Carnívoros
1 Bran
Era frio na cidade de Seattle, ainda mais no topo do Obelisco Espacial, onde Bran Farid estava. Era cerca de uma hora da manhã, mas o jovem não sentia sono, somente fome. Porém não era uma fome como qualquer outra que as pessoas costumam sentir, mas uma fome que somente ele a sua raça têm: fome de carne humana.
Enquanto pensava sobre seu alvo, uma brisa gelada atingia seu rosto, fazendo seu cabelo negro e seu capuz balançar. O jovem imaginava no que comeria. Melhor dizendo, quem ele comeria. Bran era um Ghoul: um ser semelhante aos humanos, porém com características muito diferentes, como o fato de eles só poderem comer carne humana, e beberem somente água, sangue e café.
Os Ghouls, em aparência, eram idênticos aos humanos, com exceção de alguns fatores que podiam vir à tona dependendo da vontade da pessoa. Mas há várias características físicas e mentais que diferem as duas raças, como a força e a velocidade sobre-humanas dos Ghouls.
Bran não gostava muito de pensar sobre a sua raça. Por mais que ela lhe desse vários privilégios, ele achava um saco ter que se alimentar só de uma coisa durante a vida inteira. Caso tentasse comer alguma outra comida humana que não fosse a carne humana, ele iria ter uma vontade imensa de vomitar, e o gosto da comida, independente de qual fosse, seria horrível. Isso se deve a uma enzima produzida pelos seus corpos, e as suas línguas, que possuem uma estrutura diferente das "normais". Quando eles se forçam a digerir algum outro tipo de alimento eles têm a sua condição física degradada. Mas em compensação eles podem sobreviver até dois meses sem se alimentar, diferente dos humanos. De qualquer forma, há Ghouls que comem somente por puro prazer. Mas caso um Ghoul ultrapasse o tempo de se alimentar, ele sentirá fortes dores de cabeça e agirá sem razão, como um animal irracional.
Aquilo já havia acontecido com Bran, mas era uma situação que o jovem odiava lembrar. Toda vez que sentia fome, aquela memória vinha à sua cabeça e o deixava um pouco perturbado. Para sua sorte, seu pensamento mudou quando viu seu alvo na rua próxima à construção.
O homem vestia sobre-tudo negro e um chapéu de pelo menos 10.000 dólares. Levava consigo uma maleta negra de trabalho. Bran havia o observado por mais de uma semana, buscando entender sua rotina. Em poucos minutos o jovem iria matá-lo... E iria comê-lo.
Então o Ghoul pegou sua mochila de suas costas e a abriu, observando-a. Lá dentro não havia muita coisa, somente um spray de cor vermelha, um MP3 com um fone de ouvido e sua máscara de gás criada para proteger sua identidade. Todos os Ghouls precisavam ter uma máscara quando fossem caçar, para não serem descobertos caso fossem vistos. Claro que cada um tinha uma máscara diferente, para em caso de não se confundirem um com outro. Haviam máscaras de animais, máscaras exóticas, máscaras de fantasia, e vários outros tipos. Caso o Ghoul não usasse uma máscara, ele seria caçados e morto pelos Investigadores da Comissão de Caçadores de Ghouls, uma terrível organização criada pela ONU na tentativa de caçar e exterminar todas as criaturas carnívoras. Bastava ele ser avistado por algum civil ou por algum Investigador que ele estaria sendo caçado.
O Ghoul colocou sua máscara em seu rosto, e ajeitou-a. A máscara semifacial protegia somente a parte de baixo do rosto. A viseira não era completa, pois tampava somente seu olho esquerdo, servindo como um tapa-olho. Ela tinha, no entanto, algo parecido com uma tela avermelhada onde Bran podia ver mapas, procurar informações, descobrir rotas de fuga caso estivesse em alguma luta, tudo a partir daquela metade de uma viseira. A máscara em si possuía três respiradores, embora eles não funcionassem, e sim servissem somente como enfeite. Cada um deles possuía um "X" avermelhado marcado em suas tampas. A viseira possuía um grande circulo vermelho na parte do olho, como se fosse um buraco avermelhado. A luz emitida nada mais é que a luz que vêm do monitor embutido na máscara.
