Carmesim

1 Carmesim - Capítulo Único


Notas iniciais
Yay! Espero que gostem dessa oneshot, uma Shizaya dos tempos da escola, dois adolescentes cheios de hormônios e todo o amor/ódio que a gente adora.

Outros comentários nas notas finais. Boa leitura! ♥

Era uma manhã de quarta-feira na Academia Raijin, uma renomada escola do distrito de Ikebukuro, Tóquio. A Raijin era famosa na região pelo bom desempenho de seus estudantes nos vestibulares, além das frequentes premiações que recebiam em olimpíadas de matemática, concursos de escrita, entre outros eventos nos quais se destacavam. "Meu filho estuda na Raijin", era uma frase que muitos pais tinham orgulho de pronunciar em reuniões de amigos e jantares de família.

O colégio apresentava boa infra-estrutura, com uma biblioteca grande e acervo de livros diversificado, além de vários laboratórios para aulas de biologia, química e física aplicada. Tinham uma política de disciplina, porém pouco rígida, permitindo a seus alunos relativa liberdade nas suas imediações.

A Raijin era, no geral, uma escola pacífica. Boa parte dos alunos estava realmente focada nos estudos para conseguir entrar em uma boa universidade, então seus dias eram normais e repetitivos, até mesmo maçantes, às vezes. No entanto, havia exceções. Entre uma série de estudantes normais com objetivos semelhantes, havia dois alunos que se destacavam de forma negativa, envolvendo-se sempre em brigas pesadas e rompendo com a paz do ambiente escolar:

Izaya Orihara e Shizuo Heiwajima.

Seus nomes faziam qualquer professor esboçar uma expressão de preocupação ou desânimo; eram o que alguns poderiam chamar de "casos perdidos". Ou talvez, possa se dizer que, juntos, eram um único "caso perdido". Isso ocorre porque, sempre que criavam alguma confusão — e isso acontecia com frequência — estavam sozinhos. Brigavam sempre um com o outro, dificilmente envolvendo outros estudantes em seu conflito pessoal. Eram rivais.

E suas brigas não eram o tipo de briga comum que se imagina no Ensino Médio: um garoto dando um soco em outro garoto, que provavelmente beijou sua namorada ou falou mal dele pelas costas. As brigas de Shizuo e Izaya tinham uma proporção muito maior, envolvendo sangue, manobras de parkour e lançamento de objetos com mais de 90kg, como as máquinas automáticas de bebidas, postes de luz, a estátua do fundador da Raijin, entre outros. O vandalismo, por assim dizer, era forte.

O motivo para esses conflitos? Ninguém sabia ao certo. Tudo o que se sabia sobre a relação entre Izaya Orihara e Shizuo Heiwajima era que se odiavam muito, desde o dia em que se conheceram. Mas por quê? Ninguém tinha certeza. Alguns estudantes especulavam que houvesse conflito entre as famílias, algumas garotas imaginavam o cenário de um mangá BL, outros preferiam nem perder tempo pensando em dois caras tão esquisitos.

As brigas aconteciam quase que semanalmente, na maior parte do tempo desencadeadas por provocações de Izaya para Shizuo. A expulsão dos dois alunos foi, várias vezes, considerada, mas os pais de Shizuo eram amigos do diretor e a família Orihara, muito rica, sempre oferecia grande quantidade de dinheiro para "tranquilizar" o Conselho de Classe.

Naquela manhã de quarta-feira, as coisas (ainda) estavam bem calmas no ambiente escolar. Estavam no meio da primavera, as provas bimestrais seriam só depois de três semanas, as aulas eram longas e tranquilas. Tranquilas até demais, talvez por isso houvesse alguém dormindo no meio da aula de Biologia.

Com a cabeça encostada na parede, Shizuo cochilava, hipnotizado pelo tédio da voz de seu sensei, um homem careca e gordinho de sessenta e cinco anos, usando óculos redondos com lentes grossas.

- Heiwajima-kun — disse o professor em seu tom normal de voz, sem paciência para gritar. — Alguém acorde-o, por favor.

