Carta para você
15 Cartas
Notas iniciais
A noite já ia alta quando finalmente saímos do quarto. Jen ainda insistia em usar a minha camisa. Disse que tinha gostado dela.
— Mas você tem uma exatamente igual! – Protestei.
Ela olhou em direção a camisa e disse séria:
— Mas é claro que não, Jethro. Eu entrei na agência quando ela já se chamava NCIS, não NIS!
— É só uma letra de diferença, Jen. Dá pra me devolver a camisa?
— Mas que faz muita diferença. E não, não estou a fim de te devolver essa camisa. Acho que me apeguei a ela. – Ela sorriu torto em minha direção e foi fazer uma xícara de café.
— Também quero! – Disse enquanto pegava as cartas que Kelly havia mandado.
— Quer o que? — Jen se fez de desentendida.
— Café.
— Pode ir fazer! – Foi a resposta que ela me deu, quando já estava atrás de mim, e pegando a carta que ela destinada a ela.
Não deixei que ela se afastasse. Tomei a caneca de suas mãos e, tentei ignorar a torrente de xingos que tomei dela.
— Vai continuar me xingando assim? – Disse, já que, mesmo depois de dez minutos, ela continuava murmurando algo por baixo de sua respiração.
— Sua cara realmente não queima, não é? – Ela ainda estava brava por conta do café, então suas bochechas estavam vermelhas da cor do seu cabelo.
— Nem um pouco. – Respondi na hora. Mas foi a hora errada, pois ela estava passando bem atrás de mim e não hesitou nem por um minuto em me dar um tapa bem atrás da minha cabeça. – Isso vai ter troco, Jen.
— Sem problemas, estou esperando para ver o que você vai bolar para mim. – Ela disse, sentando-se do outro lado da mesa e abrindo a carta.
Tomei um gole da bebida e fiz o mesmo. O que será que Kelly tinha para contar dessa vez?
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Alexandria, 30 de julho de 1998
Carta 11
Hei Pai!!
Eu não sei se eu começo agradecendo o presente ou se eu começo contando tudo o que aconteceu!!!
Sério! O seu (e o da Jenny) presente chegou bem no dia em que íamos viajar. Tipo, umas duas horas antes da gente sair.... E o senhor sabe, né? Eu não sou nem um pouquinho ansiosa nem nada e tive que abrir os presentes e as cartas, e lógico, começar a pensar em tudo o que eu tinha que responder....
Mas quando eu realmente vi o que o senhor mandou.... eu dei aquele grito!! A pulseira de berloque é linda!!! Fui logo colocando no pulso, porque eu não sou ingrata nem nada e já queria sair mostrando.... Acontece que toda a minha euforia com os presentes, e eu presumo que o senhor não sabe o que a Jenny me deu, mas vou te garantindo que o senhor ficará feliz em não gastar todo aquele dinheiro em uma coisa que o senhor acha supérflua, mas nós, mulheres, amamos, deixou a vovó doida!!
Sério, sua sogra deu um ataque de pelanca porque eu estava atrasando a saída dela – ainda faltavam DUAS HORAS – mas na verdade ela estava era com um ciúme danado, pois foi logo me perguntando quem estava me mandando “essas coisas”. Quando eu disse que era o senhor e a Jenny, ela subiu no salto e disse que era para eu devolver o segundo. Foi aí que o tempo fechou...
Não vou entrar nos detalhes, já que não importa, eu tava certa mesmo.... e ainda deixei ela com mais raiva ainda quando saí com a pulseira e o outro presente.... (Será que a essa altura o senhor já descobriu o que é?).
Então, com um pequeno atraso de uma hora – que não foi por minha culpa, foi por mero capricho da minha querida avó – saímos para o aeroporto. E tenho que admitir, apesar de estar viajando com três pessoas que, com as idades somadas deve chegar ao tempo que a América tem de independente, o voo não foi tão ruim e nem demorado.
Mas a melhor parte estava por vir. Sim! O senhor leu certo! Melhor parte. A viagem não foi um fiasco! Eu estava no estado onde tem deserto, eu sei, o senhor vai dizer que passamos um tempo na Califórnia e lá tem deserto... mas pai! Sério! Eu estava em um pequeno pedaço do paraíso! Eu tinha na minha frente o mar e ainda tinha um enorme haras para poder passar o dia!
