Carry you home.

1 Capítulo único - Carry you home.


Notas iniciais
Uaaau, a Sabrina escrevendo NaruHina?
Sim! A Sabrina escrevendo NaruHina!
Primeiramente, tenho que dizer que essa One-shot surgiu do meu amor eterno pela música e pelo clipe "Carry you home", do James Blunt. É uma das minhas músicas favoritas da vida e sempre tive vontade de escrever algo inspirado nela. Disso, dessa vontade, essa One-shot nasceu.
Espero que gostem! ❤️
Boa leitura!

Fitou demoradamente a estrada pela qual passava através das janelas levemente embaçadas do ônibus. E, dentro de sua mente, perguntou-se pela quinquagésima vez naquele dia:

Por que estava fazendo aquilo, mesmo?

Um arrepio percorreu seu corpo, devido ao vento que entrava pelos vidros abertos a alguns bancos à sua frente, fazendo-o estremecer e ajeitar-se novamente no desconfortável banco do veículo. Enfiou as mãos quase instintivamente nos bolsos do casaco, afim de esquentá-las, e a resposta para a sua repetitiva dúvida surgiu assim que os dedos frios tocaram o envelope de papel seguramente guardado na algibeira esquerda da roupa.

Ah, claro. Fazia aquilo por Naruto.

Algumas imagens, muitas das quais faziam parte da infinita e pesarosa sequência que atormentava suas horas de sono desde que havia voltado, passaram rapidamente por sua cabeça, como um curta-metragem de muito mal-gosto.

Disparos, explosões, cheiro de pólvora e sangue. Ordens ecoando e rostos abatidos. E, então, gritos de aviso. E o baque surdo de um corpo indo de encontro ao chão de terra batida.

"Soldado atingido!"

Os olhos negros não foram desviados. Não precisavam e nem queriam. A única reação tida pelo homem foi, na verdade, a maior rigidez que suas mãos calejadas assumiram enquanto seguravam a arma. Soubera desde o primeiro momento a identidade do tal soldado ferido.

Como se não bastasse perder o irmão numa missão de infiltração, perdera, naquela hora, o melhor amigo.

E, se naquele momento Uchiha Sasuke adentrava uma cidade distante e totalmente desconhecida a seu ser, era por querer não só apegar-se à lembrança do amigo, como também cumprir um desejo que nunca havia precisado ser verbalizado mas que Sasuke, mais do que ninguém, sabia qual era.

Arriscava-se a dizer, apesar disso, que qualquer um que tivesse vivenciado uma guerra saberia.

Logo, descia do ônibus. Os pensamentos o haviam engolido de tal forma que sequer percebera o quão próximo estava de seu destino — e do destino dele.

Analisou com cuidado onde estava, repassando mentalmente o endereço no qual deveria chegar. Não sabia exatamente como chegaria — na realidade, nunca soubera. Começou a caminhar, ajeitando a bolsa que levava no ombro; tinha passos lentos e calmos demais, o que parecia estranhamente quase combinar com o lugar. Era uma cidade pequena. E não só o dia, como também ela própria parecia cinzenta e fria. Quase não pôde acreditar que o amigo, que ostentava cabelos loiros e olhos tão azuis quanto o céu limpo, vinha de uma localidade tão belamente triste.

As ruas estavam vazias. Aqui e ali moradores afastavam suas cortinas e olhavam brevemente para o viajante, de um forma que não poderia ser descrita como amigável. Talvez, Sasuke pensou, eles não gostassem de soldados. Talvez não gostassem de serem lembrados sobre a guerra. Mas, como já foi dito, era uma cidade pequena, e o motivo poderia ser outro. Talvez soubessem a função do rapaz ali.

Caminhou até que o primeiro estabelecimento surgisse — um pequeno bar, cujo apenas uma placa com os dizerem "aberto" era capaz de indicar que estava em funcionamento. Por fora, era tão silencioso quanto o restante. E por dentro, o homem descobriu, não era muito diferente; poucas eram as pessoas espalhadas pelas mesas com suas bebidas e lanches, e diálogos mal pareciam surgir. Barulhos de louça ecoavam da cozinha. Ele se sentou à uma mesa de canto, pedindo para si um refrigerante, que rapidamente já estava sobre a mesa. Num impulso, pegou o envelope e, junto com ele, o colar com os pingentes e a foto. Observou-os por alguns instantes.

"Desde quando você escreve cartas?" Questionou o moreno, em tom ameno, olhando com pouco interesse para o outro.

"Desde hoje." Respondeu o loiro, debochado. Levantou o olhar e sorriu para o Uchiha. "Tenho a quem enviar"

"Tem?" As sobrancelhas do outro jovem se ergueram, numa expressão um tanto quanto indiferente.

"Tenho" Afirmou novamente, finalizando a aparente carta e guardando-a, juntamente com a caneta, no bolso do uniforme.

Nunca havia enviado, entretanto, aquela última carta.

Sasuke tomou mais alguns goles de seu refrigerante antes de se levantar, guardar novamente os objetos, pagar a conta e questionar à um desconhecido sobre o endereço que tinha, recebendo de resposta, em tom monótono, que seria fácil chegar onde queria se pegasse um táxi.

