Notas iniciais
Hoje é o dia. Esse capítulo é completamente baseado no episódio Jeopardy. Claro, com os meus muitos acréscimos. Boa leitura!

— Bom dia, mamãe!! – Minha pequena espoleta ruiva entrou correndo pelo quarto, pulando em minha cama!

— Bom dia, princesa, dormiu bem?

— Como uma pedra! Pedras dormem? – Ela franziu a testa, igual ao pai quando não entendia alguma coisa.

— Não, filha, pedras não dormem. Não são seres vivos! – Ri da sua ingenuidade.

— Mas, então, por que falamos que dormimos igual a elas?

— É uma expressão popular.

— Ah... – Ela disse sem entender muita coisa.

Sophie ficou ali, sentada em minha cama, balançando as perninhas, me observando enquanto escolhia a roupa que iria ao trabalho. Era um dos momentos preferidos dela. Sempre tinha um pitaco para dar.

— E que tal esse? – Mostrei um tailleur verde escuro...

— Não... a senhora usou esse na semana passada!

— Que memória!

Ela deu uma gargalhada. Era o melhor som que eu poderia escutar logo de manhã.

Mostrei diversas peças de roupa, e por fim, ela escolheu. E ai de mim se não vestisse!

Quando já estava pronta, era a vez de lidar com os cabelos dela, ela já estava com seu uniforme, pronta para ir para escola. Abri a caixa onde guardava seus laços e presilhas e perguntei:

— E então, o que vai ser hoje?

— Rabo de cavalo! Fui de maria Chiquinha ontem...

— E qual vai ser a cor do laço... Azul? Seus olhos estão azuis hoje...

— Estão?! – Sophie tombou a cabeça de lado e me encarava curiosa.

— Sim... da mesma cor que estavam quando te vi pela primeira vez. – Cheguei meu nariz perto do dela.

— Então vai ser verde!! Dá cor seus olhos, mamãe!!

Acabei de arrumar aquela pequena juba e, tive que arrastar Sophie para podermos para tomar o café, não sei o motivo, mas ela tinha a clara intenção de nos atrasar hoje.

— Vamos logo, preguiça! Ande! – Dei um empurrãozinho nas costas dela.

— Tô cansada. – Ela reclamou. – Não gosto de levantar cedo.

— Você não teve nem um mês de aula e já está cansada? Só um aviso mocinha, as coisas só vão piorar daqui para frente. E trate de se apressar.

Chegamos na cozinha e Noemi já tinha tudo pronto.

— Buenos días, Noemi!!! – Sophie cantarolou. – Tá cheirando bem esse café!

— Buenos días, pequeña! – Noemi veio e deu uma conferida no uniforme, já amassado de minha miniatura. – Está cada dia mais parecida com a sua mãe!

— Acho que não!! Não tenho olhos verdes! – Ela fez um beicinho.

— Não, são olhos únicos que trocam de cor... – Noemi a respondeu dando um beijo na testa dela. Sophie retribuiu o carinho com um abraço.

— Vamos parar de papo e comer. Senão chegará atrasada na escola e vai me atrasar também! – Tentei colocar marcha.

— Si, señora!! – Ela me respondeu em espanhol.

— Exibida! – Falei para ela.

E Sophie apenas sorriu de lado pra mim. Igualzinha ao pai.

Quinze minutos depois, estávamos saindo de casa. Como de costume, Sophie tem que cumprimentar até o cachorro do vizinho.

— Oi Stanley!! Ainda bem que é sexta, né?

— Bom dia, Senhorita Sophie. Sim, hoje é sexta. Planos para o final de semana?

— DORMIR!!! – Ela cantarolou.

— Stanley, corta o papo porque essa aqui hoje só quer saber de enrolar... – Dei um tapinha nas costas dela guiando até a porta do carro.

— Não é verdade, Stanley!! Ela que quer chegar cedo no trabalho!! – A ruivinha se defendeu já lá dentro.

Meu motorista deu uma risada e ocupou o seu lugar. De repente notei que Sophie ficou quieta demais, e quando observei sua feição tinha a testa franzida e um ar de quem estava pensando demais.

— Uma moeda por seus pensamentos! – Sussurrei no seu ouvido.

Ela deu um pulo e me olhou.

— Mamãe...

Quando começava assim, eu já sabia que não era boa coisa.

— Diga.

— Quando vou poder te visitar no seu trabalho? Assim, não no final de semana, como foi quando a senhora me levou para conhecer o Estaleiro no último sábado... Quero conhecer todas as pessoas com quem você trabalha, não só a Cynthia, a tia Ziva e o tio Ducky! Quero conhecer o DiNozzo, ele parece divertido, o McGee, o Palmer, a Abby, quero ver o que ela faz com todos aqueles equipamentos e computadores, e quero conhecer o Gibbs.

Ela me pegou de surpresa. Não conseguia imaginá-la no mesmo ambiente que Jethro. E não queria encarar o fato de que ainda estava em dúvida se ele nunca tocou no assunto “Sophie”, porque escolheu ignorá-la ou porque não sabe da existência dela. Ao mesmo tempo, eu conseguia imaginar a cena de Sophie junto com Abby. Correndo pelo laboratório. Conseguia até mesmo vê-la conversando com Tony e McGee...

Desviei meus pensamentos da cena que se formou em minha mente. E voltei minha atenção para minha filha. Ela tinha seus grandes olhos focados em mim, aguardando minha resposta.

— Não posso te levar, Ruiva. Sabe que vivo ocupada lá dentro, não teria tempo para ficar com você e te apresentar para todos. E você não pode ficar andando por lá sozinha... Mas, por que a vontade de ir lá em um dia de semana?

— Só porque a Lilly disse que visita a mãe no trabalho dela... a Emilly também visita o pai dela, de vez em quando, e ele trabalha no FBI...

— Filha, meu cargo é muito diferente do de um agente. Você não pode ficar por aí passeando... pode ser perigoso para você... por isso que você não vai lá, e por isso o Stanley te leva e te busca na escola.

— Entendi... – Ela tinha a carinha mais triste do mundo. Meu coração se quebrou em mil pedaços.

Depois dessa conversa ela ficou em silêncio e logo em seguida chegamos na escola. Ela se despediu de Stanley e de mim, me desejando um bom dia de trabalho e correu em direção às amigas, uma, inclusive, ruiva.

Como de costume, eu sempre pedia para Stanley ficar um pouco mais, gostava de ter certeza de que Sophie entraria em segurança para dentro do prédio. Quando seus cabelos vermelhos desapareceram porta adentro pedi que ele seguisse para o Estaleiro.

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Era uma sexta-feira como outra qualquer. Os times estavam trabalhando em seus casos, eu tinha uma pilha de relatórios para ler e algumas reuniões tanto no MTAC quanto no Capitólio.

A manhã já tinha acabado, e eu voltava de uma reunião com alguns senadores quando recebi uma ligação de Cynthia.

— Senhora, me desculpe atrapalhar, mas temos um problema aqui.

