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9 Capítulo 08 - Loucura


Quando Ethan acordou, pela manhã, sua cabeça doía como se alguém estivesse golpeando-a repetidamente com uma pá.

Ele se levantou com dificuldade e esfregou o rosto, esperando expulsar a ressaca apenas com aquilo. Não adiantou, como já desconfiava.

Saiu do quarto e cruzou a sala. Parou bem em frente à mesinha de centro, pegou a garrafa vazia de uísque e levou até a cozinha, colocando-a sobre a pia.

– Que merda – Resmungou, quando a garrafa caiu e quebrou. Pegou um pouco dos cacos e jogou na lixeira no chão, mas fez um pequeno corte no dedo e desistiu – Merda! – Resmungou novamente.

Abriu a torneira e colocou o dedo no percurso da água corrente. Enquanto o líquido gelado escorria pelo seu dedo machucado, ele via o pouco de sangue descer pela cerâmica branca, deixando apenas um pequeno risco avermelhado onde havia se cortado, pelo qual o sangue voltou a fluir segundos depois.

– Foda-se – Disse ele, limpando o sangue na camisa azul marinho.

Saiu da cozinha e foi direto ao banheiro, onde escovou os dentes e lavou o rosto.

Quando voltou à sala, tirou sua camisa e jogou-a sobre o encosto do sofá, em seguida, tirou a calça e fez o mesmo. Estava só de cueca quando foi até seu quarto e pegou um short de seda que usava para dormir. Vestiu-o, voltou para sala e sentou no sofá, ligando a TV.

Não passava nada de interessante, como sempre, mas ele não ligava, na verdade nem estava prestando atenção no noticiário, apenas no que havia acontecido na noite anterior. Ele havia encontrado Laura e pôde sentir seu toque novamente, mas estava diferente. Apesar do brilho em seus olhos demonstrarem sua vitalidade, seu coração estava duro como pedra, caso contrário, por que diria uma coisa daquelas?

Você precisa me esquecer...

Esquecê-la era a última coisa que ele queria em toda a sua vida. Não iria esquecê-la até o dia de sua morte, como a havia prometido.

– Eu não vou esquecer – Disse, colocando a cabeça entre as mãos, enquanto as lágrimas começaram a brotar do seu rosto – Não me peça algo assim – Ele falava, sem que ninguém pudesse ouvir.

***

Laura estava deitada na cama, com o celular entre as mãos, quando Ethan pulou na cama, fazendo-a derrubar o aparelho sobre seu peito.

– Garoto malvado! – Brincou ela, subindo em cima dele e segurando seus braços.

– Você está sentada na minha barriga, poderia descer mais um pouco? – Perguntou ele.

– Hoje não, querido – Disse ela, beijando-lhe e voltando a se deitar ao seu lado em seguida.

– Por que não?

– Nós não temos mais... Mais...

– Preservativos? – Ele perguntou, achando engraçado o fato de que ela sempre se sentiu desconfortável ao falar aquela palavra.

– É... E também... Acho que estou período fértil.

Eles estavam deitados de lado, virados para a esquerda de modo que Laura ficasse na frente. Ethan colocou sua mão na coxa dela e acariciou-a, dando-lhe beijos no pescoço.

– Eu não ligo – Disse ele.

– Como assim não liga? – Perguntou ela, surpresa, virando de frente para ele.

– Nós vamos nos casar em pouco tempo e eu finalmente estou pronto.

Ela deu um sorriso.

– Pronto? – Perguntou, com vários palpites sobre a resposta.

– É, estou pronto, vamos começar a construir uma família.

Ela ficou perplexa.

– Eu não acredito! – Exclamou, sorrindo – Você está falando sério?

– Sério como nunca... Eu quero um garoto pra chamar de Ethan Jr.

Laura fez uma careta de desaprovação.

– Tá, nós podemos pensar em outro nome depois – Concluiu ele.

Ela subiu em cima de sua barriga e começou a beijá-lo. Ele inverteu a posição, ficando por cima, mas continuou beijando-a.

Segundos depois as roupas estavam no chão.

***

Ethan poderia estar no seu antigo apartamento naquele momento, ao lado de Laura, acompanhando todos os momentos da gravidez, mas o destino quis outra coisa. Eram tantos questionamentos que ele tinha em sua mente enquanto sentava naquele sofá velho. Desconfiava até mesmo de Deus.

Durante toda a sua vida ele cresceu ouvindo de todos que havia alguém vigiando-o, alguém poderoso, justo e misericordioso, mas, se ele era tão justo, misericordioso e poderoso, por que não impediu que Laura morresse? Por que deixou que ela partisse de uma forma tão cruel? Não só ela, como também o bebê que ela gerava em seu ventre.

Se realmente havia um deus, naquele momento, ele o odiava.

Voltando à realidade, ele finalmente havia se dado conta de que não tinha ido trabalhar na noite passada. Poderia ser demitido, mas não importava, pois estava cogitando a ideia de morar com seus pais por um tempo. Sua experiência de isolamento do mundo não parecia ter dado certo.

Ethan acabara sozinho, em um lugar sujo e velho que ficava longe de tudo e de todos, chorando pelos cantos... E ainda haviam os fantasmas, que ele quase tinha esquecido.

Fantasmas. Ele havia ficado surpreso por ter pensando nos fenômenos que presenciara como fantasmas. Parecia algo tão fantasioso, mas ele não podia mais ter dúvidas, os fatos tinham sido jogados bem na sua cara. Seu ceticismo foi completamente eliminado em apenas alguns dias naquele lugar. Não podia mais pensar que eram frutos de sua imaginação, porque não eram.

