Carne em Promoção
1 Capítulo Único - A Banalidade Cotidiana
Notas iniciais
O que de especial poderia acontecer em um sábado? Uma promoção de carne, sim isso mesmo. Uma grande pechincha que fez Regina aos berros intimar o marido para ser seu acompanhante nessa banal jornada.
— Jader, bora ali no mercado comigo?
— Agora?! Eu acabei de acordar.
— Se não for agora vai ser quando?
Ele ficou em silêncio por um breve instante. Odiava ir ao mercado, a indecisão da esposa o incomodava. Ela vivia fazendo pesquisas de preço e só comprava alguma coisa se tivesse certeza sobre o preço ser de fato bom. Apesar da falta de vontade de sair ele levou em conta que estava em falta com Regina.
Há tempos vivia se esquivando de acompanhá-la nas compras da casa, gerando brigas entre os dois. Jader, que naquela manhã ensolarada não queria guerra com ninguém, acabou aceitando o convite.
— Finalmente terei a sua companhia para alguma coisa!
— Você gosta é de reclamar, se vou com você é ruim, se não vou, é ruim. Eu nunca entendo o seu querer...
— Você está sempre errado, esse é o problema, por isso você não entende nada.
Ele deu um muxoxo e foi até o quarto do casal trocar de roupa. Regina, no entanto, estava pronta. Já havia nascido pronta, como sempre gostava de dizer ao marido. Ele sempre insistia que ela precisava se arrumar mais. A mulher não ligava para maquiagem e cabelo super arrumado, o seu suposto desleixo com a aparência era a principal desculpa usada por seu esposo para traí-la.
Já prontos os dois desceram as escadas de casa, passaram por algumas encruzilhadas e um beco. Ao final da favela estava, separado por duas pistas, o mercado, sua imperdivel promoção de carne e um monte de prédios altos ocupados por famílias metidas a besta.
Ao entrarem no estabelecimento Jader foi logo tratando de pegar um carrinho grande e foi rapidamente repreendido pela esposa.
— Pra que esse carrinho enorme? Eu vou encher tudo isso de carne?
— Até parece que você vai comprar só carne….
Ele estava certo. Regina ia no mercado com o foco em uma coisa, entretanto quando chegava lá descobria outras promoções igualmente imperdíveis que ela jamais poderia ousar deixar de comprar. Afinal, os preços mudam todos os dias, insistia, tentando convencer o marido da sua lógica obsessiva em fazer pesquisas de preço.
— Me deixe. Eu vou comprar o que der pra comprar.
Ele apenas suspirou irritado e seguiu arrastando o carrinho, porém para o seu pesadelo, entre as seções de higiene, eles encontraram com Maristela, ex-colega de escola de sua esposa.
Jader muito contrariado parou. Falou com Maristela e então começou a tortura. As duas que casualmente se viam pelo bairro e ocasionalmente se visitavam, precisavam ali, naquele momento, colocar o papo em dia, fofocando, não sobre a vida de pessoas reais conhecidas por elas, mas sim sobre a novela.
Jader não odiava novela. Ele até assistia às vezes, porém não conseguia entender como sua esposa e a amiga dela se absorviam tanto por uma mera ficção.
Elas conversaram cerca de dez minutos sobre os últimos acontecimentos da vida dos personagens da novela do horário nobre, daquela tão odiada e amada rede de televisão, enquanto ele, silenciosamente pedia para uma força maior o tirar dali, porém apesar da insistência de suas preces nada acontecia e a cada minuto as duas amigas ficavam ainda mais empolgadas com o assunto.
— Enquanto vocês conversam eu vou ir ver a carne...
— Ai meu Deus, a carne. Eu já tinha esquecido!
— Mulher, corra já tá acabando. Essa carne tá quase dada. Olha como esse pedaço que eu peguei está bom!
Ao cogitar a possibilidade da esposa ter se esquecido da carne, Jader ficou chateado, não só pelo esquecimento dela, mas também pelo fato dele não querer estar ali. Naquele momento veio à sua mente Camila, a mais nova amante dele. Nova em todos os sentidos, pois ela tinha apenas dezenove anos. Ele, com seus cinquenta e três, poderia muito bem ser pai dela ou até avô, como brincavam alguns de seus amigos.
Há mais de uma semana Jader não via Camila e desde a última vez que ela foi sua, ele não conseguia tirar a garota da mente. Em seus devaneios, desejava todo dia poder transar com Camila, porque fazer sexo com ela era sempre algo fenomenal. A amante o satisfazia de forma intensa, realizando as suas fantasias mais íntimas. Já Regina era, na visão dele, uma mulher fria que não sabia agradar a um homem na cama.
— Jader, arrasta logo esse carro — ordenou Regina, aos berros.
— Não precisa gritar. Eu não sou surdo.