Eu tô falando muito sério! Praia E cavalos! Ao mesmo tempo!! E sabe da melhor. A Sra. Vanderberg até tem filhos e netos, mas TODOS eles estavam fazendo alguma espécie de mochilão pela Ásia, então não voltariam nem tão cedo, e ela me assegurou que eu poderia ir aonde quisesse, já que ela, por ela mesma, já não tem lá essa animação... ou seja, ela me deu carta branca para poder escolher o cavalo que quisesse para andar dentro do haras, na hora que eu bem entendesse.
Logicamente eu não abusei da hospitalidade, mas não resisti em dar pelo menos uma voltinha a cavalo pela propriedade todo dia e sempre com o mesmo cavalo. Um lindo puro sangue árabe de pelo preto-avermelhado. O nome dele, em tradução é Filho do Vento... sim... o bichinho tinha fama de arisco... mas eu só precisei de quinze minutinhos para fazer amizade e sair cavalgando. A sra. Vanderberg disse que nenhum dos filhos ou netos chegam perto dele por medo, e eu fui a primeira! Filho do Vento — eu sei pronunciar o nome em árabe, mas não tenho a menor ideia de como se escreve isso... – foi o meu melhor amigo por lá! Bem que o senhor falou que não seria tão ruim, ou seja, mais uma vez provo que o senhor tem poderes mediúnicos, custa muito mandar os números da loteria?!
Aliás, eu pude recarregar as baterias, principalmente na praia, mas não foi a mesma coisa sem o senhor por perto, contudo, pode ficar tranquilo, que eu curti muito! Fiquei fora da casa do momento em que o sol nasceu até o horário do jantar. O que as quatro senhorinhas conversaram lá dentro, eu não faço a menor ideia e nem quero saber!
Agora, já aqui em casa, eu vou poder curtir o ócio... talvez eu até vá e algum lugar, nada certo por enquanto... Mas, se bem que se eu arranjar uma festa legal, eu bem que vou poder ir poderosa com o meu presente...
E aí descobriu o que é? Tem ideia? Não tem? Pergunta pra Jenny!
Vou indo, prometo escrever mais até o final das férias!
Fique seguro por aí, hein Marine!
Amo Você!
Kells!
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Kelly está cada dia pior.... poderes mediúnicos? Onde ela tirou isso dessa vez? E outra coisa, por que tanto mistério para me falar o que a Jen comprou para ela? Até parece que eu vou fazê-la devolver o presente ou algo assim... bem, perguntar não ofende, e parece que não vou interromper a leitura da carta, já que a Ruiva parece distraída.
— Hei, Jen, que mal eu lhe pergunte, o que foi que você comprou para a Kelly mesmo? Eu não lembro...
Jen desviou a atenção da carta para mim e levantando uma sobrancelha simplesmente disse:
— Eu não te contei, Jethro. Por mais que você tenha insistido. – E ela voltou sua atenção para a carta.
Como essa não deu certo, acho que vou apelar para o lado mais sensível, se é que ela tem um...
— Kelly me disse para te perguntar... – Vamos ver se ela vai morder a isca.
Novamente ela levantou os olhos da carta, me encarou e com um sorriso que eu só posso definir como cínico, me respondeu:
— Bem que ela disse que você iria apelar desse jeito... sua filha te conhece bem. E eu não vou te falar. Afinal, o investigador aqui é você, descubra.
Eu estava certo em pensar que ela, talvez, não tenha um lado sensível. Teria que apelar para outro lado... me levantei da mesa e estava no meio do caminho quando ela de repente sibilou:
— Não venha dar uma de sedutor para conseguir uma resposta. Coloque seu cérebro para funcionar. Eu não irei te entregar algo tão fácil assim, Gibbs.
Por que ela é tão difícil?
— Mas Jen? – Eu estava parado no mesmo ponto. – Estamos falando da minha filha!
— Por isso mesmo. Ela acredita piamente que você descobrirá, e eu tenho certeza que ela deixou pistas suficientes para que você faça isso. Apenas junte dois com dois e você vai saber o que é. Agora, posso, por favor, continuar a carta?
— Por que vocês, mulheres, se juntam e se defendem desse jeito?
— Para deixar os homens loucos, Jethro. E pelo jeito, funciona, e muito bem. – Ela disse isso, levantando da cadeira onde estava e indo para o quarto, me deixando ali, sozinho e sem respostas.
