Carrie - A estranha
10 - Alguma coisa errada.
A dor não foi muito minha amiga essa noite, dificultando meu sono e dando combustível para meus pensamentos que não saiam de Sue. Ela era o mais próximo de uma amiga que eu já tive, sem contar a moça da cantina, mas eu tinha uma pequena noção que nem todos meus pensamentos em relação a ela eram inocentes, não saberia explicar nem se tentasse, minha experiencia com pessoas eram zero, e o único alguém que eu tinha pra perguntar sobre alguma coisa, me faria me sentir o ser mais abominável do mundo, só por considerar sentimentos por Sue.
Levantei mais cedo que o normal essa manhã, consegui me virar pra tomar banho e me vestir, pedir a ajuda da minha mãe estava fora de questão. Levei trinta minutos contados no relógio apenas pra descer as escadas.
—_ Você demorou demais pra descer. __ Minha mãe disse assim que terminei de descer os degraus, não fez nenhum movimento para me ajudar, enquanto me arrastava em direção a mesa.
—_ Desculpa mãe, sinto dor por mais da metade do meu corpo. __ Respondi parando um pouco pra respirar, já estava para sentar a mesa, quando minha mãe interrompeu.
—_ Não tem mais tempo pro café da manhã, vamos chegar atrasadas. __ Passou por mim pegando sua bolsa e segurando a porta. __ Vamos logo.
Quem liga para a primeira refeição do dia não é mesmo ? Peguei minha mochila que pela primeira vez na vida estava leve e me arrastei em direção a porta. Quase ajoelhei e agradeci ali mesmo quando minha mãe abriu a porta do carro e me ajudou sentar, foi o primeiro gesto de ajuda que ele teve comigo desde o momento que abri os olhos e a vi no hospital.
A viagem toda foi feito naquele silencio desesperador, minha vontade era ligar o radio, ouvir alguma coisa, qualquer coisa que não seja aquele silencio desconfortável.
Minha mãe parou o carro em frente a escola, me deu o beijo seco de sempre e me apressou a sair do carro, parece que o gesto de ajuda só me dava direito a um.
Tentei andar o mais afastado das pessoas possível, apertei minha mochila contra o peito, tudo que eu não queria hoje, era minhas coisas ao chão, tenho certeza que não conseguiria me abaixar para pegar nada. Vi um dos amigos de Billy vindo em minha direção, o sorriso maldoso já mostrava que eu não passaria por ele sem alguma consequência, já estava para começar a correr quando Tommy Ross apareceu ao meu lado, o garoto olhou confuso para Tommy que continuou andando ao meu lado sem dizer nada.
—_ Bom dia Tommy. __ Uma garota o cumprimentou enquanto passava ao nosso lado, quase ri quando ela me olhou, sua cara de nojo não me afetava mais.
—_ Bom dia. __ Tommy respondeu sem parar de andar.
O olhei de lado, ele era um garoto bonito, com certeza alguém que combinava com Sue Stell, eles dois eram o casal modelo da cidade, mas por um momento eu desejei que não fossem, desejei que Sue não tivesse um namorado, que não fosse tão popular, desejei que pudêssemos andar juntas, que ninguém me olharia com nojo, que simplesmente passariam por mim e falaram um simples ''oi'', desejei ser uma coisa que eu não sou, e acima de tudo, desejei uma coisa que eu não poderia ter. Quando chegamos na porta da sala de aula Tommy dei uma rápida olhada para mim e entrou se sentando ao lado de um dos seus amigos.
Quando chegou na metade da manhã já não me aguentava mais, a dor em meu corpo era forte e juntando ao fato de que eu ainda não tinha visto Sue só piorava toda minha situação. Andei em direção ao refeitório depois de mais uma aula, esperei que praticamente todos já tivessem ido para não correr o risco de esbarar em ninguém, mas sorte não é uma das coisas que eu tenha.
