Carpe diem: Viva Intensamente
10 Capítulo 9
A primeira coisa que fizemos ao chegar à Praia do Bonete foi jogar as coisas na areia e dar um mergulho no mar gelado como recompensa pela longa caminhada. Parecemos crianças que acabaram de ganhar exatamente o que queriam de natal. Depois de muita gritaria, jogação de água uns nos outros, observo o paraíso que estamos. A praia é linda, sua orla é coberta de árvores chapéu- de- sol que fazem as sombras na faixa areia branca que é grande e ao final do lado esquerdo, desemboca em um Rios. E a água do mar, essa é a água mais cristalina que eu já vi na minha vida.
Depois de um breve descanso na areia da praia onde só ficamos olhando para o céu Azul, demos uma volta pela Praia do Bonete. Seguimos até o Rio Nema onde tinha uma grande movimentação de pescadores e o pessoal alugou algumas pranchas de surfe.
—Ânimo, Odin — diz Luci passando por mim — Estamos no paraíso.
— Eu estou super empolgado — respondo dando um soco no ar. Eva se aproxima e então sinto que devo agir como um macho alfa — Eu sempre surfei... Sabe... Adoro... Ondas e todas essas coisas...
— Bom saber, será o primeiro a curtir as ondas — avisa Eva jogando aquela prancha nada leve em cima de mim. Ela ri e continua — Mostre para nós o que sabe fazer.
Caminho com a prancha debaixo do braço, pensando em como reverter essa situação. Você e a sua boca grande, hein Marcelo! Respiro fundo e tento encaixar a prancha na areia, mas é impossível. Tento fincar várias vezes, mas ela cai em todas elas, dando motivo para todos rirem de mim. Até a Betina consegue encaixar sua prancha, menos o macho alfa aqui. Quer saber, quem precisa coloca a prancha para apoiar? É só entrar na água e subir, coisa simples. Caminho em direção ao mar e percebo que ninguém veio comigo, já que todos estão passando uma espécie de cera em suas pranchas. Quer saber, aposto que antigamente não tinha dessas frescuras, então nem vou ensebar esse trem, talvez seja isso que faça com que todos caiam da prancha e o que eu preciso é de estabilidade. Também não preciso desse fio pra segurar meu pé, só preciso de dez segundos em cima da prancha, só isso.
Entro no mar e deixo a prancha flutuar, tranquila e totalmente estável. Para que curso de surfe quando se tem o dom? Respiro fundo e olho para eles sorrindo, super confiante. É só subir, Marcelo, só isso. Seguro com as duas mãos na prancha e faço impulso, sinto meu tronco em cima da prancha... Por dois segundos, pois logo ela vira me deixando cair dentro do mar. Agora é questão de honra. Tento mais uma vez e... SPLASH! Estou embaixo da prancha, para alegria geral dos meus amigos que apenas me observam da areia. Aposto que eles também não conseguem e ficam aí querendo menosprezar o meu talento.
Mais uma vez,
SPLASH!
Por trás da prancha...
SPLASH!
Pela frente é melhor...
SPLASH!
De costas...
SPLASH!
Quer saber, eu nunca gostei de surfar... Devo admitir que eu sempre tive vontade de saber como é surfar... Mas é só vontade mesmo. Para quem ainda não percebeu, eu não sou o tipo de cara que pratica esporte... Ainda mais como esse. Sorrio sem graça e caminho em direção à praia. Então o que era risadas se transformou em rostos preocupados. Eles gritavam e apontam para trás, mas eu não vou cair nessa, eu sei bem como é essa brincadeira, eu sei que assim que olhar para trás não terá nada.
— ODIN, CUIDADO!- Grita Eva.
— O Q...?
SPLAAAAAAAAASSSSH!
***
Dor e muita água... Isso é o que temos para agora. Sinto meu corpo rodopiar no meio daquele mundaréu de água que me cerca . Tento nadar, mas parece que cada vez mais vou para o fundo. Meus pulmões parecem que irão explodir de tanta pressão. Tento enxergar, mas o sal só faz arder meus olhos, é o fim... Irei morrer afogado. Então sou jogada em direção ao fundo e toda a água desaparece... Estou na areia... Estou salvo. Levanto e todos estão me encarando, surpresos.
— EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE- grito feliz com os braços erguidos.
— Odin — chama Bob olhando pra mim.
— Vocês viram isso? — pergunto empolgado — Cara, foi louco!
— Odin... — interrompe Betina colocando a mão no rosto.
— Sério, isso deve valer como surfe, né? – pergunto curioso. Eu enfrentei Poseidon, deve valer alguma coisa.
— Odin... — diz Luci apontando em minha direção.
— O que é? — pergunto olhando para eles.
— Cadê o seu short? — pergunta Eva olhando para baixo.
Então eu olho para baixo... Estou completamente nu. Oh, merda! Tampo meu “Marcelinho" com as mãos e sorrio sem graça. Eles se olham e caem na gargalhada. VIDA 978 X zero Marcelo.
***
Depois do pequeno (não tão pequeno... na verdade é bem acima da média... tipo uns 30 cm... 20 cm... 18 cm... okay, okay, tamanho suficiente para atrair a atenção de algumas pessoas. Aliás, tamanho não é documento.) incidente, fomos armar as barracas (lógico que antes eu coloquei um short, né? Não fiquem pensando que fiquei fazendo as coisas nu, não, seus sem vergonhas). Eva me ajudou com a minha barraca, que dessa vez ficou até que bem ajeitada. Por mais que ela tentasse ficar séria, sei que deseja gargalhar de mim. Começo a pensar que Eva talvez me veja só como um cara magrelo, atrapalhado e sem noção (mas com um "Marcelinho" digno de atenção). Sou o cara ideal para a Friendzone de qualquer mulher.
— Em que está pensando, Odin? — pergunta Eva ajeitando o teto da minha barraca. Ela sorri em minha direção.
— Eu estou pensando... Em como parar de ser tapado. — respondo, sendo sincero. Passo a mão na lona da barraca e continuo — Eu só quero ser... Normal.
— Mas você é... Normal. DO seu jeito normal, mas — responde Eva tocando em minha mão. Sua mão é quente e macia. Ela mantém o sorriso nos lábios — Você...
— Olha o que encontramos — diz Betina se aproximando de nós.
Olhamos para suas mãos: um pinguim! Como um pinguim foi parar em uma praia... Quente?
— Ele estava na areia — explica Luci para nós.
Pinguim está bastante debilitado e com alguns machucados nas costas. Eva pega o animal das mãos da Betina, analisa suas asas, seu tórax, o bico... Como se fosse especialista em tratamento animal. Será que a Eva é veterinária? Ela o coloca no chão, mas ele mal consegue ficar em pé.
— Não há nada que podemos fazer — afirma Eva, séria — Coloquem de volta na areia.
— O quê? — pergunto, chocado. — A gente não pode deixar ele na areia, ele vai morrer.
—Se for para ser assim — diz Eva dando os ombros. Ali está a Eva fria que eu conheci no primeiro dia.
— Não — digo pegando o pinguim do chão. Caminho em direção ao mar — Ele precisa voltar para onde ele veio.
— Odin, não há nada o que possa fazer — argumenta Eva andando ao meu lado.
— Ele estar vivo já é algo que indica que existe chance de salvá-lo — respondo encarando Eva. — Me surpreende você, toda defensora da vida, desistir de um animal.
— Eu não desisti dele. — diz Eva caminhando ao meu lado. Ela tenta pegar o pinguim da minha mão — Não há nada que você possa fazer Odin! Devolve o pinguim!
— Não! — digo me afastando dela correndo.
Entro no mar com o pinguim nas mãos, ele é uma vida e preciso salvá-lo. Deixo-o no mar, mas não teve jeito ele volta para areia. Tento várias vezes, sob o olhar irritado de Eva. Não me importo com o que ela pensa... Eu só penso em salvar aquele pobre animal. Tento mais uma vez, então as mãos de Eva seguram as minhas.
— Chega, Odin — pede Eva. Olho para seu rosto, seus olhos estão marejados — Não há nada que você possa fazer... Ele irá morrer. Foi para isso que ele veio... Infelizmente não temos o que fazer, é a natureza. Você precisa deixá-lo partir.
