Carta para você

38 Últimos movimentos antes do Fim.


Notas iniciais
Bem, voltei. E só digo que, comecem a preparar os lencinhos. No próximo capítulo vocês entenderão o motivo. Tem de tudo nesse aqui, espero que se divirtam. Boa leitura!!

MAIO/1999

Jethro não estava nada feliz, desde o que aprontamos com os dois homens de Benoit, nos foi dito para mantermos a discrição. E manter discrição nesse mundo significa praticamente desaparecer, ou seja, ficar preso dentro desse apartamento.

Não que ficamos atoa, impossível de ficar atoa ao lado de Jethro. Mas também não podíamos sair muito.

— Não sei como você não enjoou de mim! – Brinquei com ele. Estava com a cabeça deitada no peito dele. Em um estado de semiconsciência, pois ele tinha me feito passar a noite inteira acordada. Não que eu estivesse reclamando, antes de ele começar a brincar com meu cabelo, e beijar minha clavícula e de termos parado aqui, eu estava trabalhando.

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Lia concentrada, as últimas atualizações de Decker sobre a casa dos Zukhovs. E palavras como armamento pesado, vários seguranças, carros blindados e esquema de segurança saltavam dos papeis e me faziam embrulhar o estômago.

Como iriamos conseguir executar as ordens?

Eu estava pronta para perguntar isso para Jethro, quando ele me mandou parar.

— Não podemos simplesmente ignorar isso!

— Por uma noite, podemos. – Suas mãos pararam em minha cintura.

Verdade seja dita, ele já tinha ido até a casa. Sozinho. Tinha saído sem me falar onde ia. Quando voltou começou a me contar como era o lugar.

E mais uma vez eu tive que perguntar se ele não confiava em mim.

Jethro apenas disse que estava estudando o local. Que ele preferia ir até lá do que ficar planejando uma operação de vida ou morte através dos relatórios de Decker.

— Se fossem os seus relatórios, Jen, eu até faria isso. Mas Will sempre se distrai com alguma coisa. – Ele deu um sorriso de lado.

Apenas grunhi minha resposta.

— Você não sai mais sozinho!! – Ameacei.

Ele riu na minha orelha.

— Olha quem está exagerando de novo!

Como que para provar o meu ponto, apertei seu braço direito. Já tinha tirado os pontos a um tempo, mas a ferida da bala ainda não tinha cicatrizado como um todo.

— Por quê? – Ele reclamou.

— Só para te lembrar o que acontece quando não em alguém te cobrindo! – Falei.

Só que ele estava naquele humor. E levou minha fala com segundas e até terceiras interpretações.

Desse momento em diante, eu deixei que ele ganhasse esse round. Não me importei nenhum pouco com a atenção que ele dispensou em todo o meu corpo.

Ele definitivamente sabia me tirar do sério. Eu perdi as contas de quantas vezes me vi implorando para que ele acelerasse.

— Parece que tem alguém aqui que nunca sabe se conter. – Sua respiração quente em meu ouvido quando ele mordeu o local.

— Isso é tortura, e por favor, sem marcas!!

Esse meu pedido só pareceu animá-lo ainda mais. Logo ele estava distribuindo beijos e mordidas por todo o meu pescoço.

— O que você estava falando, Jen? – Ele me encarou.

Tentei fazer o meu cérebro funcionar, todavia eu estava em um estado de pleno êxtase, que me foi impossível formular qualquer frase que não começasse com o nome dele.

— Jethro, não. – Pedi quando suas mãos viajavam pela minha cintura, e sua boca era atenciosa até demais com meus seios.

— Quer que eu pare? – Tive que tentar manter a respiração quando mirei naqueles olhos azuis. Hoje escuros de desejo.

— Se você fizer isso eu te mato!! – Consegui ter um minuto de clareza e colei minha boca na dele.

Eu estava tão descompassada que ele logo assumiu o controle de novo.

Eu podia sentir o seu sorriso vitorioso em minha pele cada vez que eu gemia o seu nome, cada vez que eu implorava por mais, mesmo não aguentando me conter mais.

— Jethro, por favor.

E, dessa vez ele me atendeu. Sorrindo presunçoso me tomou de uma só vez. As preliminares tinham acabado e ele já tinha conseguido o seu objetivo comigo duas vezes.

