Carta de Amor ao Kurt
1 #OneShot
Querido Kurt Cobain,
Preciso conversar com alguém. Sempre achei que tinha amigos dispostos a me ouvi sempre que eu precisasse, mas acho melhor ninguém saber as coisas que vem se passando na minha cabeça. Não quero preocupar ninguém.
Escolhi você por vários motivos. O primeiro é um livro que terminei recentemente. Cartas de Amor aos Mortos. Nele uma garota desabafa em cartas direcionadas a seus ídolos mortos e você era para quem ela mais escrevia. Não sei porque e nem como, mas durante todo o livro eu fiquei com a sensação de você a ouvia e compreendia totalmente. Era como se eu estivesse vendo vocês dois conversando por uma janela. Isso me despertou o desejo de fazer o mesmo, pois minha vida é tão conturbada quanto a dela e talvez você me entenda também. O segundo motivo é que sempre me senti muito próxima a você. Nunca fui fã de carteirinha da sua banda. Acho Nevermind uma obra de arte, mas os outros álbuns não me agradam muito. Mas você sempre me chamou a atenção. Desde a maneira como cantava – transmitindo todo o desespero que guardava por dentro – até as letras aparentemente sem sentido das suas músicas que mostravam a confusão que era a sua cabeça. Posso dizer que compreendo pois sou igualmente confusa e desesperada. Só que não tenho a música para me expressar, então estou prestes a explodir com tudo isso guardado aqui dentro.
Tenho 18 anos e tenho uma família destruída. Uma irmã mais velha com esquizofrenia que me odeia e já tentou me matar. Uma mãe deprimida – embora ela não transpareça eu sei que ela está – que não faz nada além de cozinhar e limpar para nós com um sorriso forçado no rosto. E um pai alcoólatra que sustenta a casa ganhando por dia. Amo meus pais e odeio vê-los nesse sofrimento. Eu queria fazer alguma coisa, mas não sei por onde começar. Estou sofrendo também. Já pela minha irmã o sentimento é de ódio. É horrível ter que admitir isso, me sinto muito mal. Mas não posso controlar. Existe uma voz gritando na minha cabeça que toda a desgraça pela qual estamos passando é culpa dela. Quando ela desenvolveu essa doença, á uns 7 anos atrás, as coisas começaram a piorar em todos os sentidos. Ela começou a destruir a casa, quebrava tudo o que via pela frente. Rasgava roupas e livros – meus livros. Sempre fomos uma família pobre e tínhamos pouco e pouco que tínhamos já não temos mais. Nessa época eu estava entrando na adolescência e era muito apegada a uma caixa onde guardava algumas coisas pessoais. Eram revistas tens, diários, cartas que recebia de amigas, fotos, cd’s das minhas bandas e filmes favoritos.... Tudo isso era muito importante para mim. Sei que parece bobo, mas aquilo era minha identidade. Meu mundo. Minha história. Uma noite estava voltando da casa de uma amiga com um pressentimento estranho. Era como se algo estivesse querendo me preparar para uma surpresa ruim. Quando cheguei a porta estava aberta. Meu pai andando de um lado a outro em silencio pela sala, minha mãe sentada no sofá também em silêncio, e minha irmã em uma cadeira de frente para a tv que transmitia uma novela. Me lembro de hesitar na porta quando vi várias coisas espalhadas no chão ao lado da estante. Antes que eu pudesse entrar e perguntar o que tinha acontecido, meu pai veio até mim e mandou eu ir para fora. Fechou a porta e sussurrou para mim:
-Não diga nada. Não toque no assunto. Só haja naturalmente.
Eu não sabia do que ele estava falando, mas assenti. Entrei em casa e fui ver o que eram aquelas coisas no chão. Quando vi um pequeno pôster seu rasgado ao meio entrei em pânico. Me ajoelhei e comecei a passar a passar as mãos tremulas pela pilha de coisas destruídas. Vendo todos os cd’s estilhaçados e pedaços de fotos para todo lado. Folhas dos meus diários em pedacinhos. Eu senti as lágrimas vindo e lembrei do que meu pai disse. “Não diga nada. Não toque no assunto. Só haja naturalmente. ” Eu queria obedecer. Queria deixar pra lá. São só papeis e cd’s, eu dizia a mim mesma. Mas meu coração doía e eu tinha um nó na garganta. Meus sonhos, minhas memórias, minha história. Tudo completamente destruído. Quando vi já estava soluçando. As lágrimas escorriam como se fosse uma torneira aberta no limite e o nó na garganta se apertava mais. Meu pai veio até mim e começou a gritar comigo. Ele estava muito bravo. Me pegou pelo braço e me fez ficar de pé. Foi então que olhei para a cadeira ao lado e ela estava rindo. Ela destruiu as únicas coisas de valor – real e sentimental – que uma pré-adolescente tinha e estava rindo. Ela não estava nem aí. Foi nesse momento que eu soube que ela não era apenas uma pobre esquizofrênica. Ela tem o mal dentro dela. Algo perversamente maligno que quer destruir minha família. E está conseguindo.
Depois de me por de pé meu pai me levou para fora de novo e nós fomos para a calçada. Lá eu desabei a chorar mais ainda, sentada no chão. Meu pai continuava gritando comigo.
-Eu falei pra você agir naturalmente. – ele gritava – Eu falei!
Eu chorava cada vez mais por ele estar bravo comigo. Eu queria pedir desculpas por ser tão patética, por ser tão infantil, mas não conseguia. Só continuei soluçando. Logo ele voltou para casa e eu fiquei ali por mais umas duas horas. Tentando me recompor.
Aquele episódio me preparou para o que vinha pela frente. Isso pode parecer idiota, e talvez seja, mas me machucou muito e ainda dói. Acho que não é nem o fato de as minhas coisinhas terem sido destruídas, mas o fato da minha irmã mais velha me odiar e me machucar desse jeito. O fato de ela se divertir sendo má comigo.
Hoje em dia tenho pesadelos em eu estou matando ou torturando ela. Acordo desesperada me sentindo a pior pessoa do mundo. Quando ela me ataca ou destrói algo meu escuto uma voz dizer: “Mate-a. Acabe logo com isso. ” O meu medo é que eu possa estar me tornando ela.
Eu só queria que ela voltasse a ser apenas minha irmã mais velha.
Beijos,
G.
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