Carinho
1 Chocolate quente
Notas iniciais
— O que você quer?
Ele parecia surpreso com a pergunta.
— Você quer continuar?
Ele hesitou.
— Você quer lutar?
Ele baixou a cabeça e negou.
Uma lágrima rolou pelo focinho dele.
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— Raawr. — Grunhia, cruzando os braços enquanto me olhava de canto, se mostrando claramente irritado pela minha proposta.
— Deixa de ser chato, você sabe que gosta! Vem! — Mas ele permaneceu parado em silêncio enquanto eu continuava insistindo, como se aquilo fosse um teste ao orgulho dele. Até que, depois de tantas tentativas, desisti. — Tudo bem. Então só se senta e tira as patas do chão, porque está frio e não quero que você fique doente.
Finalmente descruzando os braços e cedendo a expressão de poucos amigos, sentou-se no sofá, ao meu lado.
— Não está nem um pouco cansado? Mesmo depois de todo aquele intensivão de treino? — Perguntei, tentando ver através do semblante aparentemente intangível dele. Ou até mesmo sua aura, que aprendi a ler depois de ter passado muito tempo vivendo ao seu lado. — Eu sabia. Você está cansado, sim. Devia parar de exagerar, Lucario.
— Tch. — Amuou-se mais uma vez.
Só que eu sabia exatamente o que fazer naquela situação.
— Ah, que pena... Já que está bravo, acho que também não vai querer isso aqui...
Peguei uma caneca que repousava sobre uma mesinha ao lado, tomando um gole do seu conteúdo e logo ele percebeu do que se tratava.
Não demorou para que eu o testemunhasse espiando de soslaio com interesse, só que ainda de cara fechada.
Mas logo vi seus olhinhos vermelhos brilhando ao lhe estender outra caneca, que com certa animação a segurou e também tomou um gole, soltando pequenos sons de agrado. A felicidade era tanta que chegou até a abanar a cauda e balançar as pernas, que estavam suspensas do chão.
— Você ama chocolate quente tanto assim? — Me contagiei pela alegria ao meu lado. Alegria que ele tentou disfarçar no último momento, evidentemente com vergonha do entusiasmo excessivo que tinha acabado de mostrar só por uma bebida.
Eu ri do jeito que ele tentou esconder o focinho atrás da caneca desviando o olhar, enquanto o vapor quente subia e infestava o cômodo com um cheiro adocicado.
E por longos minutos, metade do líquido não foi bebido.
— O chocolate ficou frio? Quer que eu esquente mais?
Ele, parecendo acordar de um transe, meneou a cabeça em um “não”, tomando mais um gole. Porém, logo voltou encarar o chão num olhar distante e até um pouco triste.
— O que foi? — Perguntei, mas logo me dei conta de como aquela pergunta era idiota.
Ele só podia estar pensando em uma coisa que pudesse deixá-lo nesse estado. Estendi a mão e pousei na sua cabeça.
— Você não precisa lutar se não quiser, Lucario.
A surpresa agora estampada na face dele denunciou que eu tinha acertado em cheio.
Faz muito tempo desde a primeira vez que o encontrei. E infelizmente, não eram boas memórias. Foi em um ginásio, onde o obrigavam a lutar até cair inconsciente, e por vezes, muito fraco e ferido, pois não se importavam em levá-lo a hospitais e deixavam-no à mercê da própria sorte para conseguir alimento nas florestas, mesmo no estado debilitado em que muitas vezes se encontrava.
Porém, sempre que tentava fugir, era capturado de volta para a pokébola, fazendo-o lutar mais e mais e mais. A cada desafiante no ginásio, mais machucados para a coleção. E a cada derrota, mais vezes ouvia o quanto era “inútil, fraco e imprestável”.
Inútil. Fraco. Imprestável.
Senti a angústia e a iminente falta de vontade de viver pela aura dele, que eu consegui distinguir de tão forte que os sentimentos que ela propagava eram, mesmo sem nem ter a mínima ideia do conceito do que é aura, na época.