— Como está o nosso placar mesmo, Jethro? 5x1 para mim? – Ela gritou em minha direção.
Eu ainda tinha que aturar mais essa... não me restava mais nada a não ser juntar as peças desse quebra-cabeças. Se bem me lembro o pacote parecia uma caixa...
Então as palavras que Kelly escreveu vieram à minha mente, como se a minha própria filha estivesse falando ao meu lado:
“Mas vou te garantindo que o senhor ficará feliz em não gastar todo aquele dinheiro em uma coisa que o senhor acha supérflua, mas nós, mulheres, amamos”
— JENNIFER SHEPARD! Você comprou um sapato de salto de alguma marca cara para a minha filha?!
Ela somente colocou a cabeça para fora do quarto e disse:
— Aleluia! Você descobriu Jethro! Meus parabéns. – Seu sorriso era sarcástico em minha direção.
— O quão alto?
— Como é? – Jen se fez de desentendida, mas pude ver que estava se divertindo com a situação.
— O tamanho do salto, qual é?
— Isso lá importa, Jethro? É um sapato tão clássico que ela vai tê-lo por muito tempo! E para de dar um ataque, eu aposto que não é a primeira vez que Kelly usa saltos. Aceite, a sua garotinha cresceu!
— Importa. Importa porque ela é minha filha. Qual é a altura desse salto?
— Iguais aos meus. – Jen disse dando de ombros.
Eu me peguei pensando nos saltos que ela usa... de tão altos são impraticáveis. Pensei como eles chamam a atenção de todos quando ela anda, como as pernas dela parecem não ter fim... e tentei imaginar a mesma cena, só que com Kelly. Eu morri de ódio!
— Vejo que tem alguém com ciúmes aqui... – Jen cantarolou.
— Não é da sua conta. – Eu disse entredentes.
— Se eu tivesse apostado qual seria a sua reação eu ganharia. Mas me diga uma única coisinha, por que tudo isso? Como vocês, homens, sempre dizem, são só sapatos!
Eu não a respondi. Tentei intimidá-la com o olhar, mas não funcionava mais, se é que um dia funcionou.
— Já sei. – Ela deu uma gargalhada. – Saltos são bonitos em outras mulheres, quando vocês homens podem olhar e ficar babando, mas quando se trata das mulheres que fazem parte da sua família, a coisa muda de figura, né? Por que não será você quem vai olhar quando ela passar, vão ser outros!
Eu engoli seco. Ela tinha acertado tudo.
— Qual é, Jethro, pode dizer, não vai te matar, eu acertei, não foi?
Não respondi nada. Apenas suspirei, se essas duas sem se conhecerem pessoalmente e com um oceano as separando, já me causavam problemas, imagina no dia em que ficarem no mesmo lugar?
Não tinha percebido que Jen estava atrás de mim, só notei quando ela sussurrou no meu ouvido:
— Teimoso demais para admitir, não é? Não tem problema, a sua cara já entregou o que eu queria saber. – Ela deu um beijo na minha bochecha e saiu cantando vitória até o quarto, dizendo que contaria para Kelly minha reação.
Na próxima missão infiltrada, eu vou pedir que me mandem como parceiro um homem, assim, problemas como esse não irão acontecer!
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Em algum lugar da Europa, 1998
Carta 09
Kelly.
Então suas férias foram boas... você pôde aproveitar duas coisas que você ama. Não te disse? E você fez todo aquele drama, sofreu tanto por antecedência... posso apostar que você, em hora nenhuma, perguntou para a sua avó para onde vocês iriam...mas se você fizesse isso não seria a Kelly que conheço....
Você domou um cavalo que ninguém tinha domado em quinze minutos? Kelly Gibbs, quem você acha que engana com essa mentira? Quantas vezes você caiu desse cavalo até que vocês dois conseguissem entender um ao outro? E a pergunta mais importante, o que foi que você machucou para conseguir domar esse cavalo? Não pense que eu não conheço um cavalo de raça, e sei por experiência que puros sangue árabes são ariscos por natureza, então, acho muito bem a mocinha me contar a verdade, antes que descubra por mim mesmo, o que vai ser muito pior para você!
E para o seu governo, sim, descobri o que você ganhou de presente. E não quero você usando esse maldito sapato por aí, não! Em nenhuma hipótese, e, muito menos, em uma festa! Seja lá de quem for. E SE – e esse SE é uma grande incógnita — você for a algum tipo de festa neste verão, eu quero saber onde, com quem e que horas você voltou.
