Quando o despertador de Hermione tocou, ela sentiu vontade de jogá-lo contra a parede.
"Vamos Hermione, é sexta-feira. Só mais um dia e você estará de folga".
Ela se motivou vagamente enquanto sentava na cama e encarava com uma feição nada feliz a parede vaga do outro lado do quarto.
Vestiu sua roupa de trabalho — uma roupa larga e confortável — e então tomou uma longa xícara de café.
Quando estava prestes a sair, uma grande coruja de penas brancas com filetes cinza escuros pousou em sua janela de ladrilhos amarelos, e então bicou insistentemente o vidro.
— Bom dia, Apus. — Hermione o saudou, abrindo a janela e oferecendo um petisco em troca da carta que ela carregava. Ao seu lado, Astrid, sua própria coruja, encarava-o com desdém.
A coruja branca se aprumou orgulhosa de sua entrega, aceitou o agrado e saiu batendo as enormes asas.
— Você também merece, querida. — Hermione ofereceu outro punhado de grilos dissecados para ela, esperando que não houvessem ressentimentos, e a coruja novamente se tornou amigável.
Hermione abriu o envelope, permitindo que o perfume de lenha de cedro inundasse suas narinas, e então leu a caligrafia fina e robusta que a carta apresentava.
"Querida anônima
Estou enviando esta carta para confirmar nosso encontro hoje, às 17h30 da tarde. Se possível me envie uma coruja em resposta. Estou muito ansioso para provar o sabor do café que você tanto elogiou, e também conhecer a bruxa sensacional que você tem se mostrado ser. Sinto muito pelo mero bilhete ao invés de uma carta mais descritiva, mas como havia te falado, hoje será meu primeiro dia de trabalho e espero não me atrasar.
Um longo e carinhoso beijo.
Do seu admirador — por enquanto — secreto. "
Hermione sentiu todos os pelos de seu braço se arrepiando com o final da carta.
Com toda a correria da última semana e do novo treinamento de médicos residentes, ela quase havia se esquecido de seu tão esperado encontro com seu correspondente anônimo.
Ela precisava correr.
Pegou uma mochila de viagem, onde enfiou de qualquer forma um vestido laranja escuro que alcançava a altura de sua panturrilha, um sapato de salto alto e um kit de maquiagem, e então se encaminhou até a sua escrivaninha.
"Querido anônimo.
É claro que pode confirmar nosso encontro, eu jamais o esqueceria. Te vejo no final da tarde.
Forte abraço"
Hermione entregou o bilhete levemente amassado no bico de sua coruja de penas bordô e fez um agrado em sua cabeça.
— Vá o mais rápido possível por favor, Astrid.
A coruja se aprumou, e como se planejasse uma corrida com a coruja anterior, lançou-se em direção do céu.
Hermione desaparatou no beco atrás do hospital onde trabalhava. Com um leve aceno, ajeitou suas roupas e caminhou em direção à entrada do hospital.
Não conseguia parar de pensar em como havia se enfiado nessa situação. Trocar correspondências com um anônimo. Marcar encontros com um completo desconhecido.
Ainda podia ouvir a voz alegre de Gina sugerindo com malícia em sua voz que Hermione entrasse no programa.
"Vai ser muito legal, você vai ver" Gina falou enquanto mastigava balinhas de alcaçuz, os pés jogados sobre a mesinha de centro de Hermione. "Você ainda pode perguntar algumas coisas simples, sabe? Como a idade por exemplo, mas de jeito nenhum pode perguntar questões mais pessoais sobre a aparência da pessoa ou quem ela é de verdade. A ideia é que você decida se gosta da pessoa só pela conversa."
Hermione havia feito uma cara feia para a amiga.
"Você acha que eu estou desesperada?" Perguntou.
"Ah, qual é. Você está desesperada". Gina zombou. "Quando encontros ruins você já teve depois de Ron?"
Hermione podia contar nos dedos da mão todos os encontros que teve depois de terminar com Ron. E pior, a situação estava realmente feia.
Se lembrou de Peter, um garoto trouxa dois anos mais jovem que Hermione que a chamou para ir ao cinema. Ele era bonito, alto e tinha a pele bronzeada. Em compensação, o garoto fingiu ter perdido sua carteira para que Hermione pagasse os ingressos e a pipoca, e ainda repetiu três vezes. Tudo isso enquanto ela podia ver a carteira em seu bolso traseiro. No final do encontro, o garoto deu um abraço em Hermione e saiu andando em direção oposta, feliz por ter comido às suas custas.
O que ainda era um progresso quando comparado ao anterior, um enfermeiro que trabalhava com Hermione e tinha um esquisito fetiche por pés, que infelizmente Hermione descobriu apenas quando os dois estavam transando em sua casa. Depois disso, ela evitou aquele posto de enfermagem.
E havia Ron.
Seu ex namorado, um homem tão doce quanto Hermione era capaz de imaginar. Ele era carismático, engraçado e brincalhão.
Mas simplesmente não era com quem Hermione deveria estar.
Dois anos após o final da guerra, Hermione começou a perceber os sinais do desgaste de seu relacionamento. Ela e Rony estavam cada vez mais distantes, ele ocupado com sua formação para Auror, e ela ocupada com o primeiro ano de sua faculdade de medicina bruxa simultânea do curso de medicina trouxa. Hermione enviava cartas todos os dias pela manhã e ao final da noite, mas raramente era correspondida. Uma vez por mês, quando Ron tinha uma breve folga de seu treinamento, ele visitava Hermione carregando buquês de flores e chocolates.
