta mais uma, duas e até três vezes e não me convenço do que nela esta escrito, era como se o destino me quisesse pregar uma peça, pois no momento em que eu tinha criado coragem para acabar com essa história de cartas e contar a verdade a Laura eu tomo essa rasteira. Era difícil descrever o que eu estava sentindo, primeiro veio a negação, depois a revolta, mas a aceitação que seria o ultimo estágio esse eu não alcancei permaneci na revolta e desolação, amassei a carta e a coloquei no bolso interno do meu paletó e levei as mãos a minha cabeça, tentava controlar os meus pensamentos e achar alguma desculpa para tudo aquilo mais não conseguia e num impulso de raiva me levantei da cadeira e numa só braçada levei todos os objetos e papeis de cima da secretária ao chão.

Me deixei cair novamente na cadeira, o meu impulso não serviu para eu me livrar totalmente daqueles pensamentos ruins, mas pelo menos serviu para eu me acalmar um pouco, permaneço em silencio apenas ouvindo o som da minha respiração descompensada que é interrompida por batidas tímidas a minha porta.

- Papai o senhor esta bem?

O som da voz preocupada da minha filha trás de volta um pouco de sanidade para mim, eu ajeito a minha gravata a colocando de volta para dentro do colete e arrumo o meu paletó, levo as minhas mãos as cabelos colocando-os para trás novamente e respondo a minha filha tentando trazer a minha voz uma entonação que não acusasse o meu estado.

- Estou bem meu amor porque a pergunta?

- Eu ouvi um barulho papai e fiquei com medo.

- Não se preocupe florzinha o papai deixou algumas coisas caírem, não foi nada de mais.

- Quer ajuda pra arrumar?

- Não Melissa pode ir brincar.

O som do outro lado da minha porta cessa sinal de que a Melissa tinha voltado para a sala, eu não fui muito gentio com ela e ela provavelmente devia estar magoada, eu enterro a minha cabeça nas mãos, eu havia tirado a Melissa da influencia negativa da mãe mais não estava dando a atenção que a minha filha merecia... levanto da onde eu estou e caminho em direção a porta me esquecendo completamente dos objetos espalhados pelo chão... Chego a passos lentos na sala e observo a Melissa com uma boneca em sua mão mais diferente de a poucos minutos atrás quando eu entrei em casa ela não estava sorrindo, o som da minha voz a desperta e ela fica surpresa em me ver.

- Atrapalho a brincadeira?

Ela balança a cabeça negativamente e eu me abaixo e lhe dou um beijo em sua fronte.

- Oh minha abelhinha linda o papai vai ter que sair agora para resolver uns assuntos, mas prometo que amanhã não irei trabalhar pra gente ficar o dia inteirinho grudados o que você acha? Agente pode sair também, ir a um lugar bem bonito só nos dois...

- Eu acho supimpa... pai agente tem que ir sozinhos?

- Não minha flor, nós não temos você queria convidar alguma amiguinha?

- Eu queria convidar a srta Vieira papai será que ela aceita vir passear com agente?

- Porque a srta Vieira filha?

- Porque ai o senhor pode perguntar pra ela se eu posso ir estudar na escola dela... e também se ela ainda te ama.

A inocência da minha filha me comove em nossa conversa quando lhe contei sobre a Laura e eu sermos casados e ela me perguntou se a Laura ainda me amava eu havia dito que iria descobrir, o que eu não esperava era descobrir isso por carta, pior ainda, descobrir que a resposta era negativa, ela não me amava mais... afasto esses pensamentos amargos da minha cabeça e volto a minha atenção a minha filha.

- Não sei se será possível Melissa a srta Vieira é muito ocupada, você terá que se conformar com um passeio a dois.

Ela parece um tanto decepcionada com a minha resposta mais não insiste no assunto, eu me despeço dela e aviso a Lurdes de que talvez me atrasasse para o jantar, no caso de isso acontecer eu peço que ela coloque a Melissa para dormir.

- Desculpe D. Edgar eu acabei esquecendo, a dona Margarida ligou hoje assim que o senhor saiu e sabendo que a neta estava aqui pediu que o senhor a levasse para dormir lá esta noite.

- Tudo bem Lurdes arrume então as coisas da Melissa que eu passo na casa da minha mãe e a deixo lá... pode tirar o restante do dia de folga não precisa se preocupar com o meu jantar.

Após deixar a Melissa na casa da minha mãe eu segui o meu caminho queria ir atrás do Guerra, precisava ouvir a opinião dele a respeito desta ultima carta que eu recebi da Laura, o que eu queria na verdade era que ele me dissesse que eu estava errado em minhas conclusões, que a Laura não estava dizendo aquilo que eu achava que ela estava dizendo... estava tomando a decisão sobre que direção tomar quando vejo o próprio saindo da barbearia, chamo pelo seu nome e ele para a sua caminhada enquanto espera que eu o alcance.

- Que bom te ver Guerra estava pensando em você.

- Pensando em mim Edgar? Nossa que honra não esperava tais palavras sair da sua boca.

- Muito engraçado senhor Guerra, esta voltando para o jornal? Eu posso te acompanhar?

- Claro Edgar mais eu estou indo para o bar Guimarães você me acompanha?

- Te acompanho, mas vamos sentar em uma mesa do lado de fora que o que eu tenho pra te contar não é pra ser ouvido por ninguém.

- E pela sua cara meu amigo, boa coisa não é.

Depois de nos acomodar e do garçom se retirar eu pego a carta da Laura do bolso e estendo para o Guerra que franze o cenho para aquele papel amassado e o recebe contrariado e inicia a leitura, eu o fito com curiosidade esperando pela sua reação.

- E então Guerra o que você acha?

- Sinceramente Edgar eu não sei o que te dizer, não parece a Laura dizendo isso.

- Mas se só ela tem o endereço dessa caixa postal... e para ser outra pessoa ela tinha que estar por dentro de tudo para mandar uma carta.

- Eu sei, essa carta só pode vir da Laura mesmo, eu até entendo ela admitir que gosta do Ferreira, mas dizer que reencontrou um antigo amor e tentará viver essa paixão eu não consigo, não parece ela.

- Como assim você entende o fato dela gostar do Ferreira? Que papo é esse Guerra, pois eu não entendo é nada, nem isso nem essa história desse amor antigo... a Laura nunca me falou que antes de me conhecer ela já tinha se apaixonado.

- E você achava que era o primeiro e único?

- Que era o primeiro não, mas esperava ser o único a ocupar o coração dela, assim como ela ainda ocupa o meu.

- Eu sinto muito Edgar... o que você pretende fazer?

- E tem alguma coisa que eu posso fazer? Eu não mando no coração dela Guerra.

- Eu sei que não Edgar, mais se seis anos não foram o suficiente para acabar com o amor de vocês dois porque você acha que ele acabou agora?

- O reaparecimento de um amor da juventude talvez?

- Só tem um jeito de você descobrir Edgar...

- Você acha que eu devo ir lá tirar satisfação com a Laura?

- Eu não digo tirar satisfação Edgar, eu falo em vocês conversarem, alias era o que vocês deveriam ter feito a muito tempo.

- Você esta certo Guerra eu vou procurar a Laura e vai ser hoje.

- Hoje Edgar? Mais hoje não é o tal encontro?

- Sim

- E você vai mesmo assim? E se esbarrar com o tal sujeito?

- Dai eu não garanto ser o mais educado dos homens.