Notas iniciais
Aparentemente eu não tenho um pingo de vergonha na cara e por isso mesmo resolvi aparecer aqui com mais uma história, sendo que tenho outras para finalizar, mas ok, resolvi ignorar isso. Espero sinceramente, com todo o meu coração, que gostem da história. Feita com muito carinho e amor ♥

Gritos comovidos, urros de alegria.

Depois de desmontar da vassoura com o pomo de ouro em mãos, Scorpius Malfoy quase foi engolido por uma multidão de torcedores alucinados. Eles desciam das arquibancadas aos tropeços em sua direção, eufóricos, mas o rapaz sequer teve tempo para reagir. Foi puxado pelos jogadores sonserinos para um abraço coletivo. Alguns lançavam as vassouras para o alto, outros ergueram o loiro como se ele fosse uma espécie de herói – o que, convenhamos, não chegava a ser mentira. Pela primeira vez em anos a Sonserina conseguiu uma vitória esmagadora contra a Grifinória, algo certamente memorável dado o histórico de derrota dos serpentinos.

— Nós conseguimos! — Albus Potter puxou Scorpius pelo ombro para um abraço, os olhos arregalados, verdadeiramente surpreso. — Conseguimos mesmo! Você foi incrível, Malfoy!

A situação era tão inacreditável, tão irreal, que o loiro não conseguiu articular qualquer resposta. Apenas ria para o melhor amigo, desajeitado, enquanto recebia tapinhas animados e felicitações, sentindo uma onda de calor crescente no peito. Alegria? Não. Ia muito além. Aquela era a sensação de completude, do dever cumprido.

E ele não poderia estar mais satisfeito consigo mesmo.

Foi difícil se ver livre da multidão. Felizmente, Minerva fez o favor de expulsá-los do campo, chateada com a derrota da casa vermelha. Os jogadores serpentinos, então, retornaram ao vestiário em uma delegação particularmente barulhenta. Gargalhavam das expressões infelizes dos grifinórios que encontravam pelo caminho, erguiam as vassouras e cantavam hinos improvisados. Assim que passaram pelas portas de aço, no entanto, se dispersaram, guiando-se para os chuveiros, os toaletes feminino e masculino localizados em um minúsculo cômodo separado do corredor de armários.

Scorpius nunca esteve tão sedento por um banho como naquele momento. O cabelo grudava na testa e o suor escorria pelo corpo. Embora a partida tenha sido incrível, não negava o cansaço. Sendo assim, tremelicou quando a água quente encharcou a cabeleira e gotejou por toda a extensão dos músculos, livrando-o da sensação de sujeira.

Não soube por quanto tempo ficou ali, observando o vapor subir até o teto; por mais que o banheiro estivesse silencioso, era possível escutar a abafada algazarra vinda do cômodo dos armários.

As janelas estavam abertas e a luz do sol poente iluminava parcialmente o lugar. Ele fechou os olhos, suspirando profundamente, ainda com a sensação do pomo nos dedos. Certamente, seu pai ficaria orgulhoso quando soubesse do feito.

O pensamento o deixou feliz, mas não durou mais que meros minutos. Albus o tirou dos devaneios dando batidinhas no vidro do box.

— Por acaso entalou no ralo, Malfoy? — a voz do melhor amigo soou alta e impaciente. — Prepararam uma festinha na Sala Comunal para comemorarmos a vitória. Estamos todos te esperando.

— Podem ir na frente. — respondeu. Precisava de um tempo sozinho para assimilar a onda de sentimentos que inundavam seu peito. — Subo daqui a pouco.

— Você é quem sabe.

Passou mais um tempo parado, sentindo a água escorrer, cansado. Os alunos que também estavam no banheiro logo saíram e, dado algum tempo, o pandemônio cessou completamente. Ele escutou o bater abafado da porta principal e escorou a testa na parede, a água caindo em seu pescoço. Desligou o chuveiro só quando se sentiu verdadeiramente relaxado, e enrolou uma toalha felpuda no quadril.

Mesmo que a felicidade adoçasse seus lábios, toda aquela popularidade – se é que poderia chamar assim – ainda era estranha. Os últimos seis anos em Hogwarts foram tranquilos, e em todos eles Scorpius nunca chegou a se destacar em algo. Conseguir capturar o pomo de ouro durante a partida de quadribol, certamente, fora sua maior conquista até o momento.