A menina sentada atrás de Shizuo o cutucou com a ponta da lapiseira, fazendo com que acordasse imediatamente, quase dando um pulo. A turma inteira riu e, entre tantas risadas, uma se destacava, com uma dose extra de escárnio: a de Izaya.

- Heiwajima-kun — o sensei repetiu, dando um longo suspiro. — Sinto-me obrigado a te retirar da sala.

- Gomenasai...

Shizuo já se levantava da cadeira, quando o professor mudou de ideia. Não era um homem muito rígido e, apesar de saber que tinha que manter a disciplina do padrão japonês, reconheceu que o assunto da aula era mesmo maçante e resolveu dar uma outra chance.

- Fique — disse ele. — Acordado.

O loiro nada respondeu, só fez um curto aceno com a cabeça e sentou-se novamente, passando as mãos no rosto e suspirando, ainda com muito sono. Olhou para o resto da sala à sua direita, rapidamente localizando a carteira de Izaya.

O moreno escrevia rapidamente em um caderno Moleskine vermelho, sem olhar para o quadro uma vez sequer. Com certeza não era nada relacionado à aula. De minuto em minuto, ele abria um sorriso malicioso, como se estivesse escrevendo um plano para dominar o mundo. Nesse ponto, Shizuo já não duvidava de nada.

Só de fazer aquela observação, o loiro sentiu um pouco de raiva esquentar seu sangue. Ele resolveu desviar os olhos do objeto de seu ódio e prestar um pouco de atenção na aula de Biologia, pelo menos uma vez em sua vida.

No quadro, havia a expressão "TIPOS DE DEFESA DAS PRESAS" escrita bem grande e sublinhada, seguida pelas palavras: "CAMUFLAGEM (difícil distinção)", "MIMETISMO (parecer com outro)", "TANATOSE (fingir de morto)", "AUTOTOMIA (abandono de membros)" e, por fim, "APOSEMATISMO (coloração de alerta)".

O professor começava a explicar a última parte:

- O aposematismo, ou "coloração de alerta", é uma característica de animais não-palatáveis, tóxicos ou venenosos, usada para "anunciar" aos seus predadores que não são comestíveis e, obviamente, evitar o predatismo.

Por algum motivo, isso pareceu interessante para Shizuo. Ele não desviou o olhar e continuou a escutar a voz séria e monótona do professor.

- Esses animais apresentam cores chamativas em seu corpos, como o vermelho, o amarelo, o verde e o azul. O aposematismo ocorre principalmente em espécies venenosas de rãs, salamandras, cobras e insetos.

Alguns alunos mais disciplinados anotavam cada palavra do que o sensei dizia. Outros apenas escutavam, com atenção.

- Um exemplo de coloração de alerta é a rã Dendrobates pumilio, também conhecida como rã-morango ou rã-flecha. É um animal bem pequeno e de coloração vermelha vibrante. Os indígenas da América Central usavam muito seu veneno na ponta de flechas, daí um de seus nomes popula-

O sinal do intervalo tocou, interrompendo a explicação do professor. Desanimado, ele indicou as páginas do dever de casa e deixou os estudantes saírem.

***

O horário da tarde, para o estudante japonês, é o horário das atividades extracurriculares, os clubes. Na Raijin, cada estudante tinha que fazer parte de pelo menos um clube e poderia participar de, no máximo, três. Havia várias opções, como: Clube do Livro, Clube da Música, Clube de Sociologia, clubes de esportes, entre outros.

Shizuo não demonstrava interesse em quase nenhuma dessas atividades e, das poucas que gostava, como esportes, não podia participar, pois sua força incomum fazia de tudo uma "trapaça" ou acabava por machucar os colegas. Dessa maneira, ele ia para a escola à tarde somente para marcar sua presença e acabava dormindo dentro de uma sala vazia.

