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8 Capítulo 07 - Recaída
Ethan estava atrás do sofá de seu apartamento antigo, conseguia ouvir sua própria respiração naquele silêncio em que estava mergulhada a escura sala de estar.
O som da fechadura sendo destrancada e a porta sendo aberta em seguida foi claramente perceptível. Quando a luz acendeu, ele se levantou de trás do sofá, junto com todos os outros convidados, que saíram de seus esconderijos, surpreendo Laura, que estava parada com as chaves na mão, boquiaberta.
– Feliz aniversário!!! – Todos gritaram ao mesmo tempo.
– Eu não acredito! – Exclamou ela, extremamente feliz.
Ethan caminhou até ela e beijou-lhe nos lábios.
– Você não desconfiou? – Perguntou ele.
– Nem um pouco – Ela respondeu, com os braços em volta do seu pescoço.
– Vamos partir o bolo! – Exclamou Ethan para os poucos convidados, que comemoraram.
Ele foi até a mesa, onde estava o bolo e docinhos variados, enquanto Laura foi falar com seus amigos.
– O que comprou para ela? – Perguntou Jules, uma garota morena de cabelos curtos e um piercing no nariz, que havia o acompanhado.
– Não posso contar – Respondeu ele, segurando um sorriso.
– Ah não, por favor, me conta!
– Não posso.
– Agora eu quero saber, por favor.
– Você verá... Eu vou dar a ela daqui a pouco...
– Se você não me contar eu vou colocar pó de mico na sua cueca, Ethan Maurice Geller! – Disse ela, em tom autoritário.
– Tá bom, venha aqui.
Jules caminhou até e ele e o viu colocar a mão no bolso. Tirou de lá uma caixa bem pequena, feita de veludo azul por fora.
– Isso é o que eu tô pensando? – Perguntou ela, surpresa.
– Sim – Ele respondeu, abrindo a caixinha e revelando um brilhante anel folheado a ouro, com uma pedra azul no centro.
– Ah meu deus, é lindo – Jules pegou a caixa e olhou de perto o anel – É safira?
– Sim, verdadeiríssima, paguei uma fortuna.
– Eu não acredito que meus amigos vão se casar.
– Eu não sei se vamos – Disse ele, pegando de volta a caixinha e fechando-a – Ainda falta ela aceitar, né?
– Não seja idiota, isso é tudo o que ela sempre quis, você sabe disso.
Neste momento, Laura entrou na cozinha com mais duas amigas, fazendo Ethan esconder a caixinha no bolso de seu casaco rapidamente.
– É chocolate branco? – Ela perguntou, surpresa – Mas você odeia.
– É, mas você não – Disse ele.
– Se ela ficou emocionada assim com o bolo, imagina com o que vem por aí – Brincou Jules, falando baixinho.
***
Mais tarde, depois de comer as guloseimas, todos estavam na sala, sentados por todos os lados, conversando e bebendo, quando Ethan caminhou até o centro da sala e chamou a atenção de todos.
– Ei, ei, agora é hora de eu dar meu presente – Disse ele.
Todos ficaram prestando atenção nele.
– Pode ir, cavalheiro – Falou um dos amigos, visivelmente bêbado.
Ele segurou a mão de Laura, que estava sorrindo, esperando pelo presente. Olhou para todos ao redor e sentiu um súbito medo, mas precisava fazer aquilo, era o que realmente queria, então respirou fundo e colocou a mão no bolso.
Quando tirou a caixinha do bolso, ela ficou sorriu, e quando ele se ajoelhou, ela levou a mão à boca, extremamente surpresa.
– Caralho! – Gritou um dos amigos e em seguida falou para uma garota ao lado dele – Ele tá ajoelhado com um anel na mão ou essa vodka é forte mesmo?
– Eu não acredito – Disse a garota, tão surpresa quanto Laura.
Ethan abriu a caixinha, revelando o anel, respirou fundo mais uma vez, e se preparou.
– Laura... Você quer casar comigo?
Os amigos começaram a gritar, comemorando. Laura estava boquiaberta com a surpresa. Ficou sem palavras.
– Eu acho que você deveria responder alguma coisa, minha bunda tá suando aqui – Disse ele, nervoso ao extremo.
Ela sorriu e as lágrimas começaram a brotar de seus olhos.
– Desculpe, mas... Não.
Todos ficaram em silêncio e ele desfez o sorriso.
– Brincadeira! – Gritou ela, sorrindo – É claro que eu aceito... Sim, sim, sim, sim!
Os amigos voltaram a gritar e ele se levantou, sendo amparado pelo beijo dela. Quando terminaram, ele colocou o anel no dedo dela e Laura estava chorando de emoção.
– Você me deu um susto – Disse ele, com a mão no peito.
– Isso é tudo o que eu quero desde os sete anos de idade – Falou ela, olhando o belíssimo anel em seu dedo – Ah, eu te amo tanto! – E o beijou novamente.
***
Aquele havia sido um dos dias mais felizes de sua vida. O olhar dela ao ver o anel, o grande sorriso de emoção e o longo beijo. Nada mais era do que uma lembrança que ele deveria esquecer, mas não queria de modo algum.
Agora Ethan estava ali, sentado no sofá de seu minúsculo e velho apartamento, bebendo uísque direto da garrafa enquanto lembrava daquele dia.
