Sabe quando dizem que só descobriram o que é viver quando beijaram aquela pessoa? Para mim, essa pessoa é a Eva... Perco-me em seus lábios, no toque de sua pele... É como se eu tivesse nascido para aquele momento... Meu destino foi traçado para estar ali com ela, a beijando, a sentindo... Ela me olha, toca meu rosto... Somos um, feitos da mesma alma. Sinto cada centímetro da sua pele, sem pressa... Temos todo o tempo do mundo nosso tempo espaço particular. Sinto sua pele ferver com meu toque, ela me quer tanto quanto eu a quero. Estou pronto (bem pronto mesmo, DO TIPO PRONTO) para ser dela e ela ser minha. Então ela se afasta me olhando preocupada, ao mesmo tempo assustada, enquanto coloca a mão nos lábios, não acreditando no que tinha feito.

— Eva, tá tudo bem? — pergunto, preocupado.

— Precisamos ir dormir — diz Eva, séria. Então ela se vira e vai em direção a areia.

Ando em direção à praia e Eva já se vestiu, andando apressada até a barraca dela. Pego minhas roupas e me visto, então escuto barulhos vindo da barraca da Betina, não demora muito e Lucicraldo sai, não sem antes dar um beijo na garota. Pelo menos alguém teve uma ótima noite. Entro em minha barraca e fico um tempo tentando entender o que fiz de errado. Será que eu estou com mau hálito? Assopro em minha mão e cheiro. Não, não é isso... Será que eu toquei em alguma parte proibida? Fui apressado demais? Ela sentiu o Marcelinho? Ah, realmente devo ser péssimo com mulheres.

***

Na manhã seguinte, acordei e percebi que os outros estão desmontando as barracas. Aproximo de Bob que está passando repelente tranquilamente e pergunto:

— O que tá acontecendo?

— Nada, estamos voltando para casa — explica Bob guardando o repelente. Ele aponta para Eva — Ordens da Chefe.

Olho para ela, seu rosto parece cansado, com certeza Eva não dormiu. Caminho em sua direção, talvez ela tenha esquecido que hoje era o dia de mergulho, assim que chego, ela se afasta, fingindo não ter me visto.

— Eva? — chamo tímido. Ela continua arrumando as coisas sem olhar — Por que estamos guardando as barracas, a gente não ia fazer um mergulho hoje?

— Mudança de planos — responde seca. Ela bufa e olha pra mim — Agora vá desmontar sua barraca, pois teremos de pegar o barco, se não só amanhã que conseguiremos outro e não estou a fim de ficar mais tempo por aqui.

— Certo... Isso tudo é por conta do que aconteceu ontem?- pergunto.

— Por que você acha que tudo gira ao seu redor? — responde Eva com uma pergunta que tá mais para um coice de mula. Ela sorri nervosa e continua — Sabe, você tem de parar com essa sua carência insuportável de atenção. Cresce, Odin! Nem todo mundo tá aqui para te pajear... E Tem mais, é por você ser assim... Carente... Medroso... Atrapalhado... bobo... Que ninguém te quer e você vive na friendzone.

— Desculpa se eu te ofendi- digo me afastando com as mãos erguidas — Desculpa mesmo...

— Para de pedir desculpas — grita Eva chamando atenção de todos. Ela me empurra e diz — Você é... Uhhhh! Quer saber, você vai andando pela trilha. Vamos, embora pessoal — finaliza chamando os outros.

— Pera aí — digo puxando o seu braço — O que foi que eu fiz?

— O que você fez? Você entrou na minha vida e a bagunçou! Você... Você não deveria ter subido naquele prédio! E quer um conselho? Um não, dois. Primeiro, não tente mais suicídio de cima de arranha céus, tá? Isso é cafona, brega e totalmente previsível. E segundo, friendzone não existe, é apenas um lugar criado por vocês homens que não aceitam quando a mulher não gosta de vocês. E quer saber do que mais, eu entendo o motivo pelo qual a Carla fez essas coisas com você. Ela não te amava e você ficou ali com essa cara de dó querendo atenção. Você a pressionou tanto que ela não teve alternativa a não ser ceder a você. Mas vai por mim, se você tivesse aceitado desde o começo que ela não queria você, tudo seria mais fácil e você... Você estaria vivendo sua vidinha de merda longe de mim. Eu poderia ter tido a incrível oportunidade de não ter conhecido você. Agora, adeus, não espero te ver nunca mais, entendeu? Nunca mais! E não se preocupe, o Mustang estará na casa do Bob esperando você.

