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7 Capítulo 06 - Insônia
Horas depois, por volta das dez e meia da noite, Ethan chegava em casa depois do segundo dia de trabalho. Era uma falta de respeito a fábrica continuar funcionando depois do assassinato naquela noite, mas ele não duvidava de nada que aquele homem fizesse. Era louco.
Jogou seu casaco sobre o sofá e caminhou para o banheiro, onde tirou sua roupa e entrou no box, abrindo o chuveiro em seguida. Sentiu a água quente passear pelo seu corpo, relaxando-o. Era tudo o que precisava. Um bom banho quente e uma noite tranquila de sono.
Minutos depois, ele estava deitado em sua cama, virado para o lado esquerdo, com os olhos fechados, tentando dormir, mas não conseguia. Virou de um lado para o outro repetidas vezes, em busca de uma posição agradável, mas não era a posição que o incomodava, eram seus pensamentos. Tudo no que pensava era o escuro do corredor, as silhuetas lhe observando e aquela mulher de vestido branco. Ele de aquela mulher voltar à sua casa e ficar lhe observando enquanto ele dormia, por isso não fechava os olhos.
Duas horas depois
Ethan estava deitado na cama, olhando pro teto. Ainda não havia conseguido dormir.
Levantou-se da cama, nem calçou suas sandálias, apenas abriu a porta do quarto, cruzou a sala escura e entrou na cozinha, onde acendeu a luz. Abriu um armário com vários frascos de plástico e pegou um. De dentro dele tirou uma cápsula branca e azul, colocou na boca e ficou com ela por alguns segundos, enquanto pegava uma garrafa d’água na geladeira e a despejava em um copo que estava sobre a pia. Bebeu a água gelada, fazendo o comprimido descer junto com ela. Aquilo o faria dormir.
***
Quando acordou, olhou para as brechas da cortina da janela e viu a luz do sol. Ficou aliviado de ter conseguido dormir à noite. Provavelmente por causa do remédio que tinha tomado, ele estava extremamente cansado.
Caminhou até a cozinha e pegou uma chaleira no armário, em seguida, encheu com água e colocou no fogão para ferver. Também pegou pó de café e deixou em cima da pia, pronto para despejar sobre a água quando ela começasse a ferver.
Ouviu seu celular tocar e colocou a mão no bolso da calça, com a qual ele havia dormido, mas não o encontrou. Percebeu então que o som vinha da sala. Correu até lá e olhou no sofá, embaixo do seu casaco. Lá estava ele, com a tela acesa, onde estava estampado o nome “mãe”.
Ele pegou o celular e atendeu.
– Oi mãe – Disse, esfregando o olho esquerdo.
– Bom dia, querido, você nunca mais ligou...
– Eu tenho estado ocupado.
– Como você está?
– Eu estou bem... Já conheci uma vizinha, arrumei um emprego.
– Um emprego? Onde?
– Em uma fábrica aqui por perto.
– Nós temos que conversar mais sobre isso... Você vem para a festa do seu irmão hoje?
– Caramba, eu esqueci do aniversário dele – Disse ele, soltando um “que droga!” mentalmente.
– Pois é, você vem?
– Eu não sei.
– Ele já perguntou por você várias vezes, diz que está com saudades.
– Ok, eu vou ver, se eu resolver ir eu apareço aí umas duas e meia.
– Tá bom, espero que você venha, tchau.
– Tchau mãe.
Ele desligou o telefone e o jogou sobre o sofá novamente, em seguida, foi terminar de fazer seu café.
***
Quando ele saiu do apartamento, minutos depois, trancou o seu apartamento e caminhou pelo corredor, passando por aquelas portas ainda trancadas com cadeados e correntes, das quais ele tinha visto sair coisas que nunca imaginou que veria.
Olhou para trás algumas vezes, com medo de estar sendo seguido, mas o corredor estava vazio, como sempre esteve desde que ele se mudara.
Desceu as escadas rapidamente e chegou à portaria, onde o Sr. Morris estava lendo sua já tradicional revista. Desta vez era de culinária... Engraçado, ele tinha um gosto incrivelmente variado.
– Bom dia Sr. Morris.
– Bom dia – Respondeu o senhor, sem tirar os olhos da revista.
