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12 Capítulo 11 - Evidências


Charli e Ethan entraram em uma sala escuro no subsolo do prédio, ela trancou a porta e eles desceram as escadas. Em seguida, ela acendeu as várias lâmpadas fluorescentes espalhadas pelo local e ele pôde ver que não era um simples porão, parecia mais uma garagem, pois era enorme, cheio de prateleiras que funcionavam como paredes para vários corredores, como em uma biblioteca, só que não havia livros, apenas caixas e outras porcarias.

– Eles não virão aqui tão cedo – Disse ela, caminhando pelo piso de cerâmica branca – Vamos.

Ethan a seguiu até a última prateleira.

– O que está acontecendo?

– Você vai me achar louca quando eu te contar, mas acredite, é verdade.

– O que houve?

Charli segurou a mão esquerda de Ethan e respirou fundo, ainda relutante quanto àquilo.

– Você já parou para pensar o que há do outro lado? – Perguntou ela, olhando nos olhos dele.

– Eu não estou entendendo.

– Você acredita em céu e inferno?

– Do que você está falando?

Ethan riu.

– Você viu os fantasmas, não foi?

– Eu acho que sim, poderia ser – Respondeu ele, tirando seu sorriso de nervosismo do rosto, agora estava sério, até com medo.

– Eu também os vejo.

– Quem são eles?

– Eles são espíritos, alguns maus, outros bons.

– O que eles fazem aqui?

– Nada, eles apenas estão em casa.

– Em casa?

– Sim... Aqui, eles não são os intrusos, você é.

Ethan nunca acreditaria em uma história daquelas, mas muita coisa tinha acontecido, fazendo-o se convencer que algo de errado estava acontecendo naquele lugar, algo que não podia ser explicado.

– E quem é você? – Perguntou, se afastando de Charli. A ficha estava caindo, algo lhe dizia que ela não era quem aparentava ser. Provavelmente fazia parte dos espíritos.

– Eu não sou como eles – Ela disse, se aproximando lentamente.

– Você está brincando, não é?

– Não.

– Como assim, não?! – Ele exclamou – Você está escutando o que tá falando? É loucura!

– Você sabe que não é, Ethan, você sabe muito bem.

Ela tinha razão, no fundo ele sentia que aquele lugar tinha algo errado, mas o que ela queria dizer com “eles não são os intrusos, você é”?

– Você não respondeu minha pergunta – Ela falou, desta vez sem o tom angelical de sua voz e seu rosto. Agora estava séria – Você acredita em céu e inferno?

– Eu não sei, na verdade, minha família sempre me ensinou sobre isso, céu, inferno, Deus, o diabo... Eu nunca acreditei, era muito fantasioso, mas minhas ideias mudaram totalmente quando eu me mudei para esse lugar...

– Você sempre esteve certo, querido – Ela falou, como uma mãe fala com um filho – Não existe céu, não existe inferno, nem Deus, nem o diabo, só existe isso.

– Como assim isso?

– Esse lugar, Ethan.

– O mundo.

– Eu não estou entendo – Ele disse, soltando uma risada, porém, sem achar nada engraçado.

– Não existe um lugar para onde vão as pessoas boas e outro para pessoas ruins, Ethan, você apenas passa a vida inteira fazendo coisas boas, indo à igreja todos os domingos, obedecendo às vontades de um Deus que você nem ao menos conhece, para no fim de tudo morrer e descobrir que está no mesmo lugar de um pai alcóolatra e pedófilo que abusava de uma pequena criança de 8 anos... É tão amargo o sentimento de saber que tudo foi em vão, toda uma vida desperdiçada.

Ethan estava boquiaberto. Conhecia uma pessoa assim, cujo pai era um pedófilo que abusava da filha de 8 anos, apenas uma pessoa. Laura.

– Como você sabe disso?

– Eu sei de muita coisa sobre você, amor... Sei de quando era criança e ficou internado por duas semanas quando pegou pneumonia, sei de quando todos caçoaram de você na escola quando se declarou para uma garota no meio de todo mundo e ela disse não... Sei o quanto queria formar uma família, com nosso pequeno Ethan Jr. e lembro também do seu rosto quando desviou daquele carro e tentou evitar que o pior acontecesse.

Ela deu um sorriso e ele viu em seus olhos o brilho que reconheceria a um quilômetro de distância.

– Laura – Ele sorriu, com uma lágrima passeando por sua bochecha.

– Ethan.

Charli, na verdade Laura, deu-lhe um beijo e ele sentiu a mesma coisa que havia sentido durante todo o tempo que passou com sua namorada. Era ela, ele sempre soube. O brilho nos olhos eram o mesmo, o calor do corpo dela contra o dele era o mesmo.

Laura estava morta, então estar com ela não poderia significar algo bom.

– Onde estou? – Perguntou ele, passando sua mão direita pelo braço dela, até encontrar a mão esquerda dela, quente e macia, como sempre.

– Você está em coma, Ethan – Falou ela, com as mãos no rosto dele.

As palavras o atingiram como uma pedra. Em coma.

– Eu não entendo – Disse ele, surpreso.

– Você nunca acordou depois do acidente, querido – Ela respondeu.

– Mas e você?

– Eu não consegui aguentar – Falou Laura, abaixando a cabeça – Mas ainda há tempo para você, você ainda tem chance de voltar.

