Ethan estava parado de pé em frente ao espelho do banheiro enquanto deslizava uma lâmina de barbear pelo rosto coberto de espuma branca.

Laura, sua noiva, entrou no quarto onde o banheiro estava localizado, ele percebeu isso ao ouvir alguém tropeçando em uma caixa.

- Porra! – Exclamou ela – Eu não disse pra você tirar essas caixas daqui?

Segundos depois, após provavelmente colocar a caixa no lugar onde deveria estar, ela caminhou até a porta do banheiro e ficou parada, olhando para seu noivo.

Ele percebeu, pelo espelho, e achou estranho.

- O que foi? – Perguntou, enquanto passava a lâmina pela última.

- Nada, é que você parece um bebê quando faz a barba.

Ele se abaixou e lavou o rosto com água fria, em seguida, voltou a se olhar no espelho e constatou que o que ela havia dito era verdade. Sempre que ele fazia a barba, ficava parecendo uma criança. Por isso queria deixar sua barba crescer, mas Laura não gostava.

- Você deveria estar me encorajando a fazer isso e não o contrário, até porque eu só me barbeio por causa de você.

- Eu estava brincando – Disse ela, abraçando-o por trás – Vá vestir uma roupa porque eu quero você pronto em vinte minutos.

- Tá bom mãe – Brincou ele.

Laura virou-se e foi embora, mas parou na porta do quarto.

- Eu fiz um café da manhã delicioso... Ou tentei, dá no mesmo – Disse ela, antes de partir.

Menos de um minuto depois, ele estava entrando na ampla cozinha. Sentou-se à mesa de vidro que havia no meio do cômodo, bem à frente de um moderno armário de madeira coberta por uma camada de tinta preta, e pegou seu celular, para checar se havia alguma notificação.

Laura estava em frente ao fogão, terminando de cozinhar – ou talvez fritar – algo.

- Quer ajuda? – Perguntou ele, vendo que ela estava com uma aparente dificuldade.

- Não – Respondeu ela – Eu vou ser sua esposa em pouco tempo, preciso aprender a cozinhar pelo menos.

- Enquanto isso eu posso ajudar.

- Não esfregue seus talentos culinários na minha cara, querido – Brincou ela, levando o prato dele até a mesa. Estava decorado com dois ovos, bacon e uma panqueca, bem como aqueles de restaurantes, onde a comida formava um sorriso.

- Uau, isso é realmente lindo – Disse ele, observando os dois “olhos” tortos no café da manhã.

- Não reclame, isso é o que consigo fazer no momento, prometo que vou melhorar.

- Então tá.

- Termine logo, temos que estar na casa dos meus pais em pouco mais de duas horas.

- Eles não gostam de mim.

- É claro que gostam, de onde tirou isso?

- Sei lá, mas o normal é os pais não gostarem do namorado da filha, não?

- Mas eles são diferentes... Você já até viajou com a gente, acha mesmo que eles não gostam de você?

Ele deu de ombros e começou a comer.

Laura entrou no corredor e desapareceu.

- Não vai comer? – Perguntou ele.

- Não, prefiro não arriscar, você é minha cobaia.

***

Pouco mais de vinte e cinco minutos depois, Laura e Ethan estavam dentro do carro dela, dirigindo em direção à cidade vizinha, onde ficava a casa dos pais da mulher.

Ele estava no volante, enquanto ela pintava as unhas dos pés de um azul turquesa chamativo.

- Eu tenho uma surpresa pra você – Disse Laura.

- O que?

- Não vou contar agora, só quando chegarmos.

- Por que? Envolve seus pais?

- Não, mas é porque lá tem um rio lindo que passa atrás da fazenda... É o lugar perfeito para essa surpresa.

Ele olhou para ela e sorriu, tentando entender o que era, mas nada passava por sua cabeça.

- Você vai gostar.

Ela continuou pintando suas unhas e ele voltou a dirigir, pensando no que seria a surpresa.

- Quer ouvir música? – Perguntou ele, ligando o rádio.

- Depende – Respondeu ela, sem tirar os olhos – Não sendo heavy metal.

Ele ligou o rádio e voltou a olhar a estrada, mas tudo o que ouvia eram chiados, então tentou consertá-lo. Aquele rádio estúpido estava dando sinais de defeito há muito tempo, mas ele nunca percebeu.

Quando voltou a olhar a estrada, bem na hora de virar a curva, ele se deparou com outro carro vindo na direção contrário. O carro buzinou e ele desviou rapidamente.

- Oh meu deus – Disse Laura, assustada, deixando o frasco de esmalte cair no chão, derramando o líquido azul no carpete.

Ele tentou manobrar o carro, desviando para a direita em seguida, mas ouviu o som de algum pneu estourando e em seguida, sentiu o carro inclinando.

Segundos depois, o veículo estava capotando várias vezes no meio da pista, soltando seus pedaços pelo asfalto.

Quando parou de capotar, havia deixado para trás rodas e pedaços da lataria, além de vidro e o corpo de uma garota jogados sobre a pista.

Dentro do carro de ponta-cabeça, nenhum sinal de movimento.

