Carinhosa
1 Capítulo Único
Não, não posso ir para o dormitório, pensou, dando uns passos para trás, em direção de algum banheiro.
Ele manteve a cabeça baixa, fingindo coçar a testa, entretanto, ele não estava envergonhado, não tinha medo de que as pessoas o vissem chorar. Entrou no banheiro e em seguida na última cabine, finalmente trancando a porta e sentando-se, tomando ar. Colocou a mão no peito em um soluço, desacreditado.
Como podia ter um coração partido duas vezes?
Ele sabia que aquilo era culpa dele, remendou seu coração de qualquer jeito, passou um verniz vagabundo e brincou com o mesmo artefato que lhe detonara o peito, como se nada tivesse acontecido. Era como se ele, conscientemente, estivesse enfiando a mão em um casulo de formigas, com um sorriso no rosto, mesmo sabendo o que ia acontecer. Chorou, devastado e desesperado, tentando pensar em algum abraço que pudesse lhe confortar sem julgá-lo, mas não aguentaria o olhar de pena de seus amigos, que assistiram passivamente Remus enfiar de novo uma faca no próprio peito.
Emmeline disse:
Acho melhor sermos apenas amigos. Não quero te magoar novamente.
O coração de Remus sangrou como um último suspiro, mas ele sabia que com aquele rio vermelho saía o último vestígio de qualquer coisa que Emmeline deixara ali dentro. Aquilo era, de fato, o que ela devia ter feito há muito. Ela finalmente quebrara aquela corrente maldita e pesada que Remus carregava alegremente nas costas com carne viva, ela o libertara, e assim como um escravo que desejava ardentemente a liberdade, ficou sem rumo, e consequentemente, com medo.
Ele estava livre.
Não precisava mais tentar ler a mente de Emmeline, ou interpretar palavras rasas de forma errada, apenas para alimentar a ilusão de que talvez, apenas talvez, eles pudessem ter algo. Por mais que em seu íntimo, não fosse aquilo que Remus quisesse. A dor de amá-la era confortável, e deixar às coisas partirem, mesmo que sejam nocivas, não era algo natural para Remus.
Sentou-se no chão do banheiro e fitou o nada, mal sentindo seus olhos chorarem por conta própria, sabendo que não queria ninguém para confortá-lo. Sua dor, apenas ele poderia compreender. Sequer tinha raiva de Emmeline, cujo único crime foi não querê-lo. Ele saiu na chuva, consequentemente se molhou, agora tinha que aprender a se secar.
Enxugou sua mágoa, entendendo que aquilo era uma despedida.
...
Ninguém comentou os olhos de panda de Remus no dia seguinte, eles sabiam o que tinha acontecido.
Sentiam pena do amigo, tomando cuidado nos passos, nas palavras, como se Remus fosse um cristal muito frágil. Ele esboçava um sorriso, feliz por poder chamar aqueles garotos de amigos, de respeitarem sua dor adolescente. Pensou em como tudo aquilo podia parecer um filme à eles:
Primeiro, ele apaixonou-se por Emmeline e tudo eram flores, então o sentimento tornou-se algo obsessivo e nocivo, preocupante, latente demais, foi com tanta sede ao pote que Emmeline praticamente voou para trás, assustada. Ela nunca terminou aquilo de fato, e Remus manteve-se naquele relacionamento imaginário por meses, com idas e vindas, até um fim definitivo. Ele levantou-se um belo dia e apenas disse:
Chega.
E não se falaram por longos três meses, até ele retornar como um filho ingrato, de olhos baixos, pedindo abrigo nos braços da garota que apenas o recebeu, com o tom arrogante e impassível de sempre. E então, como se o universo encaminhasse tudo para um belíssimo fim, no exato mês que se conheceram, há um ano, as duas pontas daquele círculo finalmente se encontraram, expulsando Remus à força.
Não tinha ninguém para culpar, e, com toda a compaixão que tinha em si, não culpou nem mesmo a si mesmo. Juntou novamente os cacos e acariciou as marcas de remendo mal feitas em seu coração, remendando com mais cuidado dessa vez, com mais paciência, mais afeto. O guardou um pouco, para que se recuperasse, deu espaço, para que o verniz secasse.
Então ela chegou.
...
Remus não gostava de Dorcas.
Ela era infantil, direta, expressiva...
Não havia mistério, nem vergonha. Não havia a necessidade de interpretação, já que tudo que saia de sua boca era muito claro, muito bem pontuado, direto, com uma mira simplesmente impecável. Ela era apressada, expansiva, espirituosa, aberta demais, Remus podia ter acesso as suas páginas com tanta facilidade que ele sentia horror. Como ela conseguia ser tão aberta?
Seus elogios soavam falsos, porque ele nunca tinha ouvido antes. Ela não ter receio de ser carinhosa era como o assustava, pois ele não sabia que era permitido sentir carinho sem sentir-se errado e frágil em seguida. Seu abraço era completo e forte como um calmante, não mole e breve, como alguém que não suporta o toque.
Ele não sabia que existia sentimento recíproco, tão acostumado a amar sozinho...
Calma, ele sempre dizia quando Dorcas o apertava demais, aliás, calma era a coisa que ele mais dizia à ela. Pois seu coração ainda respirava com dificuldade e suas costas ainda tinham a casca de cicatrização das correntes de Emmeline. Nunca saberia se sentia algo pela garota loura de olhos infantis, porque seu coração sequer estava consciente para sentir algo.
Tudo aquilo era novo demais, e assustador.
“É porque você está sendo tratado como merece pela primeira vez”, explicou Sirius, reprimindo um sorriso. “É assim que é ser gostado”.
Queria sair correndo, sabia que Dorcas era especial demais e Remus tinha certeza que ia acabar estragando aquilo de alguma forma. Eles sequer combinavam de fato: Ele era apaixonado por livros, passaria horas falando coisas pedantes sobre filmes e diretores, analisando músicas e como elas tem o poder de compreendê-lo, mas Dorcas não tinha paciência para aquelas “intelectualidades”, animada com algum jogo de Quadribol, alguma partida no Clube das Bexigas ou alguma piada engraçada que lera na revista semanal de Hogwarts. Ela era simples e fácil, e aquela facilidade assustava Remus.
Não havia nada para complicar.
Ele se encantava vagarosamente, como quem aprecia o sabor de algum prato pela primeira vez. Remus fazia notas mentais de como ela ficava desajeitada quando ia cumprimenta-lo, e como ela ficava séria e ansiosa nos primeiros minutos, como se apenas algumas horas longe dele a fizesse quase que desconhecê-lo.
Gostava da forma como ela o olhava, sincera e dócil, como se não visse o mesmo rosto feio que Remus via diante do espelho, ou os beijinhos que ela dava no topo de sua cabeça, a voz calma e a paciência que tinha com sua personalidade indecisa, pessimista, chata...
Ele conta os dias para o sonho acabar, coisas boas não costumam durar em sua vida.
Olha para o relógio e assim como vira um ciclo se fechar, ele vê a abertura de outro, preso naquela linha entre o antes e depois, sem coragem nem de sair ou de entrar. Seu coração implora por calma e pela primeira vez, ele escuta.
E escolhe a calma.
Me para e olha
Pra minha alma vazia
Me traz de volta
Pra viajar na alegria
E nessa noite passada eu sonhei
Com você e adorei
Carinhosa
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