Notas iniciais
O caminho até a casa de campo dos Cavalieri parecia tranquilo até que uns vultos começam a surgir na estrada. E quanto mais eles vão adentrando o vale das almas perdidas, mais perigosa a viagem se torna.

DAVI. "Eu tenho certeza que é por aqui, em algum lugar no meio desse mato," a Valéria disse com a cara enfiada no celular. Já fazia uns dez minutos que a gente tava perdido no meio da estrada. "Mas minha filha, não tem onde a gente dobrar. Não é melhor ligar pro seu amigo e verificar se a gente pegou o caminho certo?", sugeriu a tia Rosa, já prestes a perder a cabeça.

Essa era uma das coisas que eu mais gostava na Valéria. Ela era sempre muito segura de si e quando dizia que as coisas iam ficar bem, quase sempre dava certo. Só que naquele momento todo mundo tava muito preocupado, como se a gente tivesse realmente se perdido. A Laura não parava de rezar, enquanto o Adriano fazia uma cara de assustado e tentava localizar alguma entrada por dentro do mato. Tudo que eu podia fazer era mandar uma mensagem pro Jorge, mas o medo da Valéria achar que eu não tava confiando nela era maior que qualquer coisa.

"O que foi, Davi? Vê se muda essa cara de enterro e ajuda a gente a achar a entrada da cidade!", ela falou, ou melhor, gritou. Ufa, fazia um bom tempo que ela não falava comigo. Mais cedo a gente teve uma pequena discussão e desde então ela só me tratava mal. Tipo a Maria Joaquina com o Cirilo. Tudo isso porque eu comentei aleatoriamente que a Margarida tinha postado uma foto muito bonita no instagram.

"Só pode ser ali, filha. Dá uma olhada," alertou a tia Rosa, apontando pra um espacinho minúsculo entre duas árvores. "Não sei não ein. Esse lugar nem aparece aqui no GPS," a Valéria disse enquanto confirmava onde a gente tava. A tia Rosa foi guiando o carro com cuidado até a abertura e viu que realmente era uma estrada de terra, do jeito que o Jorge falou que seria. Depois disso a gente foi entrando devagar. Quase não tinha espaço pro carro passar.

"Esse lugar me dá arrepio," o Adriano falou, completamente apavorado. "E é super anti-romântico também," a Laura completou, segurando no meu braço. Eu não queria nem imaginar se a Valéria visse aquilo. "Deixa de bobagem, gente. É só uma estrada qualquer," a Valéria disse, satisfeita por ter conseguido guiar a gente até lá sem a ajuda de ninguém.

Não tinha muito o que fazer, além de seguir reto na direção da linha do horizonte. Tinha muita pedra no meio do caminho e por conta disso o carro chacoalhava bastante.

De repente, a estrada ficou silenciosa, como se não existisse mais ninguém no mundo todo, fora a gente. Eu ainda estava esmagado no meio do banco de trás, entre a Laura e o Adriano, e, talvez por isso, dava pra sentir de perto que os dois estavam completamente assustados. A Laura começou a apertar o meu braço e eu achei que ele fosse quebrar.

"Va...Valéria, você não quer ligar pro Jorge só pra saber se ele tá perto, não?", eu perguntei como quem não quer nada. "Não. A gente tá ótimo sem eles," foi tudo o que ela disse. Às vezes eu queria ser mais firme com ela e mostrar que eu também sou um ser humano, cheio de sentimento. E que me doía muito quando ela me tratava daquele jeito. Mas era impossível se opor à Valéria sem ter que aguentar uma discussão de dez horas depois.

Talvez tivesse chegando a hora da gente dar um tempo ou, quem sabe até, terminar o nosso namoro.

MAJO. O carro do senhor Cavalieri ia logo à frente do nosso, mais devagar que o funcionamento do cérebro do Jaime. A gente dobrou numa estradinha de terra minúscula que mal dava pra passar, e aquilo me deixou um pouco enjoada. Eu sempre fui meio claustrofóbica, principalmente em elevadores, e aquele mato todo, de um lado e de outro, parecia tá se movendo, cada vez mais próximo do carro.

"O que é aquilo!?", a Bibi gritou, alarmando todo mundo. Eu não queria parecer assustada na frente do Daniel, mas quando olhei na direção em que ela tava apontando, parecia ter uma sombra atrás da árvore. Uma sombra escura e comprida, como aquelas de filme de terror.

