Carta Para Conn.
1 Capítulo Único - A Carta
Notas iniciais
Resolvi postar alguma coisa enquanto estou desenvolvendo um outro projeto, e como tinha escrito esse capítulo numa noite um tanto má para mim, eu resolvi postar.
É um pouco dramático, eu sei... Mas eu espero que gostem e que vos toque pois tem uma mistura de sentimentos que até me fez chorar ao escrever. ^.^
Boa Leitura! ♥
Eu ainda me lembro de como te conheci. Foi numa tarde de verão, eu estava jogando futebol sozinho no meio da estrada, quando uma carrinha de mudanças veio e parou na casa em frente á minha. Eu tinha sete anos nessa altura, foi quando o nosso olhar se cruzou pela primeira vez. Você tinha olhos verdes brilhantes e um sorrisinho travesso de dentes tortos, e o seu cabelo ainda era castanho, curto e arrepiado.
Me lembro que quando tinha oito anos, eu fui de encontro á vedação da sua casa com a bicicleta e machuquei meu joelho. Você e sua mãe vieram me socorrer, foi aí que começámos a falar, lembra? E daí virámos melhor amigos quase instantaneamente… Você jogava futebol melhor que eu, sabia andar de bicicleta, fazia natação e ainda andava de skate! Eu me lembro da inveja que sentia… era muita, admito, mas também um grande orgulho, sabe? Eu podia falar sempre “Grande coisa, meu melhor amigo sabe fazer mais coisas que vocês!”
Quando eu fiz nove anos, você foi o único que eu convidei para a minha festa. Você me ofereceu uma blusa que ainda hoje tenho, era sua… Jogámos vídeo game toda a noite, e depois deixámo-nos dormir um sobre o outro, exaustos. No outro dia de manhã, você me acordou sorrindo e sussurrou no meu ouvido: “Você é meu melhor amigo, tipo, o melhor de sempre!” e apesar de eu já te considerar meu melhor amigo nessa altura, ouvir você dizendo isso como se fosse um segredo me aqueceu o coração.
Fizemos imensas besteiras, não foi? Mas a minha preferida foi quando já tínhamos dez anos. Faltamos um dia inteiro ás aulas para ir até ao campinho. Subimos ás árvores, roubámos frutas, jogámos futebol, eu esfolei os joelhos, você riu de mim, jogámos pega-pega e depois você tropeçou. Eu caí por cima de você, lembra? Fiquei tão envergonhado nessa altura! Sujamos o uniforme de lama e nossas mães ralharam tanto mas tanto connosco que ficámos de castigo uma semana.
Você sempre foi popular, Conn… Sempre foi tão habilidoso e divertido, você tinha jeito para tudo! Mas mesmo quando nos tentavam separar, você preferia ficar comigo do que com os outros garotos. Talvez seja por isso que eu me apaixonei por você, eu não sei… Você tinha aquele jeitinho de sorrir, sorria como se já tivesse um plano para conquistar o mundo e me tinha incluído nele. Eu me sentia feliz com você.
Aos doze anos você me contou que tinha uma quedinha por uma garota. Eu era tão novo, tão inocente, mas mesmo assim meu estômago revirou. O seu sorriso ficava mais brilhante com ela, isso me irritava! Me lembro perfeitamente de como sua cara se iluminou quando ela te deu um beijo na bochecha. Eu tive de fingir um sorriso, e isso me custou. Eu não gostava de fingir nada com você.
Aos treze anos você já era mais alto que eu. Seu cabelo castanho estava rapado de um lado, seus olhos verdes estavam mais claros que nunca. A natação fez bem a você, era lindo, Conn. Sem dúvida alguma o garoto mais belo daquela maldita cidade! Eu continuava baixo, meu cabelo não era bonito como o seu, tinha cachos negros que eu odiava e meus olhos eram castanhos, um borrão escuro.
