Carta de Suicídio
1 Capítulo único
Notas iniciais
Meu Deus, nem sei como começar.
Primeiramente desculpem-me. Eu realmente não queria que fosse assim, que eu tirasse minha vida e tornasse tudo isso público, mas não tive escolha. Bom, agora vamos aos motivos que me levaram a cometer suicídio — obviamente no momento que você está lendo isso eu já devo estar morta— . Primeiramente, pai.
Rogério — Finalmente eu posso te chamar assim, você não sabe o nojo que eu sentia em te chamar de pai— depois de mim, você é o maior culpado por isso, eu te odeio. Sabe todas as vezes que você me culpou pelo câncer de minha mãe? Ou todas ás vezes que você me deixava sozinha quando pequena, porque estava ocupado demais com seus whiskeys e suas amantes? Ou quando eu e o Lucas descobrimos toda sua vida nojenta? Então, tudo levou ao dia de hoje. Não falarei muito com você, mas saiba; Você é 50% culpado por minha morte.
Mãe, eu sei que lá no fundo você me ama. Me desculpe pelas brigas, pelo desgosto, mas eu juro, não foi por mal. Você foi a melhor mãe e pai que Lucas, Bernardo e eu poderíamos ter. Eu te amo, me desculpe. Desculpe-me por não ser a filha que você queria, por não ser o que eu queria. Quando o Bernardo tiver idade o suficiente, diga-o que eu o amo, de verdade. E ah, diga ao Valdir que eu não o odeio por ser analfabeto ou por ser um bebum, eu o odeio por ele lembrar tanto o meu pai, mas ele tentou, tentou não ser o pior padrasto do mundo, mas infelizmente ele não conseguiu.
Lucas, você foi o melhor irmão que eu poderia ter, realmente me desculpe. Sei que de todos você é o que mais me ama, então me desculpe. De todos, você também é um dos que eu mais amo, mas nem esse amor e admiração que sinto você me ajudou a suportar. No fundo, tudo o que eu queria era seu respeito e admiração, saiba que quando eu descobri que o tinha, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Espero de coração que seja muito feliz com o Vanessa.
Vanessa, não esperava nunca que escreveria para minha cunhada, mas aqui vai. Você não foi minha cunhada, foi como minha irmã e olha, você conseguiu fazer o Lucas feliz, olha que milagre!
Agora o mais difícil. Vô e vó. Vocês sabem que são as pessoas que eu mais amo no mundo, né? Calma vó, não tenha um infarto, eu tô bem. Não doeu, eu prometo. Vô, desculpa pela decepção, não poderei ser delegada ou advogada, falando nisso...
Eu nunca quis fazer direito. Meu sonho é fazer artes cênicas ou letras, eu só falava que queria fazer direito porque queria que você sentisse um pingo de amor e admiração por mim, como você sente pelo Lucas.
Se me arrependo de algo? Sim.
Me arrependo de não ter sido quem eu queria ser. Me arrependo de ter 14 anos e ser BV. Aliás, já que tô morta mesmo vou falar. Eu não sou BV e meu primeiro beijo foi com uma mulher. Sim, a Amanda lembra? Pois é. Mas não, eu não sou lésbica, sou bissexual no máximo. Ou era, na verdade.
A garota estranha, sem amigos, que não se cuida, a mendiga—Lembra Priscila?— a que senta na frente, que não conversa com ninguém. A que na verdade fala palavrão pra caralho, mas tem medo de falar na frente da mãe e levar um soco na cara. A que levou uns socos quando sua mãe descobriu que havia tentado suicídio. A que gosta do que não é normal. A que finge ser cheia de ódio, mas no fundo é a melhor pessoa do mundo. A que fala não acreditar em Deus, mas na verdade é a pessoa que tem mais fé. A que lá no fundo se acha linda, mas mesmo assim insiste em se dizer feia. Aquela que graças ao seu pai se sentiu culpada pelo câncer de mama de sua mãe durante 9 anos. É essa garota que está suicidando hoje.
Vejo você em algum lugar, se é que existe um.
Não sei o que dizer e por falta de um melhor adeus, tchau.
Gabriela Fernandes,
Belo Horizonte, 29/06/2015
"Seria ele digno de tal ato?."
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