E ainda sobre esse seu sapato, eu vou ter que conversar com a Jenny, de novo, sobre isso... não é porque ela usa, que você irá usar também. Mas isso não quer dizer que a sua avó esteja certa no que quer que ela tenha dito... sobre o presente da Jen, eu resolvo aqui.
Aproveite o restante do seu verão. E, muito provavelmente iremos nos mudar de novo. E você já sabe o que isso significa, talvez a correspondência demore a chegar novamente.
Pode deixar que nos cuidamos por aqui, filha.
Te amo.
Papai.
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Chega a ser engraçado o ciúme do Jethro tem de Kelly mesmo a essa distância. Mas, se ele está achando que a filhota vai ficar igual a uma freira esperando ele voltar, ele está muito enganado... logicamente não serei eu quem vai contar isso para ele, mas eu bem que posso contar para a filha dele, a reação que o pai dela acabou de ter por aqui...
Fico pensando se era assim que meu pai ficava cada vez que saía pela porta toda arrumada...
Bem, depois de ser interrompida tantas vezes, acho melhor eu recomeçar essa carta de novo, porque tem muita informação boa... informações que se Jethro sonhar, acho que tanto eu quanto Kelly vamos ter ouvir – ou ler no caso dela – para o resto de nossas vidas...
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Alexandria, 30 de julho de 1998
Carta 04
Oiiiiii Jenny!!!
MEU DEUS!!! QUE PRESENTE PERFEITO!! Muito obrigada! Mesmo!! Eu amei esse sapato. Aliás, que excelente investigadora você é! Como você acertou, não só com qual sapato eu sou apaixonada, como o meu tamanho também?? Eu nem acreditei quando abri a caixa e vi aquele par de Louboutin pretos, com seus característicos solados vermelhos. E quase tive um treco quando calcei e serviu!! Eles ficaram tão lindos!! Tão perfeitos que eu preciso calça-los pelo menos uma vez por dia para ter certeza que eu realmente os tenho!! Eu te adoro!!! E não ria, eu tô escrevendo essa carta com eles nos meus pés, então, se alguma coisa ficar muito embolada ou se eu trocar de tema do nada, saiba que é porque eu parei no tempo para admirar o meu novo par de sapatos. E, ah, antes que me esqueça, eu não contei para o papai o que você me deu, creio que você também não deve ter contato. Então, tenho certeza que ele vai te perguntar, porque eu disse para ele fazer isso. Te peço que me conte a reação dele. Com detalhes. E me conte quanto tempo ele levou para descobrir também. Eu sou filha de Deus, e mereço dar risada.
Bem, passado o momento surto adolescente. Vamos começar com a sua carta, depois eu conto como foram as minhas férias.
MEU PAI AMADO!! O meu pai deve ser discípulo do Coronel. Porque eu o imagino fazendo a mesma coisa. Mas eu tô com pena de você. Poxa, o carinha bonitinho de quem você é afim, e seu pai apronta uma dessas? Você ainda foi guerreira e encarou a escola na segunda, eu nem me atreveria a levantar da cama. Céus! Eu nem consigo imaginar o climão dentro da sua casa. Você de castigo, seu pai bravo porque você saiu sem ele saber. E, eu tô pasma, ele ficou com raiva porque o garoto saiu correndo? Mas me diga uma coisa, quem não sairia correndo quando visse essa cena? Um Coronel do Exército, completamente vestido no seu uniforme, segurando uma pistola e fazendo a mira na sua cabeça, o que ele queria, um garoto de 16 anos que não temesse a morte e ficasse parado ali olhando para a cara dele? Acho difícil de ter um assim... Todos sairiam correndo! Pelo visto, para casar com você, o cara tem que ser MUITO, MAS MUITO especial – e não ter medo de morrer. Seu pai era exigente... talvez mais até do que você!! Coisa estranha...