Ela nem precisava me falar quem era o problema.

— O que foi que Jethro aprontou dessa vez? – Perguntei com um suspiro.

— Não foi ele, senhora, foi a Ziva. Ela matou a testemunha chave do caso de tráfico de drogas que a MCRT está investigando.

Tudo menos isso! Vai ser um prato cheio para a impressa.

— Lá se vai minha saída mais cedo de sexta-feira. Estarei aí em meia hora, não deixe que Jethro faça nada com a Ziva.

— Não tem como ele fazer nada com ela, Diretora, ele está no seu escritório e a Oficial David está na Autópsia com o Dr. Mallard!

— Me diga que minha sala esta inteira?

— Até agora, sim.

— Muito obrigada, Cynthia. Já estou a caminho.

Apoiei minha cabeça no encosto do banco, pedi a Stanley que me levasse o mais rápido possível para a sede. Eu tinha um enorme problema para resolver.

Com o trânsito carregado, demorei quase uma hora para chegar, e antes mesmo que o carro parasse, eu já tinha a porta aberta.

— Stanley, muito obrigada, me faça o favor de pegar Sophie na escola e deixá-la em minha casa, sim.

— Mais alguma coisa, Senhora?

— Pode avisá-la que, muito provavelmente, não vou jantar com ela hoje.

— A pequena vai ficar arrasada.

— Eu sei, mas hoje não vai ter jeito.

Desci do carro, passei pelas portas duplas da entrada, os fuzileiros que fazem a guarda bateram continência em minha direção. Meneei a cabeça para que eles “descansassem” e segui para o elevador.

Dois andares. Quando o elevador estacionou no terceiro andar, respirei fundo. Coloquei a persona da Diretora para fora e pisei na sala dos agentes.

Aquilo ali estava o caos!

Tony, sentado de sua mesa, chamou por McGee. Vi quando o mais novo dos agentes do time de Gibbs levantou a cabeça em minha direção. Os demais agentes da sala se calaram quando passei. Restando só a voz de DiNozzo como o único som audível.

— É hoje que Ducky vai ser chamado no próximo andar.

Quando o italiano notou que todos, inclusive eu, escutamos o que ele tinha dito, se voltou para o monitor à sua frente e fingiu digitar algum relatório.

— É pior que criança. – Disse para mim mesma. – Nem Sophie faz isso!

Dei boa tarde a todos e subi as escadas para meu escritório. Na antessala, Cynthia tinha os olhos arregalados e pedia mil e uma desculpas, mas ela não tinha conseguido tirar o Agente Gibbs lá de dentro.

— Não é culpa sua, Cynthia. Aquele sabe ser teimoso quando quer. Muito teimoso.

Ainda do lado de fora, pude escutar o barulho de uma cadeira sendo arrastada. A veia em minha testa pulsou. Ele não se atreveria, não é mesmo?

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Eu sei que ela estava fazendo hora do lado de fora, se tinha algo que Jen sabia fazer muito bem era enrolar quando queria. Mas ela tinha esquecido de um detalhe, eu sei exatamente o que a faz perder a paciência.

E era exatamente isso que eu faria agora.

Com uma força desnecessária, puxei a cadeira de trás de sua mesa e me joguei, fazendo um som alto que, com certeza, chamaria a sua atenção.

Em questão de segundos ela estava cruzando a porta. Me fuzilando com o olhar, o rosto estampava a pouca paciência que ela tinha. Isso seria divertido.

— Agente Gibbs. – Ela destacou muito bem a palavra Agente – Vejo que faz jus à definição do segundo B de seu sobrenome. – Tinha um sorriso sarcástico estampado nos lábios.

— A Oficial David matou a minha principal testemunha hoje, dentro do elevador, Madame Diretora. Sem ele, estou sem pistas para continuar a investigação e colocar um traficante atrás das grades, então pensei, já que foi a Madame quem colocou a israelense na minha equipe, sem o meu consentimento, talvez tivesse alguma ideia brilhante de como posso continuar com a investigação. – Eu ainda estava sentado em sua cadeira, meus pés apoiados em sua mesa, enquanto ela estava parada do outro lado da própria mesa, e, se fosse possível, estaria soltando fumaça pelos ouvidos.

— Primeiramente, tire os pés da minha mesa e saia da minha cadeira. Depois, o investigador e Chefe da equipe é você, lide com seus agentes, sendo quem for. Terceiro, você não é um agente que trabalha só com uma linha de investigação, Gibbs, então, use o seu plano B e resolva esse caso. Sua equipe é bem competente para isso.

Dessa vez eu tinha me esquecido: ela também me conhece bem.

— Tudo bem. – Respondi no mesmo tom. – Aqui está a sua preciosa cadeira, ou seria melhor chamar de trono? – Levantei e fiz uma pequena mesura em sua direção. Seus olhos verdes se estreitaram. Em outra época seria a oportunidade perfeita para fazê-la ficar com raiva e depois atacar os seus lábios. Mas essa possibilidade não existia mais.

— Confio na sua famosa intuição, Jethro. Agora vá. E não culpe a Ziva por algo que possa não ter sido culpa dela. Não há câmeras nos elevadores desse prédio. – Ela finalizou.

— Como é?

— Regra #08 “Nunca aceite nada como certo”!

— Você, Jen, é a única pessoa no mundo que pode jogar uma de minhas regras na minha cara. – Falei bem próximo a ela.

— Eu devo ser a única pessoa no mundo que sabe todas de cor, Jethro. As ouvi bastante dentro de quase dois anos... – Ela me relembrou... E era verdade, ao final de nossa missão em Paris, ela tinha cada uma delas escrita em algumas folhas de papel...

Não disse nada. Suspirei pelo tempo desperdiçado e pelo que não voltaria mais. E ainda me questionava o motivo de ela ter dito aquele não, para nós dois fora do trabalho e de estar me enrolando sobre uma conversa há semanas...

— Mais alguma coisa, Jethro? Ainda tenho trabalho a fazer, e tenho a certeza de que você também tem... – Ela me disse, se sentando em sua mesa, assumindo a pose de rainha do NCIS.

Nesse momento, Cynthia pediu licença e entrou na sala com um pacote. Uma caixa branca amarrada com um laço vermelho. Um claro presente de algum dos muitos admiradores que eu sei que ela tinha. Será que ela estava saindo com algum deles?

Jen pegou o pacote e testou o peso, parecia leve demais. Então, buscou pela sua faca em sua cintura, que eu não tinha notado que ela carregava, desfez o laço e abriu a caixa.

Eu estava a uns dois passos da mesa, ainda curioso com o que poderia estar lá dentro. E vi cada uma das suas reações.