Quando terminou de arrumar sua máscara, ele fechou seu olho direito por um momento e respirou fundo. Ao abri-los novamente, a esclera estava negra e a sua pupila estava vermelha, diferente de antes, quando a esclera estava branca e a pupila azul. Ele se concentrou, respirou fundo, tomou impulso e então...
Ele saltou.
Bran estava em uma queda livre de mais de 150 metros, e não parava. Chegava cada vez mais perto do chão, mas não sentia medo. Já havia feito aquilo várias vezes, não tinha o que temer. Quando estava na metade da queda, ele sentiu uma sensação em seus ombros, e uma pequena dor percorreu a região. Bran sentiu algo sair de dentro de seu corpo, e então parou de cair e começou a planar. Duas grandes asas negras com detalhes vermelhos apareceram nas suas costas, semelhantes às asas de um corvo. Elas pareciam oscilar, como se fossem feitas de um material bem frágil, como o papel. Eram as suas Kagunes do tipo Ukaku.
O tipo Ukaku era todo o tipo de Kagune que saía na região das costas, na altura dos ombros de um Ghoul. Com exceção desse, haviam outros três tipos: O tipo Koukaku, que saía na omoplata. O tipo Rinkaku, que saía na cintura, também nas costas. E por fim, o tipo Bikaku, que saía na região do cóccix.
Enquanto planava em uma velocidade de um pouco mais de 30 km/h, Bran seguia o homem de perto. Para a sua sorte não tinha praticamente ninguém na rua com exceção de seu alvo, e quase todos os cidadãos estavam dormindo ou então fazendo algo dentro de suas casa. As poucas pessoas que ainda estavam fora de suas casas eram ou trabalhadores, ou então civis que madrugavam simplesmente porque queriam. Mas para a sorte de Bran, e para o azar do homem, não havia ninguém naquele quarteirão com exceção dos dois.
Depois de cerca de um minuto o jovem começou a perder velocidade, mas foi a tempo de ele pousar no telhado de um prédio próximo ao que o homem vivia. Havia um beco cercado por prédios domiciliares que variavam de quatro para oito andares, e o homem entrou naquela minúscula rua. Bran o observava caminhando até a entrada de seu prédio, enquanto se preparava para atacá-lo.
O homem, quando chegou na porta dos fundos do prédio, colocou a maleta no chão e começou a vasculhar pelas chaves que abririam a porta, mas foi interrompido por um baque logo atrás dele, que o fez olhar para ver o que era.
Mas quando virou-se, foi atingido por duas estacas de vanadinite, cada uma em sua perna. Ele caiu da escada de cinco degraus, atingindo o chão de concreto com força. Bran o havia atacado com as suas asas, que agora não estavam mais oscilantes como antes, e sim duríssimas, como se estivessem protegidas por um material negro: uma camada de stibnite, junto com alguns outros detalhes feitos do mesmo material que as das estacas.
O homem, apavorado, tentou se arrastar pelo chão, mas Bran o parou com um pisão em suas costas.
- Não grite, pois facilitará meu trabalho. — Ordenou o Ghoul. Quando os olhos do homem se encontraram com o do garoto, Bran pôde ver que ele parecia que ia desmaiar por causa de seu medo.
- O... O que quer de.... Mim? — Perguntou o homem, gaguejando por causa do medo e da dor que sentia em suas pernas.
- Não é óbvio? — Falou Bran, retirando a sua máscara, deixando seus rosto à vista. O homem ficou ainda mais apavorado quando percebeu que o Ghoul tinha somente um Kakugan, ou seja, um único olho que se manifestava na cor preta e vermelha, enquanto o olho continuava em sua forma "normal". — Quero a sua carne.
E a madrugada silenciosa foi preenchida pelo choro agonizante do homem, enquanto ele dava seus últimos suspiros ao mesmo tempo que era canibalizado.
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