Aos catorze você descolorou o cabelo nas pontas. Nem sei explicar o quando belo você era, simplesmente era! Havia uma garota na minha turma que gostava de você. Ela me vinha pedir conselhos para se aproximar. Lamento Conn, eu a afugentei. Não suportava a ideia de te ver tomado de mim, nunca suportei. Eu já estava um pouco mais consciente do que sentia, eu amava você. Era inútil lutar contra isso, mas eu não queria dizer! Queria que você notasse… queria tanto Conn! Mas não foi assim que aconteceu.
Aos quinze tivemos a maior briga de sempre. Eu nem entendi o motivo… mas eu chorei na sua frente. Estava rouco de gritar, minha cabeça doía e você estava vermelho de raiva até nas orelhas. Mas quando se acalmou, você notou que eu estava chorando na sua cama. Me lembro de como foi aquele abraço que você me deu, oh deus, como lembro! Eu chorei tanto… chorei porque tínhamos brigado, chorei porque a sua namorada não queria que você andasse comigo, chorei porque te amava, chorei porque não te podia ter, chorei porque estava desesperado. Mas você me segurou nos seus braços durante esse tempo todo, limpando minhas lágrimas e dizendo que tudo ficaria bem.
Aos dezasseis foi a mudança de escola… Os horários eram apertados e confusos, e você tinha competições de natação todos os fins de semana, mais os treinos á tarde e de manhã, eu quase nunca te via. Nos afastámos um pouco… mas isso não fez o que eu sentia diminuir. O primeiro ano nessa escola foi uma porcaria, mas no ano a seguir você desistiu da natação. Eu ralhei com você, mas você me calou com um abraço. Você disse “Eu não suporto mais aquilo. Nunca estou com você, é uma merda.”
Se lembra da graduação? Já tínhamos dezoito… Conn, você estava tão lindo… Seus olhos brilhavam tanto, seu sorriso de dentes agora alinhados iluminava o auditório todo. Eu fiquei te observando durante a cerimónia toda, sempre do seu lado, tentando decorar ainda mais detalhes do seu rosto.
Quando fomos para a universidade nos separámos. Mas mesmo assim, você vinha me visitar semana sim semana não, e eu ia te ver também. Foi numa dessas suas visitas que fomos a uma festa. Você bebeu demais, e quando eu te deitei no meu dormitório, você me puxou e me beijou. Eu juro que meu mundo parou de rodar! Já tinha imaginado tantas vezes como seria um beijo seu, mas nada se assemelhava ao real. Mesmo com gosto de bebida você me encantava. Quando acordei no outro dia você já tinha ido embora. Nunca falámos sobre esse dia.
Aos vinte e dois anos eu terminei meu curso e comecei a trabalhar numa biblioteca. Mas você estava tirando medicina, então seus horários estavam cada vez mais apertados e ainda te faltavam uns anos de estudo para terminar. Nesse ano você arranjou uma namorada. Ela era incrivelmente linda, uma bela ruiva de sardas espalhadas pela cara, delicada e muito carinhosa. Ela gostava bastante de mim, e eu até me sentia mal por desejar que ela evaporasse! Mas por alguma razão vocês terminaram no ano a seguir. Você apenas me disse “Não fomos feitos um para o outro, é melhor assim.” Mas eu via um certo sofrimento no seu olhar. E me custou muito, porque eu queria te abraçar e beijar, te fazer esquecer dela e te mostrar que eu estava ali para você… somente seu, sempre fui, sempre serei. Foi um período difícil para ambos, mas permanecemos juntos.
Mas quando você terminou o curso, você se começou a afastar sem justificação. Meu pânico era visível em tudo o que fazia, eu entrei em depressão. Mas você já não estava lá para mim, Conn! E eu não sabia porquê, me doía tanto! Porque teve de ser assim?! Eu te amava tanto… ainda te amo. Seu sorriso era uma memória nítida na minha cabeça, me atormentava o sono, me mantinha acordado noites e noites! Eu me desesperava, queria sentir você perto de mim, queria tanto saber se suas carícias me deixariam rastos de fogo pelo meu corpo…
Depois disso você saiu da cidade. Não me avisou, não me disse nada. Eu procurei por você que nem um louco, mas não encontrei nem um único rasto… meu coração estava partido, minha mente estava descontrolada e eu me sentia um pedaço de merda. Tinha raiva de você por não me ter dito nada, mas uma maior parte de mim gritava em tristeza e tormento. As memórias suas me impediam de dormir, comer, trabalhar ou fazer qualquer coisa. Tive de ser internado, eu não queria mais viver sem você… Conn, eu não fazia ideia do que se passava. Eu lamento tanto! Eu me arrependo de não te ter dito que te amava, isso me massacra todos os meus malditos dias de vida.