E, bem a cena que você descreveu do meu pai fazendo um possível namorado meu – falando nisso Henry me ligou!!!! Pediu que eu encontrasse, entro em detalhes mais abaixo – de alvo, é bem capaz de acontecer... acredite em mim, Senhor Gibbs pode ser assustador quando quer, ainda mais se a arma de serviço estiver por perto, e olha que nem disse nada sobre a Bravo 51 dele... porque aquela coisa, mesmo dentro da caixa me faz correr de medo... Ser filha de um Sargento Atirador dos Marines não é nada fácil. O que nós duas fizemos na vida passada para termos pais assim? Fomos garotas muito más!! Ehehehehe
Eu vou cobrar a história do dia de Ação de Graças, será que dessa vez o Coronel atirou em alguém ou o seu namorado foi o jantar? Quero saber!!
Agora, sobre as minhas férias.... eu só digo uma coisa, quero ser tão rica quanto a Sra. Vanderberg quando eu crescer.
Jen, você não tem ideia de onde ela mora. À primeira vista parece só uma fazenda como outra qualquer. Mas quando a gente, realmente, chega na casa, percebe três coisas: 1º aquilo não é uma casa, é uma mansão; 2º é uma mansão com um haras particular ENORME; 3º é uma mansão com um haras particular E com uma praia privativa. Tudo isso, sem nenhum filho ou neto para usar, porque eles estavam em uma espécie de mochilão pela Ásia! Assim, ela me deu total permissão para fazer o que eu quisesse. Na hora em que eu quisesse. E olha só, ela tem uma governanta e uma equipe prontinha para fazer o que você quiser, a qualquer hora.
Por uns alguns dias eu vivi tão bem quanto a Rainha da Inglaterra!! Sério, me senti da realeza!!
Bem, tirando a parte da boa vida, é lógico e evidente que eu uni as minhas duas grandes paixões para passar o dia. Eu podia pegar uma praia, relaxar e recarregar as baterias – mas sem papai por perto não foi a mesma coisa... – bem, mas eu curti. A praia é completamente deserta, só tinha eu ali, e se eu quisesse poderia ser servida ali, na espreguiçadeira. E, de tarde, era hora de andar a cavalo.
Sabe, eu sou apaixonada por puro sangue árabe! Eu sei, logo esse, mas eu não resisto à imponência desses cavalos. Eles são perfeitos! Então, lá no haras tinha um. Um preto avermelhado, lindo de morrer, e bravo pra caramba. Tão bravo que só o adestrador é quem chega perto dele, bem, na verdade, chegava. Eu botei na cabeça que iria montar aquele cavalo. Tinha que ser o Filho do Vento – o nome dele é em árabe, mas eu não sei escrever aquilo lá, então vai a tradução mesmo. Mas, de início, essa minha resolução não foi a melhor ideia não.
Assim, em uma manhã, eu me aprontei para dar uma de amazona. Tava toda produzida, podia até ir para as Olimpíadas... e resolvi que deixaria a Égua Chocolate descansar e tentaria minha sorte com o Filho do Vento. O cavalo é tão inteligente, que me deixou prepara-lo. Coloquei cela, estribo, tudo. E quando eu fui montar... Com um único movimento, ele se apoiou nas patas de trás e me jogou no chão. E isso foi quase todos os dias, mas eu não desisti. Passei a ir na baia dele todo dia antes de ir para a praia, escovava o pelo dele, conversava com ele. Tentei criar um vínculo de amizade, para, então, na parte da tarde, tentar montá-lo. Esse meu plano foi executado religiosamente por cinco dias e, nesses cinco dias eu aprendi a cair do cavalo de várias maneiras possíveis... não teve uma parte do meu corpo que não tenha ficado ou roxa ou doída. Até que no sexto dia... eu consegui montar! E eu não tinha percebido como ele era alto... confesso que deu até medo, mas o cavalo tem que confiar no cavaleiro, ou no meu caso, na amazona, então engoli o medo e tentei passar confiança para o bichinho. E que cavalgada linda! Isso sem contar nas vezes em que ele pulou os obstáculos. Te disse, me senti como se estivesse nas Olimpíadas! E, com o passar das horas, nossa confiança mútua foi aumentando, até que eu estava realmente em um galope bem rápido, quase uma corrida. Nunca me senti tão livre quanto nessa hora!
Mas por favor, papai não pode nem sonhar que eu caí tantas vezes, e muito menos que saí em galope rápido montada em um cavalo arisco... ele vai falar pra caramba se souber... Mas eu só estava fazendo o que ele me mandou, sabe, estava aproveitando o passeio... e aproveitei tanto que saía de casa com o dia amanhecendo e só voltava quando já tinha escurecido.