Essa era uma de suas tardes silenciosas e ele estava aproveitando bastante, deitado sobre uma série de cadeiras. As cortinas da sala estavam, em sua maioria, fechadas, mas algumas partes ainda permitiam a entrada de alguns raios de sol.

A porta da sala se abriu lentamente, com um rangido, e uma silhueta esguia entrou nas pontas dos pés. Shizuo já dormia pesado, de forma a não ouvir nenhum som.

Izaya Orihara andou cuidadosamente por entre as carteiras até encontrar Shizuo dormindo, no fundo da sala. Um sorriso largo e de más intenções se abriu no rosto pálido do moreno, especialmente feliz por ter encontrado seu tão odiado — e ao mesmo tempo tão querido — alvo.

Ele observou o loiro dormir por alguns minutos, olhos castanho-avermelhados fixos em uma expressão de serenidade e paz, tão rara no rosto daquele que era considerado um Monstro.

- Kawaii nee - murmurou Izaya, quase inaudível. Em seguida, soltou um risinho baixo. — Nah, nem tanto.

O moreno tirou do bolso do uniforme uma caneta cor-de-rosa com um pompom pendurado na ponta*, que ele tinha roubado sorrateiramente de uma das garotas da sala. Lentamente, ele levou a caneta bem próxima ao rosto de Shizuo, fazendo as penugens do pompom encostarem em suas narinas.

O loiro, adormecido, fungou rapidamente e se movimentou um pouco, o rosto levemente perturbado, como se fosse espirrar. Passaram-se cinco segundos e ele continuou dormindo, sem se movimentar mais.

Izaya estava um pouco decepcionado. Esperava acordar Shizuo logo de uma vez e sair correndo, iniciando mais uma de suas famosas perseguições. Mas tudo bem, não custava nada tentar de novo.

Ele repetiu o movimento, dessa vez colocando o pompom rosa inteiro na frente das narinas do loiro. Shizuo fungou novamente, duas vezes, seu rosto se contorceu em uma careta, ainda de olhos fechados. "É agora", pensou o moreno, já se preparando pra correr.

No entanto, nada aconteceu.

- Tch — resmungou Izaya, impaciente. — Como o esperado de um protozoário inútil.

Ele desistiu da caneta, deixando-a sobre uma carteira. Em seguida, ficou imóvel por alguns minutos, tentando desenvolver alguma ideia, alguma provocação, algum plano, qualquer coisa. Qualquer coisa!

Já fazia uma semana desde que ele e Shizuo tinham lutado pela última vez e ele sentia uma necessidade daquilo da mesma maneira que algumas pessoas têm necessidade de sexo. Por mais estranho que parecesse.

Era assim que se sentia em relação a Shizuo. Uma atração magnética, irresistível, incontrolável. Um impulso químico que fazia seu coração acelerar como se fosse arrebentar sua caixa toráxica, uma adrenalina sem precedentes. Um sentimento que, de início, lhe pareceu nojento, mas era natural e inevitável. E Izaya foi ficando viciado, como se fosse uma droga.

Os humanos que ele tanto adorava às vezes ficavam entediantes, e ele precisava de um monstro para se sentir vivo.

Foi assim que Izaya teve uma ideia. Era arriscada, porém divertida. Ele observou a feição de Shizuo por mais alguns instantes, pensando se valia a pena correr um pequeno risco de segundos.

O rosto do loiro tinha uma expressão tão calma, quase feliz. Os músculos relaxados, lábios cerrados, cabelo levemente bagunçado, respiração lenta. O casaco do uniforme estava jogado em outra cadeira, a camisa branca tinha um botão aberto, revelando um pouco de pele. Tão tocável.

Izaya tirou suas próprias conclusões.

Ele umedeceu os lábios com a língua e respirou fundo. Aproximou-se do rosto de Shizuo devagar, centímetro por centímetro, até sentir a respiração dele tocando seu nariz.

Então, pressionou seus lábios nos do loiro rapidamente, causando um leve estalo, um selinho rápido, porém firme.