O receio em seus olhos quando ela viu o embrulho e notou que não tinha remetente. A decisão quando ela pegou a faca e rasgou o pacote. A curiosidade enquanto ela abria a primeira aba da caixa. O reconhecimento do que tinha lá dentro. E o pavor estampado em seu rosto quando ela finalmente fez a ligação do conteúdo com quem ou o que era de verdade. Nesse ponto eu cheguei mais perto, dei a volta na mesa e parei ao seu lado. O meu velho instinto protetor pela minha parceira – e amante – falou mais alto. Ela não notou minha presença quando, enfim, tirou o objeto de dentro da caixa.

Só que não era um objeto. Aquilo era um rabo de cavalo ruivo amarrado com uma fita verde?

Vi Jen empalidecer quando levantou os fios e, principalmente quando reconheceu a fita que os prendia.

— Jenny... – Chamei.

Ela não me respondeu. Notei que seus olhos encheram de água. Algo não estava certo. Jen nunca fora de chorar à toa.

— Jen... – Tentei o apelido que ela tanto gostava.

Mesmo assim ela não me respondeu, mas pelas suas reações, aqueles cabelos pertenciam a alguém que ela conhecia. Suas mãos tremiam, assim como seus lábios e ela soltou um único nome.

— Sophie...

Quem era Sophie? E por que a menção desse nome me fez relembrar de uma garotinha ruiva que vivia aparecendo em meus sonhos?

Jen, mais uma vez, chamou pelo nome.

— Sophie. Ela me pediu para amarrar os seus cabelos com essa fita hoje de manhã.

Ainda em transe, Jenny não sabia ou notava a minha presença. Seria necessário algo mais enérgico do que apenas chamar por seu nome, se eu quisesse sua atenção voltada para mim. Então, bruscamente, virei a cadeira dela em minha direção, levantei seu queixo para que seus olhos ficassem na mesma altura dos meus, e, apertando um pouco o seu rosto com meu indicador e polegar, perguntei em alto e bom som:

— Jen, quem é Sophie?

Isso surtiu efeito. Seus olhos entraram em foco e ela afastou o rosto do meu aperto, como seu meu toque a queimasse.

— Eu preciso achá-la. – Ela se levantou subitamente e andou até a porta.

Com um único passo, a puxei pelo braço e a mantive a centímetros do meu rosto.

— Pela última vez, Shepard. Quem é Sophie e por que os cabelos dela estão naquela caixa?

Seu olhar mudou do medo ao ódio em questão de segundos.

— Como se atreve a me perguntar quem é Sophie! – Sua voz era fria. – Você sabe muito bem quem ela é, Jethro. – Ela me afastou com um tapa e fez seu caminho para a porta.

Fui mais rápido e bloqueei seu caminho, parando na frente da maçaneta.

— Como assim eu sei quem é Sophie? Como eu saberia quem é essa mulher, se nunca ouvi esse nome?

— Como você é hipócrita, Jethro. É claro que você sabe quem ela é. E Sophie é uma garotinha de cinco anos e minha filha. Eu poderia dizer que é a nossa filha, mas parece que você nunca ligou para isso! – Ela me respondeu em alto e bom som, dando um tapa em meu braço que bloqueava o seu caminho.

— Filha?! Que filha? Eu não estou...

E então eu me lembrei. De uma carta que chegou perto do aniversário de Kelly há seis anos, depois no Natal, uma mensagem de Jen, na secretária eletrônica, me pedindo para retornar a ligação a qualquer hora. Depois todas as tentativas de Kelly de tentar conversar sobre Jen. Estavam a mensagem e a carta, escondidas de minhas vistas, dentro de uma caixa coberta de poeira em um canto do meu porão.

— A ligação e a carta. – Eu sussurrei mais para mim do que para Jen.

— Sim, Jethro. – Sua voz era mais fria ainda. – Eu te contei sobre a nossa filha seis anos atrás. E como você nunca tocou no assunto, eu presumi que você não a queria! – Ela disse ríspida.

Eu tinha outra filha. E ela tinha cinco anos. Uma menina, ruiva igual à mãe. Eu tinha uma filha com Jen. Eu fui um idiota por não ter aberto aquela carta, de não ter ido atrás de Jen quando ela tentou fazer contato.

Jenny estava parada na minha frente, me encarando com rancor. Dessa vez quem devia uma explicação era eu.

— Eu nunca abri a carta. – Falei. – Não queria, ainda não estava pronto para...

— Eu preciso saber de onde aquele pacote veio. Gibbs, saia da minha frente! — Ela ordenou.

Agindo no automático, dei passagem a ela que foi em direção à mesa de Cynthia e demandou explicações sobre a encomenda que ela acabara de receber.

Eu segui o caminho contrário e voltei para a sua mesa. Peguei a caixa e olhei com atenção para os fios ruivos, eles cheiravam a morango e framboesa. Era o perfume que ficara em Jen, e o mesmo que eu senti quando entrei neste mesmo escritório no último sábado à noite.

— Será que ela é a mesma menina dos meus sonhos?

Ouvi os gritos de Jen que vinham da sala ao lado. Mas não prestei atenção. Escutei quando Tony, McGee e Ziva subiram as escadas e perguntaram algo para Shepard.

Eu tinha uma filha. Ela tinha cinco anos. E fora sequestrada.

A garota que eu sequer sabia que existia até alguns minutos atrás estava em perigo.

Alguém tinha sequestrado a filha que eu nunca tinha visto e ameaçava a sua vida.

Não hoje. Eu não deixaria.

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— Mas como assim não sabem quem entregou aquele pacote? — Eu gritei com Cynthia mesmo sabendo que ela não tinha culpa alguma.

— Me desculpe, senhora. O agente Wilson apenas deixou o pacote aqui. Disse que tinha sido entregue na urgência, por isso o trouxe. – Minha secretaria tentava me explicar.

— Chame-o na minha sala agora!

Nessa hora, DiNozzo, Ziva e McGee se aproximaram da sala de minha assistente.

— Há algum problema, Diretora? – Tony me perguntou.

Eu ponderei, mas se não fossem eles, quem mais acharia a minha filha?

— Sim. Todos os problemas do mundo. Preciso que vocês investiguem um sequestro.

— Mas estamos no meio de uma investigação... – McGee me interrompeu.

— Investigação que não deu em nada porque a principal testemunha está na autópsia agora. – Eu o cortei.

— E seria o sequestro de quem? – Ziva me questionou.

— Sophie Shepard.

A israelense deu um passo para trás. Tony e McGee se entreolharam.

— Sua irmã? – DiNozzo perguntou.

— Não. Minha filha. Preciso de um alerta AMBER e de que avisem a todas as Delegacias de Polícia da área dos três estados.

Os dois agentes estavam estupefatos com a notícia. Contudo, não tinha outra forma de contar isso. Não nestas circunstâncias.

— E como você sabe que a Soph foi levada? – Ziva, sem querer, demonstrou conhecer a minha pequena.

— Por conta disso. – Jethro apareceu na porta da minha sala, carregando o pacote que eu recebera.

Os três agentes caminharam de encontro a ele e olharam para dentro do embrulho.

— E o que garante que isso não é uma peruca ruiva? – Tony perguntou.