Ethan saiu pela porta da frente, sentindo o vento frio da manhã e entrando no território do parque de diversões abandonado que ainda lhe dava calafrios. Para sua surpresa, encontrou Charli ali. Estava parada em frente ao carrossel, passando a mão na cabeça de um dos velhos cavalos de brinquedo.
– Charli – Disse ele, mas ela não ouviu.
Ele se aproximou e tocou seu ombro, ela se assustou e deu um pulo e um pequeno grito, mas sorriu ao ver que era ele.
– Ah, Ethan – Disse ela – Bom dia.
– Bom dia, o que faz aqui?
– Nada, eu só estava... Sei lá, esse lugar me fascina...
– Eu tenho medo disso aqui.
– Por quê?
– É tão esquisito, antigo... E além disso, me lembra uma coisa que aconteceu na infância, uma lembrança ruim.
– O que? – Ela ficou curiosa.
– Quando eu era pequeno, me perdi em um parque de diversões da cidade onde eu morava, minha mãe pensou que eu tinha voltado para casa com meu irmão, mas na verdade eu estava brincando com um garoto que morava em um trailer perto de lá... Fiquei tanto tempo com ele que quando voltei para procurar meus pais, o parque já havia fechado, eu não sabia como voltar pra casa, tive que voltar para o trailer do garoto, e ele deixou que eu ficasse lá até a manhã.... Foi um dos piores dias da minha vida, fiquei muito assustado.
– Deve ter sido horrível.
– Era muito parecido com esse, principalmente este carrossel – Continuou ele, olhando para o grande brinquedo à sua frente, marcado com os efeitos do tempo, que deixaram-no praticamente destruído – Por que o dono não destrói isso aqui?
– Eu não sei, acho que tem um significado, mas de qualquer forma, espero que ele não faça isso, é um lugar tão fascinante.
– É assustador, isso sim.
– Enfim, tenho que ir à padaria – Disse ela.
– Eu estava indo para lá também.
– Que coincidência, então vamos juntos – Concluiu ela.
– Nós nos esbarramos com muita frequência, você não acha que tô te seguindo não, né?
Os dois sorriram, principalmente ela.
Eles caminharam pela passarela de pedra que dividia o parque até o grande portão de ferro, que estava aberto, como de praxe. Empurraram o grande objeto metálico e ele abriu com um rangido. Em seguida caminharam pela calçada, com o objetivo de chegar à padaria do fim da rua. Foram conversando até lá.
***
Por volta das três e meia da tarde, Ethan estacionava seu carro em frente à casa de seus pais. A festa de aniversário de seu irmão já estava acontecendo. Havia um pula-pula e vários outros brinquedos no grande jardim, além de mesas com os convidados adultos, que estavam conversando.
Ele desceu do carro, segurando um presente embrulhado em um papel azul com bolinhas amarelas e um laço verde e entrou pelo portão aberto, encontrando sua mãe em frente à mesa onde estava um bolo azul e branco já partido, com suas camadas internas à mostra, e algumas guloseimas, despejando um pouco de ponche em um corpo.
Quando ela o viu, abriu um grande sorriso, deixou de lado o copo de ponche e correu para abraçá-lo.
– Você veio! – Exclamou ela, entrelaçando-o em um apertado abraço.
– Pois é – Respondeu ele, dando um leve sorriso.
– Como você está? – Perguntou ela, quando o largou.
– Eu estou indo, né.
– Venha, vamos falar com seu irmão, ele está louco pra vê-lo.
Ele a acompanhou, passando por várias mesas de convidados distribuídas pelo jardim. Ele podia ver a pena no olhar das pessoas enquanto acenavam ou sorriam para ele. Tudo o que Ethan fazia era sorrir ou acenar de volta.
Seguiu sua mãe até o pula-pula, onde seu irmão de 6 anos e outras quatro crianças brincavam, sorrindo e gritando.
– Frank – Chamou a mãe – Ethan chegou!
O garoto parou de pular e olhou para eles, em seguida saiu correndo do brinquedo, quase caindo na grama, indo na direção de seu irmão.
– Ethan! – Exclamou ele, extremamente feliz.
– E aí, amigão – Disse ele, se ajoelhando para que Frank pudesse abraçá-lo.
Quando o abraço acabou, Ethan entregou o presente.
