Carta de sanidade
1 Carta de sanidade
Sim, é complicado explicar tudo isso agora. Deixa passar. Em algum momento isso terá de passar. A final, o mundo dá voltas e, nós acabamos dando voltas também. E se dessemos, juntos, uma volta por ai? Onde será que poderíamos chegar?
A canção que falou, não ouvi. Antes que se aborreça, deixe-me esclarecer que não ouvi, mas li. Como uma confissão. Como tem que ser. Vesti a poesia dos versos. Guardei-a no bolso, para sempre levar comigo.Antes do ultimo ano as coisas aconteciam rápido, mas ainda me lembro. Você se lembra? Como pouco a pouco fomos esquecendo de muitas coisas. Como estátuas de sal. Foram perdendo a forma, se tornando outras. Estranhas. Desconhecidas formas. Algumas simplesmente desapareceram. Engraçado como coisas assim me acordam no meio da noite. Lembranças perdidas. Somos um quebra cabeças com peças faltando.Se eu te contasse tudo o que houve, não sei se acreditaria. Fiz alguns amigos. Amigos. Alguns deles só me aparecem no escuro e no silêncio do meu quarto. Alguns deles me dizem o que fazer. Fiz bons amigos. Mesmo assim não acredito neles. Disseram para eu não procurar mais você. Nisso eu acredito.O tempo vai dizer para onde vamos, isso é fato. Me preocupo, agora, é em saber se nossas pegadas o tempo guardará. Por onde fomos, o que quisemos ser e o que de fato fomos. É triste ter de barganhar com a própria existência. "Ser ou não ser"... Não é essa a questão. A questão é existir e continuar existindo.Se ainda não lhe disseram eu vou lhe contar: existem coisas que não se pode matar. Seus medos, seus desejos mais profundos, o seu passado, seu legado. Morre o mar, morrem estrelas, morre a terra, morre o ser, mas as ações são perpétuas. Doce melodia. Onda devastadora de som, produzida em instrumento de cordas e banhada de sangue e carne.Tudo está ligado. Não foi por coincidência que eu tenha partido. Não foi por coincidência que eu não tenha voltado. Somos o que fomos, e não podemos saber o que seremos. Apenas podemos ser. E eu que fui você, hoje sou estranho. Eu que sou estranho amanhã não serei nada, nada que eu possa prometer. Apenas eu. E você apenas você.
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