— Duas coisas, DiNozzo. O laço que está prendendo os cabelos, é exatamente o mesmo que prendi os cabelos da minha filha nesta manhã, mas se você quiser uma prova maior, o perfume é o dela. Contudo, se ainda tem dúvidas do que eu falo, aposto que a Abby pode encontrar algum fio com raiz e poderá extrair o DNA para confirmação.

— Sim, senhora. – Ele cedeu. — Eu entendi.

— Será possível fazer o que pedi agora? – Perguntei para os três.

Eles desceram as escadas em um átimo. Mas Jethro ficou.

— Precisamos conversar. – Ele me disse.

— Agora não é o momento, nem o lugar. – Respondi ríspida.

— Eu não sabia dela, Jen. Eu não abri as cartas. E tenho certeza que Kelly...

— Kelly sabe da existência de Sophie desde que ela nasceu. E, inclusive, vai visitá-la sempre que pode.

Ele ficou paralisado com essa informação.

— Mas ela teria comentado comigo... – ele disse pensativo.

— Talvez você estivesse um pouco ocupado na época, Jethro. Ela não quis te perturbar... – Me fiz entender nas entrelinhas.

— Ela nunca gostou da Stephanie.

— Isso não é problema meu. – Disse e quando me virei, McGee estava parado alguns passos atrás de mim.

— Pois não, Tim? – Suavizei a voz para conversar com ele.

— Eu preciso da descrição da sua filha para o alerta, Diretora. – Ele disse com a voz que beirava o medo e o respeito.

— É claro. Te acompanho até à sua mesa.

Ele desceu correndo as escadas e se preparou para digitar o mais rápido possível. Enquanto ele descia, eu voltei para a minha sala e, de dentro da minha bolsa, peguei a foto que sempre carregava comigo, mesmo que escondida em um fundo falso.

Olhei para a foto tirada no nosso último dia na Inglaterra. Minha menina sorridente, seus estranhos olhos, um verde-azulado, o outro azul-esverdeado se destacavam.

— Se alguém fizer mal a você... Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos. – Jurei enquanto comecei a fazer o meu caminho para a mesa de McGee.

Foi então que notei a presença de Jethro. Ele estava parado do meu lado e fitava, encantando, a foto da filha. E vi em seu rosto que ele realmente falara a verdade, ele nunca soubera da existência dela...

Entreguei a foto a ele. Ele a pegou, ainda entre o encantamento e a perplexidade.

— Ela é exatamente igual à garota do meu sonho...

Achei estranho o comentário.

— Sonho?!

— Eu sonhei com ela. Há seis anos. Ela estava em meu porão, chorando. Estava com medo...

Não era possível!

— E então você apareceu. Ela te disse algo. Você começou a chorar. Depois veio em minha direção. Eu te pedi para deixá-la ser feliz. Você ponderou e, com um sorriso calmo, desapareceu.

Ele não poderia estar falando a minha visão naquela sala de cirurgia... como isso era possível?

— Jethro... eu preciso.

— A única diferença são os olhos. – Ele ainda olhava maravilhado para a foto. — A menina dos meus sonhos tinha os seus olhos, Jen.

— A com quem sonhei – eu disse sem pensar, e ele olhou para mim. – tinha os seus. Sophie é a mistura dos nossos...

Ele sorriu para a foto.

— São únicos. Um de cada cor, se for olhar bem de perto.

— E que cada dia amanhecem com uma cor diferente. Sempre variando entre o azul e o verde...

— Uma visão e tanto pela manhã. – Ele disse em claro espanto.

— Pode ter certeza que sim! Incomparável. Mas eu preciso achá-la.

Ele não disse mais nada. Continuou a segurar a foto e me acompanhou escada abaixo.

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Eu ainda estava pasmo com a foto em minhas mãos. Eu, que sempre achei que Kelly foi e é a menina mais bonita que vi. Sophie era uma concorrência e tanto para a minha primogênita.

Primogênita... eu sorri em pensar que ela tinha uma irmã...

Olhei para a foto e aqueles olhos... Não tinha como não ficar perplexo enquanto os fitava. E eles trocavam de cor. Imaginei se ficariam completamente verde-esmeralda como os da mãe. Se ficassem, ela seria a cópia perfeita de Jen.

Mas eu precisava encontrá-la se quisesse vê-la pessoalmente. E eu queria, como queria, conhecer a minha caçula. Poder abraçar a menina que apareceu em meus sonhos, um dia correndo e me chamando de papai e no outro chorando... e que vem aparecendo com mais frequência nos últimos meses.

Jen me lembrou o que tínhamos que fazer. A acompanhei escada abaixo, ora fitando a foto, ora olhando para ela, somente agora notando o que realmente mudara nela neste intervalo de seis anos. Jen era mãe, mãe solteira.

Por que eu não abri aquela maldita carta?

Quando chegamos na sala dos agentes, meu time me esperava para fazer o que fosse mandado. Mas a notícia parecia ter se espalhado, pois Abby, Jimmy e Ducky também estavam lá.

McGee esperava para poder descrever Sophie no alerta. E, também colocar sua foto.

Jen não pensou duas vezes e foi respondendo aos detalhes. Coisas que eu deveria saber, mas não sabia. E, enquanto ela falava, eu ia encaixando as informações com a foto que tinha em minhas mãos.

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— Estou pronto, Senhora. Quando quiser. – McGee disse eficiente.

Eu sabia de cor a sequência de informações.

— Sophie Shepard. Cinco anos. Tem 115 cm de altura. Pele branca – praticamente transparente, mas isso eu não falei. — Cabelos ruivos. Olhos... suspirei – o direito verde-azulado e o esquerdo azul-esverdeado.

Ouvi Ziva sorrir com a descrição.

— Me desculpe, mas isso é possível? – Tim me perguntou.

Nesse momento, todos os agentes em volta pararam o que estavam fazendo e escutavam a nossa conversa.

— Sim, McGee. É possível.

— Nunca vi. – Tony comentou, deveria ter sido só para ele, mas acabou sendo alto.

— Devem ser lindos! E únicos! – Abby disse, alegre como sempre.

Queria ter pegado a foto e mostrado, mas Jethro ainda estava olhando para ela. Acho que tentando encaixar o que eu falava com o que ele via em um pedaço de papel. Abby notou isso também, e chegando perto, perguntou.

— É uma foto dela? — A cientista perguntou para ele.

— Sim. – Ele respondeu. E foi o que bastou para que todos, com exceção de McGee que digitava o alerta, Ducky e Ziva que já conheciam Sophie, correrem para conhecê-la.

— Onde paramos? – Perguntei para McGee.

— Olhos. Agora, alguma característica física?

— Uma cicatriz no braço direito, uns cinco centímetros acima do cotovelo. – Me lembrar de como ela adquiriu aquela cicatriz e de como seu nascimento foi perigoso para sua vida me fez arrepiar.

— Roupa que estava usando?

Ponderei, era o uniforme escolar.

