Care
1 Capítulo 1
Meus Olhos não saem da janela , primeiro no avião , depois no trem e agora no carro , mas eles nunca saem da janela , ouço atentamente qualquer barulho interno , mas meu nervosismo , o mesmo que esta soando as minhas mãos e fazendo minhas pálpebras permanecerem abertas não deixa minha ansiedade ir embora ,durante todo o percurso foco em fixar a atenção a única coisa semelhante a minha casa , o céu .
São vinte horas de viagem e conheci todas as árvores no caminho , Carvalhos , Faias , Freixos e Olmos , passei por diversos postos de conveniência abandonados no meio das estradas , um dos únicos postos sobreviventes ficava um pouco fora da nossa rota mas desviamos para o Motorista do Sr. Fildhead poder usar o banheiro , também aproveitei para trocar a calça de moletom pelo suéter que estava dobrado me aguardando ao lado do banco do passageiro , o conjunto extremamente rosa solicitado pela equipe do Advogado , rosa sério ? , a roupa é extremamente esquisita, uma saia até o joelho com alguns números maiores que o meu , o casaco acompanha a mesma proposta da saia, e no decorrer da viajem já não olhava mais para o céu e sim para o rosa que contrastava no olhar a quilômetros , meu desconforto com a roupa e a situação era aparente , mas a sensação piorou quando entramos na pequena cidade de Bath que assustadoramente era recebida por um túnel construído por pedras ,escuro e comprido , que facilmente me tirou o ar . Procuro pelas manivelas da janela do carro , mas estava tão focada na paisagem que nem ao menos verifiquei as manivelas . Meu corpo começa a soar mais , mas agora em resposta ao medo , e antes mesmo de solicitar os vidros são abertos , mais alguns segundos e saímos do túnel.
— Claustrofobia ? — Além dos cumprimentos e da pequena pausa para o banheiro posso considerar a primeira vez que de fato se desenvolve uma conversa , uma voz rouca , grossa porém familiar , é claro! o sotaque.
— Americano ? — Retruco
Ele sorri de ponta a ponta , o retrovisor interno mostra seus dentes amarelados e suas covinhas , sua barba grisalha e até mesmo um brinco na orelha , mas em nenhum momento desvia a sua atenção do transito , seu olhar permanece na estrada , como se evitasse até mesmo olhar para mim , seria Fildhead um patrão tão exigente a ponto de causar medo nos funcionários ? tiro brevemente estes pensamentos da minha cabeça , ou eles são interrompidos..
— Pai Inglês e Mãe de Boston , mas nasci e cresci em Honolulu , aparentemente meu Pai não aprendeu nada com o mar ,foi salva vidas antes aqui na Capital e teve vários acidentes , foi o melhor! acredita ? — O senhor atento a estrada mexe os ombros e sorri leve , quase uma risada ,mas se posicionou com seriedade para mostrar que tem mais informações — Mesmo assim decidiu ter a vida em Honolulu
Ele ri alto , abri um sorriso largo e sincero para acompanhar ,primeira vez em mais de vinte horas que não estou tão aflita. Levo algum tempo a decidir se continuo o assunto , mas sua simplicidade em contar sua história é inocente assim como suas intenções, ao menos é nisto que decido acreditar
— Voltou a Inglaterra pela família ? — pergunto direcionando meus olhar novamente para as árvores
— Conheci o Erik , ele era casado — Desta vez ele vira o olho para encontrar o meu procurando aprovação , mas brevemente retorna para a estrada- Sabe , não é fácil ser um Gay , nem um idoso , muito menos um idoso gay então vim pra cá onde não havia muita família , Bath não é tão pequena , mas é muito aconchegante , você vai adorar.
— Acredito que sim , afinal como pode ver , não sou fã de lugares pequenos.. — O Senhor sorri.
— George , meu nome. Vai adorar a mansão , são muitos cômodos e todos bem arejados — ambos sorriem , viro levemente os olhos para o meu lado direito onde posso ver com nitidez um campo verde limão ,a grama me lembrou instantaneamente de um quadro pintado a mão que havia acima da cadeira de dentista , quando era menor morria de medo de dentistas , escovava os dentes repetidamente para evitar qualquer visita ao consultório , porém ainda no jardim de infância ''boom'' surgiu uma carie , então minha mãe me levou a Doutora Fly , ela tinha esse quadro em cima da cadeira do paciente ,me dizia que era magico ,que se imaginasse estar em meio das árvores e correndo pela grama verde limão , não iria sentir dor , de fato não senti dor alguma ,semanas depois vi o mesmo quadro em uma loja barata ao lado de casa, descobri que a Magica era pura ciência e que não passava de Anestesia.
— Srta. Morrison , certo?
— Me Desculpe.. — Meu devaneio vai embora, meus olhos dilatam e rapidamente estou atenta novamente
—Pode me chamar de Victoria — Ele bufa , mas o som passa longe de ser de stress ou até mesmo desprezo , lembra um costume, mas continua;
— Não fique nervosa, nosso patrão é muito gentil — Isto de certa forma me alivia , porém como saber se não é a mesma filosofia da sala da dentista, ele continua;
— Quando aconteceu, Bem.. Quando aconteceu o incidente , ele ficou muito bravo e não aceitou a situação.. e dispensou toda a equipe , depois de um tempo admitiu que precisava de ajuda , alguns foram contratados novamente , e outros como eu tiveram a sorte de conhece-lo , ele diz que a nossa história é parecida e se familiarizou comigo .. Afinal só alguns tem apoio total da família. Ele tem um ótimo coração e provavelmente também se conectou com você
Seu tom diminui , ele pela primeira vez tira uma das mãos do volante e coça a barba , uma feição mais tranquila, olha no retrovisor com um olhar simpático e acompanho com o olhar, e com alguma porém pouca intimidade me inclino a perguntar sobre a família , pela qual o contrato que recebi através de uma carta dizia ser a família perfeita
— Eles tem uma Filha.. como ela é?
