Notas iniciais
- "Agradar a ti, antes de mim''

Entrei em casa devagar e ainda consegui ver o carro dela se movendo , tentei fazer o minimo de barulho possível para não acordar minha mãe. Essa com certeza foi a melhor noite da minha vida , e tudo graças a Sue, ela realmente estava mudando as coisas por aqui.

—_ Se divertiu hoje minha filha ? ...

—_ Mamãe... Eu estava... __ Não tinha uma boa desculpa pra dar, minha mãe conseguia arrancar a verdade com um simples olhar.

—_ Nem ouse mentir para mim Carrie White ! A mentira te leva um passo a mais para o inferno. __ Minha mãe gritou comigo dando um passo forte em minha direção.

—_ Mamãe... Eu... Não queria irritar a senhora. __ Abaixei a cabeça e senti quando uma lagrima desceu pelo meu rosto.

—_ Então me diga a verdade... Aonde você estava ? __ Minha mãe nunca pareceu tão assustadora pra mim, e olha que ela é assustadora o tempo todo.

—_ Eu... Eu fui ao cinema. __ Falei tão baixo que já estava esperando minha mãe perguntar novamente.

—_ Ao cinema ?... Você sabe muito bem que esse tipo de lugar só tem gente que não presta, pecadores, prostitutas, ladrões...

—_ É só um cinema mãe ! __ A cortei elevando minha voz.

No mesmo momento, senti meu rosto ser virado para o outro lado, minha mãe acertou um tapa de cheio no meu rosto. Ela pode fazer de tudo comigo, e ser o mais injusta possível, mas ela nunca tinha levantado a mão pra mim, pelo menos não até aquele momento. Coloquei a mão no local e já podia sentir minha pele quente, senti uma coisa molhada e levei minha mão em frente ao meus olhos, o sangue manchando meus dedo, sua unha tinha me causando um corte.

—_ Você... Você me bateu. __ Consegui dizer com a voz tremula.

—_ Vou perguntar apenas uma vez, e espero que oque saia da sua boca seja a verdade Carrie. __ Minha mãe disse, ela não parecia nem um pouco chocada com o próprio ato , ela não parecia arrependida ou nada do tipo. __ Quem levou você nesse tipo de lugar ?

Obvio que minha mãe me conhecia muito bem, tenho certeza que ela saberia se eu mentisse, mas estava totalmente fora de cogitação dizer a verdade, se eu falasse que fui com a Sue, ela faria um barraco na porta dela. Pela primeira vez na vida eu estava tendo uma coisa pelo menos parecida com uma amizade, não podia deixar minha mãe arruinar isso, e nunca poderia deixar minha mãe ofender Sue.

—_ Eu fui sozinha. __ Tentei manter a voz o mais firme possível, quando minha mãe estreitou os olhos para mim eu sabia que ela não tinha acreditado nisso.

—_Você vai continuar mentindo pra mim ? __ Ela deu outro passo em minha direção e eu cheguei pra trás no mesmo momento. __ Que tipo de pessoa você quer ser ? Você quer que sua alma fique presa no inferno sofrendo pela eternidade ?!

No momento eu não queria nada além de ir para o meu quarto, senti vontade de responder ela, mas simplesmente continuei calada , e parecia que minha falta de resposta estava deixando minha mãe cada vez mais zangada. Quando ela viu que não ia obter resposta nenhuma de mim, me segurou pelo pulso e começou a me puxar pela casa.

—_ Já que não tem medo do demônio , eu tenho por nós duas, e você vai se arrepender dos seus pecados de hoje, precisa limpar a sua alma. __ Ela falava enquanto continuava a me puxar, lutar não adiantaria, mas realmente comecei a sentir pavor quando olhei para o local que ela estava me levando.

—_ Mãe, mãe... Por favor não, eu não quero ficar lá novamente... Eu me arrependo mãe. __ Disse tentando tirar meu braço do seu aperto, uma tentativa falha.

—_ Você tem que ter esse medo do demônio que você pode se tornar. __ Ela parou e olhou para mim. __ Nunca tema uma coisa que estou fazendo para o seu bem.

Ela abriu a porta que ficava em baixo do vão da escada, meu pesadelo particular, me jogou lá dentro, tirando a lampada e fechando a porta.

—_ Por favor mãe ! Me tira daqui !!! __ Eu odiava esse lugar.

—_ Orar vai tirar você dai e o demônio de você.

Gritei pela minha mãe por alguns minutos até ouvir ela subindo as escadas, foi o momento que me escorei na porta e deixei meu corpo ir até o chão. Desde pequena, quando me comportava mal ou quando não aceitava alguma regra da minha mãe, ela me colocava nesse quarto, nem era bem um quarto, era um pequeno armário onde minha mãe guardava as coisas de limpeza da casa, eu ficava lá dentro por horas, minha mãe falava que quanto mais eu orasse pra tirar o pecado de dentro de mim, mas rápido eu sairia daquele lugar, quando eu era mais nova seguia suas ordens, realmente orava até o momento que ela abria a porta me libertando daquele lugar horrível , acreditava que tinha o demônio dentro do meu corpo, mas com o tempo, passei a simplesmente sentar e chorar.

O pior é que não tinha nenhum tipo de luz e odiava quando aparecia baratas, era um inferno, meu inferno particular.