— Agora você vai olhar para mim. – Ele ordenou, segurando o meu rosto com uma de suas mãos, a outra eu já nem sabia dizer onde estava. Ele estava por todo o meu corpo ao mesmo tempo.

O que mais ele queria que eu fizesse? Ele não tinha me dado uma oportunidade de controlar essa noite. Nenhuma! Eu fora dele o tempo inteiro.

— Jen... – Sua voz rouca fez um arrepio descer pela minha coluna e se instalar no meu estômago.

E eu fiz o que ele me pediu. Eu abri os meus olhos. E céus. Sim. Eu tinha razão de implorar tanto nessa noite.

— O que? – Eu tinha uma frase pronta, uma tirada, mas fiquei abismada pela potência do olhar dele.

— Comigo?

— Eu...

— Por favor!

Ele vinha com por favor agora?! Como ele podia ser tão cara de pau?

— Jethro.... – Eu gemi alto ao mesmo tempo que ele gemeu o meu nome, nossos olhos nunca deixando o outro.

Essa tinha, com certeza, sido a melhor noite da minha vida.

Levamos quase dez minutos para conseguirmos controlar nossas respirações e batimentos cardíacos. E, mesmo estando tão sem fôlego quanto eu, ele não parou de me beijar.

— Respire Jen... – Ele falava sorrindo.

— Me diga como! – Reclamei. – Você não está me deixando respirar.

A risada dele foi mais alta. E isso me acendeu de novo. Peguei-o de surpresa, eu pude ler isso nos olhos dele, e assim que consegui prendê-lo, tendo todo ele a minha mercê, eu sussurrei em seu ouvido.

— É a minha vez de pagar o favor, Jethro.

E eu não contive o sorriso vitorioso em meus lábios quando eu o vi arrepiar.

— Vamos ver quem não consegue se controlar agora. – Sorri diabolicamente e ele engoliu em seco. – Ele estava nas minhas mãos!

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— Você ainda está aí? – Ele me perguntou, passando a mão pelos meus cabelos.

— Estou. – Minha voz bem baixa, ainda meia rouca de tanto ter gritado o nome dele.

— Em que tanto pensa? – Como ele não podia ler meu rosto, teve que apelar para o interrogatório.

Eu poderia ter respondido que na noite que passamos. Mas eu já tinha inflado o seu ego enquanto chamava seu nome. Não faria isso de novo.

— Que você me deixou toda marcada! – Disse.

— Mentira! – Escutei a sua risada vibrando em seu peito.

— Pare de ser tão pretensioso, você não é tão bom assim!

— Sei que você está mentindo. Posso sentir que seu rosto ficou mais quente. Você estava se lembrando.

Malditas bochechas!!!

E eu me senti esquentar de novo.

Grunhi e tentei me deitar no travesseiro, mas ele me prendeu mais forte.

— Não, agora você fica. – Ele falou, apertando os braços na minha cintura.

Tentei sair, e foi em vão. Enquanto que minhas bochechas ficavam ainda mais vermelhas.

— Você só sai se repetir o que disse durante a noite. – Jethro tentou manter a seriedade.

— Eu nem me lembro de conseguir formular uma frase coerente durante a noite, Jethro! O que você quer que eu diga? – Levantei a minha cabeça, e pelo olhar no rosto dele, ele tinha gostado do que eu falara.

— O que eu falei? – Perguntei. Estava ficando nervosa. Eu tenho a péssima mania de falar demais quando não devo.

O sorriso dele me dizia que ele tinha gostado do que eu tinha dito, e me dizia além, que não iria me contar...

— E se eu pedir com jeitinho? – Perguntei beijando seu pescoço.

— Quem sabe você não diz de novo, não é? – Ele capturou meus lábios e voltamos nossas atenções novamente um para o outro.

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Mais duas semanas de prisão se passou. E a única coisa em que eu pensava era: por que raios Kelly tinha resolvido ignorar a minha carta?

Estava andando de um lado para o outro dentro do apartamento, murmurando comigo mesmo, quando Jen, que até então estava sentada no sofá, lendo um livro, começou:

— Querendo uma opinião profissional sobre algum assunto, Jethro? – Ela fechou o livro e se sentou em cima dos próprios pés para me olhar melhor.

— O que? – Não tinha entendido nem prestado atenção no que ela falara.

— Você está falando sozinho há uma hora. Ou você adora o som da própria voz, ou você está buscando a opinião de um profissional sobre o que tanto te aflige! – Ela tombou a cabeça e levantou uma sobrancelha.

