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4 Capítulo 03 - Recomeço


No dia seguinte

Ethan havia terminado de organizar o apartamento. Havia trazido algumas coisas do apartamento antigo, como seu colchão, travesseiros e utensílios de cozinha, além dos itens de uso pessoal. No geral, a maioria dos móveis, como sofá, TV, mesa e outros ele havia deixado lá. Não que os móveis daquele apartamento novo fossem melhores – e não eram – mas ele não sentia vontade de fazer uma mudança inteira... Não, na verdade, fez uma mudança inteira, pois havia deixado para trás tudo aquilo.

Agora, depois de limpar o local e esvaziar as caixas, colocando tudo no lugar, Ethan estava sentado no sofá azul, olhando para a antiga TV desligada, bebendo uma cerveja direto da garrafa, a qual havia obtido na geladeira do apartamento onde morava com Laura, quando foi pegar o resto dos pertences.

Colocou a garrafa de vidro sobre a mesinha de centro e olhou ao redor. Não é tão ruim assim, pensou. Aquilo era temporário. Poderia voltar ao apartamento quando a poeira abaixasse, mas, naquele momento, só queria ficar sozinho, isolado de todos que conhece.

Ethan resolveu sair para procurar emprego, pois era de extrema importância que conseguisse um rapidamente. Pegou a garrafa e levou até a cozinha, deixou-se em cima da pia e voltou à sala para pegar seu casaco. Em seguida, foi até seu quarto e, dentro do guarda-roupa, pegou uma pasta preta, onde deixava alguns papeis importantes, incluindo seu currículo.

Quando saiu do apartamento, levando consigo a pasta, entrando no corredor frio e escuro, apesar da janela no fim que deixava entrar um pouco de luz solar, ele trancou a porta e caminhou até o outro lado, onde ficava as escadas, passando pelas portas dos outros apartamentos, que já não tinham mais as correntes e cadeados protegendo suas fechaduras. Era só durante a noite.

Quando chegou à escada, ao lado do elevador, percebeu que ele não estava parado ali. O motor e a engrenagem estavam trabalhando. O elevador estava subindo.

Neste momento, a máquina chegou ao quarto andar, onde ele estava, e, através das grades, pôde ver uma garota loira.

Ela saiu e manualmente abriu a porta do elevador, olhando para o chão, distraída. Quando viu Ethan, ela pulou de susto.

– Ai meu deus – Disse ela, sorrindo – Que susto.

– Ah, desculpa – Falou ele, envergonhava, enquanto estendia a mão – Sou Ethan Geller, o novo inquilino do 206.

– Oh sim, eu te vi ontem com o Sr. Nelson – Ela apertou a mão dele – Seja bem-vindo, Ethan, eu sou Charlotte, mas pode me chamar de Charli... E veja só que coincidência, eu moro no apartamento ao lado do seu!

– Sr. Nelson?

– Ah, sim, ele deve ter se apresentado apenas como Steve... Steve Nelson, o dono do prédio.

– Oh sim.

Os dois riram.

– Então, a gente se vê – Disse ela.

– Ok – Respondeu ele.

Ethan seguiu seu caminho, prestes a descer a escada, e ela caminhou pelo corredor até seu apartamento. Ele a observou por alguns segundos. Era muito bonita, lembrava-lhe Laura, com os cabelos loiros meio ondulados e olhos acinzentados.

Quando chegou ao apartamento dela, Charli olhou para ele, enquanto destrancava a porta, e ele ficou envergonhado, pois estava ali parado como um tolo.

Ela sorriu e entrou.

Ethan desceu os quatro lances de escada e chegou à portaria, onde o porteiro, Sr. Morris, pelo que ele lembrava, estava lendo uma revista, sentado em sua cadeira giratória sob o ventilador de teto.

Ele precisava de um emprego, então resolveu perguntar ao porteiro se havia alguma oferta por ali.

– Com licença, Sr. Morris – Disse ele.

– Ah, o que quer, filho? – Falou o senhor, simpaticamente, colocando sua revista em cima do balcão.

– Eu queria saber se o senhor conhece algum lugar onde eu possa arranjar um emprego por aqui.

– Não, acho que não sei.

– Obrigado, então, depois procuro.

Ethan estava saindo pela porta dupla, quando o Sr. Morris lhe chamou a atenção.

– Eu acho que sei onde você pode ir – Exclamou ele, levantando da cadeira.

– Sabe?

– Sim, sei – O senhor saiu de trás do balcão e caminhou até ele.

– Tem uma fábrica que sempre está com vagas abertas... Fica a alguns metros depois da floresta, perto do lago, é só seguir a estrada de terra.

– Ah, sim, muito obrigado, eu tentarei lá.

– Por nada.

Sr. Morris voltou para trás do balcão e Ethan saiu do prédio.

Ele caminhou por entre os brinquedos do parque de diversões abandonado, o qual ainda lhe dava arrepios, e saiu pelo grande portão de metal enferrujado, que, como sempre, estava aberto, porém, encostado.

Ele caminhou até seu carro, estacionado na calçada, pois não havia garagem, e entrou. Deu partida e começou a dirigir em direção à floresta, cuja entrada estava apenas a alguns metros, depois de mais ou menos três casas.