E assim, eu não pude evitar em raptá-lo e trazê-lo em segredo para poder cuidar dele. Tirar todos aqueles pensamentos ruins da sua cabeça.
Ele desconfiou muito de mim no começo, mas depois de muita insistência e várias doses da sua agora bebida favorita, virou meu melhor amigo e o ser mais indispensável da minha vida.
Mesmo assim, aquelas sombras do passado ainda o corroem e, por isso, ele treina todos os dias talvez para provar que pode ser útil. Forte. Prestável. Superar os antigos “treinadores” que não faziam mais do que maltratá-lo e pisá-lo na mínima oportunidade.
Só que ele mesmo não sabia que sua realidade é totalmente controversa ao que eles o diziam.
— Você é forte. Você é o mais forte de todos. — Afaguei a cabeça dele. — Não precisa provar nada pra ninguém.
— Rawr... — Era mais uma hesitação.
— Se você realmente quiser voltar lá e chutar a bunda de todos eles, eu prometo que não vou deixar que nada de mal aconteça com você. — Ele mais uma vez desviou o olhar, embaraçado ou até mesmo irritado com a ideia de ser um “protegido”. Eu sempre ria, porque aquelas reações nunca deixavam de ser fofas, mesmo que ele sempre me desferisse um olhar assassino quando eu deixasse escapar algum elogio ou comentário desse tipo. — Lucario. — Chamei, e ele instantaneamente virou-se para mim. — Você é forte. Nunca se esqueça disso. — Afaguei-o mais uma vez.
Ele terminou de beber da caneca, assim como eu, que deixei os dois recipientes vazios em cima da mesinha.
— Aahhwr... — Bocejou do jeito meio selvagem dele, seus olhos já entreabertos de sono.
— Agora, você não me escapa. Vem cá. — Abracei, pegando-o de surpresa. Entretanto, após o susto, ele pareceu retribuir o abraço e esfregou um pouco o seu rosto no meu. — Pronto, pronto. — Fiz carinho nas suas costas antes de me separar dele, para que pudesse se aconchegar um pouco mais no sofá e deitar-se, pousando a cabeça no meu colo.
Assim que o fez, comecei a me aproveitar da sua boa vontade para apertar uma das suas patinhas, que eram tão macias que mal podia acreditar que eram capazes de machucar alguma coisa.
Massageei com o polegar, e mesmo que ele não admitisse gostar, nunca reclamava. Antes de parar de brincar com suas patas, passei o dedo no espinho que elas detinham, só para ver se precisariam de serem lixadas pela terceira vez na semana.
Após isso, passei a acariciar as duas orelhas e a apertar as bochechas, resultando num grunhido audível. Ao menos, disso ele não disfarçava gostar.
Disso e de mais carícias na barriga ou atrás da cabeça.
A expressão que ele estampava no rosto era de satisfação genuína, que ele quase nunca se deixava ressaltar normalmente. Sem sombra de dúvidas, aquela carinha feliz não era nada menos do que adorável.
Eu preferia mil vezes aquilo do que ele lutando.
Preferia aquela felicidade gigante que ele tinha por pequenos gestos e carícias, do que a tristeza que uma hora ou outra voltava a assombrá-lo.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu. Também não se esqueça disso. — Cocei atrás da sua orelha esquerda, o que terminou em mais um sonzinho da parte dele.
Assim que retirei minha mão dali com o objetivo de bagunçar um pouco mais o seu pelo azul-marinho, para minha própria surpresa, ele levantou o torso e com o rosto próximo, tocou o meu nariz com o focinho me encarando fixamente, e sorrindo, voltou a se aconchegar no meu colo, deixando as pálpebras que já pareciam muito pesadas, se fecharem por completo, perdendo-se em todos os cafunés que se seguiram.
Agora, sua aura estava calma e enevoada com o sono tranquilo, contrastando-se a alguns momentos atrás, em que se mantinha turbulenta de preocupações e receios.
Queria mostrá-lo de que ele não precisa se preocupar com nada. Não precisa recear nada.
Afinal, ele não precisa lutar, não precisa sofrer, nem se machucar. Só precisa de amor. Amor, chocolate quente e muito carinho.
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