Resolvi deixá-la na sala e fui para a cozinha, só para voltar um minuto depois.

— Kelly. — Falei.

– E o que tem ela? Fora que não mandou mais cartas? – Agora ela tinha interesse no que eu tinha para falar.

— Na última carta que ela mandou, ela ficou enrolando, falando coisas sem sentido por quase todo o tempo. Era lógico que ela estava com a cabeça em outro lugar. Dei a ela um prazo para me falar o que realmente estava acontecendo. E ela não falou nada.

— Tentou ligar para ela?

E aqui eu tive que parar. Eu tinha ligado, durante uma das saídas de Jen para dar uma vigiada na casa de Zukhov. E se ela ficasse sabendo disso.

— Jethro!

— Sim.

Ela fechou a cara e semicerrou os olhos.

— Quando?

Respirei fundo.

— Todas as vezes que você sai. Queria saber o que ela tanto esconde.

— E você acha que ela está ignorando os telefonemas de propósito? – Para minha surpresa, Jen não estava com raiva.

— Talvez. Sei que ela não quer falar comigo sobre o que é.

Jenny pareceu ponderar por um momento. Mordeu o lábio inferior e me olhou.

— Você me promete que não vai contar para ela, nem se ela ameaçar a sua vida? Ou a dela, ou a de qualquer pessoa?

— Ela te falou o que aconteceu? Jenny não me diga que...

— Jethro, não leve tudo para este lado. Não. A coisa foi mais séria. – Ela começou a abrir o caminho, foi quando o telefone tocou.

— Eu juro que se for a Kelly, essa menina grampeou esse apartamento! – Jenny disse rindo. – Eu ou você?

Não respondi, caminhei até o telefone e atendi.

— Não brigue comigo. – Foi assim que minha filha me atendeu.

— Deveria? – Perguntei. Dava para perceber que ela estava se sentindo culpada.

— Papai, eu comecei mais de dez cartas nestes dois meses. Mas eu não consegui terminar. Eu não consegui! – Ela respirou fundo. – Eu quase mandei uma para a Jenny para que ela te mostrasse a última que eu enviei. – E Kelly parou.

Eu não respondi nada. Sabia que ela estava acabando de colocar os pensamentos em ordem. Dei uma olhada por sobre o meu ombro, pedindo apoio para Jen do que tudo, mas ela não estava mais ali. Tinha dado a privacidade que Kelly precisava.

— Papai, o senhor leu ou ouviu falar do livro “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen?

— Lembro da sua mãe lendo esse livro. Era um dos preferidos dela.

— E ela nunca contou o que acontece?

— Não.

— Bem, resumo do resumo. O cara rico se apaixona pela moça inteligente e cheia de vida, que tem outras quatro irmãs. Ela não tem dinheiro. Ele é influente. De início, ele não aceita esse amor por conta da classe social dela e de como a família dela age. Depois, quando ele declara o amor dele, ela o rejeita. Mas ela também tem a sua parcela de culpa, pois o julgou antes que o conhecesse. Mas o ponto principal é, quando o assunto de que os dois possam estar juntos de espalha, a tia dele, que é uma Duquesa, vai até a casa de Elizabeth e diz que essa união é impossível. Pois ela não tem classe, não tem educação, é inferior a ele em tudo. No final, como o senhor pode imaginar, eles passam por cima de todos os preconceitos e de seus próprios orgulhos para ficarem juntos.

— Entendi. E onde você quer chegar com isso.

— Henry não tem uma tia duquesa. Mas tem uma irmã que é quase tão preconceituosa quanto a tia do Sr. Darcy.

Eu comecei a entender onde Kelly queria chegar.

— Não me diga que...

— Sim. Ela me tratou muito mal quando fui apresentada à família. A outra irmã dele, Claire, foi um amor comigo. Outro dia ela até saiu com a gente. Mas a mais nova, Alicia, essa é terrível! E não perde a oportunidade de jogar todo o seu preconceito na minha cara. Eu a encontrei só mais duas vezes desde janeiro. E cada vez foi pior que outra.

— Henry não fez nada? – Eu estava vendo vermelho.