Não notei quando tinha adormecido, mas quando acordei sentia meu corpo todo doendo, não era muito confortável dormir sentada no chão , estranhei o fato de minha mãe não vim me tirar, ela sempre vinha de madrugada e abria a porta pra mim, dessa vez foi diferente, pela pequena brecha da porta eu conseguia ter um feixe de luz , o que me indicava que já estava de manhã.

Continuei esperando minha mãe vim me soltar, mas quando se passaram pelo menos umas duas horas, eu tinha certeza que isso não iria acontecer, pelo menos não tão cedo, passei a mão de leve no meu rosto e conseguia sentir o corte fazendo um tipo de casca.

Me sentei no chão novamente e esperei, não sei exatamente o motivo mas o que estava me deixando mais triste em ter que ficar naquele quarto, era justamente o fato de não poder ir a escola, na verdade dizer que eu não sabia o motivo era uma grande mentira, tudo que eu queria era ver Sue, queria saber se ela falaria comigo ou simplesmente me ignoraria, não que eu esperasse que ela virasse minha amiga e me chamasse pra sentar na mesa com ela, eu só queria saber qual seria sua reação.

—_ Esse demônio que supostamente eu tenho dentro de mim deveria me ajudar um pouco. __ Sussurrei pra mim mesma. __ Por que desse jeito... Ta difícil.

Já conseguia ver que o sol estava indo embora , minha barriga estava doendo de fome, queria muito sair desse lugar, comer alguma coisa e deitar. Ouvi o barulho da porta da frente sendo aberta e tive a certeza que minha mãe tinha chegado. Acompanhei os passos dela até que ela parou em frente a porta.

—_Já sente sua alma mais limpa Carrie ? __ Ela me perguntou .

—_ Sinto sim mãe... A senhora tinha razão... __ Tudo que eu queria era gritar pra que ela abrisse a merda da porta e me deixasse sair desse inferno, mas não podia , não queria correr o risco de ficar ali nenhum momento a mais.

—_ Isso é ótimo ! Fico feliz que entenda que só estou fazendo isso pro seu bem. __ O pior é que ela realmente acreditava nisso, ela realmente acreditava que me trancar em um quarto, sem comida, sem iluminação, era para o meu próprio bem... O bem da minha alma.

No momento que ouvi a chave sendo posta na fechadura duas batidas na porta acoaram pela casa. O que era completamente estranho, desde quando me conheço por gente, nunca ouvi ninguém bater nessa porta, não recebíamos visitas, até o próprio carteiro tinha medo de bater aqui.

Minha mãe caminhou lentamente até a porta, os passos cada vez mais devagar, obvio que ela também deveria estar se perguntando quem poderia ser.

—_ Ola senhora White...

Não precisou de muito para eu saber exatamente quem estava na porta; Sue.

—_ Em que posso ajudar senhorita Snell ? __ Outro tipo de voz que eu conhecia... Minha mãe estava irritada.

—_ Carrie não foi a escola hoje... Gostaria de saber se ela esta bem... __ A voz dela era tão melodiosa, mas essa não era a melhor parte... Ela lembrou de mim , ela percebeu que eu não fui a escola, ela se deu ao trabalho de vim aqui e saber se eu estava bem ! Que tipo de sonho maluco é esse ?

—_ Ela esta perfeitamente bem Snell, agradeço sua... Preocupação. __ Ouvi a porta ranger como se minha mãe a estivesse fechando e depois parou, antes de se completar.

—_ Eu posso falar com ela ? __ Sue perguntou, sua voz parecendo meio impaciente agora.

—_ Receio que não seja possível no momento... Ela irá a escola amanhã. __ Minha mãe respondeu firme e depois o ranger da porta novamente, até o final dessa vez.

Demorou uns 5 minutos, até o momento que minha mãe voltou a se mover e veio em direção a porta abrindo ela. Tratei de sair rapidamente do pequeno comodo, parte de mim tinha medo que minha mãe mudasse de ideia e voltasse a me jogar naquele lugar .

—_ Desde quando isso vem acontecendo ? __ Minha mãe perguntou ainda parada a minha frente.

—_ Isso... Isso o que ? __ Perguntei abaixando a cabeça.

—_ Sue Snell. __ Ela disse simplesmente.

—_ Eu... Eu fiquei em dupla com ela em um trabalho... Ela deve ter estranhado eu não ter ido pra escola hoje. __ Respondi e tentei ser o mais convincente possível.

—_ Não quero você com ela, esse tipo de garota... É o tipo de pessoa que já esta com sua alma condenada. __ Minha mãe respondeu.

Balancei a cabeça concordando e perguntei se poderia comer alguma coisa, minha mãe disse para eu subir e tomar banho que ela iria preparar o jantar, ela poderia me deixar comer alguma coisa, sabia que eu estava morrendo de fome, mas com certeza ter que esperar o jantar ficar pronto era mais uma maneira de me punir.

Tomei um banho demorado e parei em frente ao espelho depois, o arranhão no meu rosto não era pequeno, estava vermelho e ainda ardia, também por causa do banho.

Claro que eu passar a noite toda e a tarde dentro de um armário escuro e sem comida não era uma das minha coisas preferida de fazer, mas pensando bem eu faria tudo novamente, a noite de ontem mesmo depois de tudo ainda tinha sido a melhor noite da minha vida, e eu queria que voltasse a acontecer.