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6 Capítulo 05 - Fenômenos


Mais tarde, em frente à fábrica, já do lado de fora, Ethan estava encostado em seu carro, com seu casaco envolvendo o corpo. Estava embaixo da árvore onde ele estacionara da primeira vez. A alguns metros havia duas viaturas e uma ambulância.

Alguns funcionários, em choque, davam seus depoimentos confusos a alguns policiais, enquanto dois homens carregavam uma maca com um corpo coberto por um plástico negro.

Ele já havia dado seu depoimento, mas não tinha contado tudo, apenas que havia visto a mulher lá dentro. A polícia procuraria por ela, mas ele não tinha esperanças de que encontrariam.

Nunca acreditou em fantasmas, e procurava qualquer explicação plausível para a aparição daquela misteriosa mulher, mas não conseguia achar. Começava a acreditar em algo sobrenatural, nunca pensou que acreditaria em coisas que ele mesmo julgava besteira.

Decidiu abandonar toda aquela loucura e entrou em seu carro. Deu partida e começou a dirigir, adentrando a floresta naquela noite escura.

***

Quando entrou em seu apartamento, trancou a porta imediatamente e jogou seu casaco sobre o sofá. Sentou-se e deu um longo suspiro.

– Que merda – Disse ele, esfregando as têmporas, pensando no que havia acontecido minutos antes – Que merda, que merda, que merda.

Ele ainda se perguntava sobre a identidade daquela mulher. Não queria pensar naquilo agora, apenas decidiu que tudo o que precisava era de uma noite de sono, após tomar um banho de água quente.

Se levantou e caminhou até o banheiro, tirou sua roupa e entrou no box, ligando o chuveiro logo em seguida. Enquanto a água escorria pelo seu corpo, relaxando seus músculos, ele fechou os olhos, refletindo sobre sua vida e o quanto ela havia sido modificada na última semana. Essa pela qual passava era com certeza a pior fase de sua vida inteira.

Minutos depois, quando saiu do banho, ele ficou assustado ao ver que a porta de entrada do apartamento estava escancarada. Ele correu com o objetivo de fechá-la, mas ao chegar na metade do caminho, tudo ficou escuro.

– Droga! – Exclamou ele.

Caminhou lentamente até o sofá, o qual ele não podia ver, apenas seguia apenas o seu instinto. Ele andava com as mãos à frente do corpo, para tocar algo antes de tropeçar.

Quando chegou bem em frente à mesinha de centro, onde estava o celular, – percebeu isso quando tropeçou – ele parou. Pegou o aparelho e o ligou, procurou por um aplicativo de lanterna que ele possuía e ligou o flash, finalmente iluminando – um pouco – o apartamento.

Ia trancar a porta, mas ouviu um som estranho e perturbador. O lento rangido de várias portas se abrindo.

Estava com medo de sair no corredor, mas sua curiosidade foi maior, então ele saiu, vestido com a toalha branca ao redor da cintura, com o celular – cujo flash estava ligado – em mãos.

O que viu foi esquisito, as portas de todos os apartamentos, até onde o flash podia alcançar, estavam abertas. Todas elas, sem exceção. Ninguém tinha saído, apenas haviam aberto as portas.

De repente, as pararam de ranger, totalmente abertas. No primeiro apartamento, o 205, quase que bem à frente do seu, ele viu duas mãos ensanguentadas no chão, como se houvesse alguém se arrastando com dificuldade no chão.

– Oh deus – Disse ele, caminhando para ajudar a pessoa dona daquelas mãos, mas parou quando viu que nas outras portas dos outros apartamentos, também haviam mãos saindo, em alguns deles, Ethan conseguia ver até mesmo silhuetas o observando, com grandes olhos negros.

Ele, assustado, deixou cair seu celular, fazendo o flash desligar-se. O corredor ficou imerso na total escuridão e ele começou a dar passos para trás, tentando encontrar a porta aberta de seu apartamento. Quando a encontrou, estava fechada. Ele girou a maçaneta, mas ela não abria. Trancada.

Estava começando a ficar desesperado, quando de repente, como se alguém estivesse girando a maçaneta por dentro, a porta se abriu subitamente e as luzes começaram a se acender. A primeira a ser acesa foi aquela perto das escadas, do outro lado do corredor. Elas foram acendendo lentamente aos poucos, e quando o local estava claro o suficiente, ele percebeu que as portas agora estavam fechadas. Todas elas, trancadas com cadeados e correntes novamente, como sempre estiveram.

Apanhou seu celular e a bateria, que estava jogada do outro lado do corredor, no chão, e “montou” o aparelho de volta.

Seu coração estava batendo a mil, não conseguia entender o que havia acontecido, mas tinha certeza de uma coisa: Aquilo não podia ser normal. Era sobrenatural.