"É só a sombra da árvore, Bibi," o Daniel disse, tentando nos acalmar. Mas tava se mexendo agora à pouco," ela falou, apavorada. Quando eu percebi que ela tava se aproveitando da situação pra abraçar o Daniel, me deu vontade de mandar ela sair do carro. Mas, como eu era obrigada a parecer uma santa piedosa, protetora dos inocentes, fiquei quieta, observando a tal sombra que continuava ali, diante dos nossos olhos. O papai não parou um segundo pra ver. Vai ver ele tinha certeza de que não era nada.

"Mas as árvores balançam, Bibi. Provavelmente você viu a sombra da árvore na hora em que passou um vento. Não precisa ter medo," ele abraçou ela e de repente os dois eram os melhores amigos do mundo. Ai que ódio!

"Filha, pergunta pros seus amigos se eles estão com fome. A gente pode fazer uma parada pro almoço assim que chegarmos na cidade, que tal?", o papai perguntou, me dando uma ótima dica de como atrapalhar o momento íntimo dos dois, no banco de trás. "E então, Daniel, o que você acha da gente fazer uma parada pro almoço assim que chegarmos na cidade?", eu perguntei, olhando só pra ele. Mas é óbvio que a traidora da Bibi tinha que se meter. "Eu quero, eu quero!", ela disse, ainda segurando no braço dele. "Pode ser," ele respondeu, olhando diretamente nos meus olhos. "Então tá," eu falei e voltei a olhar pra frente. Era bom dar umas cortadas nele de vez em quando. Assim eu não ia parecer a desesperada da Bibi.

"Ali! Você, viu? Mexeu de novo!", ela gritou novamente. E isso durou o percurso inteiro. Como se todo o caminho a nossa volta tivesse virado, de uma hora pra outra, um verdadeiro filme de terror que só ela enxergava. Eu resolvi manter a classe e continuar olhando pro carro dos Cavalieri mais à frente. "Pelo menos o chato do Cirilo não veio comigo," eu pensei comigo mesma, imaginando que poderia ser bem pior.

JORGE. "Não, Cirilo. Eu já falei que não tem nenhum fantasma nesse bosque," eu repeti pela quinta vez, me esforçando ao máximo pra não gritar com ele. "Mas eu juro que eu vi um bicho se mexendo!", ele falou, com aquela voz irritante de criança medrosa. Eu nem ligava mais. Se eu virasse pra trás toda vez que ele me chamasse por conta de algum fantasma, com certeza eu já estaria com torcicolo.

"Relaxa, Cirilo. A gente tá protegido dos fantasmas aqui dentro do carro," o meu pai disse, entrando na brincadeira. O pior de tudo era que o Cirilo realmente tava acreditando que tinha algum fantasma por perto, e isso me irritava cada vez mais.

"Tá tudo bem com você, Margarida?", eu perguntei, tentando desviar a minha atenção da ceninha escandalosa do Cirilo. "Tudo ótimo," ela respondeu sorrindo, provavelmente se segurando pra não soltar uma gargalhada na cara dele. "Pelo menos alguém nesse carro tinha que se divertir com alguma coisa," eu pensei, sem deixar que o meu pai visse a minha cara de raiva. Se eu pudesse tratar o Cirilo da forma como ele realmente merecia, eu já tinha expulsado ele do carro há muito tempo.

"Ué," o meu pai disse, fazendo com que eu voltasse a olhar pra frente. "Essa placa sempre esteve aí?", ele perguntou, incrédulo. Estávamos no final da estrada, diante de uma placa de que dizia "Sejam bem-vindos ao vale das almas perdidas". Aquilo era muito estranho, já que nós estávamos esperando encontrar a Cidade da Luz, onde ficava a nossa casa de campo.

"Mas eu tenho certeza que o caminho era esse," o meu pai continuou a falar sozinho, olhando para um lado e para o outro, em busca de algum ponto de referência. "Pode ser que a cidade tenha mudado de nome," eu disse, na tentativa de não assustar ainda mais o Cirilo. Aquele nome, vale das almas perdidas, dava medo até em mim.

