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5 Capítulo 04 - Vestido Branco


No caminho para casa, Ethan havia comprado uma garrafa do uísque mais barato da loja de licores do posto de gasolina que ficava na rua paralela à dele.

Agora, estava sentado no sofá da sala, com a TV velha ligada em um filme do Tarantino. A garrafa estava na mesinha de centro, aberta e cheia com um pouco mais da metade do líquido marrom alaranjado. O copo cheio estava na sua mão, indo em direção à sua boca.

Ele sabia que não deveria beber tanto assim, mas não ligava, não ligava pra quase nada nos últimos dias. Só queria esquecer a situação em que estava e ficar bêbado era a saída.

Ele colocou o copo – agora vazio – sobre a mesinha e tampou a garrafa de uísque. Não poderia beber mais porque tinha que trabalhar em poucas horas e não podia chegar bêbado em seu primeiro dia.

Levantou-se e se dirigiu para a porta do banheiro, mas parou ao se assustar com o som de vidro quebrando, seguido de um grito de mulher.

Caminhou até a porta de entrada do apartamento, destrancou-a e abriu. Primeiramente olhou para o lado direito e constatou que a janela do fim do corredor estava intacta, fazendo-o desistir da ideia de que alguém havia pulado.

Em seguida, olhou para o lado esquerdo, para o resto do corredor, que estava vazio, exceto por uma mulher de longos cabelos negros no fim, vestindo um longo vestido branco. Ela estava caminhando em direção às escadas.

Algo estranho que lhe chamou a atenção, as luzes do corredor estavam piscando freneticamente.

A mulher parou no fim, ao lado da escada, e assim ficou por alguns instantes, enquanto as lâmpadas fluorescentes continuavam a piscar, como se estivessem prestes a queimar. Ele pensava em falar alguma coisa, ligando o grito feminino que ouvira àquela mulher, mas resolveu que era melhor não.

Quando ela finalmente começou a descer as escadas, sumindo do corredor, as luzes pararam de piscar, voltando ao normal.

Ethan, estranhando, voltou para dentro. Será que o álcool já começou a fazer efeito? Pensou ele.

Quando fechou a porta de seu apartamento e se virou, com o objetivo de ir ao banheiro, viu a porta do quarto totalmente, diferente de antes, que estava fechada. Ele se aproximou um pouco para fechar, mas ela subitamente foi batida com força.

Ele correu e abriu a porta do quarto, acreditando que havia alguém dentro.

E realmente havia.

No canto da cama, virada para a janela, a mulher de longos cabelos negros e vestido branco estava sentada. A mesma que ele havia visto segundos antes descer as escadas.

– Quem é você? – Perguntou ele, tremendo de medo.

Ela começou a gargalhar, como uma criança ao ouvir uma piada engraçada. O coração de Ethan estava palpitando fortemente. Pensou em sair correndo do apartamento, mas ela poderia ser uma ladra e roubar as poucas que ele tinha. Além disso, ela aparentava não ter nenhuma arma.

– É melhor você ir embora ou eu vou chamar a polícia – Disse ele, tentando fazê-la falar alguma coisa.

– Seu tolo imbecil, já deveria ter chamado!!! – Ela gritou, assustando-o, quando se virou e deu-lhe um tapa na cara. Ele quase caiu no chão e virou o rosto, colocando a mão na bochecha.

Quando virou o rosto novamente, na intenção de agredi-la de volta, mas ela não estava mais lá.

Ele correu para a sala, mas não encontrou nenhum sinal dela.

Olhou no banheiro e cozinha também, mas ela definitivamente havia sumido.

Verificou a porta da frente e constatou que ela não estava mais trancada como ele havia deixado antes, então ele a trancou.

Deu um longo suspiro e tentou se recuperar do susto. Mais tarde falaria com o porteiro sobre aquela mulher, mas por enquanto, só queria tomar um banho e descansar.

Caminhou pela sala até a porta do banheiro e entrou. Parou em frente ao espelho e observou a sua bochecha, que estava vermelha com a marca da mão da mulher. No começo ele até pensou que poderia ser algum tipo de alucinação por conta do álcool, mas depois daquele tapa na cara, ele havia percebido que era real, tão real quanto a ardência que ele sentia.

***

Horas depois, por volta das seis e meia da noite, Ethan estava na fábrica, em seu primeiro dia de trabalho. Ele varria a ala dos estoques, onde havia várias prateleiras de vários metros de altura cheias de alimentos em lotes.

O local estava vazio. Naquela ala só havia dois faxineiros limpando, ele e Greta, uma mulher que ele havia conhecido. No entanto, ela não estava ali, provavelmente varria e limpava outra parte mais distante do lugar.

Havia várias luzes fluorescentes penduradas por fios de aço, já que não poderiam ficar no teto, pois ele era muito alto e elas não conseguiriam iluminar de forma satisfatória se estivessem lá.

Começou a assobiar uma música qualquer que havia escutado em algum lugar, enquanto varria a sujeira para uma pá encostada na parede. Greta havia se distanciado um pouco.

Quando parou de assobiar, ao contrário do que seria comum, os assobios não pararam, o que revelou que alguém estava acompanhando a canção junto com ele.

– Greta? – Perguntou ele, mas ela não respondeu, apenas continuou assobiando.