—_ Bem vinda de volta estranha. __ Chris parou a minha frente, bloqueando meu caminho para o refeitório. __ Fico imaginando oque eu tenho que fazer para parar de ver esse seu rosto feio todos os dias.
—_Por favor...Eu só quero passar. __ Supliquei, minha cabeça estava doendo e tudo que eu queria era sentar e comer alguma coisa.
—_ Meu Billy esta no hospital por culpa sua. __ Deu um passo em minha direção, o sorriso nunca deixava seu rosto, ela era uma menina bonita, mas aquele sorriso frio a deixava tão...Feia, era a feiura da alma.
Como alguém pode ficar contente só em fazer o mal para outras pessoas, em momento algum eu fiz qualquer coisa que pudesse justificar esse ódio dela por mim. Mas pessoas como elam não precisavam de um motivo, eles simplesmente odiavam, era o que fazia, infelizmente.
—_Eu...Eu não fiz nada com ele.
—_ Você existir já é um mal contra todas as pessoas White! __ Ela me empurrou em direção aos armários me fazendo perder o folego por segundos.
—_Nã...Não faça isso...Por favor, eu estou machucada. __ Pedi tentando me afastar das suas mãos que me prendia em direção ao armário.
—_ Por quê você tem que ser tão teimosa Carrie? __ Perguntou com raiva. __ Faça um favor a si e a todas as pessoas a sua volta, acabe com isso.
Eu aprendi com o tempo que chorar não ajudava, não deixava eles com pena, apenas os deixava mais felizes, era um objetivo realizado, me fazer chorar, me fazer sofrer. Então eu não chorava, eu segurava minhas lagrimas, eles não mereciam elas, eu poderia sim ser esse lixo que eles tanto tentavam me fazer acreditar ser, mas eu não daria mais motivos para eles serem felizes as minhas custas, eu não tenho por que abaixar a cabeça, eu não estou errada em viver, eu não estou errada em ser eu mesma. Respirei fundo levantando a cabeça e olhando em seus olhos, só conseguia ler o desprezo.
—_ Eu tenho pena de você Chris. __ Disse firme, seu aperto em meu corpo contra o armário deu um pequeno afroixo.__ Não é eu que tenho que acabar com isso.
Mesmo com a dor em meu corpo eu me obriguei a sorrir, eu não sou fraca, você não é fraca, não mesmo, eu sou forte, isso, você é forte. Levei um susto quando as portas dos outros armários começaram a se bater, Chris surpresa me largou e consegui me desgrudar da parede respirando aliviada. Ouvia barulhos vindo de alguma das salas, como se coisas estivessem se destruindo, barulhos de coisas quebrando. Os alunos do refeitório correram em direção ao corredor em que estávamos, as luzes piscando sem parar.
—_ Oque é isso ? __ Ouvi alguém gritando em algum luga.
Pela primeira vez eram eles que estavam com medo, não eu, eu não estava com medo.
—_ Fiquem todos calmos. __ Professora Collins gritou de algum lugar em meio a todo aquele barulho.
Todas as lampadas começaram a queimar, as pessoas se abaixaram no chão, se protegendo dos vidros que caiam em suas cabeças. Continue em pé no mesmo lugar, não sentia mais dor alguma, estava feliz, acho que poucas vezes em minha vida senti essa sensação. Não estava com medo, mas estava bem, por que dessa vez eram eles, todos os alunos gritavam, enquanto as lampadas se quebravam e as portas batiam.
—_ Você esta sangrando. __ Uma voz se fez presente em meio a toda aquela gritaria, me forcei a focar no que estava acontecendo, Sue estava parada em minha frente, sua mão estava em meu rosto, perto dos meus lábios, seus olhos eram tão assustados quanto os dos outros. __ Temos que nos proteger !