Ela puxa o braço e caminha em direção à praia me deixando ali, sem entender nada. Sinto meu peito doer... Mais bem mais do que em meu casamento... Eva está me deixando... Saindo da minha vida... E por mais que eu não queira admitir... Estou apaixonado por Eva... E não sei mais como viver sem ela.

***

A Trilha de volta é mais estreita e muito inclinada para subir, somada ao calor infernal que fazia, foi muito difícil chegar à cidade, parece não ter fim. Mas tudo bem, não quero que chegue ao fim, não quero voltar à realidade... A minha vida chata e monótona... No fim das contas... Eu gosto de como sou agora... Das pessoas que eu conheci nesses últimos dias... E gosto da Eva. Então, não, eu não irei voltar para aquilo... Eu quero mais... Eu desejo mais... E eu desejo Eva. E ela não pode sair da minha vida assim... Não sei uma boa explicação.

Já é quase noite quando finalmente chego à frente da casa de praia do Bob, as luzes estão acesas, o que indica que eles ainda não foram embora. Paro na frente da porta, pronto para reivindicar algo... Mas o quê? O que eu tenho a dar a ela? Preciso de um plano... Preciso de um discurso... Vamos lá, Marcelo... Dê o seu melhor agora... Pense... Pense...

— O que está fazendo aqui fora? — pergunta Bob abrindo a porta.

— Eu vim... Eu preciso falar com a Eva.

— Cara, é melhor não... — diz Bob. Ele coloca a mão no bolso e tira a chave do Mustang — Ela pediu para te entregar isso e dizer para você nunca mais procurá-la.

Quem me conhece sabe que nesse momento eu recuaria, pegaria a chave e iria embora sem questionar. Quem me conhece sabe que eu sempre fui o tipo de cara que jamais desrespeitei um pedido sequer, muito menos de uma mulher. Assim é o Marcelo, o cara que respeita as outras pessoas... Pego a chave da mão do Bob e fico olhando para aquela chave. Naquele momento, recuar me parece errado. Eu não posso fingir que nada disso aconteceu, ir embora para casa e viver a minha vida.

— Bob, se você não sair da minha frente agora, eu terei que lhe dar um soco- aviso encarando Bob.

— O quê? Cara, você nã... — então minha mão fechada se enfia no meio do maxilar de Bob que cai no chão.

Um aviso aos navegantes: Socos doem tanto em que toma quanto em que desfere. Mesmo com a minha mão pedindo socorro, entro na casa de Bob e subo as escadas em busca de Eva. Mesmo que ela não queira falar comigo, eu preciso falar com ela.

— Eva!- grito pelo corredor. Não sei se é a dor da mão , mas meu grito tá tipo Tarzan em busca da Jane — Eva! Eva!

Então ela surge no meio do corredor. Seus olhos e nariz estão vermelhos, me deixando na dúvida se ela estava chorando. Eva cruza os braços e me encara com repreensão... Talvez eu tenha exagerado no grito, mas ainda estou na razão.

— O que você quer Odin? -pergunta autoritária.

— O que eu quero? Eu quero entender o que tá rolando? Ontem à noite você estava ótima, quase uma pessoa normal... E hoje acordou uma megera indomável, grossa estúpida. Qual o problema? Foi algo que eu fiz?

— Sim, foi algo que você fez. Você prometeu uma coisa e não cumpriu — responde Eva, séria.

— Okay, o que foi que eu prometi e não cumpri?- pergunto. Eu sou péssimo com promessas... Eu geralmente esqueço que faço.

— Você prometeu que não se apaixonaria por mim- responde Eva, irritada.

— Ahhhnn... Isso. Olha, Eva...

— Eu vi nos seus olhos, Odin. Você prometeu não se apaixonar por mim e não cumpriu- interrompe Eva, brava. — E eu deixei bem claro o que aconteceria se fizesse isso.

— Eva... -respiro fundo. Como reverter essa situação. Eu prometi, mas não cumpri. Erro meu, mas como não se apaixonar por alguém? — Diz pra mim como não se apaixonar por alguém? Ensine como não se deixar levar por uma paixão... A verdade é que fui um tolo em achar que não me apaixonaria por você. Na verdade, a culpa é sua se eu me apaixonei por você! Então foi culpa sua se não consegui manter a promessa.

— O quê? — pergunta Eva, incrédula — Minha culpa?