— Eu não posso... — sussurro olhando para o pinguim. Eu o solto e caminho em direção à praia — Eu não vou ficar vendo isso acontecer.
— Você não pode controlar isso, deve aceitar que esse é o destino dele – diz Eva, triste — Assim como será o de todos nós... Um dia.
O pinguim volta para a areia, mais debilitado e agora os urubus o rodeiam. Fecho minha barraca e deito. Corrigindo o placar: Vida 979 X zero Marcelo.
***
Dormi cedo, nem jantei com eles, eu realmente precisava repor as minhas energias. Então no meio da noite, escuto sussurro vindo da porta da minha barraca. Ajeito-me, olhando para aquela direção, mas não abro. Vai saber se é o cara da serra elétrica. Então uma luz surge e uma mão se movimenta fazendo gestos estranhos na sombra. Então começo a prestar mais atenção, forma de coelho... Cachorro... Algo indefinido e quase obsceno... Uma figura obscena... Mais obscenidade... Okay, a pessoa é quase uma perversão em forma de gente. Tento abafar o riso com aquelas figuras.
— Eu sei que está acordado, Odin- sussurra Eva — Abre pra mim.
Respiro fundo e então vou em direção à portinhola e abro, ela coloca a lanterna embaixo do queixo, iluminando seu rosto... Sério até uma mulher bonita, fica assustadora quando faz um troço desse.
— Venha, quero te mostrar como fica a praia à noite — explica Eva sorrindo.
— Tá meio tarde pra isso — respondo. Não estou com muito ânimo para fazer tour noturno. — Você sabia que 90% de filmes de terror relacionados com praia acontecem à noite com casais que estão passeando na praia?
— Mas nós não somos um casal — retruca Eva se afastando — Então pegue sua lanterna e venha.
Pego minha lanterninha que não serviu para nada, já que não ilumina nem os meus pés e saímos caminhando pela escuridão, até chegarmos à orla da praia que é iluminada pela luz da Lua que eu nunca tinha visto tão grande como naquela noite. O Céu está estrelado e sem nenhuma nuvem.
— Amanhã será um dia de muito sol — comenta Eva olhando para o céu. Ela sorri em minha direção, sem dúvida estou com uma cara de “Desculpa aí, climatologista”. Ela empurra meu braço e diz — Eu to falando sério.
— Então além de ladra de carros, paraquedista, surfista e bióloga marinha, você também entende de meteorologia? — pergunto. Olho para o céu e começo a apontar dizendo — Ali ao lado da lua temos Vênus, também conhecida como Estrela D'Alva, Cruzeiro do Sul, três Marias, constelação de Orion, Andrômeda, Cassiopeia...
— Além de suicida, você é astrônomo — conclui Eva abaixando meu dedo. Ela senta na areia — Eu não sei muita coisa de astronomia, mas apenas pesquisei algumas coisas sobre as estrelas.
— Eu também não sei muito — digo sentando ao seu lado, fingindo certa humildade que a faz sorrir. — Okay, eu participei durante muitos anos de um grupo de astronomia do colégio.
— Nerd detectado — brinca Eva me olhando com um leve sorriso nos lábios — Então, diga o que aprendeu?
— Muitas coisas, mas não me lembro de quase nada — respondo. Seus olhos castanhos me encaram esperando mais que uma desculpa esfarrapada. — Bom, das 88 constelações catalogadas pela União Astronômica Internacional, conseguimos ver todas, exceto a Ursa Maior e a Ursa menor. Na verdade, ainda conseguimos ver um "pedaço" da Ursa Maior, mas só isso. E ainda temos o privilégio de ver o centro da via láctea, mas depende muito da época do ano. Se um dia pensar em decorar o nome das estrelas, tente começar por esta: Torcularis Septentrionalis. Difícil de pronunciar, mas também de esquecer... Assim como eu.