Eu tinha vinte e seis anos já. Ainda vivia com a minha mãe, eu não podia viver sozinho por ser considerado algo de risco para minha saúde integral.
E foi aí que o celular tocou.
Eu atendi, submerso em pensamentos como sempre. Era a sua mãe. Ela estava chorando, clamando por Deus e berrando o seu nome. Meu coração estava tão quebrado e frágil que eu comecei a chorar sem ainda nem saber o que tinha acontecido.
Você tinha morrido.
Câncer nos pulmões… Você tinha câncer nos pulmões, caralho! Conn, o que deu em você?! Você sabe como eu fiquei?! Eu tive um ataque de pânico enorme, tive de ser hospitalizado e não queria acreditar que você se tinha ido. Tomado de mim, de vez.
Você se foi, Conn! E eu me culpava, mesmo sabendo que não poderia ter feito nada, eu me culpava. Sua mãe me foi visitar, ela falou que você me amava muito e que não queria me machucar… Você se afastou para me proteger. Porquê, Conn? Eu teria ficado com você, eu teria te ajudado! Eu teria… eu teria te amado…
Ela me entregou uma carta sua. Eu a leio todas as noites… eu vou visitar sua campa todos os fins de semana… meu coração não pode mais ser concertado. Eu sinto a sua falta, Conn. Você era minha alegria, minha motivação! Você se foi e me deixou sem chão, sem teto, sem a porra da casa toda! Eu fiquei sozinho, jogado algures no meio do nada. Minha depressão não me deixa viver, seu sorriso assombra minha visão cada vez que fecho os olhos. Eu até me lembro do cheiro das suas roupas! Eu dava minha alma por um abraço seu… eu dava meu corpo a lobos para poder te ver mais uma vez… Eu te amo tanto, Conn. Minha vida sem você simplesmente não faz sentido!
E é por isso que estou escrevendo isso. Eu quero que fique gravado algures o quanto eu te amo. E eu estou desesperado por você, meu corpo todo anseia por um toque que nunca mais virá. Eu só penso em você, eu não faço mais nada! Eu quero ir ter com você, Conn… eu desisto de estar aqui. Esse mundo não faz o mínimo sentido sem as suas piadas sem graça, sem as suas brincadeiras idiotas, sem os seus argumentos inválidos, sem o seu olhar atento, sem o cheiro de cloro impregnado na sua pele e sem o seu sorriso. O seu sorriso… é nele que eu me sufoco. Eu não acredito em vida após a morte, Conn. Você sempre soube disso… mas eu estou tão agoniado com a sua falta… Eu desisto de tudo por você. Para mim chega de viver no meu quarto ou no hospital, sofrendo crises de ansiedade e ataques de pânico constantes. Para mim chega de viver! Eu não quero existir num sítio onde tudo me lembra de você! Eu não quero existir num mundo onde você não existe, eu pertenço a você, Conn. Não aguento mais isto, me perdoe.
Eu vou ir ter com você, onde quer que esteja, me espere. Me desculpe por não te ter dito que te amava! Me desculpe… Mas eu amo. Eu amo muito você. Eu agora sei que é recíproco. Você me amava também, você escreveu na carta!
Me espere, Conn, e me perdoe se você vir as cicatrizes na minhas pele. Eu te amo. Eu irei ficar com você para toda a eternidade, eu juro…
Notas finais
É um capítulo curtinho e triste, mas espero que quem leu tenha gostado.
Como não tenho vou estar postando assim tão cedo, se alguém quiser falar comigo mandem MP que não faz mal algum ^.^
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Beijo grande! ♥ ♥ ♥ ♥ ♥
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