Não vou dizer que foram as melhores férias da minha vida, porque eu senti muito a falta do meu pai, mas chegou perto! Pena que durou pouco! Sim, você leu certo, eu chorei até não poder mais na última carta, para chegar nessa eu dizer que queria ter ficado mais. Mas o que eu posso fazer se sofro por antecipação e tenho que fazer um drama? Nada né?
Agora, vou para a última parte, e a mais importante:
Henry me chamou para sair. Não disse a data, mas até hoje não aconteceu.... o que eu faço??? Como eu vou agir?? Com que roupa eu vou? E se alguém me pegar com ele? O que eu faço? Jen eu tô apavorada!!! Socorro!! Me mande um sinal de como eu devo fazer!! Por favor!! Só de pensar que a gente pode sair junto, eu já sinto borboletas no meu estômago!! Lógico que eu não vou sozinha, não quero um Coronel Shepard me vigiando e ameaçando geral... mas eu nem sei para onde vamos ou SE vamos, e já tô sofrendo... E se o papai descobrir? Ele vai me matar, eu seu disso. O problema é que eu já disse sim... mas é o Henry, né? Acho que ele não vai sair correndo igual ao Michael não...
Então, alguma ideia? Ideia de como vou? De como dar a notícia a papai, porque eu não quero que ele fique – ainda – mais bravo... Você pode me dar uma ajudinha??
Eu agradeço qualquer coisa que você falar desde já!!
Vou indo antes que minha mão dê cãibra e você fique com dor de cabeça.
Ruiva, ama saltos, baixinha, teimosa E COM MUITO BOM GOSTO! Porque só assim para explicar o presente que você me deu!!!
E aí acertei, vai ter foto? Diz que sim!!
Fique a salvo e tente não assassinar o meu pai!!
Beijos!
Kelly!!
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França, 1998.
Carta 04
Olá Kelly.
Eu vou começar pelo seu pedido. Seu pai acaba de descobrir qual era o presente. Demorou um pouco. Digo, ele terminou de ler a sua carta, ficou uns bons dez ou quinze minutos pensando no que poderia ser, até que tentou me interrogar... o que, claramente, não deu certo.
Primeiro ele se fez de bobo, como se tivesse se esquecido o que era. Coitado de ele achar que eu esqueci o tanto que ele me perturbou para saber o que eu estava te mandando. Depois apelou para o meu lado sensível. Achou que colocando você no meio da conversa, dizendo que você tinha pedido, eu iria ceder. Deu errado de novo. Afinal, você já tinha me avisado. Mandei ele colocar o cérebro para funcionar. E ele colocou.
E Kelly... a cara que ele fez quando, finalmente, fez a associação sobre tudo o que você disse, com o embrulho que eu carregava, foi hilária. Eu pensei que ele era capaz de esconder as expressões dele, mas parece que quando se trata da filhota, ele não consegue. Como você o conhece bem, deve estar imaginando qual foi, e te digo, eu consegui escutar até o estalo quando ele soube. Os olhos arregalados de início, depois a testa franzida e por fim, ele tinha que despejar o ódio em alguém. E adivinha para quem sobrou? Sim, para esta que vos escreve.
Ele entrou em desespero querendo saber a altura do salto. Eu me fiz de desentendida só para poder vê-lo ficar ainda mais irado. E deu certo... e foi aí que eu soltei a bomba, disse que os sapatos que te mandei são da mesma altura dos meus.
Kelly, ele deu erro. Completamente. Por uns trinta segundos, seu pai ficou complemente sem reação, eu conseguia ver as engrenagens do cérebro dele funcionando. E, obviamente, eu não poderia perder a oportunidade de tirá-lo, ainda mais, do sério... Dessa vez, ele soube que tinha perdido a batalha...
Contudo, creio que ele vai te passar um sermão para não usar o sapato... afinal, o ciúme dele é coisa de outro mundo.... só de te imaginar calçado num desses sapatos, ele deve ter ficado com o cabelo ainda mais branco... e agora ele tá lá sala escrevendo em uma velocidade que eu estou começando a temer que você não vai conseguir entender nenhuma palavra... Mas a feição dele ainda está furiosa... essa história do sapato vai render, e eu te conto as cenas dos próximos capítulos!
Acho, que para dar uma melhorada no astral desse sótão, eu vou ter que apelar para a política da boa vizinhança e tratar de fazer o café. Quem sabe ele não dá uma melhorada no humor.