– Eu não quero ir sem você – Ele começou a chorar com mais intensidade.

– Você precisa ir, esse lugar é torturante.

– Que lugar é esse?

– É o céu e o inferno e ao mesmo tempo não é nada, Ethan, aqui é o lugar para onde vão os mortos, é o outro lado.

– Eu não posso estar aqui, não posso estar em coma, eu fui até a casa dos meus pais e eles estavam lá, mas eles não estão mortos, então por que estariam aqui?

– Nada disso foi real, você nunca saiu daqui na verdade.

– O que?

– É tudo imaginação, tudo o que eles falaram ou fizeram era o que você queria que eles falassem ou fizessem, você era o controlador e eles eram apenas fantoches... Provavelmente, seus pais verdadeiros estão no hospital agora, ao lado do seu corpo, sua mãe em prantos e seu pai consolando-a... Os dois esperam você acordar.

– Nem mesmo o seu... O seu... – Ele não conseguia falar, era doloroso – O seu funeral?

– Sim, nada ali era real, você criou tudo em sua mente.

– Não... Não é possível.

– Ethan, olhe ao redor, nada parece possível nesse lugar.

Ele colocou as mãos na cabeça e continuou chorando.

– Eu não acredito.

– Está chegando a hora, Ethan – Disse Laura – Você precisa ir.

Ela colocou a mão no bolso e tirou um anel folheado a ouro com uma pedra azul no centro. O seu anel de noivado, que Ethan havia dado no casamento, quando fez o pedido.

– Se você sobreviver, não vai lembrar disso ou muito menos estará com o anel, mas se você voltar para cá e não me encontrar, isso vai fazê-lo lembrar.

Ele pegou o anel e chorou, olhando o objeto, o símbolo da união dos dois. Deu um beijo na joia e ficou segurando-a com a mão fechada.

Laura sentou no chão e, com a mão, bateu na cerâmica do piso bem ao seu lado, pedindo para ele sentar ali.

Ethan obedeceu e sentou ao seu lado, em seguida, deitou sua cabeça nas pernas dela.

Ali estavam os dois novamente reunidos, Laura sentada no chão e ele deitado no colo dela.

– Feche os olhos, está chegando a hora – Disse ela, passando as mãos pelo cabelo dele.

Seus olhos estavam fechados, mas algumas lágrimas continuavam caindo.

– Eu só queria lhe pedir uma coisa – Disse ela, ainda passando as mãos pelos cabelos dele. Estava chorando também.

– Qualquer coisa – Respondeu ele, também aos prantos, com os olhos fechados.

– Não me esqueça.

– Nunca.

Ethan apagou, de repente a escuridão tomou conta e ele não tinha mais consciência de nada.

***

Quando acordou, estava no hospital, um lugar diferente do que ele havia imaginado. As paredes e o chão eram brancos, realmente, mas havia grandes janelas, cujas cortinas estavam abertas, deixando entrar a luz do sol e permitindo que ele visse um grande campo lá fora, onde pessoas caminhavam e algumas até faziam piqueniques. Além disso, este quarto era particular, só havia um leito, o dele.

Sua mãe estava em uma cadeira de metal bem à frente da cama.

– Oh meu deus – Disse ela, levando a mão à boca – Você acordou! – Estava prestes a chorar.

Ethan sorriu e ela correu até ele.

– Você está bem, consegue falar?

– Sim – Respondeu ele, com uma voz fraca.

– Eu vou chamar, fique aqui! – Exclamou ela, extremamente feliz.

– Como se eu pudesse sair – Brincou ele.

Pouco tempo depois, ele estava cercado por dois médicos, uma enfermeira e seus pais.

4 dias depois

Depois de alguns exames, Ethan havia recebido alta e estava pronto para ir pra casa.

Ele vestia uma roupa com a ajuda de um enfermeiro, sua perna estava engessada, o topo da cabeça, enfaixado, e ele ainda usava um daqueles objetos em volta do pescoço, para evitar que ele fizesse movimento.

– Está pronto para ir – Disse o enfermeiro, entregando-lhe duas muletas.

– Obrigado – Agradeceu Ethan – Levantando da cama com a ajuda das muletas.

Os pais dele entraram no quarto. Estavam falando com os médicos, que haviam acompanhado Ethan durante o período do coma.

– Estamos prontos para ir? – Perguntou o pai.

– Vamos lá – Respondeu ele.

O enfermeiro pegou os lençóis e a fronha do travesseiro e colocou em um cesto, em seguida saiu do quarto.

– Tchau – Disse ele, antes de sair.

– Tchau – Disseram os três, quase ao mesmo tempo.

– Obrigado por tudo – Acrescentou o pai.

O homem saiu e eles ficaram.

– Então, quanto tempo eu fiquei apagado? – Perguntou Ethan.

– Um mês e meio – Respondeu a mãe.

– O que?! – Ele perguntou, surpreso.

– Pois é, mas não aconteceu muita coisa, você acompanha rápido – Brincou o pai.

Eles saíram pela porta, deixando o quarto vazio.

A única que coisa que Ethan havia esquecido, e que provavelmente havia caído de sua mão, era um anel folheado a ouro com uma pedra azul que estava jogado no chão próximo à cama.

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