— Camisa polo branca. Saia plissada e cardigã em azul royal. Meias três quartos brancas e sapatos pretos. O uniforme escolar do colégio Benjamim Franklin, que é provavelmente o último lugar que a viram...

Foi então que algo acendeu em minha cabeça.

— Ziva, por favor, tente entrar em contato com Stanley, é ele o responsável por pegar Sophie na escola. – Pedi.

— Trabalhando nisso. – Ela respondeu já tirando o telefone do gancho.

— Mais alguma coisa, McGee?

— Uma foto, para ser anexada ao alerta.

Foi aí que Gibbs saiu de sua contemplação e entregou a foto a Tim.

— Ela não é linda? – Abby disse com um sorriso. – Você tem uma filha muito bonita, Jenny. – Ela me cumprimentou. – Por que nunca a trouxe aqui?

— Muito obrigada, Abby. Não é hora de falar sobre isso. Mas preciso de um favor seu.

— Pode dizer!

— Preciso que analise essa caixa e todo o conteúdo. Inclusive, quero que procure por qualquer DNA.

— Mas eu não tenho nenhuma amostra do DNA da Ruivinha.

— Compare com o meu. – Eu disse.

— E o meu. – Jethro falou.

Era a hora errada. Pois seis pares de olhos nos fitaram.

Abby abriu um grande sorriso. Tony dei um sorriso de canto, como se essa informação somente confirmava o que ele vinha teorizando, McGee tentava se recompor para continuar colocando as informações no sistema.

— É para já. – Abby deu uma última olhada na foto que agora estava na tela em nossa frente, abriu um sorriso ainda maior e saiu saltitando para o elevador dos fundos. Dizendo algo incoerente como: “Temos uma Jibblet de verdade!!!”

— Já está pronto, Senhora. – McGee me chamou.

— Muito obrigada, Tim!

— Tem mais alguma coisa que queria acrescentar, Diretora?

— Você disse que os olhos dela mudam de cor. Que cor estavam hoje? – Jethro me perguntou.

Droga! Justo hoje ela tinha que resolver acordar com os olhos do pai.

— Azuis. – Eu suspirei. – Azul claro.

Mais uma vez Ziva segurou um sorriso, mas não conseguiu conter o comentário.

— Pelo menos dessa vez não está com um olho azul e o outro verde...

Tony e Gibbs olharam na direção dela.

— Você conhece a menina? – Tony perguntou descrente.

— Mas é claro! Ela mal tinha feito três anos quando a conheci. E na época seu olho direito estava verde e o esquerdo azul. – David disse com seu forte sotaque e um sorriso no rosto.

Era informação demais.

— Ziva...

— Me desculpe. Aliás, eu tenho atualização.

— Sobre Stanley?

— Sim. O celular só cai na caixa postal, mas consegui a última posição da torre. Ele estava em frente ao Colégio Benjamim Franklin.

— É onde Sophie estuda. Droga!

Jethro me olhava como se quisesse explicações. Eu o olhei de volta prometendo explicar mais tarde.

Foi então que Abby e Cynthia entraram correndo ao mesmo tempo.

— Jenny! Jenny! Gibbs! Gibbs! – Abby conseguiu falar primeiro. – Achei dois DNA’s naquela caixa. Um, uma combinação perfeita com o DNA de vocês dois, 99.9% de certeza que é de Sophie. O outro também é uma combinação do sistema.

— De quem? – Perguntamos ao mesmo tempo.

Antes de responder Abby deu um sorrisinho. – Do irmão do nosso suspeito que está agorinha na autópsia. Do traficante Dempsey.

— É vingança. – Eu disse. — Ele deve querer as drogas e o irmão em troca pela vida de Sophie.

— Senhora – Cynthia disse.

— Pois não, Cynthia.

— Telefonema para senhora.

— Passe para a linha de Gibbs.

— Shepard! – Atendi.

— Creio que você tem duas coisas que são minhas, Diretora. E eu tenho algo que lhe é muito caro. – A voz do outro lado da linha começou. No mesmo momento, ordenei que começassem a rastrear a chamada. E Jethro colocou a ligação no viva-voz.

— Estou ouvindo.

— Você tem duas horas. Me traga as drogas e meu irmão. Somente você irá acompanhar a troca. E eu te devolvo quem eu peguei. Simples, não é?

— Quero uma prova de que ela está viva.

— Vejo que recebeu o meu pequeno presente. – Nitidamente ele caminhava ao falar no celular, os sons de seus passos eram ouvidos através da ligação. Um outro som de algo sendo arrastado e pude ouvir o choramingar de Sophie.

— Me solta! – Ela reclamava. – Tá doendo!

Eu vi vermelho.

— Diga olá para a mamãe, sua pestinha! – Ele instruiu. – E se falar algo mais...

— Filha, está me ouvindo? – Perguntei ansiosa.

— Mamãe... o que tá acontecendo. Quem é ele? – Sua voz era um misto de medo e confusão.

— Fique tranquila. Vamos achá-la! Te prometo.

— Pronto. Acabou a conversa entre mãe e filha. Ela está viva, porque meu irmão está vivo. Eu ligo em uma hora para dar as demais instruções. E ele desligou.

Olhei para Tim, mas não foi possível rastrear a ligação. Fora curta demais,

Tínhamos um problema. A droga até estava no Estaleiro, mas o irmão dele...

— Merda! – Todas as ideias, que eu sempre tinha para sair de uma situação como essa, me escapavam. — Não deu para conseguir nada, McGee? Nem uma localização aproximada?

— Apenas que está na área de Fairfax, Senhora.

— Isso é pouco, mas é um começo.

— Abby. – Jethro a chamou. – Procure por qualquer vestígio naquela caixa. Tem que ter alguma pista.

— Ligo assim que tiver alguma novidade. – Ela falou saindo correndo de volta para o elevador.

— Nós não negociamos com terroristas. Como vamos proceder? – Tony perguntou.

— Pensando nisso, DiNozzo. – Jethro disse.

— Podíamos usar um boneco... – Ele disse.

— E quem dirigiria o carro? – Ziva fez a pergunta de um milhão de dólares.

— É possível. – Eu disse.

Todos se espantaram.

— Ele quer que eu vá até lá.

— Fora de cogitação, Jenny. – Jethro interveio.

— De qualquer forma eu tenho que ir. Se eu não for, ele não entrega a Sophie. Então, podemos usar o boneco e eu poderia pegar a direção. Ele nunca desconfiaria.

Trabalhamos nesse plano e, com cinquenta minutos, o sequestrador tornou a fazer contato.

Começamos o rastreamento logo que a ligação foi iniciada.

— Está aí, Diretora?

-Sim.

— Tudo já está pronto?

— Sim.

— Então eu preciso de mais um favor.

— Já tem a sua cota no acordo. Nada mais.

— Quero o espaço aéreo livre até a fronteira com o México, não quero nenhum F-16 me seguindo. E só entregarei a sua querida filhinha quando eu já estiver com tudo liberado.