Shizuo abriu os olhos imediatamente, dando de cara com o rosto de seu rival. Sob um dos raios dourados de sol que invadia a sala escura, as íris dos olhos de Izaya eram vermelhas-vivas. Vermelho brilhante, vermelho vibrante, carmesim.

Vermelho. Coloração de alerta. Um aviso que a natureza dá para que alguns seres sejam evitados. Uma ameaça. Um sinal de perigo.

Como fosse um reflexo natural, ele então levou os dedos aos lábios, confuso e incrédulo. Impressionado. Não existem palavras suficientes para descrever em nossa língua.

- MAS QUE MERDA FOI...??!! PULGA MALDITA!

Shizuo tinha um misto de horror, confusão e constrangimento nos olhos. Izaya não conseguia parar de rir.

- Seu desgraçado — o loiro grunhiu, cerrando os dentes. — Por que você...??!

- Nee, Shizu-chan, eu não sei do que você está falando — disse o moreno, finalmente contendo o riso. — Eu não fiz nada.

O maior manteve a expressão de perplexidade, irritado e confuso demais para responder. O universo todo parecia ter perdido a ordem, o ying e o yang quebraram, os seres humanos ganharam asas e Izaya Orihara lhe deu um... selinho. UM SELINHO?!

- Desista, Shizu-chan, você está delirando — disse Izaya, tentando fazer uma voz séria. Em seguida, com total tom de deboche: — Nee, será que Shizu-chan estava tendo algum sonho erótico comigo~?

Aquela foi a gota d'água. Shizuo arrebentou a carteira que estava do seu lado com um soco só, sentindo o calor do momento explodir em suas veias.

- É HOJE QUE VOCÊ MORRE, IZAYA-KUN!

Izaya se afastou pulando sobre cada carteira da sala, tirando o pequeno canivete do bolso de sua calça e abrindo-o, com um enorme sorriso.

- Não fique chateado se eu tiver roubado o seu primeiro beijo — ele riu. — Mais cedo ou mais tarde tinha que acontecer, nee~? E não é como se outra pessoa fosse querer mesmo...

- DESGRAÇADO! Espere só até eu botar minhas mãos em você, sua pulga — o loiro grunhiu, levantando uma cadeira.

Começou a perseguição. O moreno disparou, correndo pelos corredores, e Shizuo atrás, assustando todos os alunos e funcionários que estavam no meio do caminho.

- Lá vão eles de novo — murmurou Shinra Kishitani, observando-os passar enquanto saía do Clube de Botânica.

Ele balançou a cabeça e sorriu, como quem dizia "esses dois não tem jeito mesmo".

***

Já era fim de tarde e o sol estava se pondo lentamente no horizonte, ainda deixando alguns últimos raios alaranjados iluminarem a cidade. O clima da primavera era ameno: quente, mas não desconfortável; fresco, mas não frio.

Depois de, aproximadamente, duas horas e meia de perseguição, tanto Shizuo quanto Izaya estavam cansados. O loiro continuava a seguir o moreno, mas a velocidade de ambos tinha reduzido tanto que estavam quase andando como pessoas normais, ofegantes.

Tinham saído do perímetro da Raijin e percorrido o resto do bairro. Naquele instante, retomavam a direção do colégio. Apesar do cansaço, nenhum deles queria deixar o próprio orgulho de lado e "desistir" daquela vez.

De volta à escola, Izaya aproveitou o pouco de fôlego que tinha retomado nos últimos minutos e fez um esforço para correr em direção ao ginásio de esportes. Motivado pelos movimentos de seu alvo, Shizuo também voltou a correr, ainda muito irritado pelas provocações, digamos, "estranhas" daquela tarde.

Ambos entraram no ginásio de esportes, ainda aberto para os treinos do período da noite, porém vazio. O moreno tinha planejado passar por uma porta ao lado da enorme piscina do Clube de Natação.

Izaya teve uma irritante surpresa ao perceber que sua saída estratégica estava fechada. Vendo que seu plano tinha falhado e estava se dirigindo para um canto sem saída, ele reduziu a velocidade de seus passos novamente e tirou o canivete do bolso, já se preparando para enfrentar Shizuo de frente.

