Carnaval no Mar da Capital
1 Quando o mundo inteiro acorda e a gente dorme
Notas iniciais
Esse é o primeiro desafio que aceito, e ele é de songfics! ♥ Só aceitei porque me apaixonei de cara pela playlist, e até queria escrever em outra categoria, mas as músicas praticamente me pediram para fazer isso.
Não existe absolutamente nada planejado para essa fic, está saindo tudo da minha cabeça, assim, de última hora. É um desafio mesmo. hehe E vai ser legal escrever originais. Espero não perder nenhum dia. '-'
Carnaval no Mar da Capital
Capítulo 1 — Quando o mundo inteiro acorda e a gente dorme
Meu nome é J. tenho 23 anos, nascido, criado e crescido em Brasília, estudo Letras Português na Universidade de Brasília e não. Não faço Direito, e antes que se perguntem, não quero prestar concurso público. Entendam, sempre quis ser escritor, é mais minha praia, se bem que de praia brasiliense não saca muito, não é? Então, ser escritor é mais meu lago, meu céu. Porque de céu brasiliense saca, saca muito
Amanheceu, de alguma forma senti que daquele dia em diante, minha vida seria diferente, porque decidi fazer das minha férias as melhores férias que eu poderia ter. São praticamente três meses de férias (que passam depressa, curtir é a prioridade!), depois do fim do meu terceiro semestre senti um alívio gigantesco, foi como se todo o peso da minha vida tivesse saído dos meus ombros.
Decidi dar a louca e soltar a franga nas minhas longas e merecidas férias de três meses. Li todos os livros que não li durante o semestre (porque enquanto estudo, só consigo me prender às minhas leituras obrigatórias), joguei todos os jogos que tinha para jogar, transei com meu namorado até virar do avesso (não foi bem assim...), assisti milhões de séries com a minha irmã mais velha, passei uns dias com ela na casa da nossa mãe em Águas Claras¹, fui no Beirute² com a galera e assisti o filme da Angelina Jolie onde o Miyavi está atuando.
Estava me divertindo até Fevereiro chegar. Fevereiro, o que há de errado com este mês? Em Fevereiro mamãe faz aniversário, todos ficamos feliz, menos ela, porque, para a dita estar mais próxima dos cinquenta é uma tragédia. Em Fevereiro lança a tradução da Grafic Novel de Entrevista com o Vampiro, isso é bom. Porém, contudo, todavia, entretanto, há carnaval.
Fevereiro é um mês emblemático na minha vida. Quando era mais novo, era o mês em que a festa acabava e as aulas voltavam. Hoje, é o mês do tédio. Sabe aquele momento das férias que você vive o ócio, mas não um ócio legal, um ócio chato, tipo tédio. Ainda tem aquele transtorno chamado Carnaval. Legal, porque é no Carnaval que a galera resolve levar as músicas da academia para a rua, entende? É no Carnaval que temos os piores hits do ano, aqueles hits que geram memes idiotas no facebook e acabam não saindo da boca nem de quem não gosta das malditas músicas. Existe Carnaval gótico? Acho que não.
Existe o Antibloco. O Antibloco² é legal.
Uma vez tentei sair de casa, sabe? Meus amigos sempre me acharam meio fechado, um cara um tanto quanto antissocial, queriam arrumar minha vida (como se ela precisasse de concerto). Me levaram a um daqueles blocos tradicionais de Brasília, tipo um Galinho, porém, dessa vez não fomos ao Galinho. Fomos ao Pacotão³.
Um saco. Galera feliz, pulando, um bate-bate de latinha pra cá, uns tambores esquisitos prá lá, pessoas jogando serpentina na sua cara e nenhum lugar decente pra mijar. Fiquei com dor de cabeça, emburrado o tempo todo! Lembro que saí correndo de lá (deveria ter uns dezesseis anos na época) peguei carona com a mãe de um amigo e fui pra casa da minha avó. Minha irmã morava com ela. Ela se chama Amanda e estava no segundo semestre de História da UnB. Nessa época ela morava no apartamento que foi da nossa avó, porque ficava mais perto da universidade, e essas coisas todas.
Eu sabia que ela estava em casa. Amanda sempre odiou Carnaval, nunca foi muito de sair. Minha irmã gótica, aquela que só usa preto e a pouco tempo vivia emburrada nas festas de família? Aquela nerd maluca que pira jogando Final Fantasy? Aquela Amanda? Aquela que sempre preferiu ficar trancada no quarto dela ouvindo Joy Division a sair pra pular Carnaval com os amigos? Claro que ela não estaria pulando carnaval.
Ela não estava. Na verdade, quando cheguei a casa da vovó, encontrei uma bagunça. Nossa tia avó favorita estava lá e as duas, a titia e a vovó, estavam opinando sobre a roupa e a maquiagem da minha irmã. Quando olhei para Amanda, juro pelo céu de Brasília, vi um cosplay da Cindy Lauper!