— Claro, ou você acha fácil não me apaixonar por uma garota louca que me leva fazer coisas que eu jamais pensei em fazer na vida? Acha que é fácil não se apaixonar por seus olhos castanhos que mudam de tonalidade conforme seu humor?Quando está alegre, seus olhos parecem âmbar, quando está irritada, eles ficam quase preto, quando está triste... Como está agora... Eles ficam em um tom envelhecido... Mas o brilho, o brilho ainda está aí. Como não me apaixonar por esses cabelos castanhos que parecem aquelas fumaças de comida de desenho atraindo sua presa, por seu rosto... Essas covinhas na bochecha que te dão um ar de donzela indefesa... E o que falar dos teus lábios...

—Odin! – repreende Eva.

— Cala boca, Eva. — retruco, fazendo-a arregalar seus olhos castanhos — Deixa-me ter o meu momento filósofo apaixonado por uma maluca que conheceu em um arranha céu. Onde eu estava?

— Tá falando sério?- pergunta Eva que recebe como resposta minha expressão séria. Ela bufa e diz — Meus lábios...

— Seus lábios... Eu não poderia morrer sem ter tido o prazer de beijá-los... Eles me deram um motivo para estar aqui. Mas não é só isso. Você me deu uma razão de estar aqui. Você é a pessoa mais louca e sensata que já conheci. A pessoa mais legal e mais insuportável que tive o prazer de conhecer. Você me leva do céu ao inferno em segundos... Então, seria estranho Eva, Roberta, Carla, Sarah, ou seja, lá qual o seu nome, se eu não me apaixonar por você...

— Você está cometendo um grande erro em se apaixonar por mim – avisa Eva olhando para o chão.

— Somos dois... Você também está apaixonada por mim... Eu vi isso na praia — disparo. Agora eu sei que fudeu tudo de vez. E se ela não estiver eu nunca fui bom em saber se alguém gosta de mim ou não e a Eva é ótima em esconder sentimentos.

— Era só pra você aproveitar o momento, Odin. — responde Eva — Era só pra você viver intensamente enquanto pode, mas você... Você tinha que ser esse cara, não é? Esse cara meigo, generoso, amável... Esse cara que mexeu comigo. Não estou dizendo que me apaixonei por você... Mas...

— Mas o quê? — pergunto curioso. — O quê, Eva?

— Você tem mexido comigo e isso é errado. Era só para ser uma curtição.

— Eu não quero só uma curtição — digo me aproximando. Calma, Marcelo, calma, um passo de cada vez — Eu quero você, todos os dias...

— Para quê? Pra cairmos na rotina? Para sermos um casal chato, sem graça que ficará acomodado assistindo TV no sofá?- pergunta Eva se afastando — Relacionamentos são chatos... As pessoas se acostumam com as outras e depois... Depois deixam de se amar, olhar nos olhos, de viver... Eu não quero isso. Leve com você os momentos que tivemos e só.

— Me deixe provar que isso não é verdade- peço.

— Você? O cara que foi traído pela noiva? Odin... Você não entende... – fala Eva se afastando.

— Eva — chamo me aproximando. Seguro seu braço e a puxo para perto de mim — Meu nome é Marcelo.

Antes que ela continue dizendo algo, lhe dou um beijo.

***

Eva não me afasta, nem mostra resistência ao meu beijo. Ela passa os braços por meu pescoço e se deixa levar... Ergo-a em meus braços e a levo para o quarto... Deito-a na cama... Ela me olha... Seus olhos estão envelhecidos... Suas mãos procuram minha camiseta... Minhas mãos percorrem pelo seu corpo... Ela tira minha camiseta e me dá um beijo... Eu tiro sua blusa..., abro seu sutiã... Ela toca em meu cinto... Desafivela... Apesar de meio atrapalhado, tiro minha calça... Ela tira seu short... Calcinha... Beijamos-nos... Tocamos-nos... Observo cada parte do rosto de Eva... Ela toca em meus cabelos... Acena com a cabeça... Está pronta... Ela está quente... Pronta... Estamos em sintonia... Ela é perfeita... Suas expressões... seu calor... Toque... Sua pele incendeia... Somos um... Posso sentir o tempo passar devagar... Perco-me... Somos um... Somos nós... Eva... Minha Eva... Minha pequena Eva.

***

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

—Não há nada que possamos fazer... Vocês precisam tomar aquela decisão... Como podem ver, não há resposta...