Seus olhos já estavam ardendo de tanto chorar e sua cabeça doía. Ele deu mais um gole na garrafa, sentindo o líquido marrom alaranjado descer queimando por sua garganta. O gosto era ruim, mas era melhor que ficar sóbrio.
Quando a garrafa ficou vazia, ele a jogou sobre a mesinha de centro e foi para o seu quarto. Já era noite, ele tinha passado a tarde toda sozinho, pensando.
Olhou o seu celular que estava em cima do criado-mudo e viu que já era perto de dez horas da noite. Jogou o aparelho sobre a cama, caminhou até o outro lado para pegar uma toalha no guarda-roupa e ir ao banheiro, mas tropeçou em algo e caiu no carpete do chão. Não tinha forças para se levantar, mas segurou na moldura da janela aberta e se levantou. Olhou a noite lá fora, a lua cheia e as casas da rua cujas luzes estavam desligadas. O parque de diversões lá embaixo estava quase escuro, iluminado por alguns postes velhos e fracos distribuídos por toda a sua extensão até a porta.
Ao lado do carrossel, havia uma mulher, de vestido branco. Ele podia enxergar que ela era loira e seus cabelos meio ondulados. Quando a mulher olhou para cima, diretamente para ele, Ethan reconheceu o olhar instantaneamente. Laura.
– Laura! – Exclamou ele.
Ela sorriu, fazendo-o sorrir também.
– Eu já estou indo, amor, eu já vou! – Disse ele, cruzando o quarto até a sala. Abriu a porta e esqueceu de trancar, apenas correu rapidamente pelo corredor até as escadas, as quais ele desceu rapidamente. Passou pela portaria, onde estranhamente não havia ninguém e saiu pela porta da frente, mergulhando no ar frio da noite.
Laura ainda estava lá, ao lado do carrossel, de vestido branco.
– Laura! – Ele exclamou, correndo até ela. Abraçou-a e beijou-a, sentindo sua pele fria e pálida contra a sua. O brilho angelical de seus olhos azuis ainda existia.
– Ethan – Falou ela, com um sorriso tímido.
– Eu te amo tanto, eu te amo tanto – Disse ele, se ajoelhando aos pés dela.
– Não, não, Ethan, escute-me.
Ele se levantou e ficou de frente para ela, olhando nos seus olhos.
– Você precisa me esquecer.
– Não, não!
– Sim, precisa, amor – Ela passou a mão no rosto dele, acariciando.
– Por quê? – Ele perguntou, chorando.
– Eu estou morta, eu não estou mais aqui, Ethan.
– Não, você está viva, eu posso lhe tocar.
– Essa não sou eu, querido.
– É claro que é, do que você está falando?
– Não, eu estou em um caixão agora, amor, eu um caixão pequeno embaixo da terra, meu corpo está entrando em decomposição agora mesmo, eu não sou nada mais que um pedaço de carne putrefata – Ela falou, com uma voz tão doce e angelical e um sorriso tão belo que parecia até uma coisa boa.
Ele chorou com mais intensidade, abaixando a cabeça.
– Adeus, Ethan.
– Não vá! – Ele exclamou, abrindo os olhos, mas ela não estava mais lá. Ele estava sozinho – Laura? – Perguntou por ela.
Correu para o portão e desta vez ele estava fechado. Olhou a rua inteira através das grades e não a encontrou.
– Laura!!! – Gritou tão alto que poderia acordar qualquer um que morasse na rua, mas ninguém saiu ou sequer acendeu a luz para ver quem era o louco que estava gritando.
Encostou a cabeça no ferro frio do portão e chorou, foi quando ouviu uma doce canção, daquelas que tocavam em caixinhas de música. Olhou para trás e viu o carrossel funcionando, com os cavalos rodando, subindo e descendo, além das luzes coloridas embutidas em todos os lugares. Ele se aproximou, assustado com aquilo, e ao seu lado direito, atrás de uma velha tenda de prêmios, a roda gigante ligou suas luzes e começou a girar extremamente devagar.
Aos poucos todos os brinquedos do parque ligaram sozinhos, exibindo suas hipnóticas luzes. Não havia ninguém andando nos brinquedos ou operando-os, nem uma pessoa sequer.
Ele caminhou devagar, olhando para as atrações daquele parque.
Ouviu várias risadas de crianças felizes e olhou para trás, não havia ninguém. Voltou a olhar para frente e se assustou quando viu o carrossel novamente. Havia várias crianças em cima dos cavalos, meninas e meninos, com pequenos vestidos rosas ou um suspensório e camisetas vestindo seus corpos pálidos e sem vida. Todos eles estavam olhando para Ethan, paralisados em um sorriso amarelo e macabro. Não tinham olhos, apenas profundos buracos negros.
Os olhares vazios delas acompanharam-no até a porta de entrada, para onde ele correu, sem olhar para trás. Quando entrou na portaria e voltou a olhar para fora, pela janela de vidro que havia ao lado da porta, ele viu os brinquedos sendo desligados aos poucos. As crianças ainda estavam lá, com os olhares apontados para ele... Que olhares? Não tinham olhos.
Quando o carrossel foi desligado, elas sumiram. O coração de Ethan estava a mil quando ele subiu as escadas correndo.
Cruzou o corredor rapidamente e entrou em seu apartamento. Trancou a porta e correu para o quarto. Pulou na cama e afundou a cabeça no travesseiro.
Minutos depois, dormiu.
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