— Eu já disse, nada mais de acordo.

— Ou então, a sua bela garotinha vai saber o que é ser baleada. Me pergunto o que o pai dela diria se soubesse que você está rifando a vida da filha dele.

Três pares de olhos observavam tanto a minha reação quanto a de Jethro.

Eu não tinha outra saída.

— Vou ver o que posso fazer. – Eu respondi.

— Eu sei que vai conseguir. Afinal, não é você a diretora mais badalada entre todos os diretores das agências federais?

Não respondi nada. Era impossível de se fazer o que ele queria.

— Então, últimas instruções. É meu irmão quem virá dirigindo o carro. Você virá junto com ele e, se tentar qualquer gracinha, sua filha morre. As drogas devem estar no porta-malas. E você irá me ajudar a colocá-las no avião. Quando tiver terminado, eu vou deixar você levar a sua menina para casa.

— Como posso saber que está falando a verdade? Eu tenho mais a perder do que você!

— Traga a pestinha até aqui. – Dempsey ordenou para alguém. Ele tinha um cúmplice.

Novamente escutamos os sons de Sophie reclamando. Quando notei que o telefone estava perto dela, ao invés de me chamar e conversar comigo em inglês, ela citou cinco letras e quatro números. Em francês.

O sequestrador vendo que ela não conversou comigo, tirou o telefone do ouvido dela e determinou que tínhamos apenas trinta minutos. E encerrou a chamada.

— O que raios foi aquilo? – Tony perguntou,

— GTV3967-US – Eu traduzi as letras e números.

— Mas como? – Tim disse assustado.

— Ela disse isso em francês. – Respondi.

— Mas qual será o significado?

— É um prefixo de uma aeronave, Ziva. — Abby respondeu. – Sophie nos deu uma grande pista! Mas eu também tenho uma!

— Que é? – Gibbs apressou Abbs.

— Tinha combustível de avião nos fios de cabelo. Por isso matei a charada tão rápido. E não é qualquer combustível. Só é usado em três aeroportos privados por aqui...

— Algum em Fairfax?

— Sim... um aeroporto....

McGee não perdeu tempo em começar a localizar o avião. Ele reduziu a área de busca para a cidade e redondezas de Fairfax.

— Aqui! – Depois de algum tempo ele disse. – Aeronave privada. Manifesto de voo para três passageiros e um tripulante. Decolará em trinta minutos.

— Mas nós ainda temos um problema, como um morto vai dirigir um carro? – Tony questionou.

— Comigo DiNozzo. Você também McGee. Vocês três esperem aqui. – Gibbs coordenou.

— Qual é o plano deles? – Ziva me questionou.

— Não faço a menor ideia. – Respondi.

Nossa resposta chegou dez minutos depois. Dentro de um saco preto, sendo puxado pelos três.

— Mas o que? — Ziva nem pode terminar a frase.

— Ele quer o irmão, vai tê-lo. – Jethro disse frio.

Então os três colocaram o morto no banco de trás de um dos carros.

— Não me diga que eu vou ter que ir dirigindo até Fairfax com um morto dentro do carro?

— E depois vai trocar de lugar com ele. Você ficará com a direção, Tony com os pedais. Eu vou estar no porta malas. Enquanto isso, Ziva e McGee vão vasculhar o local atrás de Sophie. – Jethro disse.

— De todos os planos que você já teve, esse, com certeza, é o pior!

— Tem outro, Jen?

A essa altura, nenhum passava pela minha cabeça.

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Dois carros em disparada, saindo das proximidades de DC até a área de Fairfax. Eu acho que nunca dirigi tão rápido. Com as sirenes ligadas, não me incomodei em parar em nenhum sinal. Estas multas chegariam na minha mesa de qualquer forma, mas as pagaria do meu próprio bolso, com todo o prazer. Tudo o que eu queria era a minha filha a salvo.

No outro carro, Ziva, do seu jeito maluco, me seguia. Tinha esperanças de que ela, Tony e McGee chegassem inteiros no aeroporto.

Por incrível que se possa parecer, Jethro não fez menção de dirigir, dessa vez, ele estava mais concentrado do que eu. Até que em determinado momento, ele me fez uma pergunta, me assustando e quase nos tirando da estrada.

— Ela sabe sobre mim? – Ele perguntou inseguro. – Você contou para ela que eu...

— Ela sabe. – Confirmei sem olhar em sua direção. – E não, não disse nada demais sobre você. Apenas que você era ocupado demais e que um dia ela te conheceria.

— Mas como você explica a presença de Kelly?

— Fácil. Kelly mantém a mesma linha de raciocínio. Só respondemos as perguntas que Sophie faz, nada além da verdade.

— Ela sabe que eu existo, você poderia ter mentido...

— Não só que você existe, mas como você é, uma foto sua fica ao lado da cama dela, sempre ficou. Ela só não faz a associação do Jethro de quem eu falo para ela desde que ela nasceu, com o Agente Gibbs que eu comento de vez em quando. Para ela são duas pessoas diferentes.

Dei uma olhada de canto de olho em direção a ele. Era a primeira vez que eu o via inseguro, e isso era uma novidade.

— Ela te ama. – Soltei por fim. – Não me pergunte como, se ela nunca te viu pessoalmente, mas ela te ama. Quando nos mudamos para cá, a primeira coisa que ela disse foi que agora vocês dois estavam no mesmo país. E que, um dia ela ia te ver.

— Poderia ter sido...

— Não temos como mudar isso, Jethro. Você vai conhecê-la hoje. Na verdade, quase a conheceu no último sábado.

Foi a vez dele me olhar espantado.

— Há sete dias? Quando eu te perguntei o que você fazia no escritório em uma noite de sábado?

— Sim.

— Então era ela lá? O perfume de morango e framboesa — Notei que ter chegado tão perto dela, mas ao mesmo tempo ter estado tão longe, era doloroso para ele.

— Sim. Eu tive que ir lá para assinar a autorização que você precisava e aproveitei e a levei para conhecer o Estaleiro e o prédio. Ela vinha me pedindo isso há um tempo. Achei que em um sábado à tardinha, seria uma boa ideia. Mas não contava que você iria aparecer lá.

Jethro não falou mais nada. Apenas balançou a cabeça negativamente. Quando tivéssemos tempo de verdade, nossa conversa não seria agradável.

— Falta pouco. Pegue a próxima saída. – Ele disse em tom seco.

As portas do aeroporto estavam bem na nossa frente. Mostrei meu distintivo e tive o acesso liberado.

Pouco antes de chegarmos ao hangar onde Dempsey estaria nos esperando, parei o carro, e antes que pudesse fazer a menção de desafivelar o cinto, Jethro segurou minha mão e apenas disse:

— Você deveria ter comentado comigo. Qualquer coisa. Não poderia ter deixado isso assim, por tanto tempo. – Seus olhos eram sombrios e seu tom de voz anunciava que viria uma tempestade.