– Feliz aniversário!
– Ah, obrigado, o que é? – Perguntou ele, balançando a caixa.
– Abra e verá.
Ele correu para junto dos colegas, com o objetivo de abrir o presente com eles.
– Seu pai deve chegar logo, está trabalhando – Disse a mãe, quando ele se levantou, limpando a calça jeans na altura dos joelhos – Quer um pouco de bolo?
– Sim.
Os dois caminharam até a mesa onde estava o bolo. Ela pegou uma faca grande e um prato de plástico colorido.
– Sabe... – Começou ela, enquanto cortava um pedaço do doce – Se quiser morar conosco por um tempo, você poderia dormir com o seu irmão.
– Mãe, não começa, por favor.
– Eu só estou preocupada com a sua segurança, aquele local é perigoso.
– Não é perigoso, tem várias pessoas morando por perto e o prédio é muito seguro.
– Então tá bom, eu desisto – Ela concluiu, entregando-o o prato e um garfo de plástico verde.
Ele pegou e começou a comer a guloseima, reconheceu o gosto na hora, coco e brigadeiro, os dois sabores favoritos de seu irmão.
Olhou ao redor, observando as pessoas sentadas às mesas e as crianças brincando na grama e nos brinquedos espalhados pelo imenso jardim. Algo lhe chamou a atenção. No fim do jardim, na última mesa, estava sentado dois homens e uma mulher. A mulher estava virada de costas para Ethan, então ele não podia ver seu rosto, mas os homens olhavam diretamente para ele, com olhares ameaçadores. Os três seguravam balões, amarelos e azuis, e suas peles eram extremamente pálidas. O que mais lhe chamava a atenção era a aparência, eles se vestiam como na antiguidade, com roupas pretas sociais, chapéus e bigodes bem finos.
Ethan os observou por alguns instantes, se sentindo desconfortável com o olhar deles, e então a mulher virou, encarando-o também. Ele estremeceu por um momento. Era a mulher que ele havia visto em seu apartamento e na fábrica, a assassina de Greta. Estava sorrindo de um modo macabro. Quando ela virou o rosto, os dois homens também sorriram e os três balões estouraram.
Ele colocou o prato sobre a mesinha e pegou seu celular do bolso, com o objetivo de ligar para a polícia, mas quando voltou a olhar para lá, a mesa estava vazia. Eles haviam sumido e Ethan não conseguia os encontrar em nenhum lugar.
– Droga! – Ele exclamou e saiu correndo pelo jardim, procurando os três desconhecidos no meio de todo mundo, mas eles tinham realmente sumido.
Correu para a calçada da casa, procurando eles pela rua pacata, mas não tinha ninguém com exceção de um casal entrando em um carro no fim dela.
Olhou para trás e percebeu os três o observando de longe, ficou parado, os encarando, enquanto eles sorriam, como bonecos de cera, sem fazer nenhum movimento. Decidiu que poderia facilitar o trabalho da polícia ao identificá-los, então pegou seu celular e rapidamente abriu a câmera, apertando um botão na lateral. Direcionou o aparelho para eles e, ao contrário do que pensava, eles nem sequer se movera, continuaram imóveis, com os sorrisos macabros estampados no rosto. A mulher no meio e os homens ao lado. Ele olhou para a tela do celular e percebeu o porquê. Ficou aterrorizado ao perceber que não havia ninguém na foto. Voltou a observá-los e depois olhou o celular... Eles simplesmente não apareciam na foto, como vampiros, mas é claro que não eram... Vampiros não existem.
Foi ali que ele percebeu que aquelas pessoas não podiam ser reais.
Quando olhou pela última vez, os três haviam sumido e ele voltou seu olhar para trás, onde sua mãe estava parada, sem entender a situação.
– O que houve? – Perguntou ela, percebendo o quão assustado o filho estava.
– Nada, nada – Respondeu ele, guardando o celular no bolso – Só acho que minha pressão baixou.
– Você quer um remédio?
– Não, não, estou bem... Preciso ir agora.
– Mas você não vai falar com seu pai?
– Eu volto outra hora, eu prometo – Disse ele, entrando em seu carro.
– Ethan! – Chamou a mãe, mas era tarde demais...
Ele já havia saído dirigindo apressadamente.
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