— Todos fizeram. E ela não para! Não adianta o que falem, o que ameacem, ela continua. – Notei que Kelly segurava o choro. – Henry me tirou da casa dele no último domingo, era demais até para ele, e disse que o que a irmã faz não tem desculpa. Eu o entendo, sério. Mas.... – Ela começou a chorar.

Eu não sabia o que fazer.

— Não tem nada que o senhor possa fazer, pai. De verdade. Eu já pensei em tudo. Só tem um problema... Promete que não vai surtar?

Nessa hora eu me preparei para tudo. Ia ficar na sala, porém decidi ir para o quarto, dependendo do que Kelly me falasse, eu precisaria que Jenny arrancasse o telefone da minha mão e me impedisse de falar alguma besteira. Abri a porta do quarto, Jen se assustou com a minha expressão. Ela tinha a última carta de Kelly na mão.

— Não posso prometer nada. – Falei entre dentes. Kelly do outro lado segurou a respiração. Jenny me olhou, desaprovando a minha escolha de palavras.

— Pai, a verdade é que... bem eu não sei se você vai me entender. A Jenny disse que me entendia. – Pude vê-la dando de ombros, mesmo estando tão distante. — Eu realmente amo o Henry. Amo tanto que chega a doer pensar em ficar longe dele. Por favor, não diga que amor de verdade não existe, porque existe. E é isso que me impede de terminar com ele. A irmã dele é só um problema que temos que enfrentar, que machuca, que abre uma ferida enorme, mas nem por isso eu sou capaz de ficar longe dele.

Me sentei na cama tão forte que Jenny se levantou e me olhou preocupada. Sua sobrancelha quase na linha de seu cabelo.

Não era possível que isso tinha acontecido com Kelly também.

— Eu te entendo. – Falei depois de quase um minuto.

— Me entende?! – Kelly se surpreendeu com a resposta.

— Sim. Sei o que você está sentindo.

Foi quando vi Jenny sorrir, ela tinha entendido a conversa sem escutar nenhuma palavra, e estava fechando a porta, não sem antes murmurar:

— Eu sabia que você não ia brigar com ela.

Voltei minha atenção para o telefonema, agora que estava sozinho.

— Não me diga que foi com a mamãe!

— Foi. Foi exatamente assim. E se você conversar com a sua avó, ela vai chamar a sua mãe de boba, mas foi o mesmo com ela.

Kelly tinha parado de chorar, porém não falou mais nada por um tempo.

— Esse foi o motivo de vocês terem saído de Stillwater?

— Um deles.

— Quem foi que expulsou quem?

— Ninguém nos expulsou. Mas a sua avó não queria a sua mãe do meu lado. Eu era só um garoto que queria me alistar. Tinha outros partidos muito melhores na cidade.

– Agora muita coisa faz sentido. – Kelly continuou. – Muita mesmo. Vocês deixaram a cidade depois do baile, não foi? O senhor já tinha se alistado...

— Foi. Exatamente assim.

— Sabe pai, achei que estava doida. Achei que ninguém me entenderia, que ninguém soubesse o que esse sentimento significava. E agora, — Ela deu uma risada fraca. – me vejo conhecendo duas pessoas que sabem pelo que estou passando. E, pelo menos uma, eu sei que superou tudo para que desse certo. Se você e mamãe conseguiram ficar juntos, e olha que os problemas de vocês eram milhares de vezes mais complicados do que os meus, eu vou conseguir também! Eu sei que vou.

Passei a mão nos meus cabelos, tentando imaginar por que Kelly tinha que ter herdado justamente isso. Por quê? Já não bastava toda a dor que a partida de Shanon me causou? Por que minha filha teria que ser perseguida por um futuro onde só haveria dor?

– Papai, o senhor ainda está aí? – Ouvi Kelly me chamar.

— Sim, filha, estou.

— Bem, espero que me entenda de verdade... eu.

— Kells, eu te entendo, apesar de não ter gostado nem um pouco do que fizeram com você.

— Não foi todo mundo, pai, toda a família me recebeu muito bem, com uma exceção.

— Mesmo assim, Kelly, você não precisava ter passado por isso.

— Eu sei... mas, parece inevitável, não sei... alguém tinha que dar uma lição nessa garota, o problema que eu nunca sei o que falar.

— Talvez a vida a ensine, ou você consiga alguém que te defenda à altura.

— Pai, por favor, não faça nada... eu vou conseguir resolver isso, eu juro. Só, por favor... – Ela começou a implorar.