— Uau, então essa é a sua arma para seduzir as mulheres?- questiona Eva me encarando. Meus olhos analisam o rosto dela, acho que é a primeira vez em que eu realmente reparo em seu rosto. Cílios curvados, sobrancelhas perfeitas, uma pinta no canto da bochecha que, aliás, tem aqueles furinhos, quase imperceptível, queixo fino. E os lábios, carnudos e vermelhos, mesmo sem batom. Seus dentes surgem devagar, perfeitos... Suas bochechas ficam rosadas, então ela se vira, deixando seus cabelos cobrirem sua orelha. — Sabe você não é o único que gosta do assunto, eu também sei uma coisa.
— O... O que é? — pergunto tentando prestar atenção. O que está acontecendo com você, Odin?
— Que não conseguimos ver nenhuma estrela em tempo real. A maioria que aparece no céu está com milhares de anos de atraso. Até o Sol, ele demora oito minutos e vinte segundos a chegar a nós. Se ele explodisse, demoraríamos oito minutos e vinte segundos para percebermos. Logo, estaríamos mortos antes de perceber que o Sol explodiu.
— Interessante, mas acho que todos sabem dessas coisas — digo, sorrindo.
— E que algumas estrelas que observamos no céu não existem mais... — diz Eva olhando para o céu, triste. Ela respira fundo — São apenas imagens de algo que morreu... Assim como nós, em algum momento no tempo espaço, estamos mortos e os nossos descendentes também. Somos apenas reflexos de algo que já aconteceu e não há nada que possamos fazer para mudar isso, pois já estamos mortos e nossa história traçada.
— Estamos falando de estrelas ou do pinguim? — pergunto sério. Ela me encara limpando o rosto — Eu ainda acredito que poderíamos fazer algo por ele, mas pelo visto minha opinião não vale de nada.
— Odin... Ele saiu da rota dele, o que já é difícil para voltar para casa. E pelos machucados, ele sofreu um ataque de um predador. Ele veio para areia para morrer. — explica Eva me observando — Mas algo me diz que o pinguim não é o que está te incomodando de verdade, então o que é?
— Sabe, eu só queria que uma vez nisso tudo, vocês não me vissem como um cara atrapalhado, bobão que só faz merda. — explico , sendo sincero — Eu estou cansado de ser esse cara...
— Isso não é verdade — diz Eva sacudindo a cabeça.
— É sim. — retruco, olhando dentro dos olhos dela — Deve ser por isso que nenhuma mulher me viu como um homem, só como um cara grande, mas bobo igual a um menino. Deve ser por isso que todas me veem como um ótimo amigo, um otário para criar o filho dos outros, mas nunca como... Um homem. Um cara sério, maduro... Eu sempre serei o amigo... Mesmo não querendo ser esse cara.
— Odin... — chama Eva tocando em minha camiseta. Seus olhos encaram meus lábios. Sinto minha cabeça se aproximar, devagar... Ela me olha e eu me aproximo, já posso sentir o calor de seus lábios. Então ela sorri e diz — Venha, vamos nadar... Nus.
Ela se levanta e para um pouco mais na frente, me olhando. Ela toca na bainha do seu vestido e o tira, ficando apenas de biquíni vermelho. O vento bagunça seus cabelos, então ela toca no laço do biquíni soltando e deixando seus seios aparecerem, logo em seguida se foi à parte debaixo. Ela sorri em minha direção e fecha os olhos. Seu corpo é incrível, como se fosse uma obra de arte pronta para ser tocada e admirada.
— Venha, Odin — chama correndo em direção ao mar.
A única coisa que consigo pensar é em sorte... Sorte em poder estar ali. Levanto rápido e arranco minha camiseta e meu short correndo em direção ao mar o mais rápido que consigo para ela não ver o "Marcelinho". A água quente ajuda um pouco, ficamos em uma distancia boa o suficiente, jogando água um no outro. Então aquela bela mulher de olhos castanhos que me fez beber um líquido verde, alugar um Mustang, beber um chá estranho, saltar de paraquedas, fazer trilha, cair de um tobogã natural, tomar um caldo... Aproxima-se lentamente de mim com uma expressão enigmática. Ela segura em minha nuca, seus olhos... Seus olhos me enfeitiçam serenos, com leve tristeza... Seus lábios se abrem e se aproximam dos meus. Então a magia acontece: nossos lábios se tocam, nossas almas se unem naquele tempo espaço particular... Traçado.
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