O loiro, percebendo a frustração do menor, sorriu, satisfeito. Começou a andar mais devagar, ainda ofegante, porém contente de ver Izaya um tanto quanto frustrado, sentindo-se orgulhoso como se tivesse ganhado daquela vez.

- Não tem mais pra onde ir, pulga? — Perguntou, a voz rouca e um pouco afetada pelo cansaço, porém satisfeita.

- Hah — Izaya respirou fundo, recuperando o fôlego, em seguida apontando seu canivete afiado na direção de Shizuo. — O jogo não acabou ainda, Shizu-chan.

Os painéis de acrílico, localizados ao redor e no teto alto do ginásio, permitiam que os dois notassem que já estava anoitecendo. Deveriam ter ido para suas casa já fazia tempo, mas aquilo parecia mais importante. Aquele momento guardava um lugar especial em suas rotinas, por motivos que jamais seriam pronunciados em voz alta.

- Tch. O espaço aqui é pequeno — disse Shizuo, se aproximando cada vez mais do menor. — Admita que você não tem mais nenhuma carta na manga e desista por hoje, Izaya-kun.

O moreno não queria admitir, mas Shizuo estava certo. A distância entre eles realmente era proporcionalmente pequena e, para um confronto físico, não havia espaço suficiente para Izaya saltar e se esquivar o necessário. Aquela briga poderia resultar em alguns ossos quebrados. O quanto ele estaria disposto a arriscar pelo próprio orgulho?

Enquanto a aproximação de Shizuo diminuia a distância entre eles, Izaya olhou furtivamente para a piscina ao seu lado. As águas límpidas que tomavam a cor do azul claro de seu fundo também refletiam os dois e seus movimentos.

Quando o loiro estava prestes a agarrá-lo pelo pescoço, o moreno se atirou na água da piscina em um único movimento, de roupa e tudo, causando um sonoro "SPLASH". Motivado pela sua raiva e seus instintos, sem pensar duas vezes, Shizuo também mergulhou.

Depois de meio minuto embaixo d'água, Shizuo conseguiu agarrar o braço de Izaya e, segurando-o, tentou subir à superfície para respirar. Sentiu um alívio ao colocar a cabeça para fora e puxar o oxigênio para dentro de seus pulmões, até que percebeu que o menor continuava mergulhado.

Ele sacudiu o braço de Izaya, sem receber nenhuma resposta. Sentindo uma ansiedade subir por suas veias, como se seu sangue tivesse esfriado de repente, ele puxou o corpo todo do moreno para a superfície.

Os olhos de Izaya estavam fechados e os lábios finos, levemente abertos. Os cabelos curtos, lisos e pretos, encharcados, caíam sobre a testa, contrastando com a pele branquíssima. Não havia nenhum movimento que indicasse respiração. A ansiedade sentida por Shizuo aumentou, fazendo suas mãos tremerem um pouco enquanto levava o corpo imóvel do menor para fora da piscina.

Afogamento? O loiro pensou, sentindo seu coração palpitar. Será possível que ele não sabe nadar? Não tem como. Ele não pularia nessa piscina se não soubesse nadar.

Ele chegaria a esse ponto só para não ser derrotado?

De qualquer forma, por que é que eu estou me preocupando?

Shizuo deitou o corpo encharcado e silencioso sobre o chão de cerâmica fria ao redor da piscina. Seus dedos tocaram, por impulso, as maçãs do rosto do menor. Estavam geladas como mármore, por causa da água.

Motivado pela preocupação, ele deitou a cabeça sobre o peito do outro, para checar os batimentos cardíacos. Dava para ouvi-los. Uma sensação de alívio fez com que suspirasse, mas a preocupação continuava. Izaya estava vivo, mas provavelmente inconsciente.