— Até quando...?

—Até meio dia... nós sentimos muito... mesmo.

— Adeus.... Adeus, meu filho... Adeus, marcelo...

***

Acordo assustado, mais uma vez tive aquele sonho horrível naquele quarto branco, às vozes, quero me lembrar de mais coisa, mas o sonho já está em fragmentos. Olho para o lado e estou sozinho. Sei que o que aconteceu ontem foi real, pois o cheiro dela está aqui e eu estou em seu quarto. Levanto da cama animado e vou ate o banheiro, onde tomo uma ducha e penso em como irei agir quando estiver lá embaixo com o pessoal. Será que eles ouviram? Desligo a ducha e paro na frente do espelho, preciso me preparar para o que irei enfrentar... Então decido treinar para não dar na cara que transei loucamente a noite toda com a mulher mais incrível da minha vida.

Posso chegar à copa com um andar largado, parar e dar uma coçadinha no saco e dizer: E aí, brothers? Tudo na Nice? Só para saberem, sabe a Eva? To pegandoooo

Não... Isso é coisa dos anos noventa...

Chegar como quem não quer nada e dizer: “Oi... como o dia está lindo... transei com a Eva!”.

Muito desesperado.

Fazer cara de galã de novela e dizer: “Fiz amor à noite toda com a Eva...”.

Okay, definitivamente estou mais para Jeca Tatu que para José Mayer... Falando nisso.

Posso fazer cara de coronel nordestino, agarrar a Eva e dizer: Eva venha que eu quero lhe usar!

Uma boa... Mas talvez fosse melhor tirar alguma coisa né? Tipo a parte em que digo que transei com a Eva... Mas cara, eu transei com a Eva... Como eu posso não contar a coisa mais empolgante da minha vida desde... Desde... Desde que eu consegui adquirir bom booster das cartas de Magic. Aquele dia foi louco... Bom, voltando ao dia mais empolgante da minha vida... Eu preciso descer sem parecer vitorioso, só irei descer as escadas sem dizer nada.

***

— Bom dia, Odin — diz Bob tomando café como se nada tivesse acontecido. Na verdade, não deixe nenhuma marca do soco que dei nele.

— Eu fiz amor com a Eva — disparo. Merda, Marcelo, mantenha a língua presa cara.

— O quê? — pergunta Bobo logo após jorrar café pelo nariz.

— EU pedi desculpas pelo soco — minto.

— Sei...

— Cara, você viu a Eva? — pergunto nervoso.

— Então... A Sara foi embora — diz Bob. Meu mundo desaba, como assim embora? Depois de ontem... Por que ela faria isso? Ele bebe um gole de café — Ela pediu para você encontrá-la no lugar onde se conheceram, ao meio dia.

Olho para o relógio de parede são 9h30! Eu tenho de voltar pra São Paulo, voando, mas como. Bob sorri em minha direção.

— Ela deixou o Mustang — diz como se adivinhasse meu pensamento. Ele joga a chave em minha direção — Toma de novo. Só não me bate dessa vez.

— Pode deixar — digo sorrindo. Passo por ele, preciso correr e encontrar Eva. Mostrar para ela que o seu lugar é do meu lado.

— Marcelo — chama Bob me surpreendendo — Foi uma honra te conhecer... Espero que dê tudo certo. Adeus.

— Até breve — respondo. Se tudo der certo, eu com certeza quero Bob em nossa vida... Ele é um cara incrível.

***

A Eva tem razão a respeito de dirigir esse carro, é algo único e indescritível. Minha mente viaja nas possibilidades do que poderá acontecer quando eu chegar no W. Zarzur. Eu a verei, a convencerei de que é melhor ficarmos juntos... Depois começamos a namorar... A pedirei em noivado lá em cima... Sei que parece brega, mas ela vai gostar. Ou vai me odiar... Enfim, depois de uma longa discussão... Iremos ficar noivos... Casaremos... Teremos filhos... Uma menina igual a ela... Eu sei que teremos uma assim, impetuosa, determinada, alegre...

Estaciono em frente ao Zarzur, um Dejavú acontece quando olho para aquele prédio. Um enorme relógio marca as horas: 11h30. Vou em direção ao elevador, nem louco que eu vou de escadas. Respiro fundo aperto para o terraço, então me lembro de que não tenho nada em mente para convencer Eva a ficar comigo...

