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2 Capítulo 01 - Tempestade
2 dias depois
Ethan nunca pensou que voltaria a um cemitério tão brevemente depois da morte seu avô paterno, mas ali estava, parado em frente a um buraco onde mais tarde seria introduzido o caixão de Laura, caixão este que estava no chão ao lado da cova. Era marrom e continha uma cruz folheada a um material dourado no meio.
Várias pessoas ao redor do túmulo, vestidas de preto, lamentavam a morte precoce da garota, enquanto um padre dizia algumas palavras de conforto, nas quais ele não prestava atenção, pois sua cabeça estava em outro lugar.
Do outro lado da cova, os pais de Laura estavam abraçados, ouvindo o padre falar. O pai estava extremamente triste, mas nada comparado à mãe, que chorava desesperadamente ao ombro dele. Seus óculos escuros não deixavam a mostra, mas Ethan sabia que os olhos dela estavam vermelhos e cheios de olheiras ao redor, pois provavelmente ela não havia conseguido dormir à noite com tamanha tristeza.
E ele não parava de pensar que aquilo era por sua causa. Tudo aquilo... Mas porque ela morreu e não ele? Afinal, a culpa não foi dela. Laura não merecia aquele fim trágico, mas ele sim.
Quando o padre terminou suas palavras, alguns homens se aproximaram do caixão e levantaram o objeto com pouco esforço.
Enquanto o religioso fazia um sinal da cruz no ar, os homens desciam o caixão, introduzindo-o na cova. A mãe de Laura não aguentava ver aquilo, por isso afundou sua cabeça no peito do marido, enquanto chorava ainda mais.
Quando o caixão foi deixado lá embaixo e os mesmos homens que o colocaram começaram a jogar terra por cima, Ethan percebeu... Era realmente o fim.
Ele achava que ela poderia levantar do caixão a qualquer momento, gritar que era uma brincadeira e depois sorrir da piada junto com todos, com sua alegria contagiante, mas, era quando o caixão começava a ser enterrado que ele percebia que aquilo não aconteceria. Não... Ele nunca mais a veria.
Não conseguiu segurar as lágrimas e elas logo brotaram dos seus olhos desprotegidos. Sua mãe tratou de abraçar-lhe, junto com seu pai, enquanto enxugava os olhos com um lenço.
A mãe de Laura, do outro lado, estava ainda mais abalada. Parecia que iria se jogar a qualquer momento ali dentro e pedir para que parassem de enterrar sua filha, mas tinha que aceitar.
***
O enterro havia terminado e agora Ethan estava sozinho, um pouco longe de todos, enquanto via as fotos de Laura em um mural que os pais haviam colocado. Em duas delas ele estava presente.
Sentiu uma mão tocando seu ombro e olhou para trás. Era Phillip, o pai dela. Estava com os olhos vermelhos e brilhantes, pois havia derramado algumas lágrimas, mas não tanto quanto sua esposa.
Não falaram nada, apenas se abraçaram.
– Eu sinto muito – Disse Ethan, caindo em lágrimas novamente.
– Todos nós sentimos, filho – Respondeu seu sogro – Todos nós sentimos.
***
Horas depois, Ethan já havia conversado e recebido apoio de várias pessoas. Agora estava em casa, sentado em cima de uma cama, colocando os pertences de Laura em caixas de papelão para levar para a casa dos pais dela. Eles haviam pedido.
Estava colocando as roupas dela em uma das caixas, quando viu algo embaixo. Uma roupa que não era dela.
Era uma pequena roupinha branca de bebê, onde estava escrita a frase “papai e mamãe me amam”. Foi quando ele percebeu. Lembrou da surpresa que ela disse que tinha, mas nunca chegou a realizar. Isso também explicava o porquê de tantos enjoos que ela havia sentido na última semana e dizia que era apenas mal estar. Não, não era nada disso, ela estava grávida.
Ele sentou na cama, olhando fixamente para a roupinha branca e chorou. Não foi apenas ela que morreu naquele acidente, seu filho também.