— Se eu falo baixo, você se faz de doido. Você vive sempre no mundo da Lua!
Ele não respondeu, apenas seguiu em direção à seção de carne. Regina pegou quatro bandejas de carne e depois disse ao marido que ia dar uma passadinha na seção do leite.
Naquela enfadonha visita ao mercado eles compraram carne, leite e mais alguns outros itens e seguiram para casa. Quando saíram do local, Jader olhou as horas em seu relógio de pulso, notou que já eram 10h e ele ainda não tinha mandado uma mensagem de bom dia para a amante. A essa altura, ela já deveria ter acordado, Jader precisava fazer aquilo logo ou Camila se chatearia, começaria a fazer drama, dizendo ter sido esquecida. Todavia, o celular dele estava em casa e mesmo que estivesse ali, ele não poderia nem ousar mandar uma mensagem para Camila na frente de Regina.
A passos largos o traidor foi indo em direção a sua casa. Enquanto sua pobre esposa traída já estava para trás, o que não fazia lá muita diferença para ele.
— Pra que tanta pressa? Vai tirar o pai da forca?
Ele não escutou. Entretanto, além de ouvir a própria voz, a mulher percebeu também o som de tiros, então apressou-se um pouco e quando chegou perto do marido, indagou:
— Você ouviu?
— O que?
— Parece que está tendo tiro.
— Tiro?! Isso deve ser foguete.
Eles continuaram seguindo rumo à residência de ambos. A essa altura já tinham atravessado as duas pistas que separavam a favela do mercado.
— Olha, de novo.
— Então vamos andar mais rápido.
Naquele momento ele já havia se convencido que o barulho não era de foguete, mas sim de tiro.
O homem seguiu a passos largos em direção ao beco que precisava atravessar para chegar em casa, todavia nesse momento sua esposa achou melhor parar, pois os tiros não cessavam e conforme o casal avançava rumo à favela o barulho tornava-se mais forte.
— Acho melhor a gente parar. Vamos entrar na padaria — pediu, apontando para o estabelecimento localizado antes do beco pelo qual precisavam passar.
Regina queria parar, esperar as coisas esfriarem. No entanto, seu esposo tinha pressa de chegar em casa. Aquele não era o primeiro tiroteio presenciado por ele e do qual de alguma maneira participava. Se não havia morrido antes, não seria aquele tiroteio o responsável por lhe tirar a vida, pensou. Então, a passos largos se meteu beco adentro, sua esposa foi até a entrada do beco e em vão, bradou:
— Jader, volte.
Ao ouvir a voz da mulher sentiu um frio que passou por todo o seu corpo e um forte impacto em seu peito. Ele não conseguiu mover um músculo sequer.
— Por que você parou? Venha pra cá, volte. Pelo amor de Deus, volte!
Ela não obteve resposta e saiu correndo em disparada em direção ao esposo. Nesse caminho a carne da promoção e os outros itens adquiridos não importavam mais. A mulher largou as sacolas e foi para perto do seu companheiro de mais de vinte anos. No entanto no meio da corrida dela, ele caiu lentamente no chão. Ela nada pôde fazer para salvá-lo.
— Jader, Jader, Jader — vociferou.
O corpo sangrento nada respondeu, nada poderia responder. Afinal, já não havia mais vida ali. Regina demorou um pouco para aceitar a realidade diante dela. Como ele poderia estar morto? Como? Como?
Algumas lágrimas lhe escaparam e rolaram por sua face, enquanto os tiros ainda rolavam. Não havia ninguém na rua e Regina não tinha nem estrutura para sair dali. Ela agachou-se e ficou perto do corpo do marido, passou-lhe a mão carinhosamente na face. Regina amava Jader? Isso ela não sabia responder. Não era capaz de dizer com exatidão se todo o tempo de convivência era sinônimo de amor ou costume, mas àquela altura tal resposta já não era mais importante.
De repente ouviu passos em sua direção, passos fortes e ritmados, era a polícia. Num gesto rápido a mulher levantou raivosa e partiu na direção do primeiro policial da fila e acusou:
— Vocês mataram o meu marido!
— Não matamos, a bala deve ter vindo dos marginais.
Com o dedo negro em riste, repetiu, dessa vez mais alto, para o policial também negro:
— Vocês mataram o meu marido!
A voz dela refletia toda a sua indignação e raiva. Ela queria matar de uma só vez todos aqueles malditos policiais.
— Senhora, nós não matamos ninguém. Se a senhora insistir vamos prendê-la por desacato.
Regina cuspiu na face do policial. Ele olhou para os lados e após não ver ninguém além de seus colegas de farda, disparou a queima roupa contra ela. O seu corpo caiu no chão, bem ao lado do marido. Antes de morrer, o último pensamento que lhe veio à mente foi, justamente, a carne mais barata do mercado.
Fale com o autor