Eva... Fique... Fique comigo... Eu provarei a você que podemos ter todos os dias alegres e louca e com certeza, seremos felizes. Se você não quiser ficar, por favor, me leve com você. Eu não sei mais viver sem você...

O elevador abre a porta... Droga, eu deveria ter comprado rosas! Ou margaridas... Ou lírios. Saio do elevador e caminho em direção a Eva que está de costas na beirada de braços abertos, seus cabelos balançam contra o vento... Ela está com o mesmo vestido daquele sábado... O que ela está fazendo...?

— Eva — chamo, preocupado. Aproximo devagar... Ela não está pensando em...

Ela se vira e desce devagar, como se estivesse em câmera lenta. Seus olhos castanhos foram tomados por lágrimas que escorrem pelo seu belo rosto.

— Olá, Marcelo — responde Eva com um sorriso triste. Ela segura na minha mão e me conduz até a beirada, onde paramos. Olhando assim, agora sei a loucura que eu estava cometendo — Nós precisamos conversar...

— Eu sei, mas antes de você começar e tentar me mostrar o porquê devemos ficar separados, eu tenho algo a dizer... E de preferência longe da beirada — digo sério, mas ela me ignora totalmente, como sempre me deixando lidar sozinho com meu medo de altura — Eva... Fique... Fique comigo... Eu provarei a você que podemos ter todos os dias alegres e louca e com certeza, seremos felizes. Se você não quiser ficar, por favor, me leve com você. Eu não sei mais viver sem você...

— Não temos tempo para isso — interrompe Eva olhando para o horizonte. Nuvens carregadas vêm em nossa direção e eu não estou nem aí se eu vou me molhar, desde que saia dali com Eva — Eu preciso te contar uma coisa.

— Eu quero que seja minha player dois no Xbox — disparo. Não quero escutar o que ela tem a dizer, não importa quem ela é, o que importa é ter Eva em minha vida — Quero que você seja a minha beneficiária no seguro de vida... Quero que você seja meu número de emergência no aplicativo do meu celular... Quero que você seja minha parceira no imagem em Ação... Quero você seja meu Carry no Dota, pois eu desejo ser o seu suporte... Eva, você a melhor pessoa da minha vida, e não quero perder a oportunidade de ficar com você.

— Você nem sabe meu nome de verdade- dispara Eva.

— E nem quero... Para mim, você sempre será Eva, minha Eva. Eu vou ter a vida toda para te conhecer... E eu adoro saber que tenho essa possibilidade.

— Marcelo, você não terá essa possibilidade- diz Eva, de cabeça baixa.

— Eva, não vá. — peço segurando em seu queixo

— Mas eu não irei... — responde Eva se afastando — Você quem irá... É você, Marcelo que voltará para sua vida e me esquecerá, para sempre.

— Não, eu não... DO que está falando ? — pergunto confuso — Eu não irei a lugar algum... Não sem você.

— Você não tem opção, Marcelo- argumenta Eva — Se você não for embora agora, você morrerá e eu não posso viver com essa culpa.

— Como assim? Eu, morrer? Do que você está falando?

— Marcelo nada do que você viveu aqui foi real — confessa Eva de braços abertos — Isso tudo é a sua imaginação fértil trabalhando para que você sofra menos até se recuperar fisicamente... Da sua tentativa de suicídio.

— O quê?- pergunto. O que raios a Eva tá falando, ela enlouqueceu?

— Você saltou aquele dia, Marcelo. Você se jogou desse terraço... Caiu lá embaixo... E só Deus sabe como você ficou vivo.

— Você tá louca? Acha mesmo que eu irei acreditar nisso? Eu to vivo e você também. — respondo, irritado.

— Não... Marcelo, só você está vivo. Eu... Olha, temos pouco tempo. Você adora a lógica, então a use. Não usamos dinheiro para alugar o Mustang, não abastecemos os veículos e nunca temos problemas com roupas... Isso não acontece na vida real.

— Mas eu sinto as coisas... Dor... Raiva... Felicidade... Prazer... Você sentiu comigo o que fizemos ontem!

— Os seus sonhos... Pense neles... Olhe cada um deles... A verdade está lá... Seus sonhos são seu momento de lucidez no outro mundo.

— São apenas sonhos, Eva. — afirmo, quase chorando.

— Não tenho tempo para ficar debatendo com você, Marcelo- diz Eva se afastando de costas até a beirada. Ela abre os braços — Olhe atentamente.

Eva fecha seus olhos... Seu corpo se curva... Então ela se joga.

