Carneirinho e as Cento e Uma Noites
2 O Escravo e o Sultão
Notas iniciais
Não abriu os olhos ao ouvir a porta do quarto real se abrir suavemente... Quase como se quem estivesse entrando desejasse fazer o mínimo de barulho possível. Félix apenas deixou-se ficar na mesma posição, deitado meio de lado por sobre as imensas almofadas de seda que adornavam a cama gigantesca. Deixara-se cair naquele meio-termo entre o dormir e estar acordado, mas só a título de mitigar o tédio que tomava seu íntimo, resolveu continuar fingindo que dormia, só para prolongar um pouco mais a curiosidade que sentia em pôr os olhos sobre a criatura que lhe fora destinada essa noite.
A porta foi fechada de maneira tão suave quanto foi aberta, e passos felinos quase não se fizeram ouvir, enquanto Félix mantinha os olhos fechados, se esforçando para não rir da própria atitude... Por que estava fazendo isso? Demorar a vislumbrar a figura da sua oferenda noturna não faria nenhuma diferença.
Finalmente abriu os olhos e captou a visão da figura do rapaz parado no meio do quarto, podendo finalmente avaliar quem lhe faria companhia em sua cama nas próximas horas da noite que mal se iniciava. E o que viu, roubou-lhe uma respiração ou duas, como se de repente, houvesse até esquecido de como respirar...
Lindo... Foi a primeira palavra que lhe veio à cabeça, enquanto não havia um adjetivo melhor. Sentou-se na cama para melhorar seu ângulo de visão enquanto seu olhar continuava preso no dele. E que olhar... Esse jovem rapaz possuía olhos verdes mais belos e brilhantes que as mais preciosas esmeraldas. Olhos esses emoldurados por um rosto alvo e angelical, de traços delicados e delineados por alguma divindade em um dia de exagerada inspiração. Tudo isso coroado por cabelos loiros adoravelmente encaracolados.
Sem dúvida um belíssimo jovem... Mas o que despertou em Félix uma sensação que se atrevia de chamar de encanto foi o que ele fez a seguir. Algo que nenhum de seus amantes de uma noite só jamais fizeram. Ele abriu um sorriso largo em sua direção, um sorriso tão sincero e tão cheio da mais pura felicidade, que por um momento Félix sentiu algo indefinido mexer-se dentro dele, deixando-o estranhamente desconfortável. Como ainda não tivera tempo suficiente para analisar aquilo, apostou em simples desejo. Sim, era isso, ficaria com essa palavra, era-lhe mais fácil de entender. E por falar nisso...
Com intenção de avaliar seu corpo, Félix fez um gesto para o jovem escravo, indicando que desse uma volta em torno de si mesmo. Ele piscou algumas vezes antes de obedecer, como se não atinasse com o real propósito de estar ali. Será que sabia o que o esperava?
Observou-o enquanto ele se movia, um pouco desajeitadamente demais talvez. Ele vestia uma calça larga branca e um colete negro bordado com fios dourados, que faziam uma estranha mas perfeita combinação com seus cabelos loiros. Mesmo com a parte inferior folgada, dava perfeitamente para se ter uma noção de seu corpo, e nada escapava ao olhar minucioso de Félix. Era um corpo mediano, mas bem feitinho... Nem magro, nem gordo... O peito era largo e generoso, coberto por uma leve penugem loira visível pela abertura frontal do colete, o que também deixava à mostra a linha de finos pêlos que descia de seu umbigo e desaparecia no início do cós de sua calça, deixando a cargo da imaginação aonde terminava. Volume razoável ali também, Félix analisou. Além disso ele parecia firme nos lugares certos. Principalmente na parte de trás. Aquelas nádegas firmes e redondas, notórias mesmo através da calça larga, prometiam mundos de prazeres nunca antes desvendados... Ele quase salivou de antecipação, e sentiu-se animado com o que aquela noite tinha a oferecer-lhe como há muito tempo não se sentia... E o maior indício disso já começara a dar o ar de sua graça em uma parte de seu corpo ainda escondida pela sua própria calça larga de seda. Mas não por muito tempo, já sabia.
Não eram todos os servos que aguentavam a força de seu desejo, e o tamanho de seu... Tesão. Muitos não aguentavam passar a noite por medo de não sobreviverem à primeira introduzida de seu pênis real. Gigantesco seria uma palavra adequada para definir o avantajado órgão que reinava absoluto em seu baixo ventre. Se havia uma coisa de que o Sultão Félix poderia se orgulhar... Era do seu generoso atributo. Já acontecera mais de uma vez de alguns escravos simplesmente desmaiarem ante a visão do seu poderoso... Instrumento de prazer. E isso sem nem estar ainda ereto...
