Carrousel e o Relógio de Cronos

2 Capítulo 2 – Letras Dançantes e Sombras Erradas


O Gol quadrado da minha mãe rangeu um pouco ao estacionar na rua em frente à escola, o som familiar de um carro que já tinha visto dias melhores. A música que tocava no rádio, uma qualquer da Legião Urbana, foi cortada abruptamente quando ela girou a chave, e o silêncio preencheu o carro.


— Pronto? — ela perguntou, virando-se para mim com aquele sorriso que era sua marca registrada.


Eu pisquei, meus olhos tentando se ajustar. Do lado de fora, o mundo era um assalto de luz. O sol de Florianópolis batia no asfalto, no para-brisa, em tudo, e refletia com uma intensidade que parecia maliciosa. A luz não apenas iluminava; ela perfurava. Era uma dor de cabeça em formação, uma agulha quente atrás dos meus globos oculares.


— Tão pronto quanto estarei. — murmurei, protegendo os olhos com a mão.


— Vai ser um bom dia. Eu sinto. — ela disse, otimista como sempre. — Me liga do orelhão quando a aula acabar. E vê se come o lanche que eu fiz.


— Pode deixar. — assenti, dando-lhe um rápido abraço de lado antes de abrir a porta.


O calor e a luz me atingiram como uma parede. Instantaneamente, comecei a suar. Era um dia lindo para qualquer pessoa normal. O céu era de um azul absurdo, sem uma única nuvem para oferecer um momento de alívio. Para mim, parecia o holofote de um interrogatório divino. Eu preferia mil vezes os dias cinzentos e enevoados, quando o mundo parecia mais suave, mais quieto, e as cores não gritavam tanto.


Ajustei a alça da minha mochila Jansport preta no ombro e comecei a caminhar em direção ao portão da Escola Estadual Dias Velho. Era um prédio antigo, de dois andares, pintado de um amarelo desbotado que o sol castigava sem piedade. À minha frente, um rio de adolescentes barulhentos fluía para dentro, rindo, gritando, empurrando uns aos outros. Um caos de vida e energia que sempre me pareceu alienígena.


Eu me sentia como um espectador. Sempre. Mudar de escola de novo não ajudava. Estávamos há pouco mais de um mês no segundo semestre, e eu ainda era "o novato". A terceira escola em quatro anos. A primeira foi por "problemas de comportamento", depois que um armário de metal voou misteriosamente contra o inspetor que estava me intimidando. A segunda foi por "vandalismo", quando o laboratório de química inundou durante uma aula em que eu era o único aluno presente – eu juro que não toquei em nada. Minha mãe sempre acreditou em mim, mas as escolas tinham seus limites. Esta era minha nova chance de tentar ser normal. Uma chance que eu sentia que já estava desperdiçando.


— E aí, Conde Drácula! Fugindo do sol?


A voz veio da minha direita, carregada de zombaria amigável. Lucas estava encostado na parede perto do portão, um contraste gritante comigo. Ele usava uma camiseta do The Offspring, jeans largos e um sorriso que parecia nunca ter um dia ruim. Seus cabelos eram de um castanho mais claro, e seus olhos brilhavam com uma energia que eu simplesmente não possuía.


— Muito engraçado. — respondi, parando ao lado dele na pequena faixa de sombra projetada pelo muro. O alívio foi instantâneo. — Algumas pessoas têm sensibilidade à luz, sabia? Não é todo mundo que é movido a energia solar.


— Ah, claro. "Sensibilidade". É por isso que você parece um fantasma com insônia. Sua mãe ligou. Hambúrguer hoje?


— Ela é rápida. Sim, parece que sim.


— Demais! Ouvi dizer que as porções de batata frita de lá são épicas. Tipo, nível chefe final do Zelda. — ele disse, empurrando-se para longe da parede e começando a andar. — Vamos nessa, antes que o sinal toque e o seu Serjão feche o portão.


Eu o segui, deixando a segurança da sombra e mergulhando de volta na luz ofuscante. O pátio interno era ainda pior. Concreto por toda parte, refletindo o sol diretamente no meu rosto. Meus ombros se encolheram instintivamente.


