Senhor Júlio Saturnino

Ouso dizer que a rebeldia para os poetas é como um fulvo fogo que queima no peito, aquecendo os corações com a vã imagem da esperança. Carregam consigo um diferente vislumbre para além do tempo presente, algo muito além daquilo que eles não se sujeitam a aceitar. E ainda que você não seja um poeta a sua capacidade de seguir o seu coração prova-nos que não é uma criatura sem sentimentos, mas ao triunfar neste intento demonstrando sua complacência por aquele que julgamos os guardas reais em minhas e nestas terras — ainda que eu seja uma garota não habite mais nelas — tu deixou de seguir as ordens de Majestade de meu continente, tornando-se uma prova legítima — assim como muitos da cidade de Ventrúria — de que não é servo e leal ao governo. MUITO MENOS, aos MEUS LIVROS AGORA TEUS, que te indiquei: Coração de Tinta e Labirinto do Fauno. Então como um bom amiga que sou, aviso-lhe que corre perigo. E que novamente feriu as leis do governo de minhas terras.

Está a segunda vez que mando um aviso para ti — não em circunstâncias semelhantes — e tu podes até crer na palavras dos sábios, cujos ditos dizem que quanto mais conta-se uma história melhor ela se torna — Mas neste mundo em que vivemos, tu bem sabes as consequências da repetência de atitudes imprudentes contra a coroa de minhas terras do outro lado do mar — ainda mais um aviso parar tomar cuidado com a Rainha não é um dos melhores contos.

Por mais de uma vez ditei-lhe como funciona as engrenagens do governo de Ventrúria. Creio eu que não fui a primeira pessoa a fazê-lo, tampouco serei a última. E eu sei que não o compreendo pois eu temi o convite que me fizeste para juntar-me aos teus. — assuntos que repetidas vezes debatemos em outras cartas — e justamente por ter pavor deste salto para o desconhecido e contrapor-me as leis vigentes desta terra — pois ainda que jovem, já tive o vislumbre de ter minha vida posta novamente em minhas mãos apenas pelas bondade e benevolência de Na'yir e de nossa Majestade (sabes bem que apesar do que se prega não creio que a Rainha tenha em si, o coração da Grande Mãe ou como é chamada pelos teus: Ella — por isso insisto em dizer que há magia nos rebeldes, seres como tu, impregnados de coragem. Por que magia? Porque há criaturas como tu, que até tu pode não notar, que são pequenas faíscas encantadas: Fascinam todos que lhe rodeiam.

Sabes bem que a história não vivida por nós, não passa de um punhado de devaneios a respeito de um longínquo tempo que por vezes deixamos de recorrer — seja por meio de livros ou antigas cantigas — e por isso, consequentemente caímos e tropeçamos nos mesmos erros. Seria um erro aceitar o teu povo? Como já aceitamos outros? Seria um erro meu não aliar-me a ti?

Dizem que antes havia mais dos meus do que dos teu povo. Hoje, não conto com mais de duzentos do meu povo. Não sei o que poderá vir das próximas gerações, mas tempos de paz não será, não por Majestade. Um povo será desolado e isto poderá se saber apenas no futuro, cabe o presente a mim, mas o futuro é conjunto.

Tenho outro questionamento, se me permite fazê-lo, irmão, tu pretendes a está Terra regressar? Ainda que em tua terra mãe, corra perigo? Aguardo em sua próxima carta uma resposta.

Como explanava antes do meu breve devaneio...

Em primeiro instante, não pude decifrar o rosto de Majestade. A neblina que rodeava o salão cravejado de cristais azuis, o nevoeiro pulsava em sincronia com os bater de suas asas, asas de ferro. Ainda lhe contarei esta história, mas em prol de tua vida, tal fato devera ser dito em outra carta e outro papel.
Hesitei em questionar o que estava escrito na carta, todos hesitaram. Aos poucos de esguelha, consegui decifrar o significado na expressão de Majestade. Me assustei e é por isso que lhe comunico.
Se a palavra fuja, pudesse se desdobrar em uma pintura, seria uma benção dos deuses presentear infortunáveis criaturas que estão em perigo e ao mais tardar não possuíram sequer um abrigo. E é essa paisagem que compartilho com você.
Não sei por qual motivo te incomoda os atos da rainha, mas em meio a tantos escândalos que fizera durante a sua estadia em nosso país, não me impressiona que ela te odeie.
Até creio que você apenas protege a menina porque a corteja.

Ah, se a Rainha soubesse.