— Eu faço qualquer coisa para proteger minha filha, Jethro. De tudo e de todos. Não queria que ela se decepcionasse caso você a rejeitasse. – Disse seca, mostrando para ele que eu não era a única responsável por isso.

Descemos do carro. Logo, Tony, McGee e Ziva já estavam ao nosso lado. Colocamos nosso morto no volante, o prendemos ali com silver tape. DiNozzo assumiu os pedais. Eu fui para o banco de trás, e, de lá, guiaria o carro. Ziva e McGee começaram a aproximação no Hangar. Jethro foi para o porta malas.

Antes de ligar o carro, rezei para que desse tempo de Ziva encontrar a minha ruiva e tirá-la de lá em segurança, pois quando Dempsey descobrisse que o irmão estava morto...

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Não tinha como não pensar no fato de que eu passei cinco anos no escuro. Cinco longos anos sem saber que tinha uma filha, e, ainda por cima, tentando lembrar o que tinha feito de errado para perder a mulher que amo.

Me perguntava qual seria a reação de Sophie quando me visse? Será que sairia correndo? Se esconderia atrás da mãe? Me ignoraria, com raiva por eu nunca ter estado seu ao lado, nunca ter ligado em seus aniversários e no Natal?

Eu não fazia ideia. Na verdade, eu não fazia ideia do que esperar. Tinha visto a sua foto, mas fotos não fazem jus a ninguém. Não mostram a pessoa de verdade. Por enquanto, Sophie passou de um sonho que há muitos anos me assombrava, para uma ideia, para uma imagem, e para que ela virasse minha realidade, eu precisava salvá-la.

Mas para salvar a minha filha, tinha que colocar a mãe dela em perigo.

Senti o carro começar a se mexer. DiNozzo estava fazendo um péssimo trabalho com os pedais. O som das turbinas de um pequeno jato foram aumentando. Alguém gritou algo e o carro parou bruscamente.

A voz do telefone ordenou que Jen descesse do carro. A porta de trás foi aberta e ouvi quando seus saltos fizeram barulho se afastando.

— Seu irmão está ali, as drogas na mala. Onde está a minha filha? – Mesmo com o barulho de aviões por perto, o tom de voz de Jenny era alto e autoritário.

Sem ninguém notar, DiNozzo saiu de sua posição no banco da frente, e saiu pela porta de trás, não sem antes dizer:

— Chefe, tudo limpo, por enquanto. Vou atrás da sua filha.

Não sei se foi suficiente para Tony se esconder, mas logo passos voltavam em direção ao carro, entre eles, Jenny.

— Agora você vai abrir esse porta-malas, vai descarregar as drogas e levá-las para aquele avião que acabou de ser abastecido. – Provavelmente era o cúmplice de Dempsey quem falava.

Ouvi a tranca da tampa ser aberta. Sabia que Jen seria esperta para não ficar na linha de tiro.

Porta levantada. Jen abaixou no mesmo segundo em que atirei. Um já fora.

— Dempsey está lá trás. Tinha ido pegar Sophie. – Ela me informou tirando uma arma que estava escondida em sua perna.

Corremos em direção ao fundo do hangar. No meio do caminho, Tony se juntou a nós. Mas não encontramos ninguém.

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— McGee, pela direita, eu vou cobrir a esquerda. Tente encontrá-la o mais rápido possível. Dempsey não será enganado por muito tempo.

— Ziva, — ele me chamou incerto.

— Diga?

— Será que Sophie vai confiar em mim?

— Mostre seu distintivo e diga que trabalha para a mãe dela. Tenho certeza de que ela já deve ter uma boa noção de quem você é!

Que maneira de começar a minha vida aqui em Washington. Primeiro meu irmão, agora o Pingo de Gente estava sumida. Mas se eu realmente conheço aquele pedaço de gente, ela deve estar dando um trabalho danado.

Vasculhei por todo canto e não a encontrei. Tomara que Tim tivesse mais sorte.

Fui voltando pé ante pé até que ouvi passos. E uma voz de criança. Dempsey, seu destino seria igual ao do seu irmão.

— Dá pra me soltar? – Sophie mandava.

— Você é irritante e tem o mesmo tom autoritário da sua mãe, não é? Me pergunto o que ela faria se eu não cumprisse a minha parte do acordo? — Ele abriu uma porta e saiu com a ruivinha por lá.

Peguei meu celular e tentei ligar para Tony. Se tudo estivesse indo bem na parte da frente, ele já estava na busca por Sophie.

— DiNozzo. – Ele disse a meia voz.

— Nos fundos do hangar. Dempsey acabou de passar com Sophie para os fundos do aeroporto.

— Certo, Ziva. Estamos indo.

— Vou avisar McGee. Você avisa o Gibbs.

— O Chefe e a Diretora estão comigo.

— Ótimo!

Avisei McGee e logo nós cinco estávamos fazendo uma varredura pelo fundo do aeroporto.

Um som de pedra sendo arrastada atraiu nossa atenção. Nos separamos para poder cobrir todos os lados. Dempsey estava sem saída.

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Deveria ter imaginado que um terrorista não mantém sua palavra. E era o que Dempsey estava fazendo.

Mas para onde ele a estava levando?

A equipe tinha circulado o local. De onde eu estava podia ver que cada um estava no que chamamos de ponto cego. Todos se viam, viam uma grande área do local, mas o alvo não conseguia nos ver.

Dempsey passou arrastando Sophie pelo braço. Ela se debatia e, de todas as formas tentava se soltar. Era uma pequena guerreira. Sem aviso algum, ele a jogou no chão, depois que ela conseguiu acertá-lo com um chute. Seu pequeno corpo quicou no chão duro e ela, ao invés de chorar como muitas crianças teriam feito, apenas olhou feio para ele.

Pelo canto do olho vi que tanto Jenny quanto Ziva o tinham na mira. Por uma fração de segundo fiquei com medo de Jenny ser dominada pelos seus sentimentos e fazer uma besteira. Mas ela não fez. Apenas acompanhava os movimentos dele. Esperava a melhor hora para atirar.

Mas ele não tinha pressa. Novamente ele a ergueu, falando algo que eu não consegui entender. A arrastou para um local mais afastado e abriu uma tampa.

Sophie olhou para o buraco e tentou dar um passo para trás. Mas ele a tinha presa pelo braço. Ela esperneou, e ele a empurrou.

Meu coração saltou uma batida. Não fazia ideia de quão fundo era aquilo.

Na mesma hora em que Sophie sumiu, ouvi um único disparo. Jenny era quem tinha a mira mais limpa. Um na testa e Dempsey caiu.

O que aconteceu depois pareceu passar em câmera lenta. Ou era eu quem me movia em câmera lenta?

Jen correu para a beira do buraco, gritando o nome da filha. Eu a segui um pouco atrás.

— Sophie, filha. Você está bem? – Jen tentava manter um tom normal, mas pude ouvir o desespero. – Já vamos tirar você daí, ruiva.

— Mamãe... – uma voz abafada respondeu. – Me tira daqui!

