Carpe Noctem
8 Dark Secret
Cemitério da Cidade, 03h37
A bruxa encarava aquele pedaço de carne podre com um sorriso sádico nos lábios carnudos, internamente sentindo o corpo arrepiar por estar na presença daquele imbecil novamente. Mesmo que agora ele esteja um tanto... diferente. Viu a criatura sair cambaleante do que restou da caixa de madeira e espanar os panos que cobriam seu corpo pútrido, resmungando.
— Até que você não está tão mal assim. — disse a loira, dando de ombros. — Um pouco incompleto, talvez, seu corpo era melhor antes e isso devo admitir.
Black resmungou novamente, fechando a expressão. E esse ato fez com que McKinnon lembrasse de algo importante.
— Oh-oh a bruxa comeu sua língua, como eu pude esquecer disso, não é mesmo querido? — murmurou, formando um pequeno bico nos lábios. — Sorte a sua que guardei como recordação. — pontuou, erguendo a sobrancelha. — Não me olhe assim, não é tão estranho quanto parece. Vamos logo sua coisa, preciso levar você até a minha casa.
Marlene virou-se de costas e caminhou alguns passos até ouvir uma movimentação estranha atrás de si, fazendo-a rir. — Largue a pedra, meu bem, sabe que não pode me atingir e provavelmente seu braço descolaria. Agora ande por favor, não tenho a madrugada toda.
A criatura revirou os olhos, deixando a pedra cair em um baque surdo no chão.
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— Acho que assustei você mais cedo, sinto muito. — murmurou Emmeline, sentada na mesa de madeira enquanto observava Dorcas acordar lentamente, focando aos poucos no local onde estava. — Não surte, por favor, geralmente não sei o que fazer nessas situações.
Meadowes respirou fundo, tentando acalmar as batidas de seu coração quando as lembranças dos acontecimentos recentes vinham em sua mente confusa.
— Oi. — sussurrou, sentindo a garganta seca arranhar ao que tentava engolir um pouco de saliva. — Hum, e-eu, desculpe por desmaiar na sua sala? — sorriu levemente, arrumando o corpo no sofá macio e levantando o tronco. Emmeline fez o que conseguiu na tentativa falha de dar de ombros, as vezes ela esquecia de sua condição. — Onde está Marlene?
A gata miou baixo, em descontentamento. — Foi resolver um problema com Agnes, logo estará de volta. E seu amigo está com Lily, em um lugar seguro mas... — disse, arqueando as orelhas peludas.
— Mas o que, Saturno? — questionou, sentindo um vento frio entrar pelas janelas abertas.
— Vou precisar explicar algumas coisas para você, tudo bem? Muita coisa. — sussurrou a última parte na esperança de não ser ouvida, mas não foi o que aconteceu. — Tudo começou quando...
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A ruiva se encontrava olhando para o corpo do homem que dormia na pequena cama macia. James suspirava e resmungava algumas palavras desconexas entre o sono, além de chamar por ela, fazendo-a acariciar os cabelos revoltos na tentativa de acalma-lo.
Ficou naquela posição até sentir a necessidade de respirar ar puro e com um leve pesar, deixou o moreno sozinho enquanto descia as escadas e caminhava até o jardim. Estavam há algumas milhas de distância, em uma casa de dois andares um tanto afastada e aparentemente sem muitos cuidados. Foram minutos até seu momento de descanso acabar e um grito estridente soar em seus ouvidos, Potter havia acordado.
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"Mas que diabos é esse lugar? O que estou fazendo aqui? Onde está Dorcas? E lily..."
— Estamos em uma casa da minha família, sua amiga está bem e você também, como pode ver por si próprio. — respondeu a ruiva, adentrando o cômodo de braços cruzados. — Parece que vamos ficar muito tempo juntos, doce. — murmurou, sorrindo de lado.
— Você me apagou, me trouxe para um lugar deserto e não sei onde está a minha melhor amiga. — pontuou, os olhos quase em fendas. — Acha mesmo que vou acreditar em qualquer coisa que diga? Não confio em você.
Lily revirou os olhos, sorrindo. — Ótimo, pelo visto estou fazendo meu trabalho direito. Enfim, vou te contar os motivos de estarmos aqui e realmente espero que você não.... tenha um ataque, tudo bem? — respirou, vendo o moreno assentir de forma desconfiada, ainda com o corpo sobre a cama. — Provavelmente você vai me odiar depois mas posso lidar com isso.
Evans mordeu os lábios e começou sua explicação, contou sobre sua linhagem e sobre Agnes e Emmeline, sobre seu descontrole na adolescência e também sobre as maldições, explicou e respondeu cada uma das perguntas de Potter, que parecia estar juntando algumas peças em sua mente enquanto julgava em silêncio. Lily optou por não contar a parte do ritual e esconder a questão do sacrifício, o plano deveria seguir mesmo que agora tenha algumas mudanças inesperadas.
— Oh meu Deus! — exclamou James, sentindo o corpo arrepiar conforme a ruiva terminava sua fala.
— Deus está ocupado agora, em que posso ajuda-lo? — brincou Evans. — Ok, sem brincadeiras fora de hora. — defendeu-se, erguendo as mãos em rendição quando recebeu um olhar acusatório. — Sabe, é bem engraçado ver a sua cara de espanto James. — murmura, sorrindo.
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— Isso é bastante coisa para processar, acho que preciso de um tempo. — respondeu Dorcas, indo até o cômodo ao lado pegar um copo d'água. — Então agora a família do tal Sirius está buscando vingança e vocês pensavam que todos eles estavam exterminados? — perguntou, vendo Emmeline concordar com um aceno enquanto seu pequeno corpo felino se movia graciosamente até pular na mesa da cozinha. — E agora eles estão esperando alguém dar o primeiro passo e acabar com todas as bruxas daqui, de vez?
A gata miou, lambendo sua pata dianteira enquanto os olhos estavam atentos nos movimentos de Dorcas.
— Espere, algo está errado. — murmurou, sentindo um odor podre invadir seu olfato. — Não estamos sozinhas Doe, preciso que vá até o andar de cima e fique lá, tudo bem? Sem nenhum movimento brusco. — explicou calmamente, vendo a menina engolir o restante de sua água e se virar em direção até a porta, derrubando o copo no chão quando avista uma espécie de morto-vivo entrar pela porta da frente. — Mas o que...
— Olá família, trouxe um amigo. — gritou a voz inconfundível de Marlene McKinnon, entrando logo após e sorrindo culpada ao ver o estado em que Meadowes se encontrava. — Oops.
— E as vezes me pergunto se você vai parar de me surpreender um dia, Marls. — disse Emmeline, fazendo uma leve careta de desgosto ao respirar mais profundamente. — Pode, por favor, levar seu amigo para rua? Ele está fedendo.
McKinnon riu, vendo o zumbi do seu lado dar de ombros. — Eu sei, provavelmente vou precisar queimar meu carro graças a esse traseiro cheio de vermes aqui. — apontou discretamente para Black, que a olhou sem expressão. — Como fui sem educação. Queridas, Sirius Black. Sirius, estas são Emmeline e Dorcas, é, ela é um gato.
Apesar de ser um crápula, Sirius era educado e por esse motivo apressou-se em dar oi para as moças que lhe foram apresentadas. Teria conseguido, se pudesse falar. Após a tentativa falha, virou-se para a loira e resmungou algumas coisas.
— Sim, eu sei. Bom, vou levar o poço de podridão aqui até meu quarto, digamos que ainda tenho a língua dele em minhas mãos. — sorriu, deslocando o corpo até as escadas, dando um leve aviso no caminho. — Não pense em sentar na minha cama, não pretendo queima-la também.
Emmeline balançava a cabeça observando os dois sumirem entre a escadaria e Dorcas ainda observava os cacos de vidro espalhados pelo chão.
— Vou limpar isso, fique ai para não cortar suas patas. — falou calmamente para Emme, que olhou para o chão e bufou. — Eu estou calma, apenas tentando não lembrar que tem um homem caindo aos pedaços no andar de cima. Pronto, tudo limpo docinho, pode descer.
— Geralmente nós não temos esse tipo de companhia, se quer saber. — disse a felina, sentindo necessidade de explicar a situação estranha. — Isso deve ser coisa de Agnes, você já sabe a história toda e bem, ela pretende extrair informações dele. Acho que você precisa dormir, não é? — viu a garota loira bocejar e coçar um dos olhos, sorrindo cansada. — Vamos até meu quarto, pode descansar por lá.
— Desde que você esteja comigo, Saturno. — murmurou suavemente, sendo guiada pela gata de pelos negros até uma das inúmeras portas que haviam naquela casa.
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O restante da madrugada passou tão rápido quanto uma onda quebrando no mar, era manhã do dia seguinte e Marlene já havia costurado a língua de Sirius novamente em sua boca. Agora, a loira preparava um feitiço para que ele voltasse a ser o que era. Vivo, ou quase isso.
— Fique quieto, preciso pegar um pedaço do seu cabelo. — ralhou Marlene, ouvindo-o bufar. — Prontinho, ficará pronto logo.
— Sinceramente, não sei no que posso ser útil. Claramente você acabou comigo, não é? Isso aconteceu depois do meu funeral, provavelmente. — exclamou Black, sentindo um de seus dedos escorregar e ir de encontro ao chão. — Argh, ande logo com isso ou vou despedaçar na sua preciosa cama. — provocou.
— Bastardo. — bufou, pegando um pequeno frasco de vidro, despejando o líquido vermelho dentro. — Beba todo e sinta a mágica acontecer.
— Qual a chance de você me matar novamente? — questionou, segurando o frasco e bebendo o líquido, até a última gota.
— Agora? Nenhuma, mas não teste minha paciência, querido. — sussurrou, chegando perto do rosto de Sirius, fazendo-a se arrepender. — Ew, espero que isso faça efeito logo.
Ele sorriu, soltando uma lufada de ar propositalmente em direção ao rosto e cabelos dela.
— Te odeio, Black. — resmungou, enojada. — Vou preparar o café lá em baixo, não saia dai até se sentir humano e por favor, tome um banho quando isso acontecer.
Dito isso, a loira retirou-se do quarto e desceu cantarolando uma música qualquer. Separou pães e geleia para o preparo de torradas e colocou água para ferver na chaleira de ferro. Suspirou, pensando na bagunça que se instalava cada vez mais fundo na vida da sua família.
Foi interrompida pelo toque estridente de seu celular, no bolso traseiro do jeans surrado. Era Lily.
— Não me diga que James está tentando acabar com a sua raça ou vou rir muito, florzinha. — brincou, sentindo um peso sair de suas costas assim que ouviu o leve riso de sua amiga do outro lado da linha.
— Está tudo bem, ele está me odiando do quintal nesse exato momento. — riu baixinho. — Queria saber como estão as coisas, mamãe não me mandou nenhuma mensagem e fiquei preocupada.
— Tudo em seu devido lugar... talvez. — murmurou, mordendo o lábio.
— Sei que está mordendo o lábio agora mesmo, conte o que aconteceu e não me deixe curiosa, preciso saber como agir. — retrucou Evans, aflita.
— Trouxe Sirius de volta e agora ele está no meu quarto esperando o efeito da poção, Dorcas desmaiou ontem, mas ela está bem e dormindo com Emmeline, Agnes quer descobrir como todos ainda estão vivos e sim, essa é a razão de Black estar na nossa casa e principalmente vivo. — desabafou rapidamente, quase sem pausa para respirar. — Ufa, me sinto leve.
— Uau, aconteceram muitas coisas pelo visto. — constatou Lily, observando James jogar uma pedrinha no lago artificial do jardim. — Tem ideia de quanto tempo isso vai durar? Vou ficar escondida até o dia do sacrifício ou? — questionou.
— Querida florzinha, existem males que vem para o bem e como podemos ver, para o nosso bem. — explicou Marlene, murmurando um feitiço de levitação em direção ao armário, deslocando os pratos até a mesa. — Agora você vai passar todos os dias com Potter, sabe o que significa? Seu poder sobre ele vai ficar mais forte e logo, terá ele nas suas mãos. Não podemos arriscar perder o escolhido Lils, entre nos sonhos dele todas as noites e vamos conseguir salvar nossa pele. — murmurou, ouvindo passos na escada. — Preciso desligar, estou ouvindo passos e não podemos deixar que uma pessoa indesejada ouça o que não deve. Amo você, se cuide.
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Agnes estava pensativa.
O dia do ritual estava chegando e problemas pareciam surgir feito fungos em sua vida. Teria que lidar com a família de caçadores imortais e provavelmente com sua menina se apaixonando por um mundano imbecil. As chances eram grandes e ela conhecia o risco, já que ela mesma havia passado por isso há centenas de anos. Quase estragou tudo quando se sentiu cativada por Arthur, lembrava com amargura das vezes que precisou ir contra seus sentimentos para conseguir o bem de sua família. As palavras de sua mãe e antiga matriarca do clã ainda ecoavam como navalhas fincando seu cérebro e alma, ainda doía.
"— Você vai mata-lo, pequena ingrata! — vociferou a matriarca, erguendo um punhal em direção a Agnes, naquela época ainda jovem, que se encolhia enquanto via seu amado amarrado em uma rocha polia no local do sacrifício. — Mate-o, agora! É pela nossa família, nossa existência é mais importante do que qualquer humano idiota e você sabe disso. Acabe logo com isso, você não pode ama-lo, não deve!"
A senhora fechou os olhos, sentindo grossas lágrimas escorrerem por seus olhos, fazendo caminho até o chão. Arthur havia sido morto por suas próprias mãos, e naquele momento seu coração havia se tornado pedra. Seu coração havia sido morto junto com ele.
Esperava que sua menina não fosse tola como ela foi um dia.
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