Carta ao Suicídio
1 It feels like the end.
Notas iniciais
Você disse adeus mas eu não acreditei. Ou não quis acreditar. Fui como eles nos seus últimos minutos. Não te levei em consideração. É essa a última lembrança que você terá de mim? A mais repugnante possível? Mas, e as boas lembranças? Elas existiram para você como existiram para mim?
Não pude me despedir apropriadamente. Fui tola. Eu poderia ter impedido, ter avisado alguém, mas no que isso mudaria no final? Iriam te internar e assim, mais uma vez, eu seria como eles. Aumentaria seu sofrimento por puro egoísmo. Egoísmo este que me fez ignorar todas as suas mensagens. Não podia ser verdade. Ou eu que não queria acreditar nela.
Mas a verdade sempre vem.
Poderia eu continuar fugindo? Até quando? Você me ensinou isso, não fugir. Mas, naquele breve momento, fugir era o que eu mais queria. Fugir da realidade ou do peso que ela fazia em meus ombros. Você também queria isso, outra realidade, mas em nenhum momento fugiu. Ou será que essa foi a sua fuga, sua única válvula de escape? É tão terrível assim comparar?
Essa dor não vai passar tão cedo. É o que dizem, pelo menos. E eu sei que é verdade. A culpa corrói, mas eu sei que você não iria querer que eu me sentisse assim. Não te conheci pessoalmente por culpa da distância e me pergunto a todo instante que, se talvez te conhecesse, teria mudado alguma coisa. Você ainda estaria aqui? Nunca saberei a resposta. E isso dói ainda mais, a dúvida.
Você mais do que ninguém sabe que escrever me acalma. Fútil, eu sei, a maioria tenta conversar e eu tentaria com você. Tentaria. Conversar de você com você, qual o sentido? Quem vai me ouvir agora? Num momento estou falando sozinha, você não vai me responder. Não mais. Eu também sei disso. Perdoe-me por expor, mas são poucas as opções e eu preciso disto. Você sabe. Sempre soube. Essa é a minha fuga, minha válvula de escape. E é tão ridícula.
Apesar dos pesares, sua frase favorita, sei que agora você está livre, longe de todas aquelas amarras invisíveis. Entendo isso, ou você me fez entender. Incrível que mesmo não estando mais aqui você ainda me passa calma e tranquilidade, o que me faz questionar se, em algum momento, te passei alguma coisa. Mudei algo? Pude lhe proporcionar alguma felicidade? Aplacar, mesmo que pouco, a tua dor? Porque nunca perguntei isso enquanto tive tempo? Tão clichê, tão real e mais uma vez ridículo. Quem vai reclamar dos clichês da vida comigo agora que você se foi?
"E sejamos fortes, mesmo sendo eu e você contra o mundo. O nosso próprio mundo. Os nossos demônios" você dizia, mas agora sou só eu contra o mundo. O meu mundo e os meus demônios.
"E sejamos fortes" quando foi que você verdadeiramente fraquejou? Por que eu não percebi?
"Eu e você" eu estava aqui, porque você não me contou?
Mas você contou. Praticamente gritava e eu não ouvia. Como eles, novamente. E isso foi o pior, ser eles. Porém, entendi o teu plano e prometo que não falharei. Eu não sou eles. E logo serão eu e mais outros contra eles e seremos fortes. Por você, por tantos outros... Juntos contra o mundo.
Nunca vou te esquecer, por mais que te conjugue em outro tempo verbal. Mas você sabe disso. Ou saberia. Ou sempre soube.
Obrigada por tudo até aqui, amigo.
E Feliz Aniversário.
Fale com o autor