Carrousel e o Relógio de Cronos

1 Capitulo 1 - O Cheiro de Sândalos e Amanhas


O alarme era um grito digital. O BIP... BIP... BIP... impiedoso do meu rádio-relógio, o som oficial de manhãs terríveis. Estiquei um braço para fora do calor do meu edredom fino, a mão espalmada batendo com força no grande botão de soneca, silenciando o ataque.


Silêncio. Finalmente. Apenas o zumbido baixo da cidade que começava a despertar lá fora e o ritmo da minha própria respiração no quarto quieto.


Virei para encarar o teto, piscando, tentando afastar a névoa pegajosa da noite. Tinha sido o de sempre: um emaranhado de imagens desconexas e sons que não faziam sentido. Não um pesadelo, exatamente. Algo pior. Era como tentar sintonizar uma estação de rádio AM fantasma. Havia o som constante, subjacente, de um mecanismo de relógio, mas seus tiques eram errados, apressados e depois lentos, como um coração doente. E havia o frio. Um frio que não vinha da brisa do mar de Florianópolis, que se infiltrava pela fresta da janela, mas um frio que parecia brotar de dentro dos meus próprios ossos.


Sentei-me na cama, passando a mão pelos cabelos pretos e grossos, que já tinham decidido se rebelar contra a gravidade. Meu quarto era meu pequeno refúgio: paredes de um cinza claro, um pôster desbotado do Nirvana que eu comprei em uma feira, e minha escrivaninha de madeira, dominada pelo computador. O monitor de tubo, grande e pesado, ocupava metade do espaço, com a torre bege descansando no chão ao lado. Empilhada ao lado do teclado, uma pequena torre de caixas de CDs. Um santuário de normalidade adolescente que, ultimamente, parecia mais uma fachada.


Arrastei meus pés no piso de madeira, o corpo protestando, e me dirigi até o pequeno banheiro que ficava no corredor. A luz fluorescente piscou uma vez, como se estivesse com preguiça de acordar, antes de se acender e revelar um rosto que eu mal reconhecia às 5:40 da manhã. Meus cabelos negros contrastavam com a pele pálida. Havia olheiras escuras sob meus olhos, um borrão permanente de cansaço. E meus olhos... Eram de um castanho tão escuro que, sob aquela luz impiedosa, pareciam duas piscinas de breu. Às vezes, eu tinha a sensação estranha de que, se olhasse por tempo suficiente, não veria meu próprio reflexo, mas algo olhando de volta do abismo.


Afastei o pensamento. Era só o sono, ou a falta dele. Abri a torneira e joguei água gelada no rosto. O choque agudo ajudou a espantar os fantasmas da noite. O garoto no espelho ainda parecia um fantasma, mas pelo menos um que estava de pé.


Segui pelo corredor curto em direção à cozinha. Nosso apartamento não era grande, mas minha mãe, Juliana, tinha um talento especial para transformá-lo em um lar de verdade. Na sala, a TV de tubo ficava sobre uma estante de madeira escura, cheia de livros e porta-retratos — a maioria deles, fotos minhas em diferentes idades. E por toda parte, flutuando no ar, o cheiro.


Uma mistura suave de sândalo, lavanda e algo que eu achava que era capim-limão. Pequenos incensários de cerâmica estavam posicionados em cantos estratégicos, sempre com uma fina espiral de fumaça perfumada subindo em direção ao teto. Minha mãe dizia que era para "limpar a energia" e "trazer boas vibrações". Para mim, era apenas o cheiro de casa, o aroma constante da segurança.


Na cozinha, peguei o pó de café e o filtro de papel, começando o ritual matinal que meu corpo já conhecia de cor. O som da água enchendo a cafeteira, o cheiro rico do café começando a passar pela máquina. Eu sempre fazia o suficiente para nós dois. Mesmo que minha mãe acordasse mais tarde, ela gostava de ter o café fresco esperando por ela.


Enquanto a máquina borbulhava seu canto matinal, peguei um pão e o coloquei na torradeira. Foi quando ouvi o som familiar de passos leves vindo do corredor.


— Já de pé, meu filho?


A voz da minha mãe era como sol líquido, quente e reconfortante. Ela surgiu na porta da cozinha, já com um sorriso no rosto. Usava um pijama estampado com girassóis e seus cabelos castanhos estavam presos num coque bagunçado. Havia uma energia nela, uma vivacidade que parecia imune à hora do dia ou a qualquer dificuldade que a vida nos apresentasse.


— Alguém precisa garantir que o motor do mundo comece a funcionar. E ele funciona a café.


Minha tentativa de sarcasmo leve saiu mais cansada do que eu pretendia.


Ela se aproximou, depositou um beijo na minha testa e afagou meus cabelos, um gesto que fazia desde que eu era criança.


— Hum, cheirinho bom. Obrigada por passar, querido. Você dormiu bem? Parece um pouco cansado.


— O de sempre. — respondi, dando de ombros e pegando minha torrada que acabara de saltar da máquina.


Ela me observou por um momento, a alegria em seus olhos sendo tingida por uma sombra de preocupação, mas a dissipou com outro sorriso, como sempre fazia.


— Bem, talvez seja a ansiedade. Afinal, não é todo dia que meu garotinho faz dezesseis anos.


Eu quase engasguei. Tinha me esquecido completamente. Amanhã. Meu aniversário.


— Ah. É. Verdade.


— “Ah. É. Verdade.” — ela me imitou, rindo. A risada dela era contagiante. — Que animação! Você vai fazer alguma coisa? O Lucas vai vir aqui?


Lucas era meu único amigo de verdade. Ele era falante e obcecado pelo seu Nintendo 64, meu oposto polar em quase tudo, o que provavelmente explicava por que a gente se dava tão bem.


— Eu não sei. Acho que não combinamos nada.


— Bom, pois eu combinei comigo mesma. — ela declarou, abrindo a geladeira para pegar a caixa de leite. — Consegui pegar umas horas extras na loja essa semana. O que você acha de irmos naquela hamburgueria nova do centro depois da aula? Nós, você e o Lucas. Um presente de aniversário adiantado. Eles têm umas batatas fritas que dizem ser divinas.


E ali estava. Aquele sentimento familiar. Uma pequena pontada no meu peito, uma mistura de gratidão e uma dor surda. Horas extras. Ela se desdobrava, fazia malabarismos com as contas, pegava turnos a mais na livraria onde trabalhava como gerente, tudo para que eu nunca sentisse que me faltava algo. E ela fazia isso com um sorriso, como se não fosse um peso enorme.


Tudo porque o homem que deveria estar aqui para dividir esse fardo decidiu, há dezesseis anos, que a paternidade não era para ele. Minha mãe raramente falava sobre meu pai. As informações eram vagas: ele era intenso, e um pouco sombrio, e teve que "ir embora" antes mesmo de eu nascer. Mas pela forma como o olhar dela se perdia por um instante sempre que o assunto surgia, eu sabia. Ela ainda o amava. E essa lealdade incompreensível tornava a ausência dele ainda mais pesada para mim.


Eu a amava por isso. E me sentia culpado por ela ter que passar por isso.


— Mãe, não precisava. A gente pode só pedir uma pizza.


— Precisava sim. É seu aniversário. Dezesseis anos é importante. E eu quero comemorar. Fim de papo. — a voz dela era firme, mas cheia de carinho. Ela encheu duas canecas com o café recém-passado e colocou uma na minha frente. — Agora come. Você tem prova de química hoje, não tem?


Assenti, dando uma mordida na torrada. Com ela, minha casca sarcástica e distante simplesmente derretia. O amor dela era genuíno demais, avassalador demais. Eu amava minha mãe mais do que qualquer tesouro que o mundo pudesse oferecer, e o pensamento de decepcioná-la era a única coisa que realmente me assustava.


— Tenho. Acho que estou preparado.


— “Acho”? Matheo, você é o garoto mais inteligente que eu conheço. Você vai tirar de letra. — ela piscou para mim, sentando-se à nossa pequena mesa. — Então, vou telefonar para a mãe do Lucas mais tarde, só pra confirmar, ok?


— Ok. — cedi, um pequeno sorriso escapando. Contra ela, eu nunca tinha chance.


Tomamos o café da manhã em uma paz confortável. Ela me contou sobre uma nova coleção de livros que havia chegado à loja, e eu reclamei sobre um trabalho de história que teria que entregar. Era a nossa rotina. Um pequeno universo de normalidade que havíamos construído para nós dois, naquele apartamento com cheiro de incenso.


Depois de terminar, levei minha caneca até a pia e voltei para o quarto para me arrumar. Vesti o uniforme da escola — uma camiseta branca com um logo sem graça e uma calça jeans escura —, enfiei os livros na mochila e peguei meu Discman da escrivaninha, prendendo o aparelho portátil no cinto da calça. Eu me olhei uma última vez no espelho. As olheiras ainda estavam lá, mas talvez um pouco menos pronunciadas. Ou talvez eu só estivesse me acostumando a elas.


— Pronto? — ouvi a voz dela da porta.


— Pronto.


Peguei a mochila e a segui para fora do quarto. Ela já estava com a bolsa no ombro e as chaves do carro na mão, esperando perto da porta de entrada.


— Não se esqueça. Qualquer problema, me liga. Use o orelhão da escola se precisar. E tente não parecer tão sombrio na aula. Vai assustar os professores.


— Faz parte do meu charme. — retruquei, e dessa vez, o sarcasmo soou um pouco mais natural. Consegui arrancar uma risada dela.


Ela destrancou a porta e saímos para o corredor do prédio. A rotina era sempre a mesma. Descer pelo elevador barulhento, atravessar o saguão silencioso e seguir para o estacionamento subterrâneo, onde nosso Gol quadrado, antigo e confiável, nos esperava.


Era só mais uma manhã.


A última delas, embora eu ainda não soubesse disso.

Notas finais
Esta é a primeira história que publico oficialmente então, antes de tudo, obrigado por chegar até aqui.a Feedbacks positivos são sempre bem-vindos; leio tudo com atenção e eles me ajudam muito a melhorar. Tenho um backlog de cerca de 30 capítulos já escritos, então pode demorar um pouco até que sugestões e seus pedidos sejam vistos e respondidos com calma prometo que, quando eu implementar mudanças, farei com cuidado. A historia terá troca de POVs, aqui e ali, não achei nada para marcar no +fiction, mas espero que não seja um empecilho a você. A história é inspirada em Percy Jackson e nasceu também das sessões de um RPG de mesa em que participo peguei elementos que amo desses dois universos e os misturei em algo próprio. Espero que se divirtam, torçam pelos personagens e se percam um pouco nesse carrossel de tempo e mitos, ou melhor, Carrousel.