Sua feição muda , olhar pálido e dentes cerrados , em segundos ele apenas voltou a ser o Motorista do Sr.Fildhead, que terrível, um desvio de assunto bastava, isso me intrigou , ótimo uma criança mimada , afinal dona de um império de porte nacional, não seria diferente.
— Chegamos. — Diz tentando forçar um sorriso, desvio a atenção e começo a levar o foco em direção a janela , novamente.
De repente se torna mais real , consigo achar em meio a todos os tons de verde uma casa bem distante , o campo verde limão cria um degrade e de repente vai ficando um pouco mais escuro com algumas flores brancas distribuídas no chão , uma vista tão linda que deveria ser paga , casa? Questiono se isto não é um hotel , ainda a quilômetros da residência em sua estrada de linha reta cercada por pinheiros altos , ainda assim é possível vê-la , inclino para mais perto da janela , sinto uma energia pelos meus pés que lentamente sobe para minha pernas , toma conta da minha barriga e em questão de segundos me desperta totalmente , se não estivesse sentindo o vento tocando no meu rosto na fresta da janela aberta poderia jurar que isto era um delírio
Brevemente estamos em frente a duas colunas de pedra que simbolizam o portão da residência , começo a pensar como será meu quarto , seria no andar principal ? Ou no andar de cima , talvez me coloquem para dormir junto com a criança , mas ah qual é , olha o tamanho desta casa, impossível não ter um quarto sobrando. O carro vai diminuindo cada vez mais junto com meus pensamentos e expectativas, talvez não seja bom idealizar a melhor das condições de vida por aqui afinal sou empregada uma cama de solteiro e comida na mesa basta , Meu foco muda quando para uma mulher sai da porta principal, tento não encarar e continuo a observar a arquitetura da mansão.
Não fui capaz de fazer a soma mas pode facilmente ter cinquenta janelas apenas na parte frontal da mansão , todas de vidro com molduras em um tom bege combinando com o marrom das pedras naturais que cercam toda a casa , a porta principal é uma madeira rustica com duas aberturas , tem alguns detalhes em desenho , posso ver um brasão de longe , um grande ''F'' esculpido no centro da porta , a ideia poderia ser péssima mas ficou lindo e delicado como tudo por aqui , tudo parece tão caro.
— Srta.Morisson , sou Jessie Fildhead prima do Jaime- A mulher se inclina antes mesmo que eu consiga sair do carro, na mesma sintonia o vidro se abre.
Olhos Claros em tom de azul piscina , cabelo loiro platinado que em hipótese alguma foi tingido, alta e magra , veste um conjunto social branco , uma calça que em mim pareceria uma péssima ideia , em qualquer um , obviamente eles devem tem estilistas próprios , costuras próprias , não há dúvidas que esta calça somente cai bem em Jessie Fildhead. Ela me da a distância perfeita para conseguir abrir a porta , mas decide fazer isto por mim.
— Vou te mostrar a casa , tentarei fazer isso em menos de vinte minutos — olha rapidamente o relógio de pulso e prossegue- Tenho um voo em uma hora , estou com tempo contado..
Ela começa ir em direção a casa com passos apertados , George tira as malas e em questão de segundos até mesmo me pegando de surpresa a Srta. Fildhead se vira
—Quase me esqueci, Sr.Vulgham deixe as malas aí no chão mesmo , e você mocinha — Mocinha? — Venha comigo..
—Seguimos, Vou te mostrar a casa mas são no total oitenta cômodos..
Entrei pela primeira vez na enorme porta da mansão , sou recebida por um corredor largo com uma escadaria ao meu lado direito encostado em uma parede , confesso um pouco menor do que imaginava ,o plano aberto já a esquerda uma enorme sala de estar , na parede a direita em que se divide a escada uma sala com portas fechadas , que posso considerar ser um escritório ou uma sala privativa.
—..distribuídos nos três andares , as escadarias da ala leste te levam para baixo , mas lá é a área de serviço quase não será necessário sua presença , a não ser é claro que haja a necessidade de tomar uma taça de vinho , se precisar há uma enorme adega lá em baixo — Ela se vira rapidamente me olhando com sinceridade e uma expressão sarcástica — Vai haver!
Sorrio e ela acompanha.
O Salto da Prima de Fildhead volta a fazer um barulho no piso de tacos no chão , estamos indo no fundo do corredor de entrada , onde há uma porta que possivelmente de saída para uma varanda coberta , mas entramos na sala de estar , olhando para cima é inevitável não se surpreender com vista , há uma enorme sacada do andar de cima , sacada que é feita por grades de madeira e detalhes marrom assim como todos os móveis da sala ,penso que o andar de cima deve ser constituída de dormitórios já que não há muita ou quase nada de luz. Atrás da sala há apenas alguns moveis separando o grande piano de Cerejeira, alguns livros jogados e cortinas enormes com panos pesados e escuros.
— Bom , acho melhor me apressar.. o Sr. Fildhead deve estar a caminho , enquanto isso..- Ela se dirige a uma das escrivaninhas laterais do sofá que dá de costas para o piano e retira um envelope vermelho da gaveta. — Medicamentos de sua esposa.. e de sua filha..
— De sua filha ? Perdão eu..- ela interrompe imediatamente, e como se fosse óbvio e complementa
—Ora , a menina não fala.
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