E falando em melhorada no humor, eu vou tentar conversar com ele sobre como reagiria se, quando ele voltar, descobrisse que você está namorando, não hoje, porque eu tenho amor à minha vida, mas no decorrer da semana. Aí, dependendo da resposta, eu te dou um sinal se tá tranquilo para você começar o assunto, ou se você espera mais um pouquinho.
Agora, sobre o seu encontro... sua roupa tem que ser adequada ao lugar, não adianta comprar um vestido de gala para ir em um jogo de beisebol. Mas, vestido é sempre coringa, ainda mais no verão. Então procure algum com uma cor mais clara, para destacar o seu cabelo escuro, e quem sabe com alguns tons de azul claro. E, se nada te agradar, sempre terá o preto. Porque com essa cor não tem erro. E eu não preciso dizer com quais sapatos, né? Acho que você já deixou bem claro que precisa usá-los, nem que seja para o Fim do Mundo. – não te culpo, dificilmente eu tiro os meus dos pés!
Você disse que acha que Henry não sairia correndo. Sem querer te decepcionar, ele sai sim. Principalmente se pegar o seu pai em um dia em que o consumo de cafeína dele for abaixo do normal. E aí caímos na sua pergunta: o que fizemos na vida passada? Eu não sei, mas se isso que eu passei e que você está morrendo de medo é algum indicativo, eu só posso traduzir como carma. Fomos terríveis com muita gente na vida passada!!
E sobre as suas férias, eu acho que preciso ir em um lugar assim... me imagino muito bem sendo servida na beira da praia enquanto deixo de ser transparente e passo a vermelho-camarão!! Chique, né?
Quanto ao Filho do Vento... deve ser um cavalo e tanto. E pode ficar tranquila que eu não vou contar as suas experiências de quase morte para o seu pai não. Mas é bem provável que ele tenha desconfiado de algo. Você seguiu a regra 7? Aquela da mentira bem detalhada? Se seguiu, ele não desconfiou de nada, mas se você saiu da linha uma única vez, ele vai te questionar, com certeza!
Eu espero que você já esteja melhor. Cair do cavalo dói. E cavalgar no galope também. E se você não ficou dolorida por umas duas semanas, garota você é uma amazona e tanto e pode tentar uma vaga nas próximas olimpíadas... se você for classificada, pode apostar que vou estar lá torcendo!!
Não temos muitas novidades por aqui... fora que vamos trocar de país. Não me pergunte para onde, porque ainda não sei, então, pode ser que esta seja a última carta que chegue rápido. Mas não se preocupe, se a coisa pegar, tem sempre um telefone para ser pego mediante empréstimo!!
Eu adorei conversar com você via telefone, e sei que a sua próxima carta será sobre isso, também, mas estou me adiantando. E, você não faz ideia do quanto que melhorou o humor do seu pai. Espero que o seu tenha ficado um pouquinho melhor também, ainda mais em um dia tão difícil para vocês dois.
Falando no seu pai, ele acabou de colocar a cabeça aqui no quarto para me apressar... nem respondendo a sua carta ele me dá folga... e eu tenho que ir mesmo, porque ele está tentando ler o escrevi... e olha que sempre diz que não se importa com o que falamos. Me pergunto se ele está acreditando nessa mentira dele!!
Fique tranquila aí, aproveite o resto do verão e o seu possível encontro com Henry! Estou de dedos cruzados por você!!
Para terminar, vou considerar que você descobriu as cinco, apesar de ter bom gosto não ser lá uma boa explicação, mas estou boazinha hoje. Estou te mandando uma foto que tirei no píer daqui de Marselha... acho que você vai gostar! E, ah, junto com ela, mais algumas, tinha umas paisagens bem irresistíveis e convidativas nessa cidade!
Até a próxima e cuidado para não cair de cara no chão quando estiver olhando para os sapatos!!
Beijos,
Jenny.
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Eu mal havia terminado a carta, logicamente depois de ter expulsado Jethro de dentro do quarto, já que ele estava tentando ler o que eu estava escrevendo, quando ouvi batidas altas na porta, e Decker gritando:
— Abram logo! D.C. manda novas designação e localização. Dessa vez a coisa vai ser séria! Vamos para a Sérvia!
E eu tinha um péssimo pressentimento quanto a isso!
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