Entrou em seu apartamento e trancou a porta, girando a chave duas vezes. Se afastou lentamente, olhando fixamente para ela, enquanto tentava entender o que havia acabado de presenciar. Estava com medo... Nunca teve tanta certeza de que se mudar para aquele lugar havia sido o pior erro de sua vida.

Deu alguns passos para trás, olhando para a porta, com as mãos puxando o cabelo. Não conseguia acreditar no que havia visto. Tentava pensar em qualquer coisa que pudesse provar que não era real, mas ele estava totalmente sóbrio e consciente. Aquilo era tudo, menos mentira.

Neste momento, ouviu alguém batendo à porta.

Ficou parado, decidindo se iria atender ou não. Decidiu que iria apenas ver pelo olho mágico. Foi até a porta e relutantemente colocou o olho no pequeno círculo de vidro, esperando encontrar algo assustador, mas era uma garota, de cabelos louros e meio ondulados. Era Charli, a garota que ele havia encontrado no dia anterior. A única moradora daquele local que ele havia visto desde que se mudou, além do porteiro.

Ele abriu a porta, aliviado, e encontrou-a de pé, segurando um prato coberto por um colorido pano.

– Ah, oi Charli – Disse ele, feliz.

– Vejo que lembra o meu nome – Respondeu ela, com um sorriso meigo – Eu trouxe algo pra você – Continuou ela, tirando o pano que cobria o prato e revelando várias fatias de um bolo alaranjado com cobertura de chocolate – É bolo de cenoura, com cobertura de chocolate... Eu pensei “ele não deve saber cozinhar”, geralmente garotos solteiros que moram sozinhos não sabem.

– Eu sei, mas aceito sua guloseima com prazer – Disse ele, e ela entregou o prato.

– Fugiu do estereótipo, muito bem – Respondeu Charli, dando um sorriso.

– Por favor, entre – Ethan convidou-a, indo até a cozinha logo em seguida. Colocou o prato dentro do fogão, pegou duas garrafas de cerveja na geladeira e voltou à sala, encontrando-a em pé, parada perto da TV. Já havia fechado a porta.

– Parece que além de cozinhar você limpa o apartamento, né? Ideal para casar.

Os dois riram.

– Pois é, nós somos difíceis de encontrar... – Ele caminhou até ela e estendeu a mão com uma das garrafas – Aceita uma cerveja?

– Oh, eu não bebo.

– Ah, então tá.

Ele colocou a garrafa que seria dela sobre a mesinha de centro e abriu a sua, com dificuldade.

– Ah, sente-se – Disse ele, sentando no sofá. Ela sentou ao lado dele.

– Então, tem mais gente morando no prédio ou eles são antissociais mesmo? – Brincou ele.

– Não esquenta, é que os moradores daqui são bem reservados mesmo, entende? É um prédio antigo, a maioria é de idosos que moram aqui há anos, então eles não saem de casa porque não têm nada pra fazer... Você vai cruzar com alguém qualquer dia desses.

– Isso me deixa mais tranquilo, quase pensei que éramos os únicos aqui.

– Então, o que te trouxe ao nosso velho prédio? Porque os luxuosos apartamentos não foram, né? – Brincou Charli.

Ele deu um leve sorriso.

– Eu... Eu perdi minha noiva há menos de uma semana – Disse ele, com a cabeça baixa, falando sem jeito – Resolvi me afastar de tudo e de todos, sabe? Precisava pensar.

– Ah, desculpa – Falou ela, tirando o sorriso do rosto – Eu sinto muito pela sua perda.

– Tudo bem – Respondeu ele, claramente abalado.

– Eu sei o que está passando...

– Sabe?

– Eu perdi meus pais em um acidente de carro há dois anos, não tive coragem de sair daqui.

– Eu sinto muito.

– Estamos no mesmo barco.

Ethan deu um gole em sua cerveja e os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, até que Charli quebrou o gelo.

– Então, eu já vou indo – Disse ela, levantando do sofá.

– Já? – Perguntou ele, levantando também.

– Pois é, dia de faxina – Respondeu ela, com um leve sorriso no rosto.

– Então a gente se vê.

Ele acompanhou-a até a porta e, quando ela saiu, virou-se para ele e disse:

– Até mais vizinho.

– Até – Respondeu Ethan.

Fechou a porta e voltou para o sofá. Ligou a TV e continuou bebendo a cerveja. Estava pensando em Charli, no quanto era ela simpática, meiga e bonita... Do mesmo modo que Laura era.

Por algum motivo, sentia-se seguro sabendo que ela estava por perto, mas ainda não tinha esquecido o que havia acontecido instantes antes de ela chegar, aquilo o deixava trêmulo só de pensar.