— O que posso fazer contra uma adolescente, Kelly. Posso tratá-la da mesma forma que ela te trata, nada mais.

— Nem assim dá certo. Parece que nada é capaz de perturbar a paz e a confiança dela. Nada, nem ninguém. – Ela suspirou triste. – Bem, pai, era isso que eu enrolei para dizer na carta. Eu contei com detalhes para Jen, precisava desabafar com alguém, ela sempre é o meu primeiro destino, se quiser saber mais, peça a carta a ela. Aconselho a não saber, pois isso deixou a Jen bem chateada também. Ao ponto dela se prontificar a dar um jeito na minha cunhada...

— Vou acreditar em você e deixar passar. – Avisei.

— Muito obrigada. – Pude ouvir o sorriso cansado dela.

— E agora, Kelly? – Perguntei.

— Eu vou esperar o senhor voltar. Está mais do que na hora de Henry te conhecer.

— E quem sabe passar por algo parecido. – Não consegui segurar o sorriso.

— Pai, por favor.

— Ninguém mandou que ele namorasse a minha filha.

— PAI!! – Ela tornou a falar ainda mais desesperada. – Por favor, não faça isso.

— Kelly, quando eu o conhecer, a gente conversa.

— Vou ter pesadelos com essa conversa até que ela aconteça!! – Ela reclamou, seu humor um pouco melhor. – Eu prometo escrever mais uma vez antes disso acabar. E vou entender se não der para responder. Sei que as coisas devem estar mais perigosas agora. Então, por favor, tomem cuidado. Não quero receber nenhuma notícia apavorante.

— Estamos tomando, Kelly.

— Agradeça a Jen por mim. Sei que ela deve ter dado espaço, ela é boa em fazer isso. E diga que estou esperando vocês dois em julho!! Te amo papai!!

— Eu digo. Também te amo, Kells. Se precisar, sabe o número.

— Se eu precisar, pai, eu ligo, mando carta, pombo correio, coruja, sinal de fumaça, qualquer coisa. Eu vou desligar porque essa conta vai vir nas alturas! Até julho! Beijos.

E a linha ficou muda.

E como Jenny dissera, o assunto era ainda mais preocupante do que eu pensara.

Sai do quarto para encontrar com Jenny sentada no sofá, lendo o livro. E ela, antes de me perguntar qualquer coisa, me analisou.

— Ainda bem que você entendeu o ponto dela. Fico feliz que ela finalmente colocou isso para fora.

— Ter entendido não significa que gostei do que aconteceu. – Respondi mal-humorado.

— Se serve de consolo, eu também não gostei, mas gostaria de ter um papinho com essa Alícia.

— Entre na fila.

Jen deu uma gargalhada.

— Achei que depois de nossa aventurazinha, poderíamos fazer isso em dupla...

— Não iria sobrar nada da garota. – Falei com ela.

— E não é essa a nossa intenção? – o brilho travesso em seus olhos me disse que se Jen tivesse a oportunidade, ela realmente faria isso.

— Kelly não pode nem sonhar.

— O que Kelly não sabe, não a machuca, Jethro.

Concordei com ela. Um dia essa tal de Alicia teria o troco.

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JUNHO/1999

— Eu não acredito!! Se você não tivesse uma estúpida regra sobre coincidências, eu diria que isso aqui é uma. – Soltei irritada.

Estávamos a mais de quatro horas dentro do carro, de tocaia, espreitando os movimentos da residência de Zukhov.

Jethro só levantou a sobrancelha na minha direção, como que me pedindo para parar de reclamar.

— São quatro horas. Eu tenho direito de reclamar! – Respondi ao seu olhar. – Já não aguento mais ficar sentada dentro desse carro!

E ele continuava com os binóculos no rosto e me ignorava.

— Você sabe muito bem que eu não vou calar a boca... vai ter que me aguentar. – Na falta de ter o que fazer, irritá-lo era a melhor pedida.

— Você já foi conferir se há outra saída? – Finalmente ele conversava comigo.

— Sim, não hoje, mas em todas as outras vezes que estive aqui. – Disse cansada.

— Paciência não é o seu forte! – Ele começou a testar os meus limites, acho que mereci essa.

— Nem o seu. – Dei uma cotovelada em suas costelas.

Ele grunhiu em resposta e focou na casa. Tive que fazer o mesmo e caímos em um silêncio confortável.