Tony era quem estava mais perto e não hesitou em pular lá dentro.

— Oi Sophie, — ele disse. – Sou o Tony. Vamos, deixa eu te ajudar a sair daqui.

Nessa hora eu cheguei à beira do poço. E vi que Tony a colocou de pé em seus ombros e Sophie, ficando na ponta dos pés, se esticou para que Jenny pudesse puxá-la.

— Filha, você vai ter que me ajudar. Eu não vou te soltar, mas você vai ter que escalar.

— Jen, deixe que eu a puxo. – Pedi, trocando de lugar com ela e fazendo uso do fato de ser bem mais alto.

E pude ver o rosto de Sophie de perto, pela primeira vez. Seus olhos estavam azuis, iguais aos meus, e ela tinha o cabelo vermelho escuro cortado de forma desigual. Mas era linda. E, ao invés de tudo o que eu imaginei que faria, ela abriu um enorme sorriso e disse.

— Papai! É você?

Eu não estava preparado para aquilo, não estava preparado para aquele sorriso e seus olhos brilhando de alegria por me ver.

— Sim, filha. Sou eu. – Não pude reprimir o sorriso que dei em resposta ao dela.

— Eu sabia que eu te encontraria quando me mudei pra cá! – Ela disse convicta.

— Filha, segura a minha mão. – Eu consegui chegar até onde ela estava e agarrar sua mão. Mas foi quando notei que, por mais cuidado que eu tivesse, ela acabaria arranhando o braço na borda do buraco.

Com muito jeito a puxei para fora, e, para a minha surpresa, ao invés de correr para a mãe que estava do meu lado, ela simplesmente soltou minhas mãos e envolveu meu pescoço com seus pequenos braços.

— É tão bom poder te conhecer, papai! – Ela disse me dando um abraço que rivalizava com os de Kelly e Abby e depois um beijo na bochecha.

— Também é bom te conhecer, Sophie. – Eu a apertei mais forte, ainda não acreditando que a garotinha dos meus sonhos estava bem na minha frente.

Mas, cedo demais, ela me soltou e disse:

— Temos que ajudar o Tony! Tony, você tá bem? – Ela disse preocupada olhando para dentro do buraco.

— Obrigado por lembrar de mim, pimentinha. E eu tô bem!

Ziva e McGee ajudaram DiNozzo a sair, para o alívio de Sophie, que não sossegou até que Tony estivesse fora do buraco.

Quando tudo parecia bem, Jen caminhou para perto de Sophie e quando fez menção de abraçá-la:

— Não, mamãe. Não me abraça não! Eu tô toda suja! Vai sujar a sua roupa e eu tenho certeza de que a senhora ainda tem um monte de reuniões pra ir. E não pode ir toda suja! – Sophie disse preocupada com a mãe. Fazendo com que os três agentes começassem a sorrir.

— Hei, Ruiva – Jen a chamou e Sophie a olhou. – Eu não tenho mais nenhuma reunião hoje. Então vem aqui. – E as duas se abraçaram. Pude ver o alívio em Jen quando apertou a filha. – Você tem certeza de que está bem? Não tem nada doendo. A queda foi feia.

— Eu tô bem. Só tenho esses arranhões aqui, mas pode ter certeza que não tá doendo! A senhora viu? – Sophie ainda a abraçando perguntou. – O papai tá aqui! Foi você quem o chamou?

— Sim. – Foi o que Jenny respondeu.

Sophie deu um passo para trás e olhou séria para a mãe. Na verdade, era mais como se Jenny estivesse encarando a si mesma:

— Sim para qual das perguntas? – Ela tinha os olhos estreitos e encarava a mãe séria. Tive que conter um sorriso.

— Para as duas. – E Jen a levantou no colo. – Vamos embora daqui?

— Sim... mas só mais uma coisa. – E Sophie se soltou dos braços da mãe e parou na frente de McGee.

— Ele é o Tony. A tia Ziva eu já conheço. Você é? – Ela tinha as mãos na cintura e encarava curiosa Tim.

— Tim McGee. – O novato respondeu.

— Muito prazer, Tim. Eu sou Sophie. – E estendeu a mão em direção ao agente. – Agora só faltam três.

— Três o que, pimentinha? – Tony perguntou tentando conter a risada.

— Pessoas. – Ela respondeu com os olhos – meus olhos – arregalados. – Pelo que mamãe me disse, ela trabalha com a tia Ziva – ela apontou para a oficial do Mossad. – Com você, DiNozzo – Tony fez uma mesura e ela deu uma gargalhada. – Com o McGee – Ela virou a cabeça para Tim. — O tio Ducky eu já conheço. Estão faltando o Palmer, a Abby e o Gibbs.

Foi aí que eu me lembrei que ela não sabia meu sobrenome.

— Bem, Sophie. – Jen a chamou — A mamãe tem que conversar uma coisa com você. Vamos andando?

— Vamos sim. É o Stanley quem vai nos levar pra casa?

— O Stanley... ele já foi... vai ficar um tempo afastado... – Jen disse meio incerta.

— Mas ele volta? O cara mau bateu nele. Eu nem consegui defender ele. E depois eu ouvi um barulho alto e não o vi mais... – Ela contou o que tinha presenciado antes do sequestro.

Não tinha como explicar para uma garota de cinco anos que o motorista dela fora assassinado. Pelo menos não agora.

— Ele tem que se recuperar primeiro, Sophie – Eu respondi.

— Sei... – Mas ela não soava convencida.

Jen fez menção de pegá-la no colo novamente, mas Sophie fez um pedido inusitado, pelo menos para mim.

— Posso ir com o papai? – Ela olhou de Jen para mim.

Jenny a soltou e ela correu para o meu lado, pegando a minha mão e olhando para mim. Como se fizéssemos isso desde que ela nasceu.

A cena do crime ainda precisaria ser processada, mas naquele momento, o importante era tirar a pequena dali.

— Para onde a gente vai? – Sophie perguntou quando paramos em frente ao carro.

— Para o Estaleiro. – Jen respondeu, a colocando no banco de trás e sentando-se do lado dela.

— Eu vou conhecer o restante do pessoal? – A ruivinha disse animada.

— Vai, vai conhecer a Abby e o Palmer.

— E o...?

— Filha, — Jen respirou fundo... — seu pai, Jethro e o Agente Gibbs são a mesma pessoa.

Vi pelo retrovisor interno Sophie tombar a cabeça e fazer a associação.

— Então meu sobrenome é Gibbs? E o da Kelly também?

— O seu é Shepard-Gibbs. – Respondi por Jen. Ainda não tínhamos conversado sobre isso, mas assim seria melhor.

— Isso ficou legal... – Ela disse com um sorriso.

Jen me agradeceu com um aceno de cabeça. A primeira parte tinha acabado, mas ainda tínhamos muito o que conversar.

Notas finais
É, a encrenca só está começando... Espero que tenham gostado. Muito obrigada por lerem! Até o próximo.