Nós permanecemos cerca de dois ou três minutos parados, enquanto meu pai saiu do carro pra falar com o doutor Miguel. Eu aproveitei esse tempo pra mandar uma mensagem pra Marcelina, só pra garantir que tava correndo tudo bem com a vã xexelenta do pai do Jaime.

"Onde vocês tão?", eu digitei e enviei rapidamente. Logo em seguida veio a resposta: "Presos no engarrafamento, perto do hospital". Aquilo me deixou muito preocupado. O hospital ficava há quilômetros de distância de onde nós estávamos, ou seja, ela e os outros ainda iam demorar bastante pra chegar. Pelo menos quem ia passar fome não era eu.

"Só pode ser aqui mesmo," falou o meu pai, voltando pra dentro do carro. Ele fechou a porta com força, como se estivesse nervoso, e ligou o motor do carro fazendo o maior barulho. O irritante do Cirilo colocou as mãos nos ouvidos, enquanto eu e a Margaridas ríamos da cara dele, nos vendo pelo espelho retrovisor. A essa altura eu não fazia ideia de onde a Valéria estava. Mas, como era de se imaginar, ela iria conseguir chegar, mais cedo ou mais tarde.

ADRIANO. "Vale das almas perdidas, que nome mais esquisito," a Valéria disse enquanto nós vagávamos pela cidade. Eu tava morrendo de medo, não só do nome, mas também do fato de que as ruas estavam completamente desertas. O lugar parecia ter saído de um filme de terror. Estrada de terra, casas escuras e com tranca reforçada nas portas, e um silêncio absoluto, como se todo mundo tivesse desaparecido.

"Será que os outros já tão perto de chegar?", a Laura perguntou, parando de rezar pela primeira vez desde que partimos. Eu também tinha parado de me preocupar, até porque nós tínhamos conseguido chegar sãos e salvos. O problema era que, quanto mais o carro adentrava a cidade, maior era a sensação de que alguma coisa muito estranha estava acontecendo.

"Eu sinceramente não dou a mínima pros outros. Por mim, a gente pode ir logo pra casa dos Cavalieri e esperar eles lá. É bom que eu aproveito a piscina antes de encher de gente chata e metida," a Valéria falou, procurando no GPS a localização da casa. "Que coisa horrível de se dizer, filha. A gente precisa esperar pelo seu amigo, até porque somos apenas meros convidados," disse a tia Rosa, mostrando ser, de longe, a pessoa mais sensata daquele carro.

"Olha, um frigorífico! A gente pode parar aqui pra comprar carne pro almoço, que tal?", a Laura falou, com os olhos arregalados de fome. Eu confesso que não achei uma má ideia, mas pra convencer a Valéria a descer do carro foi um sacrifício e tanto.

"Anda, Valéria, vai lá com eles comprar carne enquanto eu ligo pro seu pai pra dizer que a gente chegou bem," falou a tia Rosa, tirando o dinheiro da bolsa. Eu, o Davi e a Laura saímos primeiro, enquanto a Valéria continuou teimando com a mãe dela, dentro do carro. Eu aproveitei o tempo pra dar uns passos até o fim da rua, pra ver se achava uma mísera pessoa naquela cidade deserta.

"O que você tá fazendo, Adriano?", a Laura perguntou, vindo logo atrás de mim. "Tô fazendo o reconhecimento da área, pra ver se não tem nenhum perigo à solta," eu respondi enquanto continuava andando. O Davi continuava lá, do lado do carro, esperando a boa vontade da Valéria de abrir a porta e sair.

Todas as lojas daquele lado da rua estavam fechadas, com exceção do frigorífico. O estômago da Laura começou a roncar, mais alto que um trator, e eu decidi parar a investigação e entrar logo no local. Ela parecia estar com bastante medo, então eu decidi parecer mais corajoso pra que ela se tranquilizasse um pouco. Nós entramos por uma porta larga, de vidro, com uma cortina feita com tripa de porco.

Particularmente eu não tenho nada contra tripa de porco, mas colocá-las ali de enfeite era algo de completo mau gosto. A Laura pareceu não se importar e passou de boa pela cortina. Lá dentro tava muito escuro e o clima frio fez com que o meu corpo começasse a tremer.