Então foi exatamente isso que fez. Andou até a parada de táxis e esperou, por quase meia hora, até que um finalmente aparecesse. Era um carro de pintura preta lustrosa e pequeno porte, dirigido por um senhor em torno dos 50 anos. O moreno cumprimentou-o ao entrar no banco de trás, dizendo-lhe curtamente o endereço para o qual seguir. "Certo", foi o que o taxista disse, simplesmente. E, assim, o restante o percurso foi feita num silêncio sepulcral, sem qualquer interação a não ser os olhares de reprovação que Sasuke sabia estar recebendo pelo retrovisor nos momentos de distração. Não foi um caminho longo e, logo, Sasuke encontrava-se descendo do carro em frente a uma casa bonita e bem-cuidada, localizada bem perto da costa, cuja pintura branca contrastava de um jeito encantador com a madeira escura usada na construção. Observou a residência por alguns segundos antes de conferir, com ajuda de um papel de levava num dos bolsos, o endereço. É, estava certo. Estava ali. Havia chegado.

Ajeitou a bolsa nos ombros e caminhou até a porta, batendo três vezes, como lhe era habitual. Nenhuma resposta. Bateu novamente, insistente, porém, novamente, não recebeu barulho algum em troca. Um medo tomou-lhe internamente. Por que ninguém respondia? Verificou se a porta estava aberta e, levemente preocupado, adentrou a casa, murmurando um baixíssimo "Com licença". Rolou os olhos pelo cômodo em que se encontrava: uma grande sala, com móveis muito bem distribuídos. Do outro lado, portas de vidro separavam-na de uma extensa área externa, e foi ali, distante, que ele a encontrou. De costas, tão imóvel quanto uma estátua, parecia quase uma miragem, e por alguns instantes ele se perguntou se ela era real. Atravessou a sala a passos firmes, deixando a bolsa cair de seus ombros em meio ao caminho. Tudo o que precisava estava em seu bolso. Passando pelas portas de vidro, foi atingido pelo vento consideravelmente forte vindo do litoral. Só ali pôde perceber que ela, envolta num vestido branco e cujo rosto escondia-se entre as ondulações dos cabelos longos e escuros, observava o mar. E, tão absorta na imensidão de águas revoltas e cinzentas, sequer percebera a aproximação do Uchiha, que tocou-lhe o ombro na tentativa de obter sua atenção.

Ela se virou. Tinha um rosto arredondado que trazia algumas marcas de expressão e olhos cinzentos tão vívidos quanto os azuis que Naruto costumava ter. Se o amigo estivesse ali, provavelmente seria questionado por Sasuke sobre como, atrapalhado como era, havia conseguido conquistar uma mulher tão bonita quanto aquela que agora ele encarava.

—Hinata? -Sua voz quase conseguia ser abafada pelo vento. Em resposta, ela apenas sorriu de uma forma doce, porém triste, e isso apenas o fez pensar que ela também já sabia do motivo de sua vinda até ali. Imaginou quantas vezes e quantas pessoas haviam falado à ela que aquilo aconteceria, e que seria inútil esperar.

Mas ele estava ali, afinal, para fazê-la entender que não era mais necessário esperar.

—Eu… -Tirou do bolso a carta e o colar antes que pudesse sequer terminar de falar, estendendo-os à ela. Não sabia se realmente seria capaz de terminar. Hinata passou a focar toda a sua atenção naquele pedaço quadrangular de papel e no acessório que trazia, juntamente a uma identificação com os escritos "Uzumaki Naruto", uma foto dela mesma. As mãos finas e trêmulas seguraram com delicadeza os objetos, levando-os para si como se fossem verdadeiros tesouros. E eram.

Quando os olhos marejados voltaram a encarar Sasuke, estavam tão agradecidos quanto machucados. Naquele olhar, veio à ele a final compreensão: ela tinha olhos como os dele. Olhos que carregavam pesados dizeres:

"Eu cansei de perder pessoas"

Apertando a carta contra o peito, com as lágrimas inundando-lhe os olhos, a mulher finalmente cedeu. E Sasuke virou-se para ir embora. À medida que andava, os soluços dolorosos eram encobertos pelo vento, mas, ao invés de irem embora, pareciam permanecer com ele. Parou por um instante. Olhou para trás, para a figura que chorava, tão revolta quanto o mar que outrora acalmava sua espera. No som das lágrimas de alguém que acabara de perder quem ainda lhe restava, lembrou-se de ter visto o último suspiro do amigo. De ter murmurado a promessa que agora fora cumprida.

"Vou levá-lo para casa."

E, virando-se novamente, se foi. Se foi sabendo que fizera a coisa certa. Pois Naruto, agora, estava em casa. Não no seio daquela pequena e cinzenta cidade, mas nos braços acolhedores para os quais sempre desejara retornar.

E, talvez agora, Sasuke pudesse voltar para casa também.

Notas finais
E aí? O que acharam? Olha, admito que tive que segurar as lágrimas ao escrever (sou manteiga derretida com Naruto, admito). Espero que tenham gostado! ❤️
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!