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3 Capítulo 02 - Mudanças


No dia seguinte, por volta das sete horas da noite, Ethan e seus pais estavam sentados à mesa da cozinha da casa dos Geller. Sua mãe havia feito o tradicional bife com cebolas, purê de batatas e ervilhas, seu prato favorito desde criança. Talvez tudo aquilo fosse um modo de evitar que ele caísse em depressão, o que sentia que estava aos poucos acontecendo e ele tinha conhecimento, ainda mais porque quando estavam perto de Ethan, seus familiares pareciam agir de um jeito estranho, como se estivessem lidando com uma criança que acabara de perder o cachorro, mas ele não era mais uma criança, e não havia perdido um cachorro, havia perdido a mulher com quem desejou passar todos os anos de sua vida.

– Você não tocou no seu prato, filho – Disse a mãe, tentando, sem sucesso, forçar um sorriso.

Ele não respondeu, apenas pegou uma ervilha com o garfo e levou à boca. Em seguida, pegou um pouco de purê. Sua mãe, aparentemente satisfeita, voltou a se concentrar em seu prato.

– Você está melhor? – Perguntou ela, surpreendendo Ethan, que achava que ela não iria tocar naquele assunto durante o jantar.

– Sim – Respondeu ele, mas era evidente que a resposta era contrária.

O silêncio permaneceu no ar por algum tempo.

– Eu vou me mudar – Disse Ethan. Todos na mesa pararam e olharam para ele.

– Por quê? – Perguntou o pai.

– Eu não consigo mais ficar naquele apartamento, me traz muitas lembranças que eu quero esquecer.

– E onde pretende morar? – Questionou a mãe, que novamente o surpreendeu. Ele pensou que ela iria protestar contra a ideia por vários minutos, dizendo que ele deveria morar perto dos pais.

– Perto da floresta Moon – Respondeu ele. A floresta Moon era uma floresta velha e que muitos habitantes da cidade – principalmente os mais conservadores – consideravam assombrada. É claro que o lago que ficava localizado depois da floresta era um dos locais preferidos das famílias no fim de semana, mas mesmo assim, ela nunca era adentrada. As pessoas passavam apenas por uma única trilha até o lago e depois voltaram pelo mesmo local.

– O que? – Ela ficou surpresa – Isso é muito longe, fica nos limites da cidade.

– Eu sei – Respondeu ele – Mas eu já achei um local, é um prédio grande.

– Filho, você não deveria morar ali, sabe como é perigoso.

– Por quê? Por causa dos fantasmas que assombram a floresta? Por favor, pai, eu não acredito nisso.

– Não, não é por isso, é simplesmente pelo fato de que lá não haverá ninguém por perto.

– Claro que haverá.

– Ninguém que você conheça.

– Eu logo vou conhecer.

– Ethan, o que você está tentando fazer? – Perguntou a mãe, com a maior calma do mundo.

– Eu quero me isolar do mundo, mãe, ter tempo para organizar as ideias na minha cabeça, porque, caso você não saiba, eu acabei de perder duas das pessoas mais importantes da minha vida! – Ele exclamou, levantando-se da mesa.

Os pais se entreolharam e a mãe deu um longo suspiro.

– Ethan! – Chamou o pai, indo atrás do filho.

***

Ele o seguiu até o lado de fora da casa.

– Ethan, aonde você vai? – Perguntou o pai, da varanda, enquanto o filho entrava no carro.

– Não importa pai, não importa – Respondeu ele, entrando no veículo e acelerando com força.

Dentro do carro, Ethan estava o volante, seus olhos já começavam a lacrimejar. Não aguentou por muito tempo e logo explodiu em lágrimas, enquanto olhava para a foto pendurada no espelho retrovisor. Ele e Laura extremamente sorridentes em um parque de diversões há cinco meses.

Olhando a foto, aquele momento voltou à sua mente. Podia até sentir o cheiro da pipoca amanteigada cujo pacote eles dividiram no dia. Podia até sentir o perfume dela lembrando da vez em que segurou sua mão, ajudando-a a mirar a arma de água na boca do palhaço, na intenção de fazê-la ganhar um urso gigante como prêmio. Um dia mágico que nunca voltaria.

– Por que tiraram você de mim? – Ele perguntou o vento, pois Laura não podia responder. Estava aos prantos e sempre ficava daquele jeito ao lembrar dela, o dia inteiro, deitado em sua cama, agarrado ao travesseiro, lembrando do sorriso, do bom humor e da beleza angelical.

Ainda não conseguia aceitar a maneira violenta como ela havia sido tirada dele e não o contrário. Não conseguia e nunca conseguiria.

***

Quando chegou em casa, bateu a porta com força e caminhou depressa até o quarto, onde estavam várias caixas de papelão que ele havia conseguido no depósito do prédio.

Abriu o guarda-roupa e começou a tirar suas peças de roupas de lá, jogando dentro das caixas espalhadas pelo chão e em cima da cama.

Encontrou a pequena roupa de bebê no meio de suas coisas e olhou bem para ela. Sua noiva deveria estar ali naquela noite, provavelmente comemorando a chegada do seu primeiro filho, mas não. Nenhum dos dois estava ali, nem ela, nem o filho, apenas Ethan, com os olhos vermelhos.

Jogou a roupa no chão, com raiva e continuou embalando suas coisas nas caixas, mas parou ao sentir uma forte dor de cabeça. Precisava descansar.

Amanhã eu termino, pensou ele.