Ela tentava me puxar para baixo, estava tentando me proteger, diferente de todas aquelas pessoas, Sue nunca tentou me machucar, pelo contrario, ela estava tentado cuidar de mim, ela estava ali pra mim, em minha frente, preocupada comigo. Tirei a mão dela do meu rosto a segurando e pela primeira vez naquela manhã eu sorri, por que finalmente consegui a ver, ela estava aqui. Da mesma maneira que tudo começou, se acabou, as portas pararam de bater e os barulhos pararam, sobrando apenas as pessoas assustadas abaixadas no chão. Me senti tonta e estava para cair quando os braços de Sue me seguraram no lugar.
—_Peguei você. __ Sua voz era suave em meu ouvido, seus braços me mantendo de encontro ao seu corpo. __ Não vou soltar você Carrie, vai ficar tudo bem.
Eu sabia que iria, pela primeira vez na vida eu sabia que ficaria tudo bem, por que ela estava me segurando e foi mais do que eu tive em toda minha vida.
—_ Fui eu... __ Sussurrei, não conseguia dizer se estava acordada ou dormindo, me sentia bonhando em realidade e sonho.
—_ O que ? __ perguntou um pouco mais alto quando todas começaram a se levantar e falar ao mesmo tempo.
—_ T...Tem...Tem alguma coisa errada...Comigo. __ Consegui dizer antes de apagar totalmente.
Sue's POV.
No mundo real as pessoas não tinham poderes, ninguém voava ou tinha visão de raio-X, acho que o mais próximos que podemos chegar de um herói é se alguém se vestisse de morcego e fizesse justiça com as próprias mãos. Carrie estava confusa, ela não poderia ter causado o que aconteceu, nenhuma pessoa poderia causar aquilo.
Deveria estar procurando por Tommy, a enfermaria estava lotada, muitos alunos tinham se cortado com os vidros, Tommy poderia ser um desses alunos, eu deveria estar atrás dele, mas não conseguia, meu corpo simplesmente não respondia meu comandos quando se trava de Carrie White, ela estava em uma maca desmaiada e eu não conseguia sair de seu lado, a enfermeira disse que ela pode ter desmaiado com o susto, espero que tenha sido apenas isso. O sangue em seu nariz não me deixava pensar que era apenas um desmaio devido ao susto.
Esqueci o barulho a minha volta quando Carrie abriu os olhos, ela parecia confusa, olhava para tudo ao seu redor, até que finalmente focou sem olhos em mim.
—_ Não precisa ficar nervosa, você está bem. __ Disse tentando tranquiliza-la.
—_ Eu...Eu...Fiz...Eu fiz aquilo. __ Respondeu com os olhos arregalados, sua mão vindo em direção ao meu braço e o apertando forte.
—_ Carrie, olha pra mim. __ Pedi me aproximando mais do seu rosto. __ Você não pode ter feito aquilo, para de dizer isso, as pessoas... Elas não podem ouvir você dizer isso.
—_ Sue...Eu estou com medo, eu fiz aquilo...Eu fiz...Eu fiz aquilo. __ Ela sussurrava nervosa.
Me abaixei mais até colar minha testa na sua, meus olhos focados nos dela, no momento estava pouco me lixando que alguém poderia estar vendo o que estava acontecendo aqui, tudo que eu queria era acama-la, era cuidar dela.
—_ Pequena, você não fez nada. __ Disse cada palavra pausadamente para que ela acreditasse em mim.
Arfei quando suas mãos veio em direção a gola da minha blusa, me puxando para mais perto, me mantendo ali, sentia sua respiração quente em cima da minha, seus olhos vagavam por todo meu rosto, parando algumas vezes em meus lábios. Posso não ter muita experiencia em questão romântica, mas sei reconhecer quando alguém deseja me beijar, e era exatamente esse sinal que estava vindo de Carrie, ela queria me beijar, e eu estava ao contrario do que deveria ficar, estava desejando esse beijo, eu queria que ela fizesse essa escolha, por que não saberia se conseguiria.
—_ Tem alguma coisa errada comigo Sue. __ Ela disse olhando nos fundos dos meus olhos, me senti tremer com a intensidade do seu olhar para mim.
—_ Nunca teve nada de errado com você, Carrie White.
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