Resumindo, Félix sabia muito bem que nesse particular quesito... Como ele, não havia ninguém igual.
Aquele rapazinho de rosto inocente e cachos loiros nem parecia ter idéia do que iria acontecer com ele. Era o que Félix podia ler nos olhos ingênuos e no sorriso abobalhado que ele ainda ostentava. Por Alá, era como se ele estivesse até emocionado ao conhecê-lo...
– Por que está sorrindo, minha criança? Tem noção do que veio fazer aqui?
– Conhecer o grande e poderoso Sultão Félix, meu senhor. – ele fez uma reverência respeitosa, ainda sorrindo, com uma voz baixa e macia.
Aquilo quase o irritou. Não era possível que alguém fosse tão ingênuo assim...
– Meu nome é...
– Não quero saber seu nome. – Ele cortou-o quando percebeu que ele ia se apresentar – Eu não perguntei, e não é necessário. Escravos não precisam de nome.
O jovem loiro calou-se, obediente. Ele parara de sorrir, mas o olhar inocente permanecia. Pelo tapete voador de Aladdin... Que criatura era essa que mais parecia uma criança perdida no deserto?
– No entanto... Acho que preciso de um apelido para você. – observou-o da cabeça aos pés, analisando toda sua figura e procurando mentalmente um nome que lhe fosse apropriado. Seu olhar avaliativo estancou na cabeça adornada pelos cachos loiros. Tão enroladinhos... E aquele olhar tão inocente... Era isso! De repente, soube exatamente como chamá-lo.
– Seu nome esta noite será... Carneiro. Não, pensando bem... Carneirinho. – Sorriu sem sentir ao perceber que nenhum outro nome poderia calhar melhor para a criatura à sua frente. O sorriso dele voltou ao seu rosto, maior do que antes.
– Serei o que meu Amo desejar, Senhor Sultão. – fez menção de fazer uma nova reverência. Ah, não, pensou Félix.
– Pelo turbante de Maomé, já chega com tantos cumprimentos. – fez um gesto com a mão para que ele se aproximasse. – Agora venha cá.
O Carneirinho pareceu inseguro em se aproximar, como se receasse chegar perto dele. Ah, meu Carneirinho pronto para o abate... Você está certo, tenha medo, tenha muito medo...
– O que foi? – Félix sorriu – Está com medo de mim?
– Não é medo, senhor... é... Emoção. Emoção demais. Esperei tanto por este momento... – foi a confissão dele em baixo murmúrio. Era impressão ou podia ver o brilho de lágrimas naquelas duas esmeraldas perfeitas?
– Esperou? Como assim? Você sabe para o que está aqui, não é? – Félix moveu-se no leito real, recostando-se um pouco na almofada atrás de si e abrindo as abas da túnica aberta na frente, deixando à mostra mais de seu baixo ventre, para que aquele Carneirinho pudesse ter finalmente noção do que o aguardava. Real noção... Porque na verdade, já ficara excitado sem perceber só com o primeiro olhar naquele jovem inocente e sorridente. Não era possível que ele tivesse sido trazido ali sem ter a menor idéia do tamanho da sua... Missão.
O olhar dele caiu automaticamente para o lugar sugerido pelo olhar de Félix... O centro de uma comoção que já começara a ferver e exigia urgente atenção. O membro endurecido, enorme, despontava da calça de seda e parecia queria furar o tecido com a ponta já úmida.
Félix já vira aquilo antes. Aquele olhar... Ele sabia que era uma visão hipnotizante para o jovem servo. Ainda mais alguém com um olhar tão ingênuo quanto o dele...
– O que foi, perdeu a língua? Já vou avisando que ela será muito necessária essa noite, portanto se perdeu trate de achá-la, meu jovem.
O rapazinho se atrapalhou um pouco ao ser flagrado na sua admiração. Tentou falar, gaguejou algo incompreensível, depois abaixou o olhar, parecendo envergonhado. Algo naquilo incomodou Félix. Ele levantou-se da cama e começou a aproximar-se dele. O que definitivamente nunca fora seu hábito... Ele, o grande e poderoso Sultão, se levantando de seu leito por causa de um escravo amedrontado? Pelos sete véus de Salomé, era obrigação do escravo vir ter a ele e saciar seus desejos o mais prontamente possível. Mas do jeito que parecia perdido, quase apavorado, parado em pé ali no meio do quarto... Não soube dizer naquele momento o motivo que o levara a sentir algo semelhante a preocupação com a criatura vulnerável à sua frente...