Repentinamente, uma ideia veio em sua cabeça. Parecia ser um caminho para a solução dos problemas.

Iria conversar com Charli, passar a tarde inteira no apartamento dela, e desse modo conseguiria saber se ela também presenciava os fenômenos sobrenaturais, se ela não o fizesse, ele saberia que estava louco, mas se acontecesse o contrário, ele constataria que não era imaginação, era real. Espíritos.

Voltou ao quarto e encontrou a calça e a camisa que havia jogado em cima da cama, tirou seu short de seda e as vestiu. Em seguida, cruzou a sala, pegando seu celular na mesinha de centro, e saiu de casa.

Quando estava no corredor, olhou ao longo dele. Vazio como sempre. Ainda estava apavorado pelo que tinha acontecido naquele local, com o apagão e todas as portas abertas. Queria saber quem morava atrás daquelas fechaduras trancadas. Descobriria agora.

Ethan caminhou pouco mais de um metro e parou em frente à porta do apartamento de Charli. Era a única que não tinha correntes e cadeados por fora.

Olhou para os lados, com medo de estar sendo observando, constatou que não estava e bateu na porta. Três batidas.

Ele esperou alguns segundos, até ouvir uma série de ruídos do lado de dentro, como se houvessem várias trancas sendo destravadas. A porta foi aberta instantes depois e lá estava ela, sorridente. Estava descalça, usava um vestido florido e seus cabelos loiros enrolados em um rabo de cavalo.

– Oi, vizinho – Disse ela.

– Ah, oi – Respondeu ele, sem jeito diante da beleza dela. Era como se tivesse vendo Laura em sua frente, as duas eram extremamente parecidas – Err... Você tem um tempo pra conversar?

– É claro, pode entrar.

Quando Ethan entrou, olhou ao redor. O apartamento era pequeno, na verdade, exatamente como o seu. A disposição das duas portas – do banheiro e do quarto – eram as mesmas e a cozinha também era um corredor. A única diferença era que o dela parecia novo e aconchegante, com uma parede recém-pintada de rosa claro, um sofá branco com almofadas coloridas e vários quadros abstratos, exceto por um, em que havia um lírio lilás pintado.

– Nossa, seu apartamento é lindo – Disse ele.

– Obrigada.

Ela passou por ele e sentou-se no sofá. Ele olhou para trás e viu as várias fechaduras na porta – seis, para ser exato – e estranhou.

– Quanta segurança – Brincou ele.

– É – Ela respondeu – Segurança nunca é demais, né... Ah, por favor, sente-se – Disse ela, apontando para a poltrona perto do sofá.

Ele se sentou.

– Eu estava fazendo café, quer um pouco?

– Na verdade, sim, eu aceito.

– Ótimo, eu já vou trazer.

Ela se levantou a foi até a cozinha. Ethan ficou admirando o fato do apartamento de Charli ser exatamente igual ao dele, porém, ao mesmo tempo, extremamente diferente.

Quando ela voltou, com as duas xícaras de café, ambas sobre pires, sentou-se novamente no sofá e entregou-os Ethan.

Ele deu um gole no líquido fervente e queimou a língua.

– Caramba! – Exclamou ele, colocando a xícara sobre a mesinha.

– Ah, sim, cuidado, tá quente – Falou ela, rindo do incidente.

– É melhor esperar esfriar um pouco.

Os dois sorriram e ela bebeu seu café, sem se queimar.

– Então... – Começou ele, se sentindo totalmente desconfortável. Seu plano era conversar sobre os fenômenos que havia visto ao longo de sua estadia naquele lugar de um modo sutil, mas não conseguia, então simplesmente soltou – Você acredita em fantasmas?

O sorriso dela foi desfeito e Charli ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para ele, estranhando.

– Por que a pergunta? – Perguntou, colocando a xícara e o pires sobre a mesinha de centro.

– Só me responda, por favor, você acredita?

– Eu... Err... Não, não acredito Ethan – Falou, visivelmente nervosa.

– Por que enrolou tanto pra falar?

– Eu não acredito, tá bom?! – Ela exclamou, fazendo ele ter certeza de que havia algo estranho.

Ele a observou um pouco, vendo-a coçar a palma de sua mão esquerda com a mão direita. Em seguida coçou sua nuca, mexendo sua perna incessantemente, assim como Laura fazia quando estava nervosa.

– Você também viu, não foi?

– Do que você está falando?

– Ah, você viu! Eu não estou louco.

– Vi o que, Ethan?

– Não precisa fingir, eu também vi, várias vezes.

– Eu ainda não sei do que você está falando.

– Fantasmas, Charli, fantasmas! – Ele exclamou, levantando-se da poltrona – Eles estão por aí, vagando pelo prédio enquanto dormimos! – Ethan nem sequer piscava ao dizer isso.

– Você está louco?

– Não estou e você sabe.

– Por favor, saia do meu apartamento – Disse ela, esfregando as têmporas.

– O que?

– Saia, por favor.

– Você vai ignorar isso?

Ela ficou em silêncio, ignorando-o.

Ethan caminhou até a porta e tocou a maçaneta, mas antes de ir, virou-se para ela.

– Eu sei que você também, se mudar de ideia e resolver me ajudar, sabe onde eu estarei – Disse ele e abriu a porta logo em seguida.

– Ethan, espere! – Exclamou ela.

Ele se virou e a encontrou de pé, ao lado do sofá. Estava pálida e suas mãos estavam trêmulas.

Parecia relutante em dizer alguma coisa, mas depois de alguns instantes, finalmente disse.

– Tome cuidado, fique longe deles.