Até que ele voltou ao início das minhas lamentações.

— O que você quis dizer com coincidência?

— Sério que você não entendeu? Ou só agora que você foi prestar atenção no que eu disse?

— O que você quis dizer?

Por que eu ainda insistia em tentar tirar uma declaração dele?

— Começamos em uma tocaia. Estamos terminando o serviço em uma tocaia. E vigiando o mesmo alvo. Haja coincidência.

— Regra 39: Coincidências..

— Não existem! Eu sei Jethro, tenho o total de trinta e sete regras anotadas. Todas suas. E que você foi falando no meu ouvido nos últimos dezessete meses.

— Você realmente anotou? – Ele pareceu surpreso.

— É claro, você disse que ia ter uma prova, se lembra? – Sorri inocentemente para ele. – Por que a surpresa?

— Nada. Onde estão?

— Haha! Não vou te contar. Vai que você quer saber onde estão só para que, enfim, você possa tê-las anotadas! – Pisquei para ele e Jethro bufou.

— Nem todas que eu te falei foram por conta do que estamos fazendo.

— Não, principalmente aquelas dos interrogatórios. Mas mesmo assim, eu anotei.

— E o que pretende fazer com isso?

Parei para pensar. Nunca me passou pela cabeça que todas aquelas baboseiras pudessem ter alguma utilidade na minha vida.

— Sabe que não sei?

E ele começou a rir.

— Quem sabe quando você tiver a sua própria equipe, você comece fazendo com que todos anotem essas regras. Depois você faz a prova. — Ele falou como se fosse a coisa mais simples de acontecer.

— Isso significa que já está cansado da minha presença e quer me ver bem longe daqui? – Fingi ficar chateada.

— Eu não falei isso.

— Sim, você disse! Não com estas exatas palavras, mas disse. – Estreitei meus olhos na direção dele. – Acha que você não aguenta mais ser constantemente pisoteado e massacrado pela minha inteligência, e já quer que me mandem para o beleléu.

Jethro ficou assustado. Dava para perceber que ele buscava as palavras certas para tentar me explicar que ele não pensava assim. E eu estava adorando tirar sarro da cara dele por isso.

— Jen, olha... – Ele começou com todo cuidado.

E eu estava tentando me manter séria. Agradecendo aos céus que estava de óculos escuros, assim ele não poderia ver que eu estava me divertindo às custas dele.

— Isso é como sempre é. Um homem não pode bater de frente com uma mulher mais inteligente que quer logo se livrar dela. Deprimente. – fingi estar deliberadamente ofendida.

— Não é isso, eu só quis....

—Não sei porque me surpreendo! – Continuei. E ainda caprichei na cara de desgosto.

Jethro entrou em desespero. Dava para ver que ele tentava me explicar que eu tinha entendido tudo errado. E como eu não o deixava terminar, foi ficando nervoso.

E pela terceira vez, ele começou a sua explicação. E, me deu até pena do tanto que ele buscava as palavras certas para não me ofender ainda mais.

— Jen, eu não quis dizer isso, eu só acho que você é uma excelente agente. A melhor com quem trabalhei. E tendo em vista o plano de carreira de NCIS, o certo é que algum dia vão te dar uma equipe para liderar. – Eu nunca o ouvira dizer tanto e tão rápido.

Foi a minha vez de ficar petrificada.

Ele realmente disse aquilo? Jethro Gibbs tinha realmente declarado sua opinião sobre alguma coisa em voz alta?

Tirei meus óculos e o encarei.

Ele pareceu aliviado quando não viu nenhum sinal de ofensa em minhas feições.

— Estou falando sério, Jen. Você é melhor que muita gente que está no NCIS. E eu não me surpreenderia que... – Calei Jethro colocando minha mão na sua boca.

— Eu estava brincando com você, Jethro. De verdade, eu sei que você não faria algo assim. E entendi o seu ponto. E agradeço as palavras. – Eu não sabia como me sentir quando alguém elogiava meu trabalho. Na verdade, ninguém nunca tinha feito isso. Fazer um trabalho bem feito é o que eu devo fazer, mas ouvir que eu sou boa no que faço? A melhor? Isso nunca tinha acontecido. E ao escutar Jethro dizendo aquelas palavras, a única reação que tive foi ficar sem graça. E corar, é claro que as minhas bochechas entregariam o meu estado de espírito.