E depois, mais um mês sem nenhuma resposta. Nenhum olá.
O relacionamento ainda durou longos quatros anos depois disso, com Hermione podendo contar menos que dez visitas nesse meio tempo.
E quando ela deu a notícia de um término, Ron compreendeu. Lágrimas escorreram de seus olhos claros, tornando suas sardas mais avermelhadas com a repentina notícia, mas quem ele era pra negar a liberdade de Hermione? Para negar sua oportunidade de ser feliz?
Eles se despediram com um abraço, e depois disso a frequência com que se viam manteve-se a mesma. Hermione passava os Natais e longos feriados na Toca, feliz com a amizade que haviam reconstruído. E ela ainda tinha Gina, e Harry, e seu afilhado James, que havia acabado de completar um ano.
E ela ficava feliz por todos estarem bem, mas era isso.
Hermione trabalhava, e trabalhava, e trabalhava.
Havia escolhido um hospital trouxa, onde podia aplicar seus conhecimentos de medicina comum e torná-los práticos ao seu conhecimento bruxo, realizando feitiços escondidos e salvando vidas condenadas sempre que possível.
Era isso que ela fazia para se manter sã. Para evitar o aperto que sentia em seu peito quando lembrava-se de seus pais morando na Austrália sem se lembrar que tinham uma filha, ou quando chegava em casa sozinha e tudo que podia fazer para aliviar sua solidão era comer sorvete e assistir filmes de romance.
Ela queria algo mais.
E havia prometido a si mesma que faria com que seu correspondente anônimo desse certo.
Pelo menos era isso que ela acreditava, ainda mais após longos meses de conversa.
Eles conversavam sobre tudo. Conversavam sobre música clássica, filmes de comédia romântica e sobre filosofia. Hermione gostava de como ele parecia ácido e inteligente, e de como ele sempre perfumava as cartas com seu próprio perfume, e de como sua caligrafia era fina e requintada. Ela também havia percebido que ele era responsável quando ele disse que aos dezesseis anos precisou abandonar seus gostos pessoais e interesses devido a guerra, responsabilizando-se pela sobrevivência de toda sua família. E só agora, dez anos depois, ele havia conseguido se reestabelecer e concluir sua formação.
Mesmo que ele não fosse a pessoa certa, Hermione sentia que ele era no mínimo especial. Mesmo que não funcionasse com ela, Hermione desejava do fundo de seu coração que seu correspondente encontrasse alguém.
— Bom dia, doutora Granger. — O segurança do hospital disse quando Hermione passou seu crachá pela catraca.
— Bom dia, Louie. — Hermione ofereceu um sorriso. — Sabe me dizer se os estagiários já chegaram?
Ele negou.
— Oh céus, que ótimo. Estava com medo de estar atrasada. — Hermione concluiu, correndo até o elevador e segurando-o para subir.
Quando alcançou o quarto andar, ela desceu e cumprimentou a enfermeira do posto de queimados.
Apesar de ser a área mais alarmante de se trabalhar, Hermione gostava de recepcionar os residentes naquele setor. Era bom para fazê-los enxergar tudo que ainda poderiam passar, e a responsabilidade que carregavam.
Ela respirou fundo, e então começou o dia colocando seu jaleco e atualizando o prontuário do leito 401 até o leito 412. O restante ela deixaria para os novos médicos.
As enfermeiras costumavam dizer que Hermione mudava quando entrava no hospital e vestia o jaleco, como se estivesse vestindo uma capa de super-herói. De repente, tudo tornava-se extremamente sério e necessário. Todos os cuidados deveriam ser redobrados.
Quando ela checou o relógio, percebeu que seus seis novos residentes estavam quase cinco minutos atrasados.
Não havia desculpas para atrasos.
Dentro de dez minutos, cinco deles já haviam chegado. Um homem forte de cabelos escuros e oleosos, uma mulher loira que usava grandes óculos redondos, uma moça de pele escura e cabelos trançados, um homem alto de cabelos castanhos e barba por fazer, e uma mulher de olhos amendoados e rosto simpático.
Greg, Kimberly, Liz, Daniel e Ana.
Com muito esforço, Hermione conseguiria memorizar seus nomes até o final da próxima semana.
— Com exceção dos atrasados, acho que estamos todos aqui. — Hermione os recebeu com um aperto de mão em leve tom de censura.
— Cheguei, eu cheguei, perdão pelo atraso. — Hermione ouviu a voz de um homem vindo de suas costas. Ela percebeu que ele ainda estava no início do posto, mas estava falando alto para que ela o ouvisse.
Ela revirou os olhos enquanto o ouvia se aproximar.
— Atrasos não são bem vistos por aqui, senhor. — Hermione respondeu sem virar o rosto para ele. Ela precisava assustá-los para que percebessem a gravidade de seus atos. — Você pelo menos tem uma justificativa?
Ele se colocou ao lado de seus colegas, e tudo que Hermione percebeu foi que seu jaleco estava do avesso.
— Mil perdões, senho... doutora. — Ele pediu, ainda sem erguer a cabeça. Estava muito concentrado em desvirar o jaleco, e quando o fez, o abotoou errado.
— Justificativa? — Hermione insistiu. — Afinal, como é mesmo seu nome mesmo?
— Estava aguardando a confirmação para um compromisso no final da tarde, doutora. — Ele respondeu enquanto terminava de abotoar. — A propósito, meu nome é Draco, Draco Malfoy.
E então ele ergueu os olhos para Hermione, e sua imensidão cinzenta a fez afundar.
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