Amigo, me perdoe por não agir em sua defesa. Não pararei de servir a Rainha. Sabe que a lei não foi revogada, trabalho servil continua a ser vitalício. — Mesma que eu seja o seu filho — Eu sei, somos ambos servos, mas tu tens a audácia de caminhar sobre as lâminas do governo.
Sim, permaneci quieto enquanto a Rainha pedia conselhos sobre a sua traição, ainda que ache que tal palavra é carregada de significados e ações mais pesadas do que o real significado de teu gesto para com a Rosa, que traduz se ao menos para mim em bondade.
Penso no mal que esta carta pode me causar. Mas não mudarei de ideia.
Escreverei a ti mesmo assim. Segue em anexo a conversa que discutimos no salão oval.

°°°

Escorei me em um canto, próximo aos batentes do grande vítreo que adornava o salão, observando a todos que um palpite a respeito das atitudes que a Rainha a respeito de um forasteiro, tais pessoas permitiram-se e tinham consigo audácia de fazer os comentários — Já eu não. Assim como eu muitos optaram por se abster de tal assunto. Alguns, como meu comparsa, cochichavam ao meu lado, no entanto suas palavras não chegavam aos meus ouvidos.
Não recordo-me do sonho que tive, ao menos tal devaneio não estava carregado de imagens marcadas, como comumente tais desenhos invadiam-me a mente, resquício de lembranças uma mãe árdua na infância . Minhas lembranças — diferente de qualquer criança que carrega consigo uma boa ventura — não há sentimentos nostálgicos encrustados nas recordações, ou qualquer outro sentimento de paz de espirito ou tranquilidade que possa vir em mente


Dê súbito, abri os olhos, cobri-os com as mãos para tornar o despertar da vista mais reconfortante. Mas o que encontrava a minha frente cegou-me mais do que qualquer luz. E pude compreender a desordem e o caos na mais perfeita singularidade e harmonia.

Nerus, devo lhe dizer que há certo misticismo a respeito das asas de vossa majestade, como se pequenas ceras de velas compusessem os pares do artificio que a faz voar, de fato compreendo os boatos, pois é como se o interior das novas asas fosse iluminado por uma chama incandescente que vezes ou outra soltava vapor e derretia apenas de se olhar, fazendo-se e desfazendo-se em pueril lembranças. Sumindo — como se assim o demônio que lhe presenteou com tais asas pudesse fazê-la se lembrar do trato — e reaparecendo, no entanto ela nunca deixará de ser uma Oysyr. De fato este misticismo não é apenas uma história, ele é real. E tão magnifico quanto a lenda diz.

Quando as primeiras luzes da abóbada celeste banharam as suas asas — adquiridas pelo sacrifício de coisas que não ouso mencionar em tal carta — um corajoso advindo da pequena multidão exclamou, quase como que o brilho de Ela, nossa Grande Mãe , tivesse lhe dado coragem.

— Na'yir tenha misericórdia.

Não ouviu-se mais nenhum som, quem teria piedade do homem culpado de traição? O calor provocado pelas asas recém refeitas deixou todos atônitos. E, mesmo que todos estivessem em desacordo com as atitudes da nossa Rainha, infelizmente não pude deixar de me surpreender, os vi reverenciar — como sonâmbulos — vossa majestade.

— Aos novatos, aconselho vocês a fecharem os olhos — A voz de meu amigo manifestou-se no aglomerado de quinze pessoas, seguido foi o som por suspiros de pesar — Quinze comensais juraram servir e obedecer vossa majestade, no entanto há um aqui que esta em desacordo, devemos ser misericordiosos ou não com ele?

Alguns ergueram suas cabeças, e honestamente, não sei o motivo ao certo de também ter realizado tal gesto. Na realidade, sei bem do motivo de ter servil mesura. Era do meu interesse de imediato, agradar meu amigo, me vi seguindo uma multidão — ainda que de poucas pessoas — e aquilo me pareceu o mais certo a se realizar. Neste mesmo instante, meu amigo olhou-me com sua face estampada de orgulho por finalmente ver-me entregue as ordens e ao poder da Rainha, como bem você sabe, sempre o fato deste cargo ser ocupado por uma mulher incomodou-me, principalmente pelo fato desta mulher ser justamente a minha mãe, não que mulheres não sejam dignas da coroa, mas as mulheres da minha família não são dignas de tal peso.

— Tem certeza? — Questionou meu amigo ao opositor às ordens da Rainha.

— Tenho — Respondeu convicto — Não há nada que possa ser mais errôneo do que tal atitude.

E sinto muito, amigo, desprovido sou de coragem, pois não sou capaz de narrar o que lhe aconteceu a seguir, mas a morte jamais repousou em minhas mãos.

A filha de Ella
Lechambrér de Kadija

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.