O local parecia estar completamente abandonado e um cheiro forte de carne fresca pairava no ar. A Laura até tentou bater palmas, mas ninguém veio nos atender. Nessa hora, eu lembrei que o Davi e a Valéria ainda estavam lá fora e comecei a me preocupar com eles. Afinal de contas, nós estávamos em um lugar desconhecido chamado Vale das almas perdidas. E medo era o mínimo que um ser humano normal deveria sentir, estando naquela situação.

Do nada, um barulho enorme veio surgindo ao fundo. Parecia um monte de bicho gritando ao mesmo tempo, como se alguém estivesse machucando eles, ou algo do tipo. O som foi se aproximando da gente, e a Laura veio pra trás de mim. Eu não sabia o que fazer. Ou eu ficava parado e enfrentava o que estava por vir, ou eu saía correndo de volta pro carro. Infelizmente, eu escolhi a primeira opção.

Por trás do balcão que separava a gente dos outros cômodos, vinha um monte de galinha pulando, desesperadas. Elas esperneavam, pulavam e tentavam voar a todo custo, na tentativa de escapar de alguma coisa que corria a trás delas. Na mesma hora, a Laura correu lá pra fora gritando, e eu, ainda me recuperando do susto, fiquei paralisado onde estava. De repente eu comecei a ouvir um riso de criança. Um não, vários. Elas riam como se estivessem se divertindo em um parque. Mas não havia parque nenhum ali. Só um cheiro forte de carne e mais tripas de porco penduradas por toda parte.

Em seguida, uma sombra pequena se mexeu no meio da escuridão. Eu também senti vontade de sair correndo, mas as minhas pernas não me obedeciam de jeito nenhum. Quando os meus olhos conseguiram captar o único feixe de luz que vinha lá de dentro, deu pra ver uma menina baixinha, com não mais que dez anos de idade. Ela olhava pros lados, como se tivesse mais gente com ela, e ria sem parar. Em suas mãos tinha uma faca coberta de sangue e uma porção de penas de galinha. O sangue também estava por todo o seu rosto, sobretudo ao redor da boca. E o sorriso compulsivo dela, de um vermelho vivo e cintilante, foi a última coisa que eu me lembro de ter visto antes de desmaiar.

MARCELINA. Eu larguei o celular dentro da bolsa pra não ter que ficar respondendo o Jorge a cada cinco minutos. A gente já tinha saído do engarrafamento há bastante tempo e faltava só encontrar a tal estradinha de terra que levaria a gente até a cidade. O Jaime ia na frente, conversado às alturas com o pai dele, enquanto o resto de nós se espremia nos bancos de trás. A Alícia e a Carmen no primeiro, logo atrás do banco do motorista, o Paulo e o Koki no meio, e eu, o Mário e o Rabito no fundo.

"Se ele tiver te incomodando, pode dizer que eu troco de lugar com o Paulo," o Mário disse ao ver que eu tava furiosa com o Rabito afiando as unhas na minha saia. A única parte boa de ficar no fundão era não ter que olhar pra cara azeda da Carmen e da Alícia. Eu já tava tão saturada das mesmas fofocas de sempre que era melhor conversar com o Rabito mesmo.

"Tá tudo bem, não precisa se preocupar," eu respondi pra ele sem dar muita importância ao caso. O Paulo e o Koki tavam vendo alguma coisa no celular e isso acabou despertando a minha curiosidade. "O que vocês tão vendo, eu posso saber?", perguntei, colocando a cabeça no meio dos dois. "Nada! Assunto de menino," o Paulo respondeu, seco e grosso, pra variar. "É só um vídeo bobo de um menino colocando fogo no próprio quarto, nada demais," o Mário fez o favor de responder.

O Mário era muito estranho. Ele conseguia ser amigo de todo mundo, mesmo sem ter que tomar partido quando alguém brigava. Só naquela manhã ele já tinha conversado um bom tempo com todo mundo, e nem sequer percebeu que eu e as meninas estávamos brigadas. Pelo menos a companhia dele era agradável.

"Você tá animado pra essa viagem?", eu perguntei, me arrependendo logo em seguida por ter puxado assunto com um dos meninos. "Muito. Eu e o Rabito vamos nos divertir como nunca, não é Rabito?", ele falou abraçando o cachorro. Eu até acho fofo esse carinho todo que ele tem pelos bichos, mas ainda assim não dava pra entender um garoto que conseguia ser super amigo do Paulo.