— Eu não. – Foi o que ele me disse, olhando direto dentro dos meus olhos como se pudesse ler a minha alma.

Mesmo estando sem graça, não contive a reação de alegria que senti ao ouvir que pelo menos alguém valorizava o que eu fazia. Me inclinei na direção dele, dei um beijo na sua bochecha e sussurrei um obrigado. Voltando meu rosto para o para-brisa e para a casa de Zukhov.

O que mais falta esse homem falar para que eu me desmanche de vez?

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Nossa tocaia durou mais três semanas. Aprendemos passo a passo da rotina da casa, os horários, quem entra por onde, e, o mais importante, notamos que tanto Anatholy quanto Svetlana tinham uma estranha mania de saírem separados e sem nenhum segurança.

Jen chegou a seguir a mulher por alguns dias, na verdade, tudo não passava de uma forma de enganar a todos. Eles saiam separados para não chamar a atenção.

E, foi aí que vimos a vulnerabilidade deles. E era juntamente assim que conseguiríamos executar a ordem.

Com o passar dos dias, Jen começou a limpar sua arma com mais frequência, e ficar um pouco mais calada que o normal. Não sei se concentrada no que tinha que fazer ou se preocupada em conseguir fazê-lo. E toda vez que eu perguntava se ela estava bem, recebia a mesma reposta.

— Hoje sim. Mas tenho certeza que ficarei também, depois que tudo isso terminar. – Ela falava, me dava um beijo na testa e sempre me deixava sozinho.

E isso era a única coisa que me preocupava. Será que ela teria a coragem de executar alguém a sangue-frio?

Eu esperava que, se ela não conseguisse, que pelo menos falasse comigo, eu não me importaria de pegar o lugar dela.

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Junho chegava ao fim. E com ele o nosso último compromisso. Era a última vez que todos aqueles negociantes e traficantes nos veriam. Fecharíamos os últimos acordos, daríamos os últimos passos para uma entrega que nunca aconteceria.

Eles seriam presos, teriam suas fortunas, impérios e organizações destruídos. Melissa Fleming e Robert Spears seriam definitivamente mortos.

Tudo dentro de uma semana.

Assim, nossa farsa duraria por mais uma semana. Aí era esperar a ordem de D.C. e pegar o último deles.

Começava o nosso check-mate.

Bem, se eu achava que atirar a sangue frio em alguém era o pior dos meus problemas, eu não tinha nem ideia de que existia uma coisa pior.

Explicar para Jethro o motivo dele ter que usar uma máscara para um baile.

Sim, no elegante convite que recebemos, estava escrito que todos os convidados, além de usarem roupas pretas ou brancas, deveriam usar máscaras.

Bem interessante. Teríamos que usar de toda a nossa memória para reconhecer nossos “clientes”.

— Isso é perigoso, Jen. – Ele falava de dentro do quarto.

— Mas é o que está escrito. Não podemos aparecer lá sem elas! – Era a centésima vez que eu falava isso.

— Você parece muito segura de que vai reconhecer as pessoas necessárias, sendo que todo mundo estará ou de preto ou branco e usando máscara!!

— As máscaras só cobrem metade do rosto. E a voz ainda será a mesma. Não exagere!

Jethro já estava devidamente arrumado em seu smoking preto e me esperava. Podia escutar os seus pés batendo no chão, evidentemente, já sem paciência.

— Eu já estou quase pronta!

— Eu não disse nada!

— Seus pés disseram, Jethro!

Dei uma última conferida no vestido preto que usava. E saí para encontrá-lo.

Quando ele ouviu os cliques dos meus sapatos, logo se levantou da cama, e ficou mudo, me olhando de cima a baixo.

— Vou presumir que você gostou do vestido. – Falei dando a ele o meu melhor sorriso sedutor.

Ele só levantou uma sobrancelha e me guiou para a porta.

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Como Jethro tanto temia, realmente a grande maioria das pessoas estavam irreconhecíveis. Os homens principalmente, por que nenhum deles tem senso de moda ou coragem para inovar e veio com um terno branco? Não, os poderosos e muito machos vieram TODOS de smoking preto.

Eu te avisei, Jen. Isso não vai dar coisa boa.

Jethro, por favor! Nós vamos conseguir.

Ele me olhou descrente.

Olha, no máximo, não encerraremos os acordos e teremos novas reuniões.

Isso tem que terminar aqui, Jen.