***

A floresta não era muito escura, pois uma grande parte das árvores estava velha e quase desfolhada. Ele dirigiu pela estreita estrada de terra por alguns minutos, até conseguir ver o lago, cuja extensão era imensa e água, extremamente límpida.

Ao lado direito, cercada por um alto muro de concreto, estava uma grande construção. Aparentava ter apenas um andar, mas sua extensão era muito grande, provavelmente passava dos 300 metros.

Ele estacionou o carro abaixo de uma árvore e caminhou até o grande portão de entrada, segurando sua pasta. Ao lado esquerdo havia um pequeno buraco em forma retangular e do lado direito, um cartaz em que estava escrito “Contrata-se”.

– Em que posso ajudá-lo? – Perguntou um homem negro e aparentemente fardado, colocando sua cabeça no buraco retangular, onde provavelmente era a guarita do local.

– Eu estou à procura de emprego e fiquei sabendo que vocês estão contratando.

– Vou precisar da sua identidade.

– Tudo bem.

Ethan pegou a carteira no bolso traseiro de sua calça e abriu, procurando sua identidade. Acho achar, entregou ao homem, cuja mão estava estendida na sua frente.

O segurança da fábrica sumiu com o documento e segundos depois, voltou, entregando a carteira de identidade de volta.

Instantes depois, o grande portão se abriu lentamente, e o homem, que parecia ter quase dois metros de altura, estava o esperando do outro lado.

– Venha por aqui – Disse ele e começou a andar por uma passarela de concreto até a porta dupla de vidro da fábrica.

Ethan o seguiu e observou o local. Havia um portão tão grande quanto aquele pelo qual passou e vários caminhões em um tipo de estacionamento.

Quando entrou na fábrica, constatou o que havia pensando de primeira. Só havia um andar, mas o teto era suficientemente alto para ter mais um. A sala do diretor não era muito longe. Foi preciso apenas caminhar por dois corredores devidamente iluminados por lâmpadas fluorescentes, já que havia uma quantidade muito pouca de janelas.

O segurança bateu na porta, onde havia uma placa que dizia “direção”, e segundos depois, um homem atendeu.

– Pois não – Disse o diretor. Era um homem baixo, de aparentes 40 anos e usava um terno azulado.

– Este é Ethan Geller – Disse o segurança – Está à procura de emprego.

– Ah sim – O homem abriu um grande sorriso – Pode entrar, Sr. Geller, obrigado Sr. Wilkins.

Ethan entrou na sala do diretor, onde havia uma foto dele estampada em um quadro pendurado na parede bem acima da cadeira de couro dele.

O diretor caminhou até o outro lado da grande mesa de vidro cheia de papeis e sentou-se na cadeira.

– Sente-se – Disse ele, e Ethan obedeceu, sentando em uma das duas cadeiras do lado oposto da mesa ao que ele estava sentado.

O clima na sala estava extremamente frio, por conta do aquecedor que também funcionava como ar-condicionado. Infelizmente, para Ethan, ele estava funcionando na segunda opção.

– Então, Sr. Geller, você está à procura de emprego, não?

– Sim, senhor.

– Não precisa me chamar de senhor – Disse ele, explodindo em uma risada megalomaníaca – Eu sou John Gibson, mas pode me chamar de John.

Ethan sorriu timidamente.

– Então, pela sua aparência – Começou ele, analisando-o de cima abaixo – Não acho que o emprego que temos disponível estará à sua altura.

– Eu aceito qualquer cargo, senhor – Respondeu Ethan, lisonjeado e ao mesmo tempo assustado com o julgamento do homem. Se ele, vestido como uma pessoa comum, não era adequado para o cargo, quem seria?

– O cargo é de faxineiro – Concluiu ele, olhando para o garoto e esperando uma resposta negativa.

– Eu aceito.

– O salário é baixo, os benefícios não são muitos, mas até que a carga horária não é tão pesada, já que não trabalhamos durante todo o dia.

– Tudo bem para mim.

– Seu turno será pela noite.

Ethan não queria aceitar um turno noturno, afinal, era perigoso trabalhar ali durante a noite, já que a fábrica estava localizada no meio de uma floresta praticamente. No entanto, se não aceitasse, era possível que não encontrasse nada melhor, então resolveu aceitar.

– Sim, eu aceito.

– Então está contratado.

– Não vai olhar meu currículo?

– Não há necessidade, não para esse cargo.

– Obrigado, então – Ethan disse, levantando-se da cadeira. Estendeu sua mão e o homem apertou.

– Quando você pode começar?

– Hoje mesmo.

– Ah, maravilha, então esteja aqui às dezoito horas, tudo bem?

– Sim.

– Agora, se me der licença, Sr. Geller, eu preciso fazer algumas coisas, foi um prazer te conhecer.

– Tudo bem.

– Marge!!! – Gritou ele, de repente. Em seguida, uma mulher de cabelos ruivos e armados, com um óculos roxo, surgiu na porta – Acompanhe o Sr. Geller até a saída.

Ela não disse nada, apenas esperou.

– Então, até mais – Disse Ethan, sem saber como se despedir.

– Até, meu jovem.

Ele caminhou até a porta, estranhando o fato de ter sido contratado tão rapidamente, e foi acompanhado pela silenciosa mulher até a saída.