Nessa hora, a vã começou a dar uns solavancos e o cheiro de fumaça impregnou lá dentro. O Seu Rafael saiu pra dar uma olhada, junto com o Jaime, enquanto os meninos ficaram bagunçando, como se nada tivesse acontecido. Depois, os dois voltaram e pediram pra gente descer. Acho que isso facilitaria alguma coisa no conserto.

"E então, a gente vai ter que ficar aqui no meio da estrada o dia todo?", a Alícia perguntou pro Jaime, enquanto eu ouvia a conversa em silêncio. Eu também gostaria de saber até quando a gente ia ter que ficar ali, mas entre fazer papel de chata e esperar quieta, eu preferi a segunda opção.

"O meu pai acha que a gente vai ter que continuar o caminho à pé," ele respondeu, alto pra todo mundo ouvir. "O quê!?", a Alícia gritou, inconformada com a situação. "Por mim, tudo bem," eu falei pra parecer mais legal que ela. Acho que deu certo, já que o Paulo, o Koki e o Mário se uniram a mim instantaneamente. O Seu Rafael ajudou a gente a tirar as bagagens do porta-malas e, em poucos minutos, abandonamos a vã no meio da estrada e entramos no mato.

A única coisa que me preocupava eram os mosquitos. Principalmente porque eu sabia que a Carmen tinha trazido repelente e, mais cedo ou mais tarde, eu teria que fazer contato, caso quisesse sair dali sem ser devorada viva. O Mário começou a andar do meu lado, pra eu não ficar sozinha. "Até parece que eu sou uma dessas meninas frescas que precisam de proteção," pensei calada.

"Eu trouxe um monte de biscoito, quem quiser é só vir pegar, a Carmen disse, fazendo com que todo mundo se aproximasse dela, menos eu e o Mário. "Quer que eu pegue um pra você?," ele perguntou com um sorriso doce e tranquilo. Eu poderia jurar que ele tava dando em cima de mim, mas na hora isso pareceu irrelevante, já que estávamos no meio de um bosque cheio de bicho ao redor.

"Não, não. Eu tô sem fome," eu menti na cara de pau. Dava pra notar a minha cara pálida de quem não tinha comido quase nada no café da manhã. Ele me deixou pra trás e se juntou aos outros. De repente, eu senti uma vontade enorme de falar pro Jorge que a gente tava à pé, no meio da floresta. Ele provavelmente iria mandar o pai dele vir buscar a gente e eu seria eleita a heroína da história. Mas quando eu vi que o Seu Rafael já ia lá na frente, tentando se localizar pelo GPS do celular, imaginei que a gente tava bem perto de chegar.

Mais na frente, todo mundo parecia cansado, inclusive eu. Nós resolvemos fazer uma parada rápida pra descansar, no meio das folhas mesmo, e tentar mandar algum sinal de vida pros outros. O Seu Rafael fazia uma cara de quem não tava entendendo nada, enquanto o Jaime mexia no celular dele. "Tá sem sinal," ele disse, assustado.

Eu tirei o meu celular da bolsa e vi que era verdade. Nenhum de nós tinha sinal. O pior era que a gente já tava tão longe da vã que não fazia sentido algum voltar pra estrada. A sorte era que estávamos em um grupo grande, e ninguém tava com medo. Pelo menos até aquele momento.

"O que foi, Paulo?", eu perguntei ao ver a cara de pavor do meu irmão. "É que… eu… acho que vi um vulto atrás daquela árvore," ele falou tremendo de medo. O Mário já tava quase levantando pra ver o que era, quando eu tomei a frente dele e fui eu mesma. Não podia ser nada demais.

Eu fui me aproximando da árvore, devagar, sentindo o olhar de todo mundo nas minhas costas. Eu queria provar pra eles que eu não era fresca e medrosa como as outras meninas da turma, e aquela era uma ótima chance de fazer isso. Dava pra notar que realmente tinha alguma coisa se mexendo ali, mas já era tarde demais pra dar pra trás. Quando eu inclinei o rosto um pouco pro lado, uma criatura pulou em cima de mim e agarrou a minha perna, se sacudindo e gritando alguma coisa que eu não não conseguia entender. Foi a primeira vez em toda a minha vida em que eu achei que iria morrer.

Notas finais
Já sabem, né? Comentem se estiverem curtindo. Bjs e até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.