Carneirinho e as Cento e Uma Noites
6 Antes do Amanhecer – Parte II
Notas iniciais
Muitas horas se passaram e Nahan ainda não encontrara a coragem necessária. Com o olhar perdido no horizonte, parado na beira da ponte, o jovem príncipe era a imagem do total desengano. Já estava prestes a fechar os olhos e tentar novamente pular quando ouviu alguém se aproximando a cavalo para cruzar a ponte. Nahan virou a cabeça para olhar a figura imponente que se aproximava montado em um cavalo branco e protegido por uma reluzente armadura negra. Seu rosto estava escondido por um elmo também negro.
Não fosse o momento desesperador em sua vida, Nahan até sentiria curiosidade pela figura chamativa do cavaleiro desconhecido que se aproximava... mas mergulhado na angústia como se encontrava, ele simplesmente ignorou-o e voltou a se concentrar no seu plano de fugir de tudo. Voltou o olhar para a frente, resoluto. Dessa vez ia conseguir, sabia disso, era só ter mais um pouquinho de coragem... o último pouquinho que pudesse reunir e... pular.
Fechou os olhos e ficou ouvindo o cavaleiro cruzar a ponte atrás de si. Esperaria ele ir embora e pularia. Dessa vez ia conseguir. Respirou fundo mais uma vez. O problema é que toda vez que fechava os olhos, a imagem de seu filho imediatamente lhe vinha à lembrança. Essa era a única coisa que o impedia de levar em frente seu intento. Nahan sentiu novas lágrimas encherem seus olhos atrás das pálpebras fechadas. Não havia mais nada que pudesse fazer, aquela era a única saída para seu sofrimento... Estava tentando se convencer disso pela enésima vez quando ouviu o galope do cavalo retornando. Abriu os olhos só para encontrar a figura do cavaleiro parada no meio da ponte a observá-lo. Uma irritação tomou conta do jovem príncipe.
– Oi... Será que pode me dar licença, por favor?
Não houve resposta do cavaleiro, e nem um movimento que indicasse que pretendia ir embora. Nahan suspirou irritado. Sua vida estava tão azarada que nem se matar em paz ele conseguia...
– Será que posso ter um pouco de privacidade por aqui? Por favor, vá embora.
Mais uma vez, nenhuma reação. Nahan voltou o olhar para a frente. Se aquele cavaleiro inconveniente achava que iria se divertir assistindo ele tirar a própria vida, estava muito enganado. Ele esperaria o tempo que fosse necessário até o intrometido se cansar e partir. Talvez fosse até bom, isso lhe daria mais um tempo para reunir a coragem que estava lhe faltando. Já ia fechar os olhos novamente quando uma voz se pronunciou.
– Se está pretendendo se matar, melhor procurar outra ponte, Cacheadinho. – o tom de voz era zombeteiro, como se um sorriso se escondesse atrás do elmo. E espere... do que aquele cavaleiro acabara de chamá-lo?
– Eu já pedi para ir embora. Me deixe em paz, por favor.
– Tudo bem, Cacheadinho... – de novo aquele apelido irritante. Quem aquele cavaleiro pensava que era para dirigir-se a ele daquele jeito? – Eu só pensei em lhe avisar que, caso você pule daí... vai no máximo quebrar uma perna. Não dá para se matar pulando de uma altura tão pequena. Se olhar para baixo vai ver que digo a verdade.
Nahan não podia acreditar naquilo. A insistência daquele cavaleiro em atrapalhar seu suicídio estava passando dos limites. Mesmo assim não pôde evitar de seguir a sugestão dele e olhou para baixo, o que realmente não fizera até aquele momento. Constatou, consternado, que o cavaleiro estava certo.
– Viu? Como eu falei... A altura é pouca, criatura. Melhor procurar outra ponte. Pronto, falei... Agora vou deixar você em paz. Boa sorte aí com... Enfim, com o que quer que esteja fazendo. Fui...
