Carpe Noctem

4 Kill!Kill!Kill!


Casa dos Sibley, 11:57h do dia seguinte.

Emmeline estava quieta. Muito quieta.

E isso estava deixando Lily um tanto irritada.

Haviam se passado horas desde o encontro do destino que tiveram com os dois jovens na feira, e desde então a gata se encontrava tão silenciosa que por um momento o desejo de McKinnon parecia ter se tornado realidade. Lily achou que Saturno estava muda.

Ou talvez só a ignorando.

E isso a deixou ainda mais brava.

Sempre foram muito unidas e Emmeline sempre lhe dava os melhores conselhos. Isso é, quando falava com ela. E esse não era o caso, não agora.

Quando Agnes encontrou Lily desolada em frente a cinzas e madeiras queimadas, soube que aquela pequena menina lhe seria útil, além de virar parte da sua família e nada melhor que apresenta-la para sua sobrinha, que a acompanhava naquela tarde cinza. O laço das duas foi quase instantâneo, e a amizade que surgiu depois desse primeiro contato também. Quando Lily tinha doze anos, descobriu como controlar sua magia e Emmeline estava lá, sorrindo para ela. Aos quatorze, Lily descobriu que as borboletas em seu estômago tinham motivo e quando os lábios carnudos e macios tocaram os seus soube que o motivo era ela. Aos dezesseis tiveram a primeira e última briga. E era isso que estava nos pensamentos de Evans nesse exato momento.

Encontrar sua namorada na cama do seu irmão não é uma das coisas mais agradáveis de se ver, menos ainda quando ele está junto.

E foi nesse momento que Evans perdeu o controle pela primeira vez.

Momentos de ambas juntas passaram por sua mente de maneira rápida, fazendo-a se sentir pesada. Sua cabeça girava e os músculos estavam travados, a boca em uma linha fina. Se lembrava de ter gritado, puxado a garota para fora da cama e a largado em um canto. Emmeline estava com um olhar perdido, como se tivesse sido forçada a estar ali. E talvez fosse isso.

Seu irmão, Phoenix, a olhava de modo superior. Ao que parecia, seus planos estavam indo muito bem e sua irmãzinha acabaria machucando aquela que tanto amava. Ele só não esperava pelo vento forte que abriu as janelas, fazendo as cortinas voarem em todas as direções possíveis. Lily falou algo em tom baixo e o baque da porta sendo fechada foi a última coisa que todos no quarto ouviram, junto dos passos apressados de Agnes e Marlene, que corriam em direção ao barulho. Seu irmão havia levantado e agora a observava, sorrindo de lado enquanto esperava o próximo passo.

— Vamos lá, mate-a! Ela veio se jogar nos meus braços, Lily, ela quem veio pedir meu corpo! — sorria ladino, os olhos quase em fendas, testando os limites da menina que o olhava de forma

Ah ela se recordava daquelas palavras. Ponderou acabar com Emmeline, sentir o sangue escorrendo por suas mãos e o olhar se apagando aos poucos. Mas desistiu. Desistiu quando ouviu um fungar baixo que ela conhecia tão bem, sua garota estava chorando e parecia perdida.

Poderia ser considerado azar cruzar com um gato preto, mas nada se comparava a cruzar o caminho de Lily Evans e querendo ou não, Phoenix havia acabado de cometer aquele erro.

Pena que ele não viveria para contar a história.

Como se possuísse vida própria, a grande cômoda de madeira que se encontrava ao lado de Vance se moveu, indo de encontro ao corpo do homem que se encontrava parado sobre o tapete branco. Em um baque surdo, o móvel prensou as pernas de Phoenix contra a parede e o barulho de ossos se partindo pareceu ensurdecedor, a expressão de dor no rosto daquele imbecil fez um sorriso macabro surgir no rosto da ruiva.

E ela caminhou lentamente até chegar em frente ao corpo preso, ignorando os protestos de sua mãe e melhor amiga, que batiam de forma incessante na porta, tentando abrir a mesma de todas maneiras possíveis.

Uma bruxa sabe ser poderosa quando quer, e ela queria. Como uma serpente, se esgueirou sorrateira e levou a mão até o pescoço do homem que, agora, devido a perda de sangue causada pelas fraturas, apenas respirava fracamente. Com um carinho mortal, o pescoço de Phoenix pendeu para o lado e lá estava ele, imóvel. Morto.

Lembrou que não estava sozinha e virou-se para a outra garota, que estava encolhida em um canto enquanto encarava Lily.

Enquanto o barulho da porta sendo aberto era ouvido, ela amaldiçoou Emmeline. O rancor era tão grande que o encanto só seria quebrado quando a bruxa ficasse sem poderes ou fosse morta. E para isso acontecer, Emme teria que morrer também.

Pensou naquele dia enquanto observava Saturno, que tinha o pequeno corpo peludo virado para a janela, de forma tensa. Aquela havia sido a primeira vez em que a garota não falava consigo. E agora lá estavam elas novamente.

— Você realmente vai ficar me ignorando por mais um dia inteiro? O que eu fiz? — perguntou baixo, sabendo que mesmo assim ela havia escutado. Pensou que receberia apenas o silêncio como resposta mas ouviu um bufar e logo a gata, que antes estava observando a rua, estava posta em sua frente.

Saturno havia tirado suas cartas assim que chegaram em casa, na noite anterior e não estava feliz com o que viu. Destino nunca foi uma coisa certa e ela melhor que ninguém sabia disso, portanto tudo aquilo poderia mudar, mesmo as chances sendo mínimas. E ela só queria proteger sua melhor amiga enquanto podia. Ela havia visto amor, morte, perdas e sofrimento. Só esperava que não fosse Lily a passar por isso. Talvez fosse Marlene e para ser sincera, ela não se importava muito.

— Não é como se você me deixasse te ignorar, sabe. — respondeu calma, deitando a cabeça sobre as patas dianteiras, enquanto bocejava. — Você o marcou, foi isso que fez. Eu ouvi Lily e vi como você encarou fixo aquele cara por sei lá, uns cinco minutos? — suspirou, cansada. Sabia que agora não havia volta e mesmo que tentasse, não faria ela mudar de ideia. Havia encontrado quem tanto procurava e prezava pela segurança de sua família mais que tudo. Evans era grata por Agnes tê-la acolhido e sentia como se devesse sua alma para aquela mulher. E talvez isso fosse verdade, mas ela nunca diria isso em voz alta. — Não quero que desista do que pretende fazer até porque conheço você bem o suficiente para saber que não aconteceria, mas por favor, mantenha o foco no que realmente importa, sim? — soou temerosa, fazendo uma pequena desconfiança surgir na mente de Evans.

— Você viu no tarô não foi? E não quer me contar por conta daquela baboseira de destino ser mutável. — disse aquilo como se fosse um insulto, e talvez fosse, já que sua melhor amiga estava escondendo de si coisas relacionadas a seu próprio futuro. De novo. — Eu gostaria de saber se vou morrer, será que posso? — pergunta de forma mordaz, os olhos atentos a cada movimento de Saturno.

Emmeline a ignorou, revirando os olhos.

— Sei que ele já deve ter sonhado com você na noite passada, o que significa que vai tudo ocorrer como deve ser mas espero que você lembre que a garota não precisa sofrer com isso. — o anúncio de passos pesados foi o suficiente para que ela se calasse. Marlene estava lá e subia as escadas com entusiasmo evidente, cantarolando Burn The Witch. Estranho.

— Ora ora ora pelo visto já estão se falando, o que é uma pena já que gostei tanto do tempo de silêncio. Por um momento pensei que estivesse engasgada com uma bola de pelos, Emmeline. — caçoou a loira, sorrindo ao se jogar no sofá verde e macio. — É brincadeira gatinha, não precisa me matar com seu olhar meigo e doce.

— Realmente te odeio na maioria das vezes. — diz Saturno, a voz soando irritada. — Certo Lily, você já sabe o que fazer então vou descer e falar com sua mãe, ela pediu ajuda com umas coisas. — pulou do sofá de forma graciosa, caminhando calmamente até a porta, indo de encontro ao corredor. Porém acabou lembrando de algo importante, talvez o motivo pelo qual aquela menina estivesse ali tão cedo. — Marlene, nada de contar o que você viu. Sim, eu sei que você também viu. — ameaçou e se pôs a caminhar novamente, dessa vez pulando os degraus de forma rápida.

☾☾☾☾

Hotel Le Pavillon, 11:32h do dia seguinte.

James estava cansado. Uma noite mal dormida e toda sua vontade de viver parecia ter sido tirada de si a força.

Maldita ruiva com o sorriso lindo e olhos serenos.

Havia prometido a Dorcas que iria acompanha-la em mais uma aventura na busca de coisas que a fizessem feliz e a menina resolveu que ambos iriam em uma biblioteca. Provavelmente procurar livros sobre bruxaria, tão previsível.

O problema todo estava na noite passada. Potter sentia-se mole e só queria ficar o dia todo na cama, com os lençóis macios envolvendo seu corpo enquanto o sono tranquilo vinha e lhe embalava. Mas sua amiga tinha outros planos, claramente. Para Meadowes promessas eram feitas para serem cumpridas e James iria levantar daquela cama por bem ou por mal.

— James Fleamont Potter eu espero que você levante sua bunda magricela dessa cama em menos de dez minutos ou vou fazer da sua vida um inferno, começando nesse exato momento. — exclamou Dorcas, puxando os pés do rapaz, que grunhiu e jogou um travesseiro na direção dela.

— Está ficando chato e clichê você me jogar travesseiros, sabia? — arqueou a sobrancelha, sorrindo vitoriosa quando um dedo do meio foi tudo que recebeu de resposta. — Ótimo, continue ai e vou sozinha, talvez encontre aquelas meninas da feira pela cidade e suma com elas.

E Potter revirou os olhos.

Dorcas conseguia ser insistente quando queria algo e ele sabia que ela ficaria ali até ele lhe responder.

— Só vou por uma razão. — pontuou, sentando o corpo na cama, estremecendo ao que seus pés entraram em contato com o chão gelado. — E essa razão é a promessa que fiz ontem, sei como são importantes pra você.

Saíram do hotel sem encontrar com Genevieve, o que foi um tanto fora do comum já que a senhora sempre estava ali. Decidiram almoçar em um pequeno restaurante no centro da cidade com ambiente rústico. As cabeças de animais penduradas nas paredes deixaram Dorcas um pouco enojada mas apesar disso, o serviço era ótimos e as pessoas gentis, e ela acabou fazendo alguns amigos por lá também.

Seguiram caminho até a biblioteca quando já se passava das duas e meia, pois a praça era bonita e Meadowes decidiu tirar algumas fotografias.

James novamente revirou os olhos.

Quando finalmente estavam em frente ao edifício, ouviu a amiga suspirar e só com isso sabia que ela estava sorrindo. Ao contrário dele, que se sentia observado.

Ficaram ali em meio aos livros por três horas e ao que parecia a menina estava satisfeita, havia descoberto várias coisas interessantes sobre famílias antigas e agora lembrava-se de onde conhecia aquele sobrenome. Sibley. Leu sobre os Evans, uma antiga família que havia sido morta em um incêndio e ficou chocada ao constatar que talvez fossem parentes da moça simpática da feira. Ou talvez fosse coisa de sua cabeça.

Foi pensando nisso que ela decidiu ir embora, chamando por James que estava cochilando com a cabeça apoiada nos braços. Um verdadeiro anjo. Puseram os pés fora da biblioteca e o vento frio fez-se presente, causando um leve estremecimento em ambos.

☾☾☾☾

Centro da Cidade, 17:49h.

— Sabe que seria mais fácil ir lá e esbarrar com ele, certo? — indagou McKinnon, enquanto lambia seu sorvete de pistache. — Eles não vão desconfiar e não aguento mais ficar aqui atrás dessa árvore. Estamos aqui por três horas. — reclamou, irritada.

— Não é como se eu quisesse conversar com ele, só quero leva-lo embora e acabar logo com isso. — murmurou a ruiva, enquanto observava Dorcas falar alguma coisa para James. — Argh talvez você tenha razão, posso me divertir um pouco com isso também.

— Ah sim, você pode... — sorriu, maliciosa. — Isso me fez lembrar de quando encontrei Sirius Black, bons tempos. Ainda sinto o gosto dele, era doce. — riu quando sentiu um tapa ser desferido em seu braço. — Perdão!

— Idiota. — resmungou Lily, lembrando-se de como Sirius havia sofrido. Sua amiga era cruel as vezes. — Vou adorar mexer com a mente dele, quem sabe com o corpo também. — sussurrou a última parte para si mesma, mordendo o lábio em seguida.

Seus olhos seguiram os jovens até a sorveteria que ambas estavam à pouco tempo, quem sabe não era hora para um sorvete de chocolate com uma camada extra de maldade?