Ele ignorou e voltou a varrer, admitindo a hipótese de que era sua colega de trabalho quem estava fazendo aquilo, mas, ao vê-la se aproximando com uma vassoura na mão, e o mais importante, sem assobiar, ele ficou assustado.

O doce som continuou ecoando, mas nenhum dos dois estava produzindo-o.

– Quem está assobiando? – Perguntou ele.

– Eu não sei, deve ser algum funcionário.

– Não, nós estamos sozinhos nessa ala, e o som parece vir de perto.

De repente, o assobio se transformou em uma gargalhada, cuja voz era feminina. Ele se arrepiou inteiro. Era a mesma gargalhada da mulher no seu apartamento.

– Não pode ser – Disse ele, assustado, olhando para os lados. Não enxergava nada.

– Quem diabos está fazendo isso? – Perguntou Greta, alto o suficiente para fazer ouvir quem quer que estivesse rindo. Ela esperava uma de suas amigas sair de trás de alguma prateleira e começar a rir da cara deles, por ter conseguido assustá-los, mas ela não fez.

– É a mulher que estava no meu apartamento hoje à tarde – Explicou Ethan – Está me seguindo.

Ele passeou seus olhos pela prateleira, procurando a mulher que provavelmente estava do outro lado. Permaneceu olhando por alguns instantes até que, entre uma prateleira e outra, em um espaço pequeno, ele pôde ver um par de olhos do outro lado. Estavam olhando diretamente para ele.

Ao vê-la, ela gargalhou ainda mais alto e começou a correr até o fim daquele corredor.

Ethan seguiu-a pelo pequeno espaço entre os produtos das prateleiras, até ela sumir no fim.

– O que foi isso? – Perguntou Greta.

– Você também a viu, não foi?

– Sim, eu a vi – Respondeu ela, tão branca como papel – Quem é? E como o Christopher deixou ela passar, talvez tenha a identificação.

– Seja quem for, eu vou descobrir agora – Disse ele, determinado.

Ethan caminhou rapidamente pela lateral da fábrica, em um corredor com o teto alto até chegar em uma porta dupla, a qual ele empurrou e abriu. Em seguida, entrou em um corredor igualmente alto e correu até a porta de entrada da fábrica.

Saiu andando pela passarela de pedra até a guarita, onde os dois seguranças do turno da noite estavam, rindo de alguma coisa.

– Ei – Disse Ethan ao chegar lá – Vocês deixaram alguém entrar recentemente aqui?

– Sim, você, por exemplo – Respondeu um deles.

– Ha-ha, muito engraçado, mas eu tô falando sério, além dos funcionários, alguém entrou? Talvez uma mulher de vestido branco...

– Não, só vocês.

– Que droga!

– Por quê? – Perguntou o outro.

– Temos que chamar a polícia – Disse Ethan – Tem uma mulher aí dentro e ela é perigosa, acho que está me seguindo.

– Você tá falando sério?

– Não, é brincadeira... É claro que é sério, por que eu brincaria com isso?!

– Então fique aqui e nós vamos verificar.

– Tá, tá bom, ela está na ala dos estoques, e tenham cuidado!

Os dois segurança saíram da guarita e correram para dentro da fábrica, enquanto Ethan ficou do lado de fora.

Abraçou-se, esfregando suas mãos no casaco, por conta do frio, e estava prestes a entrar na guarita, quando ouviu o som do potente motor de um dos caminhões estacionados ligando.

Olhou para trás e viu o último deles com os faróis traseiros ligados, os dianteiros provavelmente também.

Pensou se seria a mulher dirigindo, mas desistiu da ideia quando os outros sete caminhões ao lado dele também ligaram. Um a um, os motores estavam a todo vapor. Ela não poderia estar dirigindo todos os caminhões.

Ele ficou arrepiado de medo ao ver que não havia ninguém dirigindo o primeiro caminhão. Não podia ver os outros, que estavam um ao lado do outro, mas tinha certeza de que também não havia ninguém conduzindo-os.

– Caramba! – Exclamou ele, correndo para dentro da fábrica, bem na hora que os oito caminhões começaram a dar ré e a gargalhada da mulher pôde ser ouvida bem distante.

Quando ele olhou novamente para a janela do caminhão, viu que ela estava dirigindo, ainda rindo da cara dele.

Ethan correu apressadamente pelos corredores até a ala onde ele havia dito que ela estava e encontrou os dois seguranças, atordoados.

– Encontraram-na? – Perguntou ele.

– Não, mas encontramos algo pior – Respondeu um dos homens, o mais alto.

– O que aconteceu?

– Houve um assassinato.

– O que? – Ele ficou surpreso.

– Você precisa ficar lá fora.

– Quem ela atacou?

– Não faça perguntas, apenas vá, nós vamos avisar aos outros funcionários.

– Eu quero saber quem ela matou! – Ele exclamou, extremamente pálido. Não estava sentindo nada bem.

– Por favor, vá até a guarita e use o telefone para chamar a polícia, diga que houve um assassinato e peça para virem urgente.

Ethan desistiu de tentar saber quem havia sido assassinato, então correu de volta para a guarita, esperando que a vítima não fosse Greta.

Mais ou menos um minuto depois, ele estava na guarita, discando o número da polícia. Colocou o telefone no ouvido e esperou os bipes.

– Alô – Disse ele, desesperado – Eu preciso que mandem uma viatura para a fábrica da Hampshire, houve um assassinato e a suspeita pode estar nas redondezas.