Aproximou-se dele em passos lentos, quase calculados, enquanto aproveitava para estudar a expressão do jovem loiro, que não se moveu nem mesmo quando Félix parou bem à sua frente e olhou dentro de seus olhos verdes. Mesmo parecendo apavorado, ele sustentou seu olhar. Agora que podia vê-lo mais de perto, Félix só pôde pensar que não lhe fizera justiça instantes atrás com a palavra “Lindo”... A criatura era deslumbrante. Os olhos dele... Haviam roubado do mar uma cor que talvez nem existisse no mundo desperto. Talvez os Mares do Oriente é que houvessem roubado uma palheta de cores da miríade perfeita de seus olhos. Uma tormenta de sentimentos indistinguíveis dançava naquelas íris esverdeadas, ameaçando tragá-lo irremediavelmente para um lugar onde o tempo perderia todo seu propósito.
O escravo piscou algumas vezes, quebrando um pouco do encanto, e Félix conseguiu despertar do pequeno devaneio. O que acabara de acontecer? Ou melhor, o que estava acontecendo com ele?
Quase como se tomado por um sentimento de culpa por ter hipnotizado seu Amo daquela noite, ele abaixou o olhar, novamente constrangido. As íris verdes foram ocultadas quando seus olhos se fecharam.
Uma mão enorme, de dedos longos e cheios de anéis de pedras preciosíssimas capturou suavemente o queixo do escravo, obrigando-o a levantar a cabeça, enquanto o cheiro suave, refrescante dele tocava seus sentidos com uma pungência delicada. Félix inspirou com gosto a fragrância que sabia ser de óleos e especiarias usados no banho que haviam dado nele, antes de o trazerem para seu quarto. Deliciou-se com esses aromas, mas o que fez sua ereção se impor mais ainda dentro dos trajes de seda foi o cheiro natural dele que ali repousava, sutilmente submerso pelos outros cheiros mas ainda assim presente... Era um odor de inocência e juventude, mas havia também um toque desconhecido, talvez até para o próprio jovem, de uma sensualidade latente, oculta... Ainda aguardando pela primeira fagulha para se transformar em um templo ardente em chamas que consumiria completamente todos os envoltos por esse fogo.
Todos esses pensamentos cruzavam a mente de Félix quando o olhar dele voltou a encontrar o seu, e uma súbita revelação atingiu-o poderosamente, iluminando sua compreensão a respeito do estranho comportamento do jovem escravo à sua frente. Essa criatura loira e rosada de cabelos cacheados, que mais parecia um bebê desprotegido... Era Virgem. Tão virgem quanto uma criança que acabou de vir ao mundo... Ele era um templo sagrado, intocado pelas mãos da carne... E Félix estava prestes a compurscar esse templo imaculado. A antecipação fez seu desejo intensificar-se em suas entranhas, enevoando seus sentidos. O som das batidas de seu coração pulsando loucamente dentro do peito fazia companhia à pulsação enlouquecedora em seu membro intumescido. Não se lembrava de jamais ter sido acometido por tão devastadora onda de tesão antes.
O Carneirinho Virgem continuava correspondendo seu olhar, e aqueles breves segundos de contemplação mútua pareciam tê-lo acalmado um pouco. O mar em seus olhos voltara à sua calmaria original, como se também ele, Félix, fosse capaz de hipnotizá-lo, prendê-lo nos próprios olhos negros. Após alguns instantes, a voz do Sultão quebrou o silêncio.
– Carneirinho... Chegou a hora de você servir ao seu Amo. – Ele declarou, aguardando pela reação do loiro, que voltou a sorrir timidamente.
– Sim, meu Amo. – ele murmurou, obedientemente, porém não se moveu.
Félix também permaneceu imóvel, encarando o seu “presente” daquela noite... Aquele adorável escravo que atenderia pelo nome de Carneirinho e que encerrava em seus olhos verdes brilhantes mil promessas secretas de prazer e desvario desmedidos.
Um vento quente vindo de um deserto distante invadiu o quarto real e dançou suavemente por entre eles, enquanto ainda se perdiam no olhar um do outro. O tempo, magnânimo, pausou por uma breve eternidade. Olhos de jade nos olhos de ébano.
O Amo e seu Escravo.
O Sultão e seu Carneirinho.
E que Alá tivesse piedade de quem duvidasse da magia desse encontro.
* * * * * *
Fale com o autor