Ouviu o galope do cavalo dele se afastando, mas a essa altura, o peso de tudo que já acontecera atingiu Nahan com força e ele não pôde mais evitar as lágrimas e os soluços que o tomaram. Ainda parado de pé na borda da ponte da qual jamais conseguiria tirar a própria vida, ele rendeu-se à tristeza, não ligando mais se havia ou não platéia. Em meio à própria emoção não percebeu que o cavaleiro retornara e desmontara do cavalo, se aproximando dele cuidadosamente.
– Criatura... há quanto tempo você está parado aí?
O loiro não respondeu, continuando a chorar desoladamente.
– Ah, esquece... Não precisa responder... Mas algo me diz que você não pularia, mesmo que a ponte fosse alta o suficiente. Então, Cacheadinho... Por que não desce daí?
Ainda soluçando, Nahan olhou para o lado e viu uma mão estendida em sua direção. Como se tivesse vida própria sua mão se juntou a do cavaleiro e ele desceu da borda da ponte, apenas para se jogar em um par de braços fortes, sem nem pensar por um segundo se seria aceito neles... Mas foi envolvido pelo abraço do cavaleiro que o acolheu sem reservas. Aquilo fez com que a emoção fluísse mais fortemente e ele deixou-se ficar ali, esgotando toda a tristeza represada em seu íntimo em lágrimas que nem sabia que ainda existiam.
– Pronto, pronto... – A voz do cavaleiro que o abraçava protetoramente assumira um tom consolador, enquanto uma mão já despida da luva negra e de dedos longos acariciava sua face, enxugando suas lágrimas com ternura. — Agora me conta... porque essa cascata de lágrimas, criatura? O que aconteceu com você afinal?
– Nem sei porque lhe contaria... você é um completo estranho... — murmurou Nahan, sem se dar conta que estava totalmente aninhado nos braços do completo estranho. Aos poucos as lágrimas do príncipe quase suicida foram rareando, mas ele permaneceu no abraço daquele cavaleiro um pouco mais. Não sabia explicar o motivo de sentir-se tão seguro entre aqueles braços. Após alguns minutos, já calmo, ele afastou-se um pouco. O cavaleiro ainda usava o elmo. Por entre suas frestas só conseguia entrever um par de olhos negros o encarando de volta.
Enquanto Nahan olhava, o cavaleiro levou as mãos ao elmo e o retirou, revelando seu rosto. O príncipe loiro deixou escapar um suspiro sem perceber. Por trás do elmo se escondia um rosto moreno de feições altivas e perfeitas, coroado por cabelos lisos e negros, agora um pouco desgrenhados pela retirada do elmo.
– Pelas ferraduras do meu Alazão, esse elmo acaba com o meu penteado... – ele exclamou impaciente enquanto os dedos ajeitavam as mechas de volta no lugar. Os olhos negros fixaram-se no loiro à sua frente com nova curiosidade.
– Que modos os meus... Deixa eu me apresentar. Eu sou Sir Fahir, o Magnífico Cavaleiro Caçador de Coisas Sombrias e Outras Criaturas Fantásticas... a seu dispor, Cacheadinho.
– Meu nome é Nahan. – o loiro o corrigiu – E não “Cacheadinho”.
– Mas esse nome é perfeito para você, criatura. Afinal, olha esses cachos dourados... Sei lá, eu achei que combinava.
Nahan levou uma mão aos próprios cabelos sem se dar conta. Um sorriso satisfeito brotou no rosto de Fahir.
– Viu só? Eu sempre sei o que digo. Não é para me gabar não, mas criatura mais inteligente nas Terras Médias de San Magno do que eu... – ele deu ênfase ao que disse em seguida com um gesto expansivo das mãos — Não há!
Mesmo em meio ao momento trágico em que se encontrava, Nahan não pôde evitar de sorrir com o jeito daquele estranho cavaleiro. Ele parecia tão cheio de pompa e de si... Por uns segundos quase esqueceu de sua terrível situação. Mas não demorou a lembrar, quando Fahir voltou a perguntar-lhe.
– Então, Cacheadinho... o que uma criatura como você está fazendo por estas bandas? Olha, não leve a mal... mas você não leva o menor jeito pra suicida...