***

Fico paralisado... Seu corpo... O corpo de Eva não está lá embaixo, mas eu vi, eu vi ela se jogar. O que está acontecendo? Cadê a Eva? Merda! O que raios está acontecendo...?

— Estou aqui — diz Eva atrás de mim. WTF? Afasto-me o máximo que consigo até para perto da beirada — Tenha calma... Agora você entende o que eu quero dizer?

— Okay... Você é um fantasma... Okay...

— Não... Talvez seja... Não sei te dizer. Eu só sei que eu não morro se pulo desse prédio. Eu não morro se sou atropelada... Nada que possa ser letal, faz efeito comigo. Eu estava aqui no dia em que você tentou saltar, eu fiz de tudo para você não pular, mas você pulou e depois voltou para cá e me viu.

— Então eu sou um fantasma... — concluo.

— Eu não sei, eu só sei que se você não pular dentro de três minutos, você não ficará igual mim... Preso nesse lugar. Você morrerá...

— Você tá falando que eu tenho que saltar? Daqui, desses 51 andares?

—— Sim, por favor, confie em mim.

— Isso é loucura... Tudo isso. — digo com as minhas mãos na cabeça, transtornado. Eva está louca, definitivamente, louca.

— Não tenho tempo para explicar... apenas salte , Marcelo.

— Mas e se eu quiser ficar com você?

— Não fique, vá. Viva sua vida.

— Minha vida é uma droga... Eu nem sei se aquilo é vida.

— Então volte e faça diferente... Mude sua história... Aproveite sua chance e volte para lá. Viva e se deixe viver. Faça tudo o que sente vontade e nunca olhe para trás. Faça seu presente, esqueça o passado.

— Não, eu quero ficar aqui... Com você, eu te amo.

Um forte raio cai no para raio do prédio, vento por toda parte... Não é só chuva, mas uma grande tempestade. Olho para Eva que está chorando... Meu tempo está acabando...

— Marcelo, se você me ama... Você precisa fazer isso por mim. Salte desse prédio e viva plenamente, ame, ria, faça tudo o que eu não posso fazer...

— Não posso- digo olhando para baixo. Não tenho coragem e se eu voltar para cá? E se eu realmente morrer? Não posso ficar sem Eva — Não posso ter uma vida sem você.

— Se você ficar saiba que não ficaremos juntos. — diz Eva chorando — Eu deveria ter falado a verdade desde o começo... Eu não poderei viver com essa culpa.

— Como assim, Eva? — pergunto curioso. O que ela quer dizer com tudo isso?

— Eu te impedi de ir embora, eu tinha a missão de fazer você voltar e falhei... Eu deveria ter somente mostrado o que deveria fazer de diferente e te encaminhado para cá. Era só isso, mas eu me apaixonei por você... agora você está morrendo... E a culpa é minha... Se você morrer, isso tudo aqui acaba... Você não me verá mais... Eu sinto muito...

Outro raio cai mais perto de nós... Os pingos começam a cair fortes, machucando minha pele. Eu sinto, como posso estar morrendo? Como isso não é real?

— Temos um minuto, Marcelo — diz Eva olhando para o céu — Você precisa saltar.

— Eu vou saltar... mas quero te fazer dois pedidos — proponho.

— Não temos tempo — diz Eva, irritada.

— Eu quero um beijo e quero saber seu nome. — digo sério.

Eva se aproxima e me dá um beijo, quente, profundo... Não vou me esquecer desse beijo... Ele é real... Ele está acontecendo... Eu sinto o gosto dos lábios de Eva... Eu a amo... Ela me ama... Ela toca em meu rosto e então se afasta.

— Meu nome é... Ev...

Ela me empurra em direção à queda livre de 51 andares... Ela me empurrou... Meu peito arde... Estou caindo... Caindo... Olho para cima e vejo o rosto de Eva... Seus cabelos balançando... Então sinto golpes dolorosos em meu peito...

— Volte Marcelo...

— Ele está com parada cardíaca, Afastem...

Dói...

— 200, afastem...

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

— 300...

Dor... Queda...

— Estou caindo... Estou indo embora...

Afastem...

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

— Eu vou morrer...

— Vamos lá, Marcelo...

Tuuuuuuuuuuuuuu

Adeus, Eva...

Adeus...

TUUUUUUUUUU... TUUUUUUUUUUU... TUUUUUUUU.......



FIM

ou não.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!