Tudo o que ele queria era um filho, e já tinha planos para isso acontecer. Laura sempre disse que tinha medo, mas parece que ela estaria disposta a enfrentar este medo. Tarde demais, agora ele estava sozinho.
– Não – Disse ele, aos prantos, enquanto sentia o cheiro de roupa nova. Simplesmente não conseguia aceitar – Por que ninguém disse antes? – Perguntou para si mesmo, pensando que seus pais saberiam de alguma coisa sobre aquilo. É claro que sabiam, os médicos devem ter dito – Não!!! – Desta vez ele gritou, deitando na cama e chorando com mais intensidade.
***
Mais tarde, depois de já ter entregado os pertences de Laura aos pais dela, Ethan estava deitado em sua cama, esperando sentir a qualquer momento o toque macio da pele dela, fazendo carinho no pescoço dele como sempre, mas não havia mais nada, apenas o frio de dormir sozinho.
Aquela casa trazia tantas lembranças, tantos passos importantes da relação dos dois haviam sido dados ali. Desde que ficaram noivos, eles viviam fazendo planos para o casamento, principalmente ela. Estava muito animada, tanto que na noite em que Ethan pediu sua mão em casamento, durante um jantar à luz de velas – que ele declarou clichê, mas extremamente romântico –, ela tinha passado a noite inteira acordada e fazendo planos junto com ele.
Ele sempre deixou claro que queria filhos, mas não sabia se era uma coisa que os dois queriam. No entanto, descobriu da forma mais dolorosa possível que na verdade era uma coisa que ambos queriam, inclusive, iria acontecer, se eles não tivessem sido tirados de Ethan de uma forma tão violenta como aquela.
Ouviu um barulho alta da campainha tocando e continuou deitado, mas foi obrigado a se levantar quando, segundos depois, a pessoa voltou a tocar.
Ele nem calçou as sandálias, apenas caminhou pelo corredor até a porta de entrada e abriu a porta. Era James, seu amigo e vizinho.
– Você está bem? – Perguntou ele.
– Sinceramente, não – Respondeu Ethan, com uma voz tão fraca que era possível sentir a angústia e o clima pesado só pela sua voz.
– Eu só passei aqui para te dar isso – James entregou uma sacola de papel.
Ethan pegou e olhou o que havia dentro. Um sanduíche enrolado em um guardanapo e um copo de suco, provavelmente de laranja.
– Sem tomate, como você sempre pede – Disse ele.
Ethan sorriu levemente, pela primeira vez.
– Obrigado.
– Só estou fazendo o que um amigo deve fazer – Ele deu de ombros – Agora preciso ir, qualquer coisa, você sabe onde estarei.
James foi embora e Ethan fechou a porta. Colocou a sacola de papel em cima da mesa quando passou pela cozinha, e seguiu pelo corredor até o quarto, onde voltou a se deitar na cama.
Não estava com fome.
Assim que se deitou, ouviu o toque de seu celular no volume máximo. Pegou o aparelho ao lado da cama, no criado-mudo, viu o nome de sua mãe estampado na tela e atendeu.
– Oi mãe – Disse, com a mesma voz fraca de antes.
– Onde você está? Está em casa? – Perguntou ela.
– Estou.
– Por favor, filho, venha almoçar conosco, não é bom ficar aí, sozinho.
– Eu não quero almoçar, estou sem fome.
– Então eu vou aí mais tarde.
– Não, mãe, eu prefiro ficar sozinho hoje, me fará bem.
Ela ficou em silêncio por algum tempo. Discordava totalmente daquela ideia.
– Tá, tá bom então – Concluiu ela, relutantemente – Mas amanhã você vem?
– Eu vou amanhã, não se preocupe, eu só preciso ficar sozinho hoje.
– Então está bem, se cuide.
Ethan desligou e jogou o celular no outro lado da cama, em seguida virou de lado e abraçou o travesseiro. Ainda tinha o cheiro dela ali.
Resolveu que uma das formas de afastar a dor era dormindo, pois provavelmente iria sonhar com o rosto angelical de Laura em momentos felizes... Talvez sim, talvez não... Precisava tentar, então fechou os olhos e tentou adormecer.
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