Ethan se deitou na cama, sem ao menos tirar as caixas que ali estavam e ficou olhando fixamente para a cortina da janela, que adquiria uma coloração azulada por conta da luz do luar. Caiu no sono minutos depois

***

Na manhã seguinte, depois de colocar tudo dentro das caixas, ele havia partido em seu carro em direção a seu novo apartamento. Era bem longe de tudo, mas estava tudo bem, ele estava disposto a começar uma nova vida ali, até já tinha se demitido do antigo emprego.

Seu carro estava estacionado em frente a um grande e velho portão de ferro. Do outro lado, a alguns metros, um grande edifício que parecia abandonado, mas o que chamava a atenção não era a construção em si, e sim o parque de diversões que havia no caminho até o prédio.

Ethan desceu do carro, que estava entupido de caixas por todos os lados, e caminhou até o portão. Não estava trancado, então ele o empurrou e a estrutura metálica fez um rangido esquisito, como em filmes de terror.

Ao entrar no local, percebeu que o piso era de pedra e cheio de terra e folhas secas espalhadas pelo chão. Ao seu lado, bem perto da entrada, havia uma barraquinha com algumas miras em forma de rostos de palhaços. Era um daqueles onde você deveria atirar com água na boca dele e ganharia um prêmio. A madeira do balcão estava velha, a estrutura, enferrujada, e a pintura dos bonecos estava descascando e desbotando.

– Isso aqui era um sucesso, antigamente – Disse um homem atrás dele, pegando Ethan de surpresa.

– Jesus! – Exclamou ele, se virando – Você me assustou.

– Desculpa – Respondeu o homem alto e com um grande bigode exagerado, parecido com o daqueles tradicionais chefes de cozinha franceses – Eu costumo assustar as pessoas... Meu nome é Steven – Estendeu a mão – Mas pode me chamar de... Steven mesmo – Ele tinha um senso de humor esquisito.

– Ah, eu sou Ethan Geller – Ethan tratou de segurar a mão fria daquele homem – Nos falamos por telefone.

– Eu estava esperando por você... Vamos dar uma olhada no apartamento.

– Vamos.

– Então siga-me.

Ethan seguiu o homem pelo caminho de pedras, passando por vários brinquedos de parques de diversões, como algumas barracas de prêmio dos mais variados tipos, carrinhos de bate-bate enferrujados, assustadoramente velhos, e até uma roda gigante não tão gigante assim a alguns metros. No entanto, o que mais lhe chamou a atenção foi um carrossel localizado bem no meio do parque. Tinha vários cavalos enfileiradas, e, com exceção da tinta descascando, eles pareciam estar bem conservados em relação às outras atrações.

Alguns metros depois, estava a entrada para o prédio, uma porta dupla vermelha.

Ethan seguiu o homem até lá dentro, na recepção, onde um senhor de idade, usuário de um grande óculos “fundo de garrafa” estava folheando uma revista, atrás do balcão. O ventilador de teto rodava bem devagar acima dele.

– Sr. Morris, este é Ethan Geller.

– Oi? – Perguntou ele, dando sinais de surdez.

– Este é Ethan Geller, nosso provável novo inquilino.

– Ah, sim – Respondeu ele, fazendo um sinal de aprovação com o dedo polegar. Em seguida, olhou para Ethan, deu um leve sorriso, ajeitou o óculos no rosto e voltou a folhear sua revista de carros esportivos.

– Vamos por aqui – Disse o homem, subindo pelas as escadas que ficavam imediatamente ao lado direito de um velho elevador – O elevador não funciona direito, então, é melhor pensar duas vezes antes de se arriscar – Ele deu uma risada alta, com aquele bom humor que Ethan achava extremamente esquisito.

Eles subiram quatro lances de escadas, passando por três andares diferentes, com corredores aparentemente escuros e vazios.

Quando chegaram ao quarto andar, entraram no corredor do lado esquerdo, onde ficava o apartamento dele, e caminharam até a última porta, passando por várias outras, protegidas com cadeados e correntes nas fechaduras. Isso é que é segurança, pensou ele ao ver aquilo.

Pronto, é este aqui – Falou o homem, destrancando a porta.

Quando eles entraram no local, Ethan deu de cara com uma sala não tão pequena quanto o que ele esperava.

– Aqui é a sala – Informou o homem – Ali é a cozinha – Apontou para um cômodo bem estreito, onde ele pôde perceber uma geladeira e uma pia, além de um armário.

Ethan seguiu aquele homem até o fim da sala, onde haviam duas portas.

– Aqui é o quarto – Disse ele, abrindo a porta da esquerda, revelando um pequeno quarto com uma cama sem colchão no meio, um ventilador de teto e um rústico guarda-roupa de madeira. Havia também uma pequena janela.

Eles saíram do quarto e o homem abriu a outra porta.

– E aqui é o banheiro... Com água quente e tudo — Apontou para o chuveiro elétrico, com alguns fios coloridos saindo da parede.

O banheiro era menor, naturalmente, mas tinha vaso sanitário e pia na cor branca, o que dava uma sensação de iluminação a mais, já que a janela pela qual passava a luz não era muito grande.

Os dois voltaram até a sala, onde havia um sofá azul marinho e uma pequena encostada na parede.

– Então, é isso – Disse o homem – Se quiser o apartamento, ele é seu... Poderá se mudar a qualquer momento.

Ethan olhou ao redor. Sabia que não conseguiria nada melhor pelo que poderia pagar, e não queria ficar no apartamento antigo, com todas aquelas lembranças.

– Eu vou ficar com ele.

Houve um aperto de mão e um sorriso grande por parte do homem que acabara de alugar mais um apartamento.

Ethan não sabia se aquilo era certo, e poderia ser um grande erro, mas por enquanto parecia certo.