Até o mês anterior o cabelo dela era castanho claro. Naquele dia, entrei no apartamento da minha avó e vi minha irmã com o cabelo alaranjado com várias mechas rosas e azuis (ela sempre quis pintar de azul, mas laranja, rosa e azul a mesmo tempo! Minha mãe vai ma-tar ela!), bem, pelo menos ele ainda estava ondulado e volumoso, como sempre foi. Estava vestida com um vestido verde água que tinha uma saia de tule (ela mesma costurou, eu vi, foi para o halloween do ano passado!), e a maquiagem. A maquiagem dela estava, literalmente, um arco-íris! Ficava bem com os olhos azuis que eu não herdei do papai. Para mim, ela ainda estava bem gótica. Não. Ela estava fazendo cosplay da Cindy Lauper. Foi até engraçado quando minha avó veio falando que tinha acontecido um milagre.
- J., sua irmã! Não sei o que deu nessa menina! Ela está indo pro Galinho com os amigos! A Amanda vai pular Carnaval!
- Fala sério! Véi... — Foi tudo o que consegui dizer naquele momento.
- O que foi, J.? — Ela sorriu, linda. — É Carnaval! Enquanto o mundo inteiro acorda, a gente dorme!
Por que estava lembrando disso mesmo? Foi porque ela citou Barão Vermelho? Oh! Era sobre o mês de Fevereiro, não?
Bem, sei que o que eu não compreendia naquela época, compreendi agora. Amanda sempre foi uma pessoa fechada, depois da universidade, a vida dela mudou. Minha irmã virou, como vovó dizia, gente. Ela passou a frequentar pubs, barzinhos, tomar cerveja e até foi para baladas não góticas (que eram sempre nos mesmos dias do ano). Na verdade, ela não deixou de ser a minha irmã mais velha, ela ainda ouvia Joy Division e ainda pirava jogando Final Fantasy. Ela estava sendo feliz. Aproveitando a vida. Não entendi naquela época, mas agora entendo que algumas pessoas simplesmente sentem essa vontade de festejar a vida. Por mais inesperado que fosse, ela sentiu, assim como eu estou sentindo agora. Depois de um semestre difícil na UnB, vou soltar a franga no Carnaval!
Peguei as chaves do carro, mandei uma mensagem para o meu amor e fui para o apartamento da Amanda. Enfrentei um trânsito do capeta na EPTG**, mas depois ficou tudo bem, cheguei feliz na casa da minha irmã. Subi, entrei e falei:
- Nós vamos pular Carnaval o mês inteiro. Não. Fale. Nada. Quando todo mundo acordar, a gente vai dormir, combinado?
Ela só sorriu. Linda como sempre. Aquela piranha, ela tem os olhos do meu pai!
Notas finais
¹Águas Claras é uma das cidades satélites do D.F., acho que é a mais peculiar de todas, porque o trânsito naquele lugar é o inferno, as faixas são todas estreitas, se me pedirem pra dirigir lá, bato o carro na certa.
²Antibloco é um bloco independente de Brasília, pra galera que quer se livrar das marchinhas e do bate-bate de latinha, é um bloco legal, onde só rola música eletrônica.
³Um dos blocos tradicionais de Brasília, foi criado em 1977, ironizando os novos atos de serviços militares. Ele tem pouco mais de 30 anos de existência, por mais os tempos sejam outros e a ameaça militar seja mais uma de nossas cicatrizes (que custa a sarar, eu diria.), o bloco segue criticando o governo. É bem divertido. Esqueci de marcar esse nas notas, vou aproveitar e explicar aqui: o Galinho também é um bloco tradicional, ele está aqui desde 1992, e foi feito por pernambucanos. Ele aconteceu em 92 por causa da dificuldade que muitos nordestinos tiveram de passar o carnaval no nordeste, por causa daquele memorável confisco das poupanças de todo cidadão brasileiro (eu nem era nascida nessa época, hehe). O galinho faz alusão a um bloco pernambucano, o Galo da Madrugada. Esse ano eu juro, vou pular carnaval no galinho. :3
*Esqueci a nota sobre o Beirute: o Beirute é um delicioso bar bem conhecido no D.F., e o uniforme dos garçons é uma gracinha. :3
**EPTG - Estrada Parque Taguatinga, localizada na DF-085, é uma das vias de ligação do D.F., ela liga Taguatinga, Guará, Park Way, SIA, Samambaia, Águas Claras, Vicente Pires e Ceilândia (todas são cidades satélites) à Brasília. xD É uma das mais movimentadas, o engarrafamento é absurdo, porém, tenho certeza que não é o pior.
Acho que é só isso de glossário. xD
Beijos!! :***
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