Atravessou o banheiro com passos rápidos, arrepiando graças ao frio gélido do início de noite, o corpo ainda úmido e os pés contra o piso de pedra. Antes de alcançar a porta, porém, escutou um estranho som abafado. Um som metálico.

A princípio pensou que fosse algum colega que havia ficado, mas surpreendeu-se ao passar pelo batente e se deparar com uma volumosa cabeleira ruiva. A garota miúda futricava um dos armários – o armário dele — de maneira furtiva e sorrateira, como uma cobra peçonhenta.

Ele não soube como reagir. Realmente, não esperava vê-la. Quer dizer, não mexendo em suas coisas.

— O que pensa que está fazendo, Weasley? — questionou abruptamente, sem refrear a curiosidade e a raiva na voz.

Rose, que até o momento não notara sua presença, deu um pulo no lugar como se acabasse de ser pega em flagrante cometendo o maior crime do século. E Scorpius não duvidava que talvez fosse isso. Eram rivais desde crianças, então não se espantaria caso ela resolvesse pregar uma peça nele, ainda mais depois da derrota da Grifinória que, sinceramente, seria difícil de esquecer.

A ruiva abriu e fechou a boca algumas vezes, incapaz de articular uma palavra que fosse. Estava tão chocada por ter sido pega que nem se incomodou com o fato de ele estar quase seminu.

— Responde! — insistiu, sentindo o resto de sua paciência esvair. Ela, contudo, limitou-se a murmurar.

— E o que você está fazendo aqui? — devolveu a pergunta em um tom exasperado, colocando um cacho atrás da orelha como sempre fazia quando estava nervosa. — Deveria estar festejando com os outros no castelo. Ah, droga, me disseram que não havia ninguém aqui. — resmungou a última parte para si; felizmente, a audição de Malfoy era tão aguçada quanto a de um felino.

— Bom, — cruzou os braços, o nariz torcido. — como pôde perceber, não estou com os outros. Mas isso não vem ao caso. Quero saber o que está aprontando, Weasley.

Ela semicerrou os olhos e crispou os lábios com força, empalidecendo-os.

— Nada que te interesse, Malfoy. — respondeu, por fim, e bateu a porta do armário com força. — Agora, se me der licença, tenho mais o que fazer além de gastar meu tempo precioso com você. — e girou os calcanhares, correndo para a saída.

Ele piscou uma, duas, três vezes, estático e desacreditado. Ela estava mesmo fugindo dele?

— Espera aí! — mas Weasley não se deu o trabalho de virar. Atravessou a porta principal que levava ao lado de fora, sem dar a ele a chance de protestar, deixando-o indignado e muito aborrecido para trás.

Scorpius resmungou alto, soltando palavras torpes que certamente deixariam sua mãe horrorizada. Que garotinha mais insuportável. O que ela quis dizer com “não é da sua conta”? Claro que era da conta dele! Ela estava mexendo nas suas coisas!

Ainda irritado – conquanto, receoso – o rapaz resolveu averiguar a área. Abriu a portinhola do armário, esperando encontrar uma bomba de bosta ou qualquer uma das gracinhas estúpidas que Rose costumava fazer. Felizmente, não achou nada além da muda de roupas que guardara mais cedo, antes do início do jogo.

Aliviado, apanhou os trajes e vestiu-se rapidamente. Colocou a calça, depois calçou os sapatos. Quando desdobrou a camiseta do uniforme, porém, um envelope preso ali no meio escorregou até o chão.

Malfoy abaixou para apanhá-lo, as sobrancelhas loiras juntas. Não se lembrava de ter recebido nada no correio matinal, ou de ter guardado aquilo ali dentro. Rasgou-o e puxou uma pequena carta. O papel estava amassado, cheio de borrões de tinta, mas a elegante – e feminina – caligrafia era reconhecível.

Os minutos seguintes foram silenciosos, os olhos cinzentos percorrendo toda a extensão da folha. Ele leu e releu umas quatro vezes. Na primeira, gargalhou. Na segunda, manteve-se neutro. Na terceira, ficou descrente.

Na quarta, contudo, sentiu o desespero atravessar cada poro de seu corpo.

— Mas que porra?

Ou estava tendo alucinações...

... ou tinha mesmo recebido uma carta de amor de Rose Granger-Weasley.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.