O loiro, sem pensar muito, resolveu tentar respiração boca-a-boca. Segurou o nariz do moreno e afastou seus lábios um pouco, em seguida aproximando seu rosto para iniciar o procedimento. Qual foi sua surpresa quando, ao encostar sua boca na do menor, este reagiu, fechando seus lábios sobre os dele, em um beijo.

Ao invés de se afastar, Shizuo repetiu o movimento, deslizando sua boca sobre a de Izaya e fechando, com um leve estalo. O moreno se levantou um pouco, passando seus braços por trás do pescoço de Shizuo. Pressionou sua língua sobre os lábios do loiro, para que se abrissem. Ele aceitou o convite e aprofundou o beijo, inclinando a cabeça um pouco mais para melhorar o ângulo.

Suas línguas se movimentaram levemente uma sobre a outra, provocando um som molhado, explorando a situação. As bocas mudaram um pouco de posição e Izaya mordeu de leve o lábio inferior de Shizuo. Continuaram se beijando, ambos completamente encharcados, as roupas coladas aos corpos tão frios, mas ao mesmo tempo tão quentes por causa do toque. Em seguida, os rostos se afastaram devagar.

Os olhos do moreno estavam abertos, quase arregalados. As íris nunca tinham parecido tão vermelhas, ao invés do castanho-mogno comum do dia-a-dia. Shizuo se lembrou de seus pensamentos mais cedo, da aula de Biologia. Sentiu-se ameaçado por aqueles olhos vermelhos, mas sentiu-se também tão atraído que não havia o que pudesse fazer para evitar aquele garoto que tanto o incomodava — no fundo, não queria realmente evitá-lo.

Era irresistível.

Shizuo então se deu conta do que tinha acabado de acontecer e ficou envergonhado. Izaya deitou novamente sua cabeça no chão e soltou uma alta gargalhada, especialmente satisfeito.

- HAHAHAHAHAHA!

- Você é mesmo um filho da puta — murmurou o maior, limpando a boca com o braço e fazendo uma careta de nojo.

- Shizu-chan ficou todo preocupado, nee~ — disse Izaya, ainda rindo. — Completamente imprevisível.

Shizuo realmente não tinha um argumento para a primeira frase. Sentia, ao mesmo tempo, raiva por ter sido enganado e excitação por ter sido beijado. Queria dizer: como você tem coragem de fingir algo tão sério?, mas não queria mostrar, mais uma vez, que se importava com aquela pulga maldita.

Ele procurou a caixa de cigarros no bolso — naquela época já fumava -, querendo se acalmar, mas ela estava encharcada, assim como todos os cigarros lá dentro. Com um suspiro pesado, atirou a caixa no chão e perguntou:

- O que você quer dizer com isso? "Imprevisível".

Izaya sorriu.

- Pensei que Shizu-chan ia me deixar em paz se pensasse que eu tinha morrido. Mas o que acabou acontecendo foi realmente mais interessante.

- Cale a boca — grunhiu Shizuo, levantando-se. — Pare de falar coisas sem sentido.

- Foi você quem perguntou, nee. Shizu-chan se contradiz o tempo todo — Izaya suspirou. — Para quem me odeia tanto, você certamente tentou evitar a minha morte. Que gracinha.

Shizuo foi andando em direção à saída, pingando por todos os lados. De repente, parou, como se tivesse lembrado de alguma coisa. Sem olhar para trás, disse:

- Quando você morrer, deve ser pelas minhas próprias mãos. Não em uma situação estúpida como essa, pulga.

O sorriso no rosto de Izaya desapareceu, substituído por uma expressão de surpresa e curiosidade.

- Ehhh? No fim das contas, Shizu-chan ainda é um monstro, não é mesmo...

Não houve resposta alguma.

Notas finais
* uma caneta cor-de-rosa com um pompom na ponta, sim, pois é. Sei lá, achei a cara dele. ♥

E aí?
Peço que deixem comentários, nem que seja pra dizer "Oi Rafsu! Então, eu gostei/não gostei". Campanha: deixem a sua opinião, não me deixem no vácuo!

Até a próxima. ♥

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!