Nahan sentiu o olhar avaliativo de Fahir percorrê-lo da cabeça aos pés, e não soube dizer porque aquilo o deixou nervoso. Mas precisava admitir que o cavaleiro estava certo... não fosse interrompido por ele, era provável que jamais conseguisse levar a termo seu desastrado suicídio. O jovem príncipe suspirou, novamente desanimado. O olhar de Fahir continuava fixo nele, à espera de uma resposta. Ele deu de ombros... que mal havia em contar àquele estranho toda a sua desgraça? Sua vida não poderia ficar pior do que já estava de qualquer jeito.
– Vai, pode contar, Cacheadinho... sou todo ouvidos. – disse Fahir, ainda à espera, quando notou a dúvida do loiro — Não pode ser tão ruim assim, não é mesmo?
À medida que o desiludido príncipe narrava ao imponente cavaleiro toda a sua desventura, a expressão no rosto de Fahir passava da inicial curiosidade, para o choque, em seguida para a perplexidade... até resultar, afinal, em ampla revolta e indignação, que ele não conseguiu evitar de expressar com uma exclamação espontânea:
– Pelas penas chamuscadas da Fênix! Santa ingenuidade, Cacheadinho!
– Olha... Gostei desse Fahir! Esse aí é dos meus... E concordo com ele! Santa ingenuidade, Carneirinho, desse príncipe... Vai ser burro assim lá no Ocidente... Ai, não, se tem uma coisa que me irrita é burrice... Não suporto!
As palavras morreram nos lábios de Félix ao ver que aparentemente, sua boca não fora bem costurada da última vez, e novos sapos fizeram questão de pular dela e interromper mais uma vez a história que o Carneirinho contava com tanta concentração. E pelo visto daquela vez o irritara mesmo, pois o jovem escravo além de calar-se, virara-se na cama, ficando de costas para ele, e abraçou os joelhos, soltando um suspiro de exasperação.
Por Alá, mas que escravo mais genioso... e agora? Puxa, quero muito ouvir o resto... Moveu-se na cama e aproximou-se dele, que continuava de costas. Foi capturado pela visão de sua nuca de onde uma leve penugem apenas sonhava em se enrolar e se transformar nos adoráveis cachinhos dourados. Encostou os lábios ali, suavemente, e imediatamente percebeu as deliciosas consequências na forma do suspiro mal contido e do arrepio que eriçou sua pele. Sorrindo, Félix aproximou os lábios de seu ouvido.
– Carneirinho, mais uma vez, desculpe... – murmurou, não conseguindo evitar de sorrir ao notar o novo arrepio. Por uns momentos ele se manteve na mesma posição, até talvez se dar conta que estava se fazendo de difícil perante seu Amo daquela noite. Foi essa noção repentina que fê-lo virar-se afinal na cama, de frente para o Sultão, mas ainda mantendo o olhar e a cabeça baixos.
– Amo... Se não estiver gostando posso parar de contar... – murmurou em tom servil.
– Não, não, eu estou gostando sim! Por favor, continue... – Félix tocou seu queixo com os dedos e fez com que voltasse o rosto para encará-lo. Ensaiou um sorriso para tentar provocar o dele, sem sucesso. Por um estranho momento, seu desejo que um sorriso iluminasse novamente seu rosto foi maior do que o de continuar ouvindo a história.
– Continue, Carneirinho. Eu não interrompo mais, prometo.
– O Amo já prometeu isso antes... – o jovem escravo lembrou-lhe, antes de levar uma mão à boca ao se dar conta do quão desrespeitoso isso poderia soar. Um escravo repreendendo seu Amo? Mas Félix simplesmente ignorou isso e abriu-lhe um sorriso largo.
– Dessa vez eu cumpro! – garantiu-lhe com convicção. – E dessa vez para garantir, olha... Vou colocar um cadeado na boca e jogar a chave fora! – gesticulou como se de fato estivesse fazendo isso. – Hum? Hum, hum... – murmurou para assegurar ao loiro que sua mudez agora seria total.
Foi recompensado afinal com aquela risada gostosa que ecoou pelo quarto todo, acompanhado pelo sorriso encantador e pelo brilho que voltara às íris esverdeadas. Seu doce narrador estava de volta... e dessa vez, ouviria a história do Carneirinho em silêncio até o fim... ou não o chamariam mais Sultão de Khoury!
(Continua...)
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