Carta para Thom
1 Capítulo Único
Carta para Thom
Querido Thom,
Quisera eu ter o dom da bela escrita, para colocar em palavras tudo que sinto por ti e nosso tempo juntos. Mas já que não o tenho, juro que darei meu melhor para esta carta cumprir sua missão.
Lembro-me do dia em que nos conhecemos. Foi em uma manhã muito fria de maio, cuja data não recordo com precisão. Era tudo muito confuso – eu, ainda tão jovem, tinha acabado de descobrir que não poderia envelhecer.
Você chegou, para limpar o quarto onde eu passaria tanto tempo, com um sorriso gentil no rosto. Preciso confessar que não gostei muito de você de primeira. Achei que, como muitos ali, sua gentileza advinha da pena que sentia por mim, e tantos outros em igual situação.
Mas diferente deles, você não foi nem um pouco complacente comigo e minha expressão de tristeza. Tratou de dizer que a vida era curta, e a minha, ainda mais, portanto não podia desperdiçá-la com aquela careta. Lembro que primeiro fiquei chocada pela audácia em tuas palavras, mas em seguida ri. Naquela época não fui capaz de perceber que seus olhos não combinavam com seu sorriso.
Dia após dia, conquistou-me, pedaço por pedaço. Fosse depois de uma sessão, onde vinha limpar meu quarto e jogar conversa fora, fosse em datas comemorativas, entregando-me uma lembrancinha – e admito que guardei todas elas com um carinho especial.
Em meu aniversário, já não possuía saúde para sair daquela cama, então fui obrigada a passá-lo encarando as paredes brancas e sem graça. Até que, mais uma vez, você surgiu como um raio de luz, trazendo em suas mãos uma pequena fatia de bolo que pegou escondido do refeitório, afinal, minha dieta restrita não permitia nada do tipo. Seu cabelo estava bagunçado, assim como as roupas, e pude perceber que realmente tinha se esforçado na “missão”.
Quando meu cabelo começou a cair, ao contrário dos outros, que demonstravam pena, você me disse: “Pense pelo lado positivo: agora não precisa mais usar shampoo”. Foi a segunda vez que conseguiu me deixar realmente chocada.
Em meio a tantas cenas divertidas, cada uma a sua maneira, nem tudo era flor. Eu via em seus olhos a mesma verdade dolorosa que via nos meus: meu tempo estava acabando.
Naquela tarde chuvosa de março, foi quando me fez uma pergunta que me surpreendeu profundamente. Perguntou-me o que faria quando eu não estivesse mais ali.
Precisei parar para pensar por alguns minutos. Respondi então: “Pense que eu finalmente voltei para casa”. De alguma forma consegui responder com um sorriso. Senti que precisava ser forte naquele momento, em que você se mostrou fraco.
E agora, enquanto escrevo esta carta, sinto que de hoje não passo. Estou escrevendo-a a mão, porque meus olhos já não são capazes de enxergar o teclado. Não sei se é pela doença, ou pelas lágrimas que os embaçam.
Gostaria de terminar esse pequeno relato, ou o que quer que seja, com um agradecimento. Você tornou os dias que deveriam ser os mais tristes em meus mais felizes. Por isso, e por tanto mais, muito obrigada.
Com carinho,
Aquela que foi para casa.
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