Respirei fundo, ergui a minha cabeça e, pegando a mão de Jethro na minha, entrei no local.

E, ao mesmo tempo em que coloquei os pés lá dentro, senti o aperto de Gibbs mais forte.

O que foi? — Perguntei entre dentes.

Você lembrou de colocar as alianças?

Mas é claro! Eu nem a tiro! — e não sei porque senti meu rosto corar.

Ele agora tinha soltado a minha mão e passou o braço esquerdo pelas minha cintura, me trazendo para mais perto dele.

Posso saber o motivo da possessividade?

Ninguém deveria olhar para uma mulher casada como estão olhando para você. — Jethro respondeu ao meu ouvido e deixou um beijo ali.

Fui dar uma conferida em volta. Quem seria? Porém só pude ver três homens desviando a atenção de nós.

Eu não deveria ter deixado você vir com esse vestido! — Jethro continuou, enquanto me guiava pelo meio do salão.

Como se a sua opinião fosse me impedir de usar algum tipo de roupa!

Eu sei que não iria, mas pelo menos teria me preparado para o que me aguardava.

Ponderei o que ele disse. Não tinha nada demais no vestido em si. Era de veludo preto, com um corte certo e mangas longas. A única parte que chamava a atenção era a fenda na perna direita e o o decote mais profundo nas costas. Ou seja, não tinha nada demais sendo mostrado.

Não é o vestido, é quem o está usando. — Jethro disse por fim, quando nós sentamos em uns bancos na frente do bar.

Se você está dizendo... — Dei de ombros.

Alguns minutos se passaram e um de nossos “clientes” se aproximou.

Encontrei vocês. Malditas máscaras que deixam todos parecidos! — Ele praguejou e Jethro me olhou sugestivamente.

Bem, aqui estamos. Vamos falar de negócios!

E nosso papo durou por quase noventa minutos. Mas conseguimos nosso objetivo.

Ao final, antes de sair, ele nos desejou sorte e disse que voltaríamos a negociar.

Mas é claro! Nós vemos pelo mundo! — Respondi apertando a sua mão.

Até mais. — Jethro foi sucinto.

Ele e a esposa se afastaram, indo em direção à pista se dança.

Menos um. — Jethro disse.

Faltam dois.

E eles não demoraram a aparecer. Em questão de três horas, tudo o que queríamos foi conseguido. Oficialmente poderíamos sair. Acontece que, mesmo sendo um baile onde a maioria tinha um caráter além do duvidoso, estava realmente bom. Além do mais, nós dois tínhamos algo que comemorar.

Assim, Jethro me arrastou para a pista de dança, lá poderíamos ter alguma privacidade.

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E estávamos a um passo do fim. Em poucos dias nada dessa realidade inventada existiria mais.

Dos três negociantes com quem conversamos, dois já haviam caído. A notícia de que Robert e Melissa foram mortos por Agentes Federais de uma Força Conjunta entre França e EUA estava se espalhando. Chegamos a receber alguns telefonemas, procurando pelos dois. Conseguimos despistar a todos.

E agora, Jen e eu esperávamos a ordem vinda de D.C. Ainda faltava um dos traficantes e teríamos que ficar mais quietos. Nossa presença nas ruas de Paris podendo por tudo a perder.

Ducky e Decker já tinham voltado para o outro lado do oceano, levando com eles nossos últimos relatórios.

A inteligência da missão iria analisá-los e faltaria um único detalhe.

O mesmo detalhe que estava tirando o sono de Jen.

Três dias se passaram até que ouvimos que tudo estava limpo.

Morrow nos chamou no escritório de Paris.

Em uma reunião curta, simplesmente autorizou a executarão. Seria dentro de três dias.

Três dias e tudo estaria terminado.

Três dias e eu voltaria para casa e para minha filha.

Nada muda tanto em três dias.

Notas finais
Tadinha da Kelly!! Ansiosa que só ela, agora tá morrendo de medo do que o pai vai fazer com o namorado!! Jen só na “Pegadinha do Malandro” não esperava por essa. E aí, o que mais falta para o Gibbs dizer? Aguardem os próximos capítulos. Paris está para ser passado! O capítulo foi editado e revisto pelo celular, é bem capaz de ter ficado algum erro para trás. Qualquer coisa podem avisar. Muito obrigada por lerem!! Até o próximo! xoxo