Enquanto andávamos em direção ao nosso pavilhão, a cacofonia de vozes e o movimento constante da multidão ao meu redor começaram a sobrecarregar meus sentidos. Meu cérebro parecia ter dificuldade em filtrar as coisas. Eu ouvia trechos de dezenas de conversas ao mesmo tempo. A garota à minha esquerda reclamando do final de uma novela, um grupo de garotos discutindo a rodada do campeonato de futebol, o som do zíper de uma mochila se abrindo três metros atrás de mim. E minha atenção saltava de um ponto a outro como um pardal assustado. O padrão de uma rachadura no chão, a forma como uma folha seca dançava com a brisa, a cor berrante do esmalte de uma professora que passava por nós. Era exaustivo.


—... então eu disse pra ele que não tem como passar daquela fase sem pegar a bota de velocidade primeiro, mas ele é teimoso. Você tá me ouvindo?


Lucas me deu uma cotovelada leve. Eu pisquei. Tinha perdido completamente o que ele estava dizendo.


— Foi mal. Me distraí.


— Percebi. Enfim, é só o meu irmão sendo um idiota no videogame. Novidade. E aí, preparado pra prova de química? Ouvi dizer que a Dona Célia vai pegar pesado nos elementos de transição.


— Acho que sim. — respondi, embora a ideia de me sentar e focar em uma folha de papel cheia de letras e números já estivesse me dando ansiedade.


Nós passamos por um grande mural de cortiça no corredor, coberto de avisos e cartazes. Meus olhos foram atraídos para um, impresso em letras garrafais.


REUNIAÕ DE PÁIS E MESTES — PROXIMA SEXTA-FERIA, 19H


As letras pareciam flutuar. O ‘O’ trocou de lugar com o ‘Ã’, o ‘I’ e o ‘A’ de ‘feira’ dançaram uma valsa rápida antes de voltarem aos seus lugares, e a palavra "próxima" parecia se contorcer, como uma minhoca no anzol. Forcei os olhos, tentando fixá-las no lugar. Inútil. Acontecia desde que eu me entendia por gente. Palavras em uma página eram meus inimigos. Elas se recusavam a ficar paradas, a fazer sentido. Os médicos chamavam de dislexia. Para mim, era só mais uma prova de que meu cérebro tinha vindo com defeito de fábrica.


— O que diz ali? — perguntei, disfarçando, apontando vagamente para o mural.


Lucas nem hesitou. Ele já estava acostumado.


— Reunião de pais na próxima sexta. E um aviso sobre o campeonato de futsal. Aparentemente, nosso time precisa de um goleiro. Você devia se inscrever.


— Pra levar uma bolada na cara? Não, obrigado. Prefiro enfrentar a prova de química.


Ele riu.


— Covarde.


Continuamos nosso caminho pelo corredor abarrotado. O ar era pesado com o cheiro de desinfetante, hormônios adolescentes e o lanche da cantina. Enquanto a maioria dos alunos parecia se mover com um propósito, eu me sentia como se estivesse nadando contra uma correnteza invisível. Havia algo estranho nos espaços lotados. Uma sensação de que eu não estava totalmente ali. Os sons às vezes ficavam abafados, como se eu estivesse com a cabeça debaixo d'água, e as sombras nos cantos... Elas pareciam erradas.


Eu via coisas. Pequenas coisas que ninguém mais parecia notar. A sombra de um bebedouro que parecia se esticar um pouco mais do que deveria. Um canto escuro sob uma escada que parecia mais profundo, mais frio, mais vazio do que o resto do corredor. E às vezes, quando eu olhava para a multidão, eu sentia... pontos frios. Pessoas que passavam por mim e deixavam um rastro de gelo no ar, uma sensação de ausência que me dava um arrepio na espinha. Era o mesmo sentimento que eu tinha quando passava perto de um hospital ou de um cemitério. Eu sempre atribuí a uma imaginação hiperativa. Mais um defeito no meu sistema.


— Ei, olha só. — Lucas me cutucou de novo, me tirando dos meus devaneios. — Acho que hoje é nosso dia de sorte.


Ele apontou para a porta da nossa sala, a 204. Dona Célia, nossa professora de química, uma senhora baixa e severa que parecia ter nascido com uma carranca, não estava na porta como de costume. Na verdade, a sala parecia mais barulhenta do que o normal.


— Será que ela faltou? Imagina se cancelam a prova... — ele disse, com a esperança brilhando em seus olhos.


— Sem chance. Ela provavelmente mandaria a prova por um pombo-correio se estivesse no leito de morte. — retruquei, embora uma pequena parte de mim compartilhasse da esperança dele.


Nós entramos na sala e a suspeita se confirmou. A cadeira da professora estava vazia. A turma estava em um estado de semi-caos controlado. Bolinhas de papel voavam, conversas corriam soltas e a atmosfera era leve, livre da opressão habitual das aulas de química. Encontramos nossos lugares de sempre, no fundo da sala, perto da janela. Eu sempre escolhia o lugar da janela. Me dava uma rota de fuga visual, algo para focar quando as letras no quadro ou no livro começassem sua dança infernal.


Larguei minha mochila no chão com um baque.


— Ok, talvez a gente tenha tido sorte. — admiti, me esparramando na cadeira.


— Eu te disse! Cara, hoje o dia vai ser bom. Sem prova de química e hambúrguer mais tarde. O que mais a gente pode pedir?


— Um dia nublado, talvez?


Lucas revirou os olhos e se virou para conversar com o garoto da fileira ao lado sobre um novo jogo que tinha saído para o PlayStation. Eu me virei para a janela, observando o pátio lá embaixo, agora quase vazio. O sol continuava implacável. Respirei fundo. Só mais algumas horas e eu estaria de volta à penumbra reconfortante do nosso apartamento.


Os minutos se arrastaram. O barulho na sala aumentou e diminuiu em ondas, à medida que a excitação inicial dava lugar ao tédio. A coordenadora do andar, uma mulher alta com um coque severo, apareceu na porta.


— Silêncio, turma! — sua voz cortou a baderna. — A professora Célia teve um imprevisto e não pôde vir hoje. Mas não pensem que vão ficar sem aula. Um professor substituto já está chegando. Quero todos em seus lugares e em silêncio.


Um gemido coletivo de decepção percorreu a sala. Lucas se virou para mim com uma expressão de derrota. Eu apenas dei de ombros. Era bom demais para ser verdade.


Nós esperamos. O silêncio tenso de uma turma esperando para avaliar um novo professor se instalou. Foi quando eu senti.


Começou como um arrepio. Aquele tipo de arrepio que não vem do frio. A temperatura na sala não mudou, mas de repente eu senti uma corrente de ar gelada na nuca. O tipo de frio que eu sentia nos meus sonhos com o relógio quebrado. Era o frio de um porão úmido, de um lugar que não via o sol há muito, muito tempo.


Meu corpo ficou rígido. Meus músculos se contraíram. Era o meu sexto sentido, aquela sensação inexplicável que me avisava que algo estava errado. A mesma sensação que eu tive momentos antes do armário voar na minha primeira escola, a mesma que senti quando a primeira torneira estourou no laboratório de química. Um alarme silencioso, uma vibração na frequência errada.


A porta da sala de aula se abriu.


Ele entrou. Era alto, magro, e usava um terno de linho bege que parecia um pouco elegante demais para uma escola pública. Seus cabelos eram loiros, penteados para trás com um brilho oleoso, e ele tinha um sorriso estampado no rosto. Era um sorriso largo, branco, perfeito. Perfeito demais. Não alcançava seus olhos. Seus olhos eram pequenos, brilhantes e escuros, como os de um inseto.


Ele caminhou até a frente da sala, seus sapatos de couro fazendo um som suave e rítmico no piso. Ele colocou uma pasta de couro na mesa da professora e se virou para nós. O sorriso nunca vacilou.


— Bom dia, turma. — sua voz era suave, quase um sussurro, mas de alguma forma ela preencheu cada canto da sala. — Eu sou o Senhor Brunner. Eu serei seu professor substituto hoje. Espero que possamos nos divertir... e aprender muito juntos.


Os outros alunos relaxaram. Alguns até sorriram de volta. Ele parecia legal, afinal. Mas eu não conseguia relaxar. Meu coração batia rápido e forte contra minhas costelas. O ar ao redor dele parecia distorcido, como a fumaça subindo do asfalto quente. E o cheiro... por baixo da loção pós-barba adocicada, havia outro cheiro. Algo fraco, mas podre. O cheiro de terra velha e de carne estragada.


Nossos olhos se encontraram por um segundo. Aquele sorriso perfeito se alargou minimamente.


E eu sabia, com uma certeza aterrorizante que gelou meu sangue, que aquele homem não estava ali para ensinar sobre os elementos de transição.


Algo estava terrivelmente errado.