***

Fumaça, gasolina e o cheiro acobreado de sangue. Era tudo o que Ethan sentia quando acordou, além das fortes dores na cabeça e perna que ele sentia. Seus olhos estavam fechados e ele sentia que ia desmaiar a qualquer momento.

Não podia se preocupar consigo mesmo, tinha que prestar socorro à Laura, não podia deixá-la ali. Será que ela estava muito machucada? Ele abriu os olhos e observou ao seu redor. O carro estava de ponta cabeça e ele jogado sobre o teto, em meio a muitos cacos de vidro. No entanto, nenhum sinal de sua namorada.

Tentou se arrastar para frente, na tentativa de procurá-la, mas a dor na perna aumentou consideravelmente, fazendo-o gritar. Ele evitou se mover.

- Laura?! – Gritou, mas ela não respondeu.

Neste momento, sentiu alguém tocar o seu pé. Olhou para trás e viu um homem vestindo uma roupa branca.

- Senhor, fique calmo, nós vamos prestar socorro – Disse ele, e então outro homem apareceu.

- Eu preciso que você não se mova, nós vamos te colocar em uma maca – Avisou o outro.

- Vocês precisam prestar socorro à minha namorada, ela estava no carro, mas eu não consigo enxergá-la.

- Nós vamos cuidar disso, agora, não se mova.

Os dois viraram-no e colocaram-no deitado de costas para o chão. Ele reclamou da dor, soltando um gemido alto.

- Calma, nós já estamos conseguindo.

Em seguida os dois homens lentamente levantaram-no e colocaram-no na maca, que estava em uma altura baixa, quase encostando no chão.

Quando ele saiu, já deitado na maca, seus olhos foram invadidos pela luz do sol que era forte. Precisou fechá-los parcialmente até se acostumar com a claridade.

Os homens levantaram a maca e começaram a levá-la até a ambulância parada a alguns metros, com a porta traseira aberta, enquanto as luzes vermelhas e brancas piscavam freneticamente.

Ele olhou para o lado e viu, a alguns metros, o corpo de Laura jogado sobre a pista. Um dos homens de branco estava agachado ao lado dela, fazendo massagem cardíaca, mas ela parecia não responder.

- Laura – Disse ele – O que aconteceu? Ela está bem?

Era tarde demais, os homens o colocaram na ambulância e introduziram um tipo de máscara de oxigênio, a qual liberou uma substância gasosa em seu organismo, fazendo-o adormecer.

***

Algum tempo depois – ele não sabia quanto – Ethan acordou. Estava em um leito de hospital, em um amplo quarto totalmente branco, desde a parede até a cerâmica do chão e o teto. Havia mais dois leitos à esquerda dele, ambos vazios.

À sua frente, sentados em um banco, estavam três pessoas. Uma mulher e um homem, seus pais.

- Ethan! – Exclamou a mãe, se levantando. Os olhos dela estavam vermelhos, pois havia chorado recentemente – Como você está?

- Onde está a Laura? – Perguntou ele.

- Filho – Começou o pai, em um baixo tom de voz – Ela sofreu ferimentos muito graves.

- Os médicos tentaram de tudo, mas... – A mãe continuou, com um lenço entre as mãos. Parecia que ela voltaria a chorar.

- Mas o que? – Perguntou ele, quando seus olhos começaram a se encher de lágrimas.

- Ela não resistiu, eu sinto muito – Terminou o pai.

As palavras o atingiram como a bala de uma arma de fogo. Ela não resistiu.

Ethan colocou as mãos sobre o rosto e chorou. Era tudo o que podia fazer.

- Não, não – Ele repetia, enquanto sua mãe o acompanhava em seu sofrimento, também aos prantos.

- Não foi culpa sua, filho – Disse o pai, tentando amenizar a situação.

- Foi! – Exclamou ele, tirando as mãos do rosto e deixando visível a tristeza estampada em seu rosto – Se eu não tivesse me distraído por um segundo, isso não teria acontecido...

- Não fale isso – Falou a mãe.

- Eu fui irresponsável e ela pagou o preço.

Neste momento, um homem alto de cabelos meio louros, vestindo um jaleco branco, entrou no quarto, segurando uma prancheta.

Não estava sorrindo como a maioria dos médicos que ele viu, quando sofreu uma fratura no braço na infância ou quando foi tomar uma vacina contra o tétano, mas sim sério.

- Pela sua aparência, acho que você tem conhecimento do que aconteceu à Laura Healling... Eu sinto muito pela sua perda.

Ethan permaneceu em silêncio, com a cabeça baixa, chorando. Estava com raiva, com raiva de si mesmo por ter causado aquele acidente. A culpa era toda sua.

- Você fraturou a tíbia – Disse o médico – Vai precisar passar por uma cirurgia e terá alta em dois ou três dias, no mínimo.

O silêncio dominou o ambiente por alguns instantes.

- Bem, eu preciso ir, qualquer coisa, haverá enfermeiras por aqui para cuidar de seu filho – Disse ele ao pai de Ethan, percebendo a carga de tensão no ar.

- Sim, sim, muito obrigado doutor – Respondeu o homem, dando um aperto de mão.

A essa altura, a mãe já estava sentada em uma cadeira